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"Admito que se fizesse uma homenagem no Panteão, mas não comecemos pelo fim, comecemos pelo princípio, pela coisa certa", diz Miriam Assor
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"Admito que se fizesse uma homenagem no Panteão, mas não comecemos pelo fim, comecemos pelo princípio, pela coisa certa", diz Miriam Assor

LUSA

"Admito que se fizesse uma homenagem no Panteão, mas não comecemos pelo fim, comecemos pelo princípio, pela coisa certa", diz Miriam Assor

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Biógrafa de Aristides de Sousa Mendes: “O Panteão não pode ser o ponto final, tem de ser o princípio”

A jornalista e investigadora Miriam Assor defende que "Aristides de Sousa Mendes merece todas as homenagens", mas é preciso tratar "da sua casa" e levá-lo "às escolas". O cônsul chega hoje ao Panteão.

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O cônsul português de Bordéus que em junho de 1940 concedeu vistos a muitos milhares de refugiados judeus para que, à revelia das ordens de Salazar, viessem para Portugal e escapassem ao nazismo, é homenageado esta terça-feira em Lisboa numa “cerimónia de concessão de honras” de Panteão Nacional, através de um túmulo sem corpo (cenotáfio).

Vão estar presentes o presidente da República, o presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro. Os restos mortais permanecem no concelho de Carregal do Sal, onde ele nasceu, e o monumento fúnebre em Lisboa será apenas simbólico. A decisão, porém, não é pacífica, a julgar pela opinião da jornalista e investigadora Miriam Assor, autora de uma biografia de Aristides de Sousa Mendes (1885-1954).

Em entrevista ao Observador, Miriam Assor discorda da ideia de se criar um cenotáfio para Aristides e diz que teria sido um gesto muito mais importante recuperar a casa onde ele viveu, localizada em Cabanas de Viriato (Carregal do Sal, Viseu). Aponta o dedo: “Andamos a brincar com o Aristides há muito tempo.”

No dizer da biógrafa — cujo livro Aristides de Sousa Mendes, Um Justo Contra a Corrente saiu em 2009 e se baseia em documentos dos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros —, o cônsul de Bordéus ainda hoje é malvisto por elites políticas que terão herdado o ressentimento de Salazar contra ele.

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De resto, dizem várias vozes, Aristides continua a ser controverso. Segundo escreveu a historiadora Cláudia Ninhos no livro O Essencial Sobre Aristides de Sousa Mendes (2021), trata-se de uma “figura polarizada na sociedade portuguesa”, porque “se, por um lado, existe quem aspire à sua ‘beatificação’, por outro lado, os seus detratores procuram branquear, distorcer e diminuir a sua ação”.

Casa de Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, Distrito de Viseu, 14 de setembro de 2017. NUNO ANDRÉ FERREIRA / LUSA.

A casa de Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato: "Portugal deveria era responsabilizar-se a sério pela casa dela, a Casa do Passal. O que tem havido é o arranjo de umas portas e janelas"

NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA

Aristides de Sousa Mendes começou a ser reabilitado como exemplo de coragem e de defesa dos direitos humanos a partir da década de 60 em Israel. Em 1987 o Presidente da República Mário Soares concedeu-lhe a Ordem da Liberdade a título póstumo, depois a Assembleia da República reintegrou-o na carreira diplomática, de que tinha sido afastado pelo Estado Novo, e promoveu-o a embaixador. Em 2017, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

A origem da homenagem desta terça-feira remonta a novembro 2019, quando Joacine Katar Moreira, então deputada pelo Livre, propôs no parlamento um projeto de resolução para “concessão de honras do Panteão Nacional a Aristides de Sousa Mendes”, o qual foi aprovado em julho do ano passado com votos favoráveis de todos os deputados, menos de André Ventura, do Chega, que se absteve.

Miriam Assor é judia, filha de Abraham Assor, originário de Marrocos (falecido em 1993) e rabino da comunidade israelita em Portugal, e de Rebeca Aflato, nascida no Brasil. Trabalha como jornalista freelance. Entende que “este homem salvou pessoas e faz com que elas possam estar vivas através dos netos e bisnetos”, mas sustenta que ainda é pouco conhecido dos portugueses.

Miriam Assor publicou uma biografia de Aristides de Sousa Mendes em 2009

Esta homenagem vem no momento certo?
Tenho uma posição que julgo ser sui generis, porque na verdade não aplaudo muito esta homenagem. O Aristides merece todas as honras e homenagens, mas Portugal deveria era responsabilizar-se a sério pela casa dela, a Casa do Passal. O que tem havido é o arranjo de umas portas e janelas. Daquela casa deveria fazer-se, na minha opinião, um espaço ligado aos direitos humanos, um museu que servisse para perpetuar o legado.

Está a falar da casa dele em Carregal do Sal?
A casa que foi dele, sim. De vez em quando arranjam umas portas e umas janelas e fazem umas pinturas, mas é preciso mais. Julgo que a Casa do Passal é hoje a sede da Fundação Aristides de Sousa Mendes e estará à responsabilidade da Câmara Municipal. A requalificação e musealização, tanto quanto julgo saber, já foram aprovadas. Mas andamos nisto há muitos anos. Há que honrar o legado e a memória, o que passa em primeiro lugar pela reabilitação da casa, que está num estado vergonhoso de conservação, é uma ruína. Aquela casa é uma mansão e deveria ser transformada em museu. Portugal deve-lhe muito, deve-lhe uma homenagem, mas não é no Panteão. Além disso, estão ali algumas pessoas que são do antigamente, há ali um cheiro a antigo regime, de que acho que ele não iria gostar.

Mas ao longo das últimas décadas, a começar pela homenagem do Presidente da República Mário Soares, Aristides tem sido relembrado e comentado.
Aliás, Mário Soares foi quem tomou conta deste caso. Tiro-lhe o chapéu. Mário Soares primeiro e Jaime Gama depois, que enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros financiou a possibilidade de se constituir a Fundação Aristides Sousa Mendes, em 2000.

"Não sei até que ponto este homem é hoje estudado nas escolas, nem sei se os miúdos leem um capítulo ou um parágrafo nos livros de história acerca da vida deste homem que em 1940, antes de haver Auschwitz e a Solução Final, passou vistos que representam vida."

Ao ir para o Panteão de forma simbólica, passa a ser notado por portugueses e estrangeiros, que poderão ter interesse em saber mais sobre ele. Ou não?
Pois, mas o que envolve o Aristides tem sido sempre simbólico. Não há nada concreto. É como pintar um quadro sem a tela. Aliás, os estrangeiros, pelo menos aqueles com quem trato, têm bastante informação sobre o Aristides. Não sei até que ponto este homem é hoje estudado nas escolas, nem sei se os miúdos leem um capítulo ou um parágrafo nos livros de história acerca da vida deste homem que em 1940, antes de haver Auschwitz e a Solução Final, passou vistos que representam vida. O holocausto matou pessoas e com isso matou gerações. Este homem salvou pessoas e fez com que elas possam estar vivas através dos netos e bisnetos. Não é num Panteão que isto se trata, é nas escolas, na casa dele. Admito que se fizesse uma homenagem no Panteão, mas não comecemos pelo fim, comecemos pelo princípio, pela coisa certa. O Ministério dos Negócios Estrangeiros ainda hoje fala dele com grandes reticências e não me refiro só aos da velha guarda, os que fizeram livros contra a memória dele.

Está a falar de quem?
Por exemplo, do embaixador Hall Themido [1924-2017], que no livro de memórias [2008] tem um capítulo contra o Aristides. Estamos a falar da velha guarda, mas os novos também tratam quase sempre o Aristides com um certo senão, o senão de ele ter desobedecido às ordens. Obedeceu à moral dele, desviou-se das ordens. Nenhum cônsul de carreira podia dar vistos sem o consentimento prévio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, como dizia a Circular 14. Dar a quem? Às pessoas que estavam aflitas, judeus, homossexuais, ciganos, comunistas, etc. Ele pediu, pediu, pediu, a autorização não chegou e ele começou a dar vistos.

De forma resumida, como é que deve ser lembrado?
Criou um gesto de imortalidade. A continuidade de cada sobrevivente junta-se, quanto a mim, a outras almas e muitas gerações. O gesto dele não tem limites, é perpétuo, vai além da pessoa salva. Ele salvou gerações, como já disse. Aquelas 30 mil pessoas multiplicaram-se, os sobreviventes em si já despareceram quase todos.

Fotografia de Aristides de Sousa Mendes (E) no Yad Vashem (Museu do Holocausto), o memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas  judaicas do Holocausto, Jerusalém, Israel, 21 de janeiro de 2020. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Reatrato de Aristides de Sousa Mendes no Yad Vashem (Museu do Holocausto), em Jerusalém

ANTONIO COTRIM/LUSA

O projeto de resolução da deputada Joacine Katar Moreira, que desencadeou as honras no Panteão, falava de Aristides de Sousa Mendes como “referência ética e cívica” e “figura heróica da memória portuguesa”. Não discordará destes pressupostos, embora não concorde com a homenagem.
Quem olha, até pode pensar que Portugal já fez tudo e mais alguma coisa e que só faltava agora a cerimónia no Panteão com um túmulo sem corpo.

A trasladação seria adequada?
Não, porque quem conhece a história do Aristides sabe que é difícil tirá-lo da terra dele, de ao pé da mulher. Sabe-se que enviuvou da Angelina e antes disso teve uma amante, com quem teve uma filha e depois se casou, etc. Mas como conheço a história dele, sei que seria difícil tirá-lo de onde está. Em certa medida, compreendo o gesto de o levar para o Panteão. A deputada Joacine fez o que ninguém fez em décadas. Não estou a crucificar a deputada, estou a dizer que a homenagem deveria ter sido precedida de outras coisas. O gesto dele rima com vida, com coragem, com exceção. Esta coisa de sermos corajosos tem que se lhe diga. Vou ao Aristóteles, que define a coragem como uma das quatro virtudes cardinais. A imprudência não rima com coragem, mas o corajoso encara o perigo quando é necessário, sem o procurar.

Sabemos qual era o estado de espírito do cônsul em 1940?
Há uns anos entrevistei um filho dele, o Nuno Pedro, que vivia em condições terríveis em Sintra. Ele lembrava-se dessa fase e disse-me que o pai começou a conceder alguns vistos, depois foi repreendido, mas decidiu continuar. O Aristides teve 14 filhos, tinha um ordenado razoável, estava muita coisa em jogo. Enfiou-se no quarto durante três noites e três dias, antes de decidir continuar a dar vistos. Era um homem extremamente religioso, no sentido em que a simbiose na crença de Deus e a ética dançam no mesmo pé. Não é o indivíduo que vai à igreja, à sinagoga ou à mesquita e que depois cá fora não cumpre. Do que o filho me disse, ao fim dos três dias, saiu dali um homem resoluto. O milagre, digamos — não sei se foi milagre ou não —, veio de uma providência de bondade. Ele ajudou o mar de gente que lhe aparecia, basta ver as fotografias nos arquivos, aquele mar de refugiados amargurados e aflitos. De outra forma, tinham ido para a morte.

"A política de Salazar não era antissemita, distanciava-se bastante da visão nacional-socialista. Mas Salazar não gostava deste homem e isso passou às gerações seguintes por via do Ministério dos Negócios Estrangeiros, porque o Aristides lhe desobedeceu."

Ele sabia isso?
Tinha obrigação de saber, porque houve correspondência entre as delegações alemãs e de outros países em que se pedia para apertarem o cerco aos judeus. A contenda tinha começado em 1939, havia instruções para isso.

Mas como os vistos de Aristides surgem antes da Solução Final podemos dizer que ele antecipava esse desfecho?
Exatamente, por isso é que muitas vezes lhe chamo um profeta. Em 1940, não há Solução Final, não há a meta “vamos matá-los a todos”, mas há uma política antissemita, há o campo de concentração de Dachau [perto de Munique]. Este homem, com Paris acabada de invadir, toma a iniciativa. Depois suporta um ano ou um ano e meio de inatividade e o Estado Novo promete-lhe o direito a metade do vencimento, para em seguida ser aposentado. Mas é-lhe instaurado um processo disciplinar e afastam-no do corpo diplomático, nunca usufrui da condição de reformado e apenas obtém um fundo provisório. Julgo até que é impedido de exercer como advogado. Chega a pedir uma audiência com Salazar, que nunca o recebe. A família dele teve de emigrar, o nome de família estava num índex, ninguém lhes dava emprego. Depois do 25 de Abril, o jornalista Carlos Carvalho, penso, faz um artigo no jornal A Capital sobre uma série de televisão sobre o holocausto e junta uma referência ao Aristides. Depois vem o Mário Soares, que o condecora postumamente. Até ao fim dos anos 80, ele foi um ilustre desconhecido e continua a ser.

Essa rasura de que fala tem algum fundo antissemita?
Não diria assim, até porque a política de Salazar não era antissemita, distanciava-se bastante da visão nacional-socialista. Mas Salazar não gostava deste homem e isso passou às gerações seguintes por via do Ministério dos Negócios Estrangeiros, porque o Aristides lhe desobedeceu. Em 1940, era Salazar o ministro dos Negócios Estrangeiros. Não gostou que este homem não tivesse cumprido as suas ordens e fê-lo pagar até ao fim. Os discursos eufóricos de Salazar depois da guerra dão a entender que Portugal sempre tinha estado do lado dos Aliados, que não esteve. Fala-se muitos dos refugiados que vieram para Portugal durante a guerra, mas a maioria entrou aqui por via desta onda dos 30 mil do Aristides. Quem os sustentou não foi o Estado português, foram instituições filantrópicas judaicas que aqui estavam. O Aristides não foi reabilitado porque não obedeceu. Ele é inverso do Eichman [militar nazi responsável pela deportação de judeus], que, como todos os carrascos, disse em tribunal que se limitou a cumprir ordens.

"Pode ser que esta chamada de atenção da deputada Joacine tenha o efeito de pôr vergonha na cara dos governantes, sejam eles quais forem. Espero que não seja o ponto final, que seja o princípio de alguma coisa."

O apagamento que refere deve-se a um ressentimento de Salazar que na sua opinião se perpetuou no aparelho do Estado.
Penso que sim.

E em relação à população o que é que acha? Como é que os portugueses se relacionam com Aristides de Sousa Mendes?
Há uns que não sabem quem seja. Outros ficam muito honrados, sejam eles de esquerda ou de direita, tirando talvez a extrema-direita. Veem-no como uma pessoa que esteve acima do momento. A esmagadora maioria dos portugueses, mesmo desconhecendo a história dele na íntegra, sente-se honrada.

Quando a Assembleia da República aprovou a homenagem a Aristides no Panteão, o deputado André Ventura absteve-se. E quando se constituiu um grupo de trabalho para a cerimónia, o Chega foi o único partido que não o integrou, por decisão própria. Como é que comenta?
Se já não tinha votado a favor, ainda foi convidado para o grupo de trabalho? Ele está no direito de não participar, até pode vestir uma camisola contra o Aristides, vivemos em democracia. Estamos a falar de um indivíduo que quis por ciganos num gueto, portanto falta-me a gramática para qualificar esse senhor, e estou a ser muito generosa por lhe chamar senhor. É o que temos.

Não foi convidada para a homenagem no Panteão, mas irá comparecer à última hora?
Não. Se me tivessem convidado, não ia, não gosto de ir aos sítios por obrigação. Aos 20 anos iria. Aos 55 já me custa. Antes disto, outras coisas. Se calhar nem me convidaram por intuírem que não concordo. Andamos a brincar com o Aristides há muito tempo. “É muito boa pessoa, muito bonzinho”, mas não o honram com uma sede para a Fundação e um museu condigno. Pode ser que esta chamada de atenção da deputada Joacine tenha o efeito de pôr vergonha na cara dos governantes, sejam eles quais forem. O Panteão não pode ser o ponto final, tem de ser o princípio.

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