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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Bispo do Porto: "Aquilo que mais falhou no combate à pandemia foi o desprezo pelas IPSS" /premium

Bispo do Porto queixa-se da forma como o Estado tratou as instituições de solidariedade. Defende o fim das patentes das vacinas. E critica: "Esta democracia não tem um timbre de grande qualidade”.

A diocese do Porto aumentou a despesa no apoio alimentar em cerca de 700 mil euros até ao final do ano passado. É um dado avançado nesta entrevista à Rádio Observador por D. Manuel Linda, numa altura em que as contas sobre as consequências da pandemia estão longe de estar fechadas.

O Bispo do Porto recebeu o Observador no paço episcopal, uma varanda sobre a cidade velha e o rio. Da política às mudanças na igreja, não se furtou aos temas mais polémicos. Acusa o Estado português de ter revelado “desprezo” pelas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS). Defende o fim das patentes das vacinas. Não fecha a porta a mudanças na forma como a igreja lida com os homossexuais. Pelo meio, avança um diagnóstico sobre o estado do regime em Portugal: “Esta democracia não tem um timbre de grande qualidade”. E deixa no ar uma forte hipótese de convite ao Papa Francisco para visitar o Porto em 2023, ano em que vem a Fátima para participar na Jornada Mundial da Juventude: “Se ele aceitasse vir ao Porto punha-me já de joelhos”.

Ouça aqui a entrevista.

“A mudança é típica de quem tem inteligência”

Estamos a tentar sair de uma situação de emergência. Como avalia a forma como as autoridades sanitárias e também políticas foram lidando com a pandemia ao longo deste tempo?
Não acuso ninguém por eventuais lacunas ou até por atitudes por vezes contraditórias, porque não estávamos habituados a uma pandemia deste género e não sabíamos mesmo cientificamente como lidar com ela. Olhando para trás, vemos que houve alguma descoordenação, que houve alguma incapacidade de nos anteciparmos aos acontecimentos, mas não estávamos habituados e mesmo cientificamente não tínhamos termo de comparação.

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Acha que foi fruto da inexperiência de estar a lidar com algo de muito novo?
Fomos apanhados por um cataclismo e como todos os cataclismos naquela situação não sabemos como reagir. Só olhando mais tarde, retrospetivamente, é que vemos o que podíamos ter feito de forma diferente. Mas de uma forma geral foi positiva a atuação das nossas autoridades.

Mas não subscreve aquela teoria ou a tese do milagre?
Entende por milagre aquilo que é uma ajuda de Deus (risos) e que nós podemos fazer. Agora, não é milagre num sentido de um automatismo qualquer.

O Bispo tem autoridade para o dizer porque não foi vacinado e só será daqui a 15 dias. Os sacerdotes, os diretores dos lares andam no dia a dia a coordenar tudo, da senhora ou senhor assistente do lar, da limpeza, disto ou daquilo que não veio, é preciso coordenar quem é que vai fazer este serviço ou quem leva o utente do lar ao hospital... Num contexto em que tem de lá estar dentro, se ele próprio não fosse vacinado podia ser um foco de transmissão do vírus.
D. Manuel Linda, bispo do Porto

E como vê a forma como decorre o processo de vacinação?
Vejo com muita esperança. As lacunas que também neste processo se verificam também são compreensíveis. Temos vacinas que não tiveram aquela fase de experimentação em humanos que é habitual no campo dos medicamentos. Depois começou a desconfiar-se de uma ou de outra. Não sabemos se isso é verdade, ou não. Joga-se milhões de milhões e às vezes a desinformação interessa a determinadas empresas em detrimento de outras. Na verdade, tudo isso na opinião pública causou depois alguma preocupação. Por outro lado, aquelas que se imaginava que eram as mais seguras começaram a não poder dar resposta e deixou de haver uma quantidade significativa para poder imunizar todas as pessoas. Enfim, são esses processos, de altos e baixos, que agora, felizmente, na Europa — no mundo inteiro não — começam a ter uma velocidade de cruzeiro e, se Deus quiser, até ao verão estaremos imunizados.

O senhor já foi vacinado?
Não. Não. O Bispo sujeita-se (risos) à forma de proceder normal, mas já fui convocado. Será em meados deste mês de Maio, se Deus quiser.

Como é que vê o facto de alguns padres terem sido vacinados na primeira fase?
Foi uma falsa questão — o Bispo tem autoridade para o dizer porque não foi vacinado e só será daqui a 15 dias. Os sacerdotes, os diretores dos lares andam no dia a dia a coordenar tudo, da senhora ou senhor assistente do lar, da limpeza, disto ou daquilo que não veio, é preciso coordenar quem é que vai fazer este serviço ou quem leva o utente do lar ao hospital… Num contexto em que tem de lá estar dentro, se ele próprio não fosse vacinado podia ser um foco de transmissão do vírus.

Discute-se a licitude da quebra de patentes quando está em causa o bem da vida a nível mundial. Eticamente, não sobre o ponto de vista legal, a doutrina social da igreja admite, porque a propriedade privada não é um absoluto. As patentes são uma propriedade privada, donde se pretende retirar milhões. Não haveria aqui uma dificuldade. Aqueles que vão lucrar somos nós todos.
D. Manuel Linda, bispo do Porto

E no contexto em que não têm de estar no terreno?
Há-de me dizer quem são na prática os diretores das instituições dos centros sociais paroquiais que não têm de lá estar dentro. Praticamente não existem.

Quebra de patentes nas vacinas? “Aqueles que vão lucrar somos nós todos”.

Escreveu na semana passada no twitter que se deveria repensar a forma como as vacinas estão patenteadas. Devia anular-se essa patente e permitir que o fabrico das vacinas fosse generalizado para chegar a mais pessoas. É isto que pensa?
Foi no campo doutrinal. O tweet dizia mais ou menos o seguinte: discute-se a licitude da quebra de patentes quando está em causa o bem da vida a nível mundial. Eticamente, não sobre o ponto de vista legal, a doutrina social da igreja admite, porque a propriedade privada não é um absoluto. As patentes são uma propriedade privada, donde se pretende retirar milhões. Não haveria aqui uma dificuldade. Aqueles que vão lucrar somos nós todos. Imaginemos a situação da Índia. Diz-se que se deve a uma nova variante, a uma mutação do próprio vírus. Se as vacinas que nós temos aqui na Europa e no resto do mundo não cobrirem aquela variante, não voltamos à estaca zero?

Há quem defenda, no argumento contrário a esse, que é preciso pagar o investimento nas vacinas. Acabar com as patentes não permite que se fabrique de forma generalizada, porque é muito difícil. O senhor coloca a questão mais na ética do que na parte prática?
Doutrinal exclusivamente. Evidentemente que não sou técnico disso, nem pretendo sê-lo.

D. Manuel Linda diz que a diocese gastou mais 700 mil euros em apoios alimentares

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Num primeiro momento da pandemia, as IPSS não foram chamadas por parte do Governo nem pelo Estado a ajudar. Pelo menos, foi essa a sensação com que todos ficámos.
Sem querer fazer críticas baratas, até iria mais longe. Aquilo que mais falhou no combate à pandemia numa primeira fase foi o desprezo pelas IPSS.

Sentiu isso? Sentiu desprezo?
Absoluto. Por exemplo, quando tínhamos 20 funcionários de uma IPSS positivos e o tal diretor — o sacerdote que não queriam que fosse vacinado — andava de casa em casa a pedir colaboração, porque não podia deixar as pessoas sozinhas… Quando o Estado não teve a mínima responsabilidade para arranjar alternativas de trabalhadores que pudessem fazer aquele serviço… Veio a fazê-lo mais tarde, mas com quem? Com gente que nunca tinha mudado uma fralda de um velhinho; com gente que nunca tinha pegado numa vassoura ou numa esfregona para desinfetar os espaços. Uma parte significativa dessas pessoas não aguentou mais de 24 horas e outras aguentaram uma semana, no máximo dos máximos. Não houve aqui nenhuma intervenção do Ministério da Solidariedade?

E porquê? Acha que é preconceito ideológico por parte do Governo? É erro de avaliação?
Não queria chegar a tanto. Essa pergunta devia ser feita ao próprio Governo. Estou convencido de que não seria por preconceito ideológico. De qualquer forma, não se notou o apreço por estas instituições, sejam elas ou não do setor social da Igreja. Fundamentalmente, foi uma falta de coordenação. Não obstante, não chegámos àqueles extremos que chegou, por exemplo, aqui a nossa vizinha Espanha, onde avançaram para grandes grupos económicos, com administrações técnicas que tentam rentabilizar os lucros e diminuir despesas, e onde houve coisas horrorosas, como a comunicação social nos mostrou.

Esta pandemia trouxe também um impacto económico gigante, do qual ainda não temos a total noção. Isso também se refletiu nas contas da diocese do Porto?
É óbvio. Nós não prescindimos de nenhum dos nossos trabalhadores. Vou-lhe dar um exemplo muito concreto. Temos a Casa Diocesana de Vilar — com mais de duzentas camas — para retiros e para encontros de fim-de-semana ou durante a semana, no fundo, para atividades que precisam de alojamento e há um ano que temos zero de ocupação. Ninguém. O número de empregados continua o mesmo, porque nenhum foi despedido. As despesas de funcionamento estão um bocadinho mais baixas na eletricidade e na água, mas, de resto, são as mesmas. É preciso fazer limpeza, é preciso fazer manutenção contínua e a receita foi zero.

Ninguém foi dispensado na diocese do Porto?
Ninguém foi dispensado na diocese.

O bispo achou que as igrejas quando fecharam tinham de ser fechadas. Entre termos outra forma de louvar o nosso Deus ou difundir os contágios... Não havia ali outra opção, como se fez um pouco por toda a Europa e por todo o mundo. Não obstante, o que eu quero dizer é: oxalá a insistência nas redes sociais não tenha gerado a ideia de as pessoas ficarem no conforto das suas casas e não terem o ingresso nos lugares habituais onde se celebra a fé
D. Manuel Linda, bispo do Porto

Causou algum impacto público o exemplo do Santuário de Fátima, onde 47 pessoas saíram…
Por Fátima, tem de falar Fátima. De qualquer maneira, também me parece que foi uma daquelas situações empoladas por alguma comunicação social, que precisando de títulos vai buscar um pomposo.

Acha que foi empolamento nesse caso?
Fortemente.

“Exagerou-se na ideia de que participar numa celebração no Facebook ou estar dentro da igreja era quase a mesma coisa”

Em que medida esta pandemia afetou, ou não, a fé das pessoas?
É um assunto sobre o qual não lhe posso dar dados absolutamente concretos, porque não os tenho. Estou convencido de que houve extremos. A fé “extremou-se”, neste sentido: temos experiência de muita gente que estava completamente afastada da prática religiosa e a quem esta situação permitiu entrar dentro de si própria e redescobrir que o sentido da nossa vida encontra-se fora de si, encontra-se num mistério de um Deus, que nos criou e que é a nossa meta. Muitas pessoas — até pessoas de alta cultura — fizeram esta redescoberta. A nível da gentes simples e de muitos daqueles que praticavam a fé no dia-a-dia, [houve] talvez este exagero da parte da igreja em geral — e de algumas paróquias em particular — de dar a ideia de que participar numa celebração no Facebook ou estar dentro da igreja era quase a mesma coisa. Eu tenho medo que isso afaste muita gente da prática religiosa.

Pelas suas palavras, já entendi que não é a mesma coisa.
Obviamente que não. Isto não celebra nada. O que se celebra é a presença da comunidade que se junta para louvar o seu Senhor. O resto é uma participação sentimental, é uma participação espiritual, de alguma maneira como sintonia — se é que é sintonia — mas não é uma celebração como a igreja a concebe. Por algum motivo, o Papa, quando passou a fase mais aguda da pandemia, deixou de transmitir a missa diária que celebra na Casa de Santa Marta (Vaticano) através das redes sociais.

Entende que as igrejas não deviam ter fechado?
Eu entendo que as igrejas deviam ter fechado e a diocese do Porto, o bispo do Porto, foi aquele que em primeiro lugar, em Portugal, teve que dar a cara para fechar igrejas em três concelhos, onde se manifestou o início da pandemia: Paços de Ferreira, Felgueiras e Lousada. E que foi objeto de muitas críticas dos sectores ultra.

O bispo do Porto considera que houve da parte do Estado um "desprezo absoluto" pelas IPSS

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Levantou grande polémica na altura?
Claro. Porque “o bispo é o primeiro a querer que não se viva a fé”, e “não sei quê”… Mas isso foi da parte das outras pessoas, apenas. Para mim, até representa um elogio. O bispo achou que as igrejas quando fecharam tinham de ser fechadas. Entre termos outra forma de louvar o nosso Deus ou difundir os contágios… Não havia ali outra opção, como se fez um pouco por toda a Europa e por todo o mundo. Não obstante, o que eu quero dizer é: oxalá a insistência nas redes sociais não tenha gerado a ideia de as pessoas ficarem no conforto das suas casas e não terem o ingresso nos lugares habituais onde se celebra a fé, agora quando puder voltar o culto em forma normal.

E as procissões, acha que deviam voltar já?
Depende do contexto, mas nesta fase, neste preciso momento, julgo que ainda não. Porque por mais cuidado que haja, não acredito que as pessoas marchem alinhadinhas com a mesma distância entre umas e outras como fazem os militares numa parada.

“Andaram por aí pelas igrejas com os telemóveis a tentar encontrar situações em que alguma norma não fosse cumprida”

A igreja foi mais prudente do que os políticos na forma como se lidou com a pandemia? Tivemos há um ano a polémica sobre o 1º de Maio, o 25 de Abril…
Esse “mais” não sei. Que a igreja foi prudente, é reconhecido por todos.

Mas teme que isso tenha consequências?
O que eu posso dizer é que levámos muito a sério a defesa da vida humana. Houve pessoas que, com os telemóveis, andaram por aí pelas igrejas, nas alturas em que já havia possibilidade de celebrar o culto, a tentar encontrar situações nas quais alguma norma não fosse cumprida. E graças a Deus sentiram-se defraudadas. Praticamente não encontraram desses casos. Claro que podiam encontrar um caso ou outro: um sacerdote que entretanto pousou a máscara; um sacerdote que se esqueceu e que pôs a máscara num determinado sítio… Isso é sempre possível, mas foram casos tão pequenos, tão ridículos, que não deu para pôr em causa esta seriedade da igreja na defesa da saúde e no cumprimento das regras.

A Diocese do Porto tem um relevo fundamental na igreja em Portugal. Vivemos num estado laico. Sente que hoje a Igreja não é ouvida no país para a tomada de decisões políticas e sociais? Como é que o senhor olha para o papel da igreja, hoje em dia, em Portugal?
Com otimismo. Se nós quiséssemos confrontar com aquilo que aconteceu há 200 anos, em que ainda vivíamos num regime que chamávamos de Cristandade, quase união entre o trono e o altar, é evidente que notamos hoje uma diferença abismal. Mas eu prefiro-me neste tempo, e não naquele outro. A Igreja não é uma estrutura de domínio como é o Estado, que cobre a totalidade do território. A Igreja foi criada por Jesus Cristo sempre como semente, fermento, uma realidade pequena que tende a gerar uma nova cultura, uma nova mentalidade, uma nova árvore não no sentido de domínio, mas de outra realidade. Eu estou convencido de que, com o afinco que nos é permitido e possível, estamos a fazê-lo e com muita generosidade.

Quando encontramos uma violência institucionalizada entre os próprios partidos, quando vemos a forma como eles se tratam tão pouco democraticamente e se agridem uns aos outros, temos de concluir que esta democracia não tem um timbre de grande qualidade.
D. Manuel Linda, bispo do Porto

Vemos a Igreja assumir uma posição forte e interventiva em questões da defesa da vida, a questão do aborto, da eutanásia, é muito perentória na forma como se afirma aí. Mas parece não ser tão perentória na luta contra a pobreza, na defesa dos excluídos. Há sempre palavras nas homilias, mas parece que isso não passa para as pessoas…  O senhor mexeu-se na cadeira, porque parece que não concorda com aquilo que estou a dizer.
(Riso) Não, permita-me que não concorde mesmo. Se me é permitido, eu diria aquela expressão que Jesus, quando pregava coisas difíceis, dizia sempre: “Quem tem ouvido para ouvir, oiça”. A posição da Igreja é apelar à racionalidade, porque há certas emotividades que depois retiram o bom pensamento, e a Igreja, honra lhe seja feita, dá-me a ideia de que é perita também no pensamento justo, isto a respeito dos temas fraturantes. Quanto à presença dos pobres… Também conhecemos aquela expressão de Jesus: “Quando fazes uma esmola, que a tua mão esquerda nem sequer saiba o que faz a direita”. Não apregoamos por aí o que fazemos. Se fôssemos dizer o que gastamos nos nossos centros sociais paroquiais, o que as paróquias — nas grandes cidades, porque nas aldeias essa problemática não se põe tanto — fazem, por exemplo, para matar a fome… Há pessoas envergonhadas que não querem revelar, e muito justamente, a sua cara, mas que entretanto sofrem e a igreja ajuda-as. Se fôssemos ver os atendimentos que fazemos a pessoas desesperadas com a vida — às vezes até com as ideias completamente alteradas e com tendências suicidas — se fôssemos ver os nossos grandes organismos como a Cáritas, as Conferências Vicentinas muito presentes na diocese do Porto… Se fôssemos ver as visitas que fazem às casas das famílias pobres, se fôssemos traduzir isso em dinheiro, além dos géneros alimentícios, os pagamentos de eletricidade e medicamentos, são milhões de milhões.

Sente que essa prática passa para o cidadão comum que vive nas grandes cidades? Acha que as pessoas têm noção disso, desse apoio que a igreja vai dando a milhões de pessoas?
Como dizia Jesus: “Quando dás uma esmola, não toques a campainha como fazem os fariseus”. Nós não tocamos campainhas.

Não quer publicidade?
Se calhar devíamos dar os números de forma global. Mas também não os damos porque não temos.

Tem ideia de quantas pessoas ajuda a Igreja da Diocese do Porto?
Estamos a fazer esse trabalho. A nível das instituições diretamente geridas pela paróquia, já temos esses dados quase prontos. Mas isso é uma parte mínima, porque a Igreja, em igualdade de circunstância está presente junto dos pobres e dos presos — é outro setor que também não desprezamos — está presente em 28 misericórdias, que são instituições da Igreja com gestão autónoma. Estão presentes aqui na cidade do Porto, em Gaia e Matosinhos e outros lados, muitas ordens terceiras… Repare que, por exemplo, na cidade do Porto, há 30/40 anos, uma parte significativa do mundo da saúde estava nas ordens terceiras. Hospital da Lapa, Hospital do Carmo, Hospital da Trindade, Hospital do Terço, muitos outros.

D. Manuel Linda teme que a Igreja tenha exagerado na ideia de que é igual assistir a uma missa na internet ou presencialmente

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Houve um aumento de pedidos de ajuda neste último ano a nível económico?
O único dado que tenho é: cerca de 50% das paróquias do Porto, até dia 31 de dezembro de 2020, de maneira extraordinária, em dinheiro alocado à alimentação, gastaram cerca de 700 mil euros. Isto de forma extraordinária, fora aquilo que é habitual.

E disso, consegue-nos dar uma percentagem? São mais de 50%, 60%, 100%, 200%?
Muitas vezes foi quase 100%. Em muitas paróquias, que não tinham esse serviço, tiveram de o criar a partir do zero, e portanto foi 100%. No contexto global, eu não sei, mas posso falar em 50, 60, 70%.

Censos. “Diminuem os números de católicos e chega muita gente do Oriente e do Norte de África”

Pela primeira vez, os Censos perguntam qual é a orientação religiosa. Dados recentes apontavam para cerca de 77% de católicos em Portugal…
81%…

Os números diferem e não há um único resultado. Teme que os dados dos Censos mostrem um valor inferior no número de católicos?
Vai dar, porventura, um bocado menos, mas isso não me faz temer. Nós estamos numa sociedade global e cada vez mais globalizada. Saem muitos dos nossos habitantes tradicionais. Pensemos nos jovens que até há 3 ou 4 anos tinham como grande meta do seu destino a Inglaterra, particularmente, os que estavam ligados ao campo da saúde, mas não só. Saem os tradicionais, que são católicos, e chega muita gente que vem do Oriente, do Norte de África, e que todos — se não forem radicais, e não são — constituem um enriquecimento de perspetivas religiosas. Temos uma comunidade hindu relativamente forte, e temos muito mais forte uma comunidade do Islão.

Acha que os números que vão sair destes Censos podem ser mais baixos?
Diminuem os números de católicos e aumenta, de certeza absoluta, o número desses grupos que, sendo ainda muito minoritário, no seu conjunto, vai subir.

E como é que está a funcionar o diálogo inter-religioso aqui em Portugal?
Em Portugal está bem e no Porto está ótimo.

Têm aqui o bispo anglicano, no Porto, não é?
Temos o bispo anglicano e temos o bispo metodista, dois grandes amigos meus, com quem trabalhei quando era bispo das Forças Armadas e da Segurança num simpósio, que fiz na Academia Militar e que, por sinal, foi o momento alto da minha passagem por essa estrutura. Convidei esses dois grandes amigos, o bispo da Igreja Lusitana, da comunhão Anglicana e o bispo metodista. No Porto há mais de 60 ou 70 anos é vulgaríssimo que os bispos e os hierarcas de outras igrejas, se encontrem aqui na nossa Sé nos grandes acontecimentos e que o bispo do Porto ou algum dos seus auxiliares também esteja presente junto deles quando têm algum grande acontecimento. .

Teme o aumento do radicalismo por parte de algumas organizações religiosas em Portugal?
Eu não sou da polícia… Não tenho conhecimento da realidade como ela é. A polícia está a fazer um trabalho notável para ver se há focos de radicalização. No Porto, quanto me é dado ver não há o mínimo sintoma de radicalização.

Mas sente que esses fenómenos são bem acompanhados pelas autoridades ou não?
Estes fenómenos, que eu saiba, são acompanhados pelas autoridades de perto. Particularmente quando tivemos a desagradável surpresa de saber que alguns dos que ingressaram no exército do ISIS eram cidadãos portugueses.

E como é que o bispo do Porto olha para isso?
Não sou sociólogo, nem tenho chaves interpretativas para julgar isso. Agora, os jovens por natureza, são idealistas, são extremistas…

Acha que é uma rebeldia de juventude?
Não. Um ou outro depois pode canalizar para um certo idealismo de imaginar uma sociedade nova, diferente a partir dessa dimensão religiosa. Como nos finais do século XIX e princípios do século XX nas grandes revoluções, desde a revolução bolchevique, até às revoluções fascista e nazi, que tiveram muitos jovens à frente. O jovem é um idealista e imagina que aquela perspetiva vai criar um mundo novo e mais justo.  É tarefa da polícia observar quando no meio desses idealismos todos algumas pessoas começam a passar para além da sensatez.

“Os pobres não são promovidos e aqueles que já tinham muito passaram a ter muito mais”

E como é que olha também para o fenómeno político? Para uma certa radicalização do discurso político em Portugal?
Há mais de 20 ou 30 anos que eu (e não só) chamamos a atenção que a nossa democracia está a ser meramente formal. Neste momento, cumprimos as regras das eleições: aquele tem mais um voto ganha, aquele tem menos um voto perde. Esse é um dado bonito da democracia, mas é a parte mínima, mínima, mínima… Quando encontramos uma violência institucionalizada entre os próprios partidos, quando vemos a forma como eles se tratam tão pouco democraticamente e se agridem uns aos outros, temos de concluir que esta democracia não tem um timbre de grande qualidade.

Isso é perigoso?
É perigoso. E fundamentalmente, sabemos hoje que há organizações internacionais do mundo da economia que impõem as suas regras aos governos. O sistema democrático e até o sistema da autoridade, ou seja, o sistema do governo e os seus órgãos e instituições, estão desvalorizados face à opinião pública.

E como é que se corrige isso?
Ou há hoje uma revalorização desta dimensão colocando a economia ao serviço de uma justiça social, em que os mais pobres sejam promovidos e que os ricos possam continuar — ninguém tem nada contra os ricos — mas em que as desigualdades não estejam tão visíveis ou então as pessoas deixam de acreditar no próprio sistema democrático.

"Se o Papa tivesse a amabilidade de vir ao Porto, eu punha-me já de joelhos"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

E os partidos políticos e o poder político estão a conseguir comunicar com as vítimas dessas desigualdades?
Eu não duvido da boa vontade, mas na prática o que nós assistimos, segundo as estatísticas, é que a desigualdade cada vez aumenta mais. Os pobres não são promovidos e aqueles que já tinham muito passaram a ter muito mais. Hoje já não é possível pensar a dimensão política a nível local. O nosso mundo, e a própria pandemia, mostra-nos isso, é mais interdependente do que o que possa parecer. Há pouco falámos nas possíveis variantes da Covid-19 e se elas surgem na Conchichina, no Pólo Sul ou no Pólo Norte, elas podem vir-nos a afetar a todos…

Exige respostas globais, é isso?
É. Estamos numa sociedade cada vez mais global. Se nós não tivermos preocupações com aquilo que se passa em Moçambique ou no Extremo Oriente ou outro sítio qualquer, isso redunda em mal para nós, não é só para eles.

Agora, em maio, alguns padres na Alemanha anunciaram que vão abençoar pessoas que se amam englobando os casais homossexuais. Há já quem fale numa espécie de cisma que poderá vir aí. Como é que o senhor olha para estas questões?
A minha Igreja é servida por muita gente que não hipoteca a sua racionalidade. Há aqui dois dados: o da fé e há o dado da sua aplicação à realidade concreta. E nessa aplicação, muitos imaginam que deve ser feita “desta maneira” ou deve ser feita “daquela maneira”. É um trabalho que vem desde o princípio do cristianismo e por isso, temos os concílios, os sínodos, as intervenções pontifícias e as conferências episcopais.

Está a deixar aberta uma porta a uma mudança ou estou a compreender mal?
A mudança é típica de quem tem inteligência. Hoje, o nosso critério de atuação pastoral pode não ser aquilo que se verifica daqui a 10 ou 20 anos.

Poderá mudar, é isso?
A nível do critério pastoral, mas a nível da fé, ela tem de ser sempre a mesma. Há sempre minorias — antigamente chamávamos de extrema direita eclesial ou extrema esquerda eclesial — que avançam por sua conta e risco. E esse avançar é muito perigoso, porque desfaz a unidade da Igreja. Será o caso da Alemanha? Não me queria pronunciar, para já, sobre isso. Vamos ver.

Prefere que se continue a refletir, nunca fechando a porta à mudança?
É isso mesmo, resumiu muito bem. É refletir em unidade de fé e em unidade de oração. Não somos uma multinacional cujo objetivo é subir os nossos rácios de adesão pelo povo. Nós somos uma outra realidade de dimensão espiritual. Espero que os meus colegas sacerdotes reflitam sobre isso, rezem, e se chegarem, depois, à conclusão de que a pastoral deve ser entendida numa determinada dimensão, cá estamos todos para refletir e para os acompanhar.

O Papa Francisco já anunciou que vai regressar a Portugal. Gostava que ele viesse ao Porto? Ainda não é desta?
(risos)  Essa é a pergunta… Tem uma resposta facílima! Como é óbvio, seria uma extrema honra para o Porto…

E como é que isso se consegue?
Não sei se se consegue, porque não é tradição. Eu creio que nunca aconteceu que o Papa, quando vai a umas Jornadas Mundiais da Juventude, se desloque a qualquer outro local. Ele já anunciou que vai a Fátima, mas o Santuário é um centro de espiritualidade e é diferente da Diocese do Porto. E o Papa vai lá até por devoção pessoal. Agora, se ele tivesse a amabilidade de vir ao Porto, eu punha-me já de joelhos.

Mas vai tentar? Vai mandar uma mensagem? Já fez algum convite?
(Gargalhada) Não até este momento não foi feito, mas provavelmente será.

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