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Em "Dois Papas", de Fernando Meirelles, Anthony Hopkins é Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Jonathan Pryce é Jorge Mario Bergoglio (Francisco). Ambos os atores estão nomeados para os Óscares

Em "Dois Papas", de Fernando Meirelles, Anthony Hopkins é Joseph Ratzinger (Bento XVI) e Jonathan Pryce é Jorge Mario Bergoglio (Francisco). Ambos os atores estão nomeados para os Óscares

A Pedra e as Portas: sobre "Os dois Papas" de Fernando Meirelles /premium

O cinema consegue fazer uma reflexão sobre a missão e os desafios do chefe da Igreja Católica? E até onde nos leva "Dois Papas", o filme de Fernando Meirelles? Um ensaio de Jaime Nogueira Pinto.

    Índice

“Dois Papas”, o filme de Fernando Meirelles sobre a relação de Bento XVI, Papa emérito e resignatário, e Francisco, Papa reinante e executivo, é um filme que os católicos – e todos os cristãos e criaturas que se inquietam com o significado da vida, da verdade, da transcendência – devem ver. Ver sem complexos ou apriorismos de juízo ou de suspeição inquisitorial.

E digo isto não tanto para contrabalançar as leituras maniqueístas daqueles que, fora da comunidade cristã, querem fabricar um dualismo de confronto, caricaturando a Igreja como um partido invadido por um clima schmittiano de amigo/inimigo, simbolizado pelos dois papas; mas mais para acautelar os que, dentro da comunidade dos fiéis, onde ainda é mais importante combater um espírito fratricida, acabam por ser seus cúmplices involuntários, extremando posições em defesa de um “Papa bom” contra um “Papa mau”. Um, Francisco, popular, democrata, do cristianismo das bem-aventuranças, das palavras simples e dos casuais sapatos com atacadores; outro, Bento XVI, conservador, ortodoxo, do pensamento teológico profundo e dos cerimoniais sapatos encarnados.

Considero-me um católico de base e, para mim, o Papa é o meu “comandante de companhia”, como quando fui militar. Enquanto cá estou, obedeço-lhe no que é devido. Se um dia decidir não lhe obedecer, saio, tal como saí da tropa em Outubro de 1974, mês do fim oficial da Guerra de África.

[o trailer de “Dois Papas”:]

Estaria mais à vontade a escrever sobre o peso da realpolitik e da ideologia na decisão de Trump de atacar o Irão, ou sobre os progressos do nacionalismo democrático na Europa; ou mesmo sobre a identidade e características da direita e das direitas portuguesas. Mas acho que, a propósito de “Dois Papas”, devo falar da nossa Igreja e dos nossos Papas.

E vou ser longo, porque não sei o suficiente para ser breve.

Do Papa

Primeiro estão as palavras do Evangelho de Mateus (Mt.16, 18-19):

“Pois também te digo que és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.”

São estas as palavras de legitimação do primado de Pedro e dos seus sucessores. Os Papas são sucessores de Pedro na chefia da Igreja. Não sucedem uns aos outros: cada novo Papa sucede a Pedro, directamente, coisa que, desde a catequese, me impressionou e marcou como mais um dos mistérios da religião (daquilo que nos liga e que liga a Terra e o Céu, este mundo e o outro). A minha mãe lá ia explicando ao miúdo que fazia perguntas e insistia em respostas para o que lhe parecia na fé ser absurdo, por ser contra a razão, que sem a consciência e a aceitação do Mistério, a Fé era insustentável. Mas a Fé, na sociedade portuguesa dos anos 50, no Porto conservador, na Igreja pré-conciliar, era, aparentemente, mais fácil de ter e de manter do que hoje, no mundo pós-conciliar, globalizado, tecnológico; e sobretudo sob uma cultura dominante que junta o libertarismo moral dos anos 60 com o enrichissez-vous dos yuppies entusiastas do mercado e dos executivos de sucesso e com o relativismo dos centristas radicais.

Mas, afinal, quem é Pedro? A nossa ideia ou perceção do Papa não vem só da teologia conservadora de outros tempos, de um “mundo encantado” ajudado por um ambiente que nos mantinha numa “idade da inocência”, que nos protegia dos inimigos do homem e da alma que quase só conhecíamos e soletrávamos a partir do Catecismo.

No cinema

A cultura cristã vinha-nos então dos livros e hagiografias, da familiaridade com os santos especializados nas mais variadas mazelas e carências, mas também dos filmes de Hollywood, com os personagens quase míticos da Bíblia e os realíssimos mártires cristãos das catacumbas. Estava na moda o “épico bíblico”, que tinha começado com Cecil B. DeMille, ainda no mudo, com o “Rei dos Reis” (1927), e depois com “O Sinal da Cruz” (1932). “Sansão e Dalila” é de 1946 e “Os Dez Mandamentos” de 1956. Nos anos cinquenta, os filmes que víamos, entre muitos, eram o “Quo Vadis” de Mervin Le Roy, “A Túnica” de Henry Koster, o “Ben-Hur” de William Willer. Nestas superproduções, já em technicolor, transmitia-se um cristianismo ortodoxo, ilustrado mais pelos sinais do Bem e do Mal que por “bons” e “maus”; já que muitos dos “maus”, tocados pelo milagre, passavam a “bons” e morriam até como “super-bons”, como mártires – permitindo poupar, na versão maniqueísta de Hollywood, alguns dos heróis, quer eram “bons” desde o princípio.

A figura de Pedro, apóstolo e mártir em Roma, Pedro como primeiro Papa – personagem secundário em filmes como "A Túnica" e em "Quo Vadis" ou protagonista em "The Big Fisherman", de Frank Borzage –, era sempre uma figura comovente, um árbitro, alguém que chegava e transmitia o carisma de ser “o escolhido” do próprio Cristo.

Estes filmes tinham muito de imaginário e de imaginado. As grandes produtoras sabiam que o cinema tinha de ser uma “máquina de sonhos”, em que o rigor histórico, o respeito pelos usos e costumes, os estilos arquitectónicos, os guarda-roupas, o realismo, podiam e deviam ser sacrificados aos clichés que agradavam aos espectadores. Por isso os palácios da Judeia podiam ser iguais aos do Egipto ou de Roma; os imperadores “maus” – Tibério, Calígula, Nero (Charles Laughton, Peter Ustinov fizeram óptimos Neros) – tinham trejeitos hermafroditas, as Popeias e cortesãs eram iguais a coristas da Belle Époque, as Salomés eram perversas e as Madalenas arrependidas. Mas a figura de Pedro, apóstolo e mártir em Roma, Pedro como primeiro Papa – personagem secundário em “A Túnica” e em “Quo Vadis” ou protagonista em “The Big Fisherman”, de Frank Borzage –, era sempre uma figura comovente, um árbitro, alguém que chegava e transmitia o carisma de ser “o escolhido” do próprio Cristo, e que subliminarmente nos dizia (todos sabíamos a história do “cantar do galo” e da negação do Mestre) que havia esperança sempre, que mesmo um pecador podia vir a ser o “Grande Pescador”.

No Inferno de Dante

Só por saber que a Fé e o Mistério andavam juntos, que eram como irmãos siameses, até contra a razão, aguentei ver, nas ilustrações de Doré, os Papas “maus” que, na Divina Comédia, Dante punha no Inferno. Exilado, ressentido com  quem o tinha maltratado e humilhado, ou com quem alinhavam no bando contrário do seu partido gibelino, o florentino acertava as contas no poema. Dos Papas seus contemporâneos, quase nenhum se salvava – a começar pelo protagonista de il gran rifiuto, Celestino V, eleito Papa em 1294, que abdicou para Bonifácio VIII; Bonifácio cuja morte e castigo infernal Dante antecipa no Canto XIX pela voz de outro pontífice “danado”, Nicolau III (Orsini), simoníaco, isto é, traficante de benefícios espirituais.

A fúria dantesca ia arrumando dezenas de almas, ainda vivas na ocasião da escrita da Commedia, nos nove círculos infernais, consoante os pecados e os delitos. Círculos que iam piorando de cima para baixo, embora com algumas contradições, que ainda hoje me confundem: assim, o “Ante-Inferno”, ou vestíbulo do Inferno, onde se alojam os indecisos e cobardes, é um lugar bem pior, pela frequência e pelo castigo, do que, passado já o Aqueronte, o Primeiro Círculo ou Limbo – onde estão as crianças inocentes não baptizadas e os “pagãos virtuosos”, uma elite filosófica, científica e literária que vai de Platão a Euclides ou a Homero e ao próprio Virgílio. Imagine-se melhor tertúlia que a deste círculo! A seguir, no Segundo Círculo, estão os “luxuriosos naturais”, os grandes apaixonados da História e da Mitologia, de Paris e Helena a Paolo e Francesca de Rimini. E no fim, nos fundos, no fim dos fins, no Círculo Nono, estão as diversas categorias de traidores.

O poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), autor da “Divina Comédia” (Imagno/Getty Images)

Se os “luxuriosos naturais” ficam no Segundo Círculo, os não naturais, “os sodomitas”, aqueles que têm “relações contra a natureza”, vão parar ao Sétimo Círculo que compartilham, em espaços separados, com os assassinos e os suicidas. Mas num tempo em que os referidos “sodomitas” eram sentenciados à morte pelos poderes civis, a atitude de Dante em relação aos homossexuais não deixa de ser tolerante, ou, pelo menos, ambígua: também encontramos “sodomitas” no Purgatório e, entre os punidos do Sétimo Círculo, está o seu antigo e admirado mestre de Retórica, Brunetto Latini, com quem Dante, curiosamente (dada a incómoda posição em que se encontra o Mestre) mantém um diálogo amável.

Os papas contemporâneos não se sentiram ultrajados pelo modo como o florentino tratou alguns dos seus antecessores: em 30 de Abril de 1921, no sexto centenário da morte do poeta, Bento XV louvava “a prodigiosa vastidão e agudeza” da arte de Dante e reconhecia “as raízes da fé numa arte prodigiosa”. E nos 700 anos do seu nascimento, em 7 de Dezembro de 1965, foi a vez de Paulo VI entregar a todos os padres conciliares do Vaticano II um exemplar da Divina Comédia como texto de meditação, proclamando “Nostro è Dante! Nostro, vogliamo dire, della fede cattolica!” e adiantando que a mensagem dantesca era profundamente cristã, porque capaz de “mudar radicalmente o homem e de o trazer da desordem à sabedoria, do pecado à santidade, da miséria à felicidade, da contemplação aterradora do Inferno à visão beatificante do Paraíso”.

Dante viveu o papado tardo-medieval, um tempo em que o poder temporal dos pontífices e a influência das grandes famílias romanas e italianas na Cúria, estimulavam escândalos, violências, secessões. Antes do Primeiro Milénio, houvera já Papas deploráveis e os Borgias condensariam, nos finais do séc. XV, esta má imagem da “Roma papalina”, que só terminaria verdadeiramente nos séculos seguintes com o ocaso do poder temporal do Papa.

As cinco – ou seis – mortes da Fé

No seguimento da sua reflexão de que só uma comunidade transcendente poderia ter sobrevivido a tanta perversão e miséria, Chesterton, em The Everlasting Man, falou das five deaths of the Faith: a heresia ariana, a heresia albigense, o cepticismo humanista, a idade de Voltaire e a idade de Darwin. Todas elas tinham desafiado a Igreja mas das cinco vezes em que “a fé parecia ter sido atirada aos cães, tinham sido os cães a morrer”.

Ao contrário do que querem os seus detractores, Ratzinger sempre esteve longe de ser um “Rottweiler da Fé” ou um “Panzer-Cardinal”, só que a codificação do subjectivismo e do escancarar de algumas portas abertas pelo Concílio Vaticano II acabaria por ter, segundo o Papa Emérito, expressão na Declaração de Colónia de um grupo de teólogos.

O horror dos últimos anos tem levado alguns a falar de uma “sexta morte”, de uma sexta prova de vida. As portas do Inferno abriram-se escancaradas bem no interior da Igreja Católica – nos Estados Unidos, mas também na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, no Chile, na Austrália – com padres pedófilos e pederastas que abusaram e marcaram para sempre centenas, se não milhares, de jovens que tinham confiado neles. E com a cumplicidade e encobrimento do que parece ser uma máfia de pedófilos, candidatos ao Sétimo Círculo do Inferno de Dante, alguns mesmo dentro do Vaticano. Esta gente sobreviveu, proliferou, foi tratada com tolerância, se não com condescendência. Bento XVI, que teve um papel importante na descoberta e averiguação dos crimes e na neutralização e punição de alguns dos mais torpes destes personagens, como o padre Marcial Maciel Degollado, o fundador dos Legionários de Cristo-Rei, um sacerdote pedófilo e promíscuo, saiu do silêncio em 2019 para apontar as causas da praga que tinha caído sobre a Igreja. Fê-lo numa carta que dirigiu aos participantes da reunião em Roma que o Papa Francisco convocou para combater e discutir esse sinistro cancro na Igreja.

A carta do Papa Emérito

Primeiro, para o Papa Emérito, está a vaga libertária dos anos 60, corporizada no Maio de 68 francês, mas com raízes e fruto na revolução cultural e sexual da América, onde pontificavam Charles Bukowsky e Alan Ginsberg (grandes poetas, que  não deixo de ler e de gostar muito. Que Deus lhes perdoe… e a mim também).

Para Bento XVI, a cultura do relativismo entrou na Igreja por certas portas do Concílio Vaticano II, quando a moral deixou de ser baseada na lei natural e procurou fundamentar-se na letra das Escrituras. Da moral objectiva passava-se ao subjectivismo da justificação pelo fim. Nada era já absolutamente bom ou mau, em si e por si e era a “intenção”, o propósito da acção humana, que passava a valer como juiz e árbitro da verdade e valor das condutas. Os males podiam vir de longe mas era a consciência de que eram males condenáveis que se deslaçava.

Muito ao contrário do que agora se quer fazer crer, até por conveniência de contraste, Joseph Ratzinger começara por acolher com entusiasmo o apelo de João XXIII no Concílio Vaticano II para que se “abrissem as portas” da Igreja ao mundo, tendo sempre sublinhado, quanto ao aggiornamento, que “o cristianismo” devia “estar no presente para poder dar forma ao futuro”. Ratzinger seria mesmo um dos principais conselheiros teológicos do Concílio, juntamente com os seus compatriotas Hans Küng e Karl Rahner, colaborando de forma determinante com o Arcebispo de Colónia, cardeal Frings, na constituição Dei Verbum, sobre a Revelação.

Bento XVI e Francisco, a 23 de dezembro de 2013, no Vaticano

Professor em Tübingen, contemplara depois, na revolução estudantil de 1968-69, “a face cruel da piedade ateia e do terror psicológico” que o fariam trocar a sua antiga Universidade por Ravensburg. A partir de 1981, João Paulo II chamava-o para Prefeito da Congregação da Doutrina e da Fé, uma espécie de Guardião da Ortodoxia com o encargo de “promover a boa doutrina, corrigir os erros e levar os que erram de volta ao bom caminho”.

Ao contrário do que querem os seus detractores, Ratzinger sempre esteve longe de ser um “Rottweiler da Fé” ou um “Panzer-Cardinal”, só que a codificação do subjectivismo e do escancarar de algumas portas abertas pelo Concílio Vaticano II acabaria por ter, segundo o Papa Emérito, expressão na Declaração de Colónia de um grupo de teólogos. Uma reacção “progressista” contra o regresso aos princípios do Papa S. João Paulo II, princípios que o Papa polaco registara no Novo Catecismo e na Encíclica Veritas Splendor. Esta e outras reacções “progressistas” continuariam na Alemanha no Lexikon für Theologie und Kirche e nos escritos dos teólogos Karl Rahner, Franz Böckle e Bruno Schüller.

Na carta que publicou na revista católica alemã Klerusblatt, e em que procura ir às “origens do mal”, às suas raízes morais, Bento XVI afirma que foi também ao abrigo desse “clima de contestação libertária” que “em vários seminários se formaram clubes homossexuais que actuavam mais ou menos abertamente”.

Este “clima de contestação libertária” de que fala Bento XVI foi recentemente tema de um artigo da revista Valeurs Actuelles sobre a defesa da “descriminalização do amor” por parte da intelligentsia libertária, e a promoção, na teoria e na prática, das “piores derivas da revolução sexual”, depois do Maio de 68 (com o próprio Daniel Cohn-Bendit a perorar sobre os inauditos paraísos eróticos que uma criança de cinco anos podia proporcionar e Gabriel Matzneff a fazer a apologia da pederastia e das relações com menores). Ao longo dos anos 70, os jornais Le Monde e Libération foram dando voz e palco aos que se debatiam contra os “tabus e os preconceitos da sociedade e da mentalidade judaico-cristã” que “sacralizava as crianças” e se indignavam com a prisão de pedófilos: tais “crimes d’amour” eram uma “simples questão de costumes” e, como tal, não mereceriam o cárcere. Era uma caça às bruxas, uma perseguição moralista contra “sexualidades outras”, uma interdição e uma penalização absurda de “l’amour des enfants”. A petição, de Janeiro de 1977, foi redigida por Gabriel Matzneff e entre os signatários estavam Louis Aragon, Roland Barthes, Simone de Beauvoir, André Glucksmann, Jack Lang, Jean-Paul Sartre, Georges Moustaki. Matzneff, hoje com 83 anos, foi recentemente denunciado num livro, Le Consentement, de Vanessa Springora (Bernard Grasset, Paris, 2020), com quem o escritor manteve uma relação. Ele tinha 50 anos, ela, 13.

A biografia de Bergoglio, argentino, jesuíta, liberal, renunciando a uma namorada por uma chamada divina de acaso, dessas que ilustram as biografias pias de mártires e de santos, é empolgada; a de Ratzinger, nascido em 1927 nas vésperas da subida ao poder do Nacional-socialismo, membro por obrigação da Hitlerjugend, adolescente soldado numa bateria antiaérea da Wermacht com um curta passagem por um campo de prisioneiros aliados, fica na sombra.

A pedofilia não era apenas um delito praticado no segredo dos colégios religiosos e dos seminários católicos: era um “vício” tolerado, praticado, defendido, e até reivindicado por altos espíritos da mais esclarecida intelectualidade progressista ocidental.

Mas nada disso apagava ou apaga a gravidade de um pecado e de um crime cometido no interior de uma instituição que sempre o considerara um pecado e um crime. Para Bento XVI, a denúncia de pedofilia no interior da Igreja, que começara a surgir ou a tornar-se conhecida na segunda metade dos anos 80, fora “num primeiro momento enfrentada de modo brando e lento, garantindo em particular os direitos dos acusados, tornando as condenações quase impossíveis”, ainda que o Papa João Paulo II tivesse depois atribuído à Congregação para a Doutrina da Fé a competência para julgar os abusos e crimes contra menores, instituindo um processo que incluiu a “pena máxima” religiosa – a demissão do estado clerical.

A carta com que Bento XVI sai do silêncio, carta que dirigiu aos participantes da reunião em Roma que o Papa Francisco convocou, apela a um regresso a Deus e à Fé e critica a sociedade ocidental que, com a sua permissividade e agnosticismo militantes, encorajou o relativismo absoluto ao elevar a “autenticidade” – ou seja, a actuação conforme os sentimentos e desejos de cada qual, em cada momento – como justificação para todos os actos, mesmo os mais aberrantes, como a pedofilia. No final menciona e agradece as novas reformas do Papa Francisco que, na sequência da reunião, se compromete a que a Igreja não mais dissimule ou encubra os casos de pedofilia e que tudo faça para entregar à Justiça os abusadores. Espera-se, não só que estes sejam removidos do magistério de sacerdotes e que os encobridores sejam também sancionados, mas que a Igreja colabore com os tribunais civis nas acções criminais, numa guerra total aos abusadores e aos seus cúmplices.

O filme

Depois de tudo isto, vamos ao filme. Talvez Fernando Meirelles tenha partido de uma história maniqueísta, feita de clichés mediáticos – Papa Bom versus Papa Mau: Papa Bom, Jorge Mario Bergoglio, Francisco, tout court (já que Francisco I lembraria o rei francês, guerreiro, sibarita, mulherengo); Papa Mau, Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI.

[uma entrevista com Anthony Hopkins e Jonathan Pryce, os protagonistas de “Dois Papas”:]

A biografia de Bergoglio, argentino, jesuíta, liberal, renunciando a uma namorada por uma chamada divina de acaso, dessas que ilustram as biografias pias de mártires e de santos, é empolgada; a de Ratzinger, nascido em 1927 nas vésperas da subida ao poder do Nacional-socialismo, membro por obrigação da Hitlerjugend, adolescente soldado numa bateria antiaérea da Wermacht com um curta passagem por um campo de prisioneiros aliados, fica na sombra – bem como o seu percurso e obra teológica. Para Meirelles, um é o homem do terreno, da igreja dos pobres, do povo, dos bairros periféricos de Buenos Aires, ainda que, como Provincial dos Jesuítas, tenha convivido e negociado com o regime militar argentino e a sua brutalidade; o outro, é o filósofo alheado do povo, o pensador, o teólogo, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé nomeado por João Paulo II e, como tal, zelador da ortodoxia: o “Rottweiler de Deus”, enfim, o protótipo do “alemão” que no filme é também prontamente rotulado de “nazi” por vários populares.

Meirelles, além de alguns erros de guião, toma também liberdades históricas. Mas os actores são muito bons e acabam por adensar o que eram papéis simplistas: Jonathan Pryce é Francisco, o esclarecido, mais ao gosto dos homens de hoje, mais do Cristo do Sermão da Montanha; Anthony Hopkins é Bento XVI, o conservador, mais ao gosto dos Devocionários e do Deus-Padre eterno em cima de uma nuvem, das imagens pias da nossa infância. Encontram-se, falam-se. Ratzinger, na sucessão de João Paulo II, aparece a querer muito ser Papa (o que não é verdade). Bergoglio aparece desprendido, quase incomodado por receber votos. Voltam a encontrar-se mais tarde, quando Bergoglio quer comunicar que se quer retirar da vida activa, na Argentina. E depois em Castelgandolfo, onde embirram  com os sapatos um do outro e discordam no sentido de humor, e onde um janta sozinho e toca e ouve música clássica e o outro gosta de bola, de tango e de andar pelas ruas de Roma.

Ao ver "Dois Papas" não temos de embarcar na banalização jornalística do Papa Bom/Papa Mau a que, apesar de tudo, o filme não se limita, fica uma dialéctica de caminhos, de discórdias, de pormenores, de dois homens que podem até pecar como homens, mas que se reencontram irmanados pelo peso da missão e pelo medo de não serem dignos.

Mas aproximam-se: afinal vão ser sucessivamente Pedro, a Pedra, embora cada um, como homem, tenha a sua porta e o seu entendimento da Porta, da porta do Céu. Confessam-se e absolvem-se mutuamente, pertencem a uma comunidade de perdão. Bergoglio pergunta-se se fez bem em negociar com a ditadura argentina (através do sinistro Almirante Massera), transigindo com a brutalidade dos militares enquanto outros dos seus companheiros jesuítas passavam pela prisão e pela tortura. E ainda que, com isso, tivesse salvado muita gente, penitencia-se e acha-se indigno. Ratzinger, não  terá esses pesos na consciência, mas pesam-lhe as vezes em que sente “o silêncio de Deus”. Ambos o sentem. Até os Papas sentem o silêncio de Deus… Como os condenados de Auschwitz e os das várias ilhas do Arquipélago de Gulag o devem ter sentido ou como quase todos nós muitas vezes o sentimos. Qual seria, no entanto, a alternativa? Um Deus que estivesse lá em cima, sempre interventivo, sempre visível e sempre a resmungar e a ralhar, como a mãe do Woody Allen na curta-metragem Oedipus Wrecks, em Histórias de Nova Iorque? Queríamos um Deus assim?

Na Casa do Pai

Ao ver “Dois Papas” não temos de embarcar na banalização jornalística do Papa Bom/Papa Mau a que, apesar de tudo, o filme não se limita. É que mesmo com os erros de facto e de guião e com passagens ambíguas (como a que parece insinuar que Bento XVI protegeu o sinistro Maciel Degollado, quando foi precisamente ele quem o saneou), fica uma dialéctica de caminhos, de discórdias, de pormenores, de dois homens que podem até pecar como homens, mas que se reencontram irmanados pelo peso da missão e pelo medo de não serem dignos ou capazes de a cumprir, juntos na mesma humildade perante Deus. Falham, sofrem, enfrentam-se, discordam, desconfiam; mas Pedro também não teve medo, não negou Cristo? E não houve sucessores de Pedro simoníacos, dissolutos e politicamente ambiciosos? E piores que isso, até, mesmo descontando as visões dantescas e o retrato que a historiografia do século XIX fez da Igreja Católica?

Não podemos nem devemos, nós, católicos, introduzir na Igreja critérios de juízo e sectarismo político; não podemos entrar no maniqueísmo ideológico que nos querem impor; não podemos cair na armadilha dos Saduceus a interrogarem Cristo, procurando racionalizar em termos puramente humanos e mundanos, de pecado, risco, tentação e ambição, o que é do Mistério – da Criação, da Queda, da Redenção, da Morte e da Vida.

E não podemos, se queremos estar e continuar na comunidade da Igreja, negar em matérias de Fé a autoridade do sucessor de Pedro; e muito menos querer qualificá-lo, louvando-o ou criticando-o, como se ele fosse um chefe de partido político ou uma personalidade mediática e nós militantes ou espectadores de um jogo, olhando a Igreja como se de um partido político se tratasse, com progressistas e conservadores, com direitas, esquerdas e até com centros radicais.

A Igreja só tem uma Pedra: Pedro; embora, como o próprio Cristo proclamou, tenha várias moradas e várias portas. Mas vão todas dar à mesma Casa do Pai, da qual nenhum de nós é o controlador das entradas ou o polícia de serviço.

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