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Bastonário admite que os engenheiros estão preocupados com a falta de manutenção das infraestruturas. Ferrovias, estradas, mas também "milhares de barragens privadas" que não sabe se são vigiadas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Bastonário admite que os engenheiros estão preocupados com a falta de manutenção das infraestruturas. Ferrovias, estradas, mas também "milhares de barragens privadas" que não sabe se são vigiadas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Bastonário da Ordem dos Engenheiros. "Hoje, fazer uma barragem é impossível. Aparecerão centenas de detratores" /premium

Carlos Mineiro Aires diz que o "fundamentalismo" ambiental impede grandes intervenções, como barragens, mas alerta para as falhas de manutenção das que existem. "Os engenheiros estão preocupados".

No rescaldo das inundações na região centro do país, o bastonário da Ordem dos Engenheiros sublinha que as obras feitas no início do século para a gestão das águas do Mondego dificilmente seriam feitas hoje por causa do “fundamentalismo”. Em entrevista ao programa Sob Escuta da Rádio Observador, Carlos Mineiro Aires refere que, “fazer uma barragem, um dique, uma barreira, é uma questão completamente impossível sob o ponto de vista ambiental. Aparecerão centenas de detratores, aparecerão muito poucos a apoiar as razões e as causas dessas obras.”

Mas se é muito difícil de fazer, é preciso manter e aí, assume, os “engenheiros estão preocupados” com o estado das infraestruturas construídas nas últimas décadas, depois do que aconteceu no Mondego, mas também na estrada que colapsou em Borba. Mineiro Aires aponta para a ferrovia e para as estradas como casos de risco, mas também alerta para as “milhares de barragens privadas” que não se sabe se estão a ser vigiadas e mantidas pelos donos.  Apesar de considerar que a possibilidade de mudar aldeias ameaçadas pelos efeitos das alterações climáticas, como sugeriu o ministro do Ambiente, não é um cenário imediato, o bastonário avisa, como engenheiro, que “não há hipótese de se construir uma barreira imensa ou meter as aldeias emparedadas dentro de obras de diques ou de betão que cada vez irá subindo mais”.

Mineiro Aires insiste nas críticas à solução aeroportuária e defende que o Portugal “merece ter um aeroporto em condições” — e isso não será a base aérea do Montijo.

[Vídeo. O melhor da entrevista ao bastonário da Ordem dos Engenheiros:]

Começamos por esta questão das cheias no Mondego, a Ordem dos Engenheiros tomou uma posição muito forte em que apontou para a existência de falhas na manutenção e para uma obra inacabada neste empreendimento. Seria importante percebermos de quem era a responsabilidade de desenvolver estas obras e fazer a manutenção destas infraestruturas.
Em relação à questão que coloca, gostava de dizer uma coisa: eu também fui presidente do Instituto da Água. E, em 2001, quando foram as grandes cheias, eu era presidente do Instituto da Água. Fui eu que estive debaixo de fogo, fui eu que estive no cone do vulcão e, passados estes 18 anos, assiste-se, na prática, à mesma coisa. Desta vez, os caudais foram mais elevados, mas nós, no fundo, estamos perante uma obra — e é preciso ter noção disso — que hoje, possivelmente, não seria feita. A obra de regularização do vale do Mondego é uma obra que corresponde a uma visão hidráulica dos anos 1960/1970. É um empreendimento de fins múltiplos, que não é só para proteger contra cheias, é para garantir produção de energia elétrica, para garantir água para a agricultura e para o abastecimento público, indústrias e outras atividades. E também tem, obviamente, como grande componente a parte da agricultura e uma função que é criar o espelho de água. É uma obra que, no fundo, tem muito interessados e que tem poucas pessoas interessadas em agarrar a gestão dela.

Dentro do fundamentalismo que há, hoje fazer uma barragem, um dique, uma barreira, é uma questão completamente impossível sob o ponto de vista ambiental. Aparecerão centenas de detratores, aparecerão muito poucos a apoiar as razões e as causas dessas obras e, portanto, tudo o que forem intervenções pesadas estão sob fogo.

Sendo uma obra tão extensa — aquilo tem centenas de quilómetros de diques e centenas de quilómetros de intervenção, falta fazer algumas dessas regularizações que estão ainda inacabadas — aquilo requereria, localmente, uma estrutura de gestão. E, sobretudo hoje, com as tecnologias que há, desde os drones, desde a monitorização, etc., era muito mais fácil fazer localmente a gestão daquele empreendimento do que é fazê-lo à distância, em Lisboa. Eu recordo que o próprio Instituto da Água, entretanto, foi extinto, quem hoje acompanha a questão é a APA (Agência Portuguesa do Ambiente). A APA tem meios muito reduzidos, faz um trabalho excelente, faz o trabalho melhor possível e, portanto, eu não vou aqui apontar o dedo a ninguém porque a culpa do que pode ter acontecido é do sistema em si.

Mas diz que essa obra não seria feita agora. Porquê, se tem tantos interessados?
Por razões ambientais. Hoje, com o clima que se vive, dentro da devida interpretação, dentro do fundamentalismo que há, fazer uma barragem, um dique, uma barreira, é uma questão completamente impossível sob o ponto de vista ambiental. Aparecerão centenas de detratores, aparecerão muito poucos a apoiar as razões e as causas dessas obras e, portanto, tudo o que forem intervenções pesadas estão sob fogo. Eu diria que uma barragem é impossível. As autoestradas que cortem corredores de biodiversidade e mexam com esses interesses são tudo obras muito polémicas e escrutinadas e depois há estudos de impacto ambiental — uns que são muito severos e outros que são permissivos demais.
Ali o que está em causa, do meu ponto de vista, é criar uma estrutura local para acompanhar. Esta estrutura tem de ser dotada de meios e tem de ser dotada de uma capacidade de, inclusivamente, recorrer a financiamentos comunitários e públicos e com alguma intervenção dos interessados. Eu recordo que no Alqueva, que é um sistema idêntico a este, os interessados pagam a água. Seria bom que se criasse ali um modelo com alguma sustentabilidade económica e financeira. Não estou a dizer que cubra completamente os custos, mas que, pelo menos haja um equilíbrio que permita que essa estrutura para manter aquela obra subsista. Porque a obra já tem umas dezenas de anos, é muito extensa, e portanto é provável que, num sítio ou noutro, aconteça sempre uma fragilidade como foi desta vez. Há uma questão que as pessoas desconhecem: é que aquela obra nunca pretendeu evitar as cheias. Aquela obra tem limites — de dois mil metros cúbicos por segundo no açude-ponte em Coimbra — e a partir daí o próprio projetista, que foi dos melhores engenheiros hidráulicos que tivemos em Portugal e que faleceu no ano passado, previu haver diques-fusível, pontos-fusível, que são diques que rompem automaticamente quando existem condições de caudais elevados e, ao romperem, essa água iria inundar os campos do Mondego à mesma.

Em entrevista à Rádio Observador, Mineiro Aires diz que mudar aldeias é um cenário extremo, mas haverá uma altura em que não podem construir diques mais altos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Uma das questões  levantadas pela Ordem dos Engenheiros foi a suspensão da construção da barragem de Girabolhos. Foi uma barragem que o governo socialista em 2016 suspendeu. Acabou de dizer que é extremamente difícil fazer novas barragens considerando o contexto social relativamente a esta questão. Será possível encontrar uma solução que evite as inundações do baixo Mondego sem esta barragem de Girabolhos?
O Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico escolhia barragens novas para produzir energia. Entre essas estava a barragem de Girabolhos. Qualquer barragem tem como função a possibilidade de vir a regularizar os caudais, mas era de grande potencial hidroelétrico. É óbvio que, com a Aguieira nas circunstâncias atuais, com a ocorrência de eventos extremos como foram estes, houve uma sucessão de eventos extremos perante os quais a Aguieira, por si só, não foi capaz de eliminar os caudais. É óbvio que estamos a atravessar um período de alterações climáticas e estamos a entrar num período de adaptação. E as medidas de adaptação têm de ter em conta isso mesmo: adaptarmo-nos às circunstâncias. Eu, sinceramente, digo que não vejo outra forma de evitar que passem no açude-ponte em Coimbra mais do que dois mil metros cúbicos, a não ser controlá-los antes. E recordo que também temos ali um afluente muito importante, que é o rio Ceira, que desta vez lançou caudais na casa dos 900 metros cúbicos por segundo, e que é significativo.

Nós temos de ter a noção de que nós estamos a ficar cada vez mais expostos. A nossa costa tem recuado, em alguns sítios, centenas de metros, mas muitas centenas, perto de um quilómetro. E portanto nós estamos a enfrentar um problema novo, que é global, e não podemos pensar que vamos contrariar a natureza.

O ministro do Ambiente parece ter outra solução. Mais do que redimensionar ou repensar as estruturas hidráulicas e fazer essa adaptação de que falava, o ministro do Ambiente sugere mudar aldeias de sítio.
O senhor ministro do Ambiente — e eu tive a oportunidade de escutar a entrevista dele e de falar pessoalmente com ele —, numa entrevista que deu, salvo erro, à RTP3, falou em dois momentos diferentes de duas coisas diferentes — e realmente os momentos foram muito seguidos um ao outro. Em relação a Montemor e àquelas aldeias no Mondego, disse que, no limite, no futuro, num cenário de alterações climáticas e de haver um agravamento de fenómenos extremos, havia a possibilidade de pensar na relocalização de casas.

E isso faz sentido, na sua perspetiva?
Nós não podemos ignorar as coisas. Isto já está a acontecer hoje. E o senhor ministro, na altura, falou em Esposende, que é um caso. O mar entrou em Espinho agora. E, portanto, nós temos de ter a noção de que estamos a ficar cada vez mais expostos. A nossa costa tem recuado, em alguns sítios, centenas de metros — mas muitas centenas, perto de um quilómetro. E nós estamos a enfrentar um problema novo, que é global, e não podemos pensar que vamos contrariar a natureza. É óbvio que isso será num cenário que será o extremo, o único, e será numa solução já de emergência climática. Agora que é uma possibilidade que pode vir a acontecer, não tenho dúvidas nenhumas. É razoável que um engenheiro pense assim. Porque não há hipótese de se construir uma barreira imensa ou meter as aldeias emparedadas dentro de obras de diques ou de betão que cada vez irá subindo mais. Não será essa a solução. Agora também posso reiterar aqui que, como bastonário e representante dos engenheiros, jamais passou pela cabeça de especialistas que esse fosse um cenário imediato. Não é com certeza. É uma questão que é de pensar e é de admitir.

Mas parece um paradoxo: essas coisas estão a acontecer, mesmo que não num cenário imediato, e enfrentá-las pode levar a necessidade de determinadas construções que o mesmo “fundamentalismo” ambiental, para usar a sua expressão, impede que aconteçam.
O equilíbrio tem de ser encontrado. É ter a perfeita noção de que estamos a viver uma situação que, em relação às anteriores — porque já houve alterações climáticas e mais graves que estas, causadas por fenómenos naturais, nomeadamente por vulcões -—, estamos perante um acontecimento que, tudo indica, é o homem que as está a causar. Se é o homem que as está a causar, o homem tem de se adaptar e tem de criar as solução, e a engenharia está cá para dar resposta a elas. Portanto, eu diria que mais vale, realmente, ponderar, parar, pensar e ver quais são as melhore soluções a adotar.

Na reação ao que aconteceu, a Ordem dos Engenheiros, admitindo que isto era fruto de um evento extremo, também apontou para o desinvestimento e para a falta de manutenção em infraestruturas do país que só poderiam conduzir a uma situação desta natureza. Os portugueses têm razão para estarem preocupados com a estabilidade e a segurança dessas infraestruturas?
Eu diria que não têm razões para estarem demasiados preocupados, agora nós, engenheiros, estamos preocupados. Porque efetivamente o país construiu um parque enorme de infraestruturas, endividámo-nos para isso — porque os fundos comunitários eram oferta, mas era apenas uma parte, a outra era de endividamento obrigatório. E hoje, realmente, Portugal tem infraestruturas de toda a natureza e é um país que está com os melhores indicadores do mundo em muitos aspetos. Esses investimentos, se não forem devidamente mantidos e conservados, são ativos que se vão destruir e que não valem nada.

E não estão a ser?
Em muitos aspetos não. Nós conseguimos fazer coisas. Algumas estamos a acompanhar, outras longe disso.

Estamos a construir muita infraestrutura nova e não estamos a dar a devida atenção à manutenção daquilo que está feito. As pontes não são eternas, os muros de suporte não são eternos, os edifícios não são eternos, as redes de água e de esgotos não são eternas.

E quais são as mais sensíveis?
Acho que dos maiores erros que Portugal fez foi abandonar a ferrovia. A ferrovia foi completamente abandonada durante décadas, nós temos hoje uma ferrovia antiquada, que oferece riscos, os taludes caem e acontecimentos destes são recorrentes. Aí, nesse aspeto, e até na parte rodoviária — o IP3 é um dos exemplos — ainda temos de fazer muitos investimentos e pôr as coisas em condições. Agora, é bom que o cidadão que paga os seus impostos tenha a garantia de que está seguro.

E neste momento tem?
Eu diria que, na generalidade, tem. Às vezes lançam-se uns alarmismos — ainda no outro dia, porque caiu um parafuso na ponte 25 de abril, dizia-se que estava prestes a cair, mas não.

Mas a Ordem dos Engenheiros, ao dizer isto — que o desinvestimento na manutenção das infraestruturas do país pode conduzir a situações desta natureza— não é alarmismo?
Não é, não. É a consciência perfeita de que mais deveria ser feito. Porque estamos a construir muita infraestrutura nova e não estamos a dar a devida atenção à manutenção daquilo que está feito. As pontes não são eternas, os muros de suporte não são eternos, os edifícios não são eternos, as redes de água e de esgotos não são eternas.

A Ordem dos Engenheiros tem a noção de quais são as infraestruturas mais sensíveis em termos de manutenção e há esse alerta em relação ao governo?
Eu elencava três ou quatro áreas: a ferrovia; parte da rodovia; a questão das barragens particulares — porque há milhares de barragens com dimensão significativa em Portugal que eu tenho dúvidas sobre se estarão a ser observadas ou estarão a ser mantidas pelos próprios donos, privados, e uma rutura de uma barragem destas pode provocar uma onda de cheia mortal, com muitos efeitos. O caso mais emblemático que nós tivemos foram as pedreiras. Foi uma situação que, depois de se ver o que aconteceu, eu pensava que era impensável neste país. Estava lá aquilo, ninguém conhecia aquilo, eu próprio passei ali muitas vezes e não me apercebi do que estava ali por baixo.

Mais que isso, depois quando o Estado agiu e pediu uma série de estudos às pedreiras, as empresas confrontaram-se com a falta de técnicos para responder a esses pedidos no curto espaço de tempo que lhes era dado.
Isso também é verdade porque há determinadas especialidades de engenheiros que, devido à baixa procura e até à desmotivação que isso gera — desde logo os salários baixos que são oferecidos — acabou por haver uma falta de engenheiros de minas ou geotécnicos em Portugal. Mas eu diria que às vezes isso também pode ser uma desculpa de mau pagador. Não é por causa disso porque isso também é uma área em que muitos engenheiros podem intervir. Engenheiros de minas, engenheiros geotécnicos, civis. Eu diria que o problema às vezes é arranjar desculpas também para que as soluções não sejam encontradas no devido espaço. Nós temos é uma questão que é o passivo ambiental, porque todas as minas e pedreiras têm um plano de lavra, para fazer a exploração, têm no fim um plano de encerramento e um plano ambiental. Enquanto o negócio dá, faz-se a lavra. Depois é tudo custos. E é natural que para esse lado também não haja uma grande vontade de fazer investimento conforme está amplamente demonstrado. Enquanto exploram está tudo bem. Depois quando é para recuperar deve-se contar pelos dedos de uma mão os casos em que isso acontece.

Mineiro Aires questiona a venda do domínio hídrico na alienação de barragens da EDP

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Referiu que temos muitos especialistas nesta área que podem ajudar, mas nós, neste momento, temos ou não uma falta de engenheiros? 
Muito. O Estado está, conscientemente, a deixar-se enfraquecer. Eu tenho posto a tónica muito nisto. Nós não estamos a criar engenheiros suficientes para as necessidades do país. Muitos deles estão a sair, saíram. Nas estruturas do Estado houve um emagrecimento exagerado e mal pensado, em muito casos. Há uma questão que é fundamental, que é a sobreposição das gerações, que é os mais velhos terem um período de sobreposição com os mais novos, para que os mais novos, quando chegam, possam aprender e saberem, pelo menos, o que vão fazer naquelas áreas. E o que está a acontecer hoje é que, praticamente, no dia em que se reforma um engenheiro experiente é que se pensa em admitir um para o substituir. Obviamente que cai ali de paraquedas e obviamente que vai andar ali uns anos às aranhas para perceber o que tem a fazer.
A desvalorização e a falta de atenção que se tem dado ao papel fundamental que os engenheiros têm na sociedade, têm para o Estado e têm para a economia — repare, não há nada de produtivo que não seja com engenheiros, os engenheiros é que contribuem não só para o quotidiano, para garantir a segurança de pessoas e bens, para o dia a dia, mas também para tudo o que é a criação de riqueza e de bens transacionáveis que são, no fundo, aquilo de que o país precisa para equilibrar a balança de pagamentos.

A venda das barragens da EDP no Douro é apenas um negócio entre investidores privados ou é matéria para  preocupação?
É sobretudo um tema sensível. A EDP foi privatizada à China Three Gorges (empresa detida pelo Estado chinês que é a maior acionista), com ativos que foram objeto da concessão e uma parte desses foram as barragens e o domínio público associado Não falo só no paredão em betão, mas das albufeiras. São recursos de todos os portugueses, foram um investimento de todos os portugueses que têm pago a sua manutenção. E de repente acontece o que o povo diz, vão-se os dedos, vão os anéis. Como português e cidadão vejo com preocupação estas coisas. Pelo que foi público, a privatização da EDP pouco mais custou (chineses pagaram 2,7 mil milhões de euros por 21,3% do capital ) do que o número apontado para este negócio (2,2 mil milhões de euros. Vejo com preocupação como pode ser isso. A questão está nas mãos do Governo.

"Pelo que foi público, a privatização da EDP pouco mais custou (chineses pagaram 2,7 mil milhões de euros por 21,3% do capital ) do que o número apontado para este negócio (2,2 mil milhões de euros. Vejo com preocupação como pode ser isso."

O Governo tem instrumentos legais para avaliar esse negócio?
O que está em causa é avaliar se o domínio público é um bem transacionável. Parece me de todo que não é, mas há pessoas mais habilitadas para avaliar se é.

Temos outra grande empresa, a ANA, que foi vendida na totalidade ao um grupo francês e que quer avançar com uma solução aeroportuária muito criticada na base militar do Montijo. A Ordem dos Engenheiros já está convencida da bondade desta solução agora que há um estudo de impacte ambiental favorável?
Quando foi feita a privatização da ANA, o contrato inicial previa que fosse construído um novo aeroporto em Lisboa, mas não dizia onde era. A questão da base aérea 6 do Montijo é enfiada depois no contrato de concessão. Lamento como português que não tenhamos um aeroporto em condições. E esse aeroporto foi estudado para o campo de Tiro de Alcochete, que é em Canha, muito longe de Lisboa. Era um aeroporto com duas pistas e com acessibilidades. Se não fosse a crise de 2009/2010, o projeto teria ido para a frente.
A ANA ficou dona e senhora durante 50 anos de todos os aeroportos, incluindo os da Madeira e dos Açores. Põe e dispõe. Isto não é bom para o país. Não tenho nada contra os privados, nem estrangeiros, mas não é bom para o país. Não conheço nenhum país que não tenha hoje um aeroporto em condições. O país tem ambições, tem uma posição geoestratégica que poderia fazer de Portugal um hub competitivo com Madrid.
Desde o início, que o estudo de impacte ambiental foi concebido mais para viabilizar a intenção do que para a ver se ela era viável ou não, daí a forma atabalhoada como correu. A Ordem foi muito critica da forma como foi feito o estudo de impacte ambiental. E depois há algumas medidas de mitigação que na nossa perspetiva até roçam o ridículo. Como por exemplo mandar aterrar as aves no mouchão da Póvoa (margem norte do Tejo) em frente a Alverca., Como se fosse possível mandar no tráfego aéreo das aves.

"Desde o início, que o estudo de impacte ambiental foi concebido mais para viabilizar a intenção do que para a ver se ela era viável ou não, daí a forma atabalhoada como correu. (...) E depois há algumas medidas de mitigação que na nossa perspetiva até roçam o ridículo. Como por exemplo mandar aterrar as aves no mouchão da Póvoa (margem norte do Tejo) em frente a Alverca., Como se fosse possível mandar no tráfego aéreo das aves".

Uma das questões que tem sido levantada é o risco de inundação da pista por causa da subida das águas do mar. Já foi anunciada a ideia de elevar a pista em cinco metros. Como vê essa solução?
Há coisas em que as pessoas perdem um bocado o tino. Não tenho questão nenhuma para o cientista que fez essa previsão (de subida de 5 metros das águas do mar) para daqui a a 50 anos . Mas se o nível das águas subir mais cinco metros, vamos começar a tomar banho nos Restauradores e haverá povoações ribeirinhas que serão logo afetadas.

Vamos ter preocupações muito mais graves do que a pista do aeroporto do Montijo...
Podemos ter uma segunda Veneza na Praça do Comércio não vamos tirar o aeroporto de lá antes? O problema é que se faça um aeroporto nessas condições e não que se tentar minimizar esse risco, elevando a pista cinco metros. O Tsunami também é um cenário possível que pode atingir o aeroporto do Montijo. Mas se um tsunami chegar àquele ponto pelo estuário acima a ponto de ser um problema, já morreram milhões de pessoas até lá. Os argumentos a favor e contra e que estão todo muito baralhados.

Falando de uma coisa mais imediata, as acessibilidades ao novo aeroporto, a ponte Vasco da Gama e as ligações fluviais, são suficientes?
Quem passa de manhã e ao fim do dia percebe que a ponte Vasco da Gama está tão engarrafada como a 25 de Abril. Querem criar um novo corredor bus dedicado para servir o aeroporto, com com uma oferta para 25 aviões por dia, vão ser autocarros uns atrás dos outros. Quanto à via fluvial, não faz sentido fazer a ligação para o ponto mais distante da base aérea que é o Cais do Sodré. Qualquer turista que aterre na Portela e queira chegar ao Montijo vai ter de dar a volta à cidade para apanhar o barco no Cais do Sodré. Há possibilidade de se fazer uma coisa semelhante, uma ligação fluvial, até à zona da Expo.

Mineiro Aires deixa recados para Fernando Medina. Está-se a tentar bloquear o acesso dos carros a Lisboa, sem haver alternativas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Porque não se estuda essa solução?
Não percebi, tanto mais porque há uma ligação de metro da Expo até ao atual aeroporto e porque uma ligação dessas já foi pensada no passado. E já que parece ser irremediável a solução de apeadeiro no Montijo, não percebo porque não se dá pelo menos alguma lógica de territorial às acessibilidades. Tudo isto está a ser feito de forma a justificar mais a decisão do que para ter uma boa solução. Acresce um pormenor. Perante as medidas de mitigação (impostas pela Agência Portuguesa do Ambiente) a concessionária ANA tem vindo a dizer que aquilo custa uma fortuna (são 47 milhões de euros num investimento de mais de 600 milhões no Montijo). Julgo que se está a preparar uma de duas coisas. Ou renegociar o contrato ou prolongar a concessão.

Prolongar uma concessão que já tem 50 anos, sem fazer um novo aeroporto de raiz?
Não tenho dívida de que alguma coisa está a acontecer. Neste momento é evidente que a capacidade da Portela está esgotada, precisamos de solução de emergência, mas Portugal merece ter um aeroporto em condições. E esse aeroporto tem de ser em Alcochete com as necessárias acessibilidades e as acessibilidades são caras. Há muita gente que julga que basta fazer pista lá. Não é.

Seria preciso fazer uma terceira travessia do Tejo?
Seguramente devia estar sobre a mesa.

Mesmo num cenário sem o novo aeroporto em Alcochete?
Nesse cenário eu diria que a procura ainda não justifica, mas vai justificar. Dentro das questões climáticas também é preciso perceber que para avançar com uma terceira travessia há os que defendem que deve ser apenas ferroviária para evitar que haja mais carros a passar o Tejo. Num país onde os transportes públicos nunca foram pensados, onde as pessoas são massacradas, continuar a pensar que se pode de um momento para o outro deixar de utilizar o transporte individual , acho que é ver mal o problema. É como está a acontecer agora em Lisboa, com umas fantasias como pintar de verde as ruas mais estreitas. Num dia em que haja um engarrafamento e um acidente, e não consigam passar as ambulâncias, podemos vir a a perceber a verdadeira dimensão do desastre que se está ali a passar.

Considera então que a estratégia de mobilidade em Lisboa está errada?
Não. acho é que se começa pelo fim. Dar um ar limpo e verde com as bicicletas que eu acho muito bem. Já as trotinetas são uma praga. Quando vejo uma no passeio tiro-a e ponho-a no sítio mais adequado. Os passeios são para os peões. São várias as coisas que estão mal.
Em primeiro lugar, nunca se apostou em transportes públicos suburbanos dignos para que as pessoas possam ter a sua vida, e chegar às cidade como deve ser. Em segundo, está-se a tentar bloquear o acesso dos carros a Lisboa, sem haver alternativas. E em terceiro lugar, o tema da mobilidade devia ser pensado primeiro em arranjar soluções e não impor os constrangimentos. Há modas, e umas até são bem aceites. e outras que têm prejuízos. Estão-se fazer verdadeiros erros com potenciais riscos em zonas da cidade.

Está-se a tentar bloquear o acesso dos carros a Lisboa, sem haver alternativas. E em terceiro lugar, o tema da mobilidade devia ser pensado primeiro em arranjar soluções e não impor os constrangimentos. Há modas, e umas até são bem aceites. e outras que têm prejuízos. Estão-se fazer verdadeiros erros com potenciais riscos em zonas da cidade".

Já foi presidente do Metro de Lisboa, como vê os planos de expansão e a polémica criada à volta do fecho da linha verde numa linha circular?
 A linha circular do metro pouco resolve, na nossa ótica, mas há quem defenda o contrário. Preocupa-me mais outra coisa. Temos uma barreira, a linha ferroviária de Cascais entre o Dafundo e o Cais do Sodré, que impede a continuação da cidade até ao rio. Não percebo porque é o metro tem de ir dar a volta (ligando o Cais do Sodré à Estrela e ao Rato) quando podia ir com o mesmo investimento Algés, podendo receber os passageiros que vêm do comboio. Era necessária uma negociação para desativar uma parte da linha de Cascais, mas era um projeto interessante para a cidade. Vivemos de costas para o rio durante séculos e agora que o rio é um ativo único de Lisboa, continuamos a insistir em ter barreiras.

Mas isso traria mais pessoas para uma infraestrutura, o metro, que está no limite…
Com o investimento e um traçado devido, isso não aconteceria. Seria uma linha nova. O metropolitano é um transporte de massas, há que que intensificar a frequência da passagem de composições. O metro de Lisboa está como estão outros metros do mundo. Em Tóquio até há uns empurradores oficiais para meter os passageiros e os comboios da linha de Sintra e de Cascais não estão melhores. Com o projeto da Câmara de Cascais de criar um corredor Bus na autoestrada A5 e um metro a partir de Algés acho que se poderia dividir o mal pelas aldeias e ficar a ganhar com isso. Há ainda outra questão. Existem estudos feitos sobre a viabilidade de ligar o metro da margem Sul ao metro de Lisboa, através de um túnel na rocha a partir de Alcântara.

Não está a falar do túnel rodoviário Algés/Trafaria que foi proposto nos anos de 1990?
Não. Até tenho fotografias de um projeto ainda mais antigo e que inclui carroças e cavalos e com navios à vela a passar por cima. Já havia esse sonho.

Seria um túnel que passaria debaixo do rio Tejo?
Todas as cidades têm túneis debaixo de rios.

Mas estamos a falar de estuários da dimensão do Tejo?
Há túneis muito maiores. há técnicas hoje que o permitem. A oferta que há entre as duas margens não é boa. Os promotores do projeto imobiliário anunciado para a Margueira (antigos estaleiros da Lisnave em Almada) querem criar transporte. Algo está mal aqui.

Portugal é apontado como um país onde se sofre com o frio entro das casas. A construção nova é melhor, mas o que se pode fazer para melhorar as casas que já estão construídas?
No estudo sobre a pobreza energética na Europa, atrás de Portugal só ficaram a Bulgária, a Eslováquia e a Roménia. Os portugueses sofrem com o frio e com o calor. Mesmo as casas rústicas do Alentejo, no Inverno são um gelo. A energia é muito cara e as pessoas poupam no aquecimento. Morre-se de frio em Portugal e é preciso ter consciência disso.

Como se resolve?
Antes de mais, com mais coesão e solidariedade social. Depois é preciso ter consciência de que para se ter aquecimento não pode ser com as potência contratadas da tarifa social que só dão para um aquecedor. As pessoas poupam na energia, evitam ter aquecedores todo o dia, porque a conta da eletricidade é elevadíssima.

É um defensor da descida do IVA na eletricidade?
O IVA sobre um bem tão essencial como a eletricidade não devia estar na taxa máxima.

[Veja a entrevista na íntegra:]

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