Bloco de notas da reportagem na CDU. Dia 9. Os pescadores, Passos Coelho e a igualdade de género na campanha /premium

21 Maio 2019

Num dia passado entre os corredores da universidade, o porto de pesca em Peniche e as ruas de Coimbra, João Ferreira trouxe o tema da igualdade de género pela primeira vez à campanha.

João Ferreira tem apostado numa campanha com passagens pelos locais onde a CDU é forte, por motivos históricos e autárquicos. Por isso, a caravana passou os primeiros oito dias de campanha no Sul, na Grande Lisboa e no Ribatejo. Agora, na reta final, começou a subir — e em três dias irá cobrir o resto do país.

Esta terça-feira, depois de conversar com investigadores e professores universitários em Lisboa sobre o estado e o financiamento da investigação científica, João Ferreira seguiu diretamente para Peniche, onde se encontrou com pescadores e armadores para discutir os apoios europeus ao setor das pescas. A receção foi discreta — a maioria dos pescadores, que recebem consoante o trabalho que fazem e o peixe que apanham, não podiam parar de trabalhar e João Ferreira também não os quis atrapalhar muito. Conversou com meia dúzia, observou o trabalho e disse-lhes o que pretende fazer por eles em Bruxelas antes de seguir viagem. Mas a passagem pelo porto de pesca serviu também para falar aos jornalistas — e deixar críticas a Passos Coelho (que “associa” PSD à crise) e aos que “tocam bateria e andam de helicóptero”.

Mais uma centena de quilómetros para norte e chegou a Coimbra, para colocar as condições de trabalho na agenda. Numa arruada, anunciou uma proposta nova: a criação de um observatório europeu para a igualdade de género no trabalho. A cidade dos estudantes — onde a arruada da CDU foi tão fotografada por turistas como as tunas académicas, como se fosse mais uma tradição portuguesa — serviu de palco para João Ferreira trazer para a agenda o tema da igualdade de género, que ainda não tinha surgido na campanha.

A passagem pela região centro não fica, porém, completa sem um comício na Marinha Grande, autarquia que já por diversas vezes esteve nas mãos da CDU — em alternância com o PS, que a lidera hoje. João Ferreira vai jantar a correr antes de seguir para lá, já que a organização da campanha apenas separou o início dos dois momentos por duas horas.

Alto. Mais país. Depois de vários dias concentrados na Grande Lisboa e alguns no Alentejo, João Ferreira começou a rumar a norte — ainda que para passagens de fugida por vários locais do centro e norte do país — para levar a campanha a outros locais de Portugal.

Baixo. O contacto com os pescadores. Estava muita gente a trabalhar no porto de pesca de Peniche, mas foram poucos os que pararam para falar com João Ferreira. Não podiam largar o trabalho e, por isso, acabariam por ficar muitas conversas por fazer, para usar uma expressão repetida pela CDU. Um encontro com os pescadores noutro momento teria sido mais produtivo.

Francisco António Gonçalves Encarnação. Pescador há mais de três décadas, passou pelas embarcações da apanha da lagosta antes de regressar a Peniche e à pesca do cerco. Esta terça-feira, descarregava uma caixa de carapaus junto ao barco quando João Ferreira lhe apareceu ao lado. Próximo dos dirigentes locais da CDU, Francisco Encarnação sabia quem era o candidato e conhecia o trabalho da coligação “lá na Europa” no que às pescas diz respeito. Por isso, dirigiu-se a João Ferreira para um obrigado sincero, depois de conversar com os dirigentes locais que receberam o candidato.

Quero agradecer-lhe em nome de todos os pescadores, continue assim”, diz-lhe. Depois, fica durante vários minutos a ouvir João Ferreira explicar-lhe o que foi feito, o que não foi, o que há de ser feito e o que, diz, o distingue dos outros políticos (“vocês sabem que nós estamos aqui hoje, mas estivemos aqui várias vezes ao longo dos últimos cinco anos”). A conversa, que começou com um pescador Francisco desencantado com a União Europeia e as quotas de pesca que lhe impõem, deslocou-se rapidamente para as câmaras de televisão.

Francisco ficou por ali na faina. Aos jornalistas que o interpelaram depois, explicou o seu trabalho quotidiano. Saem para o mar às 14h, voltam perto das 23h. Depois, descarregam, e repetem o processo, estando de regresso a terra pela manhã cedo. Só aí vão descansar. São muitas horas para depois venderem 25 quilos de peixe a 6 euros, como era o caso da caixa que descarregava naquele momento. “Não temos salário certo todos os meses, a gente vive consoante o que pescamos”, diz. “Quando não podemos ir ao mar, temos de ficar em terra e não há vencimento”, lamenta.

Para já, não pesca sardinha, ainda não abriu a época. Só carapau, cavala… “Depois de uma noite de trabalho”, diz em tom de lamento, saem 700 ou 800 cabazes, daqueles que podem custar 6 euros cada um. Para pagar à companha inteira. “Um preço irrisório”, diria depois João Ferreira, quando alegrou os pescadores ao mencionar a possibilidade de aumentar os preços da primeira venda do peixe e definir valores mínimos. Um alento que desvanece depressa. Quando João Ferreira segue caminho, Francisco volta a colocar as luvas e atira-se ao trabalho.

Numa animada arruada ao final da tarde, em Coimbra, o colorido das bandeiras, os bombos, tambores e gaita-de-foles chamaram a atenção para a iniciativa da CDU. E não foram apenas os potenciais eleitores. Também houve muitos turistas a fotografar o passeio de João Ferreira acompanhado por elementos do partido. Very typical.

De Alhandra, onde terminou a campanha no domingo, João Ferreira seguiu para Moscavide, para uma arruada na segunda-feira (26 quilómetros). Dali, para o Couço (90 quilómetros). Depois, foi ao debate na RTP, no Teatro Thalia, em Lisboa (98 quilómetros). Esta segunda-feira, começou perto, na Universidade de Lisboa (2 quilómetros); seguiu para Peniche (98 quilómetros); dali para Coimbra (156 quilómetros) e há de acabar o dia com um comício na Marinha Grande (86 quilómetros).

Total percorrido desde segunda-feira: 1.824 quilómetros.

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