Bloco de notas da reportagem na CDU. Último dia. A desvalorizar sondagens até ao fim e a esperar manter três eurodeputados /premium

24 Maio 2019

O dia começou com um brinde e incluiu a enorme descida do Chiado, em Lisboa. Desvalorizando as sondagens até ao último minuto, a CDU precisa de manter os 3 eurodeputados, mas pode falhar o objetivo.

João Ferreira chegou ao último dia de campanha tal e qual como esteve no primeiro: concentrado na estratégia, sem desvios ao alinhamento inicialmente seguido. O cabeça-de-lista da CDU entrou na campanha com a missão de lembrar aos eleitores o que a coligação fez no Parlamento Europeu e de lhes assegurar o que pretende fazer na próxima legislatura. Por isso, não faltaram os exemplos concretos e os contactos diretos — sempre sem ir para fora de pé, sem encenações para a televisão, sem momentos “engraçadinhos” e sem grandes histórias paralelas. Foi apelo ao voto puro e duro, ao estilo da CDU.

Nos primeiros dias, enquanto nas outras caravanas trocavam acusações, João Ferreira mostrava-se imperturbável e concentrado no essencial. Lembrou o que foi feito na área do mercado laboral, das alterações climáticas ou das pescas. A única interação que foi tendo com as outras candidaturas foi no sentido de lhes lançar desafios. Quando afirmava o que a CDU pensava sobre um tema, desafiava logo PS, PSD e CDS a assumirem as suas posições.

Acabaria por chegar ao fim da campanha sem respostas vindas da outra parte — e à medida que se aproximava do final da segunda semana foi intensificando os ataques. Acusou sempre o PS, PSD e CDS de votarem “alinhados” em Bruxelas, de não se distinguirem no essencial e de “encenarem” diferenças secundárias para alimentar a campanha. E para isso “não contem com a CDU”, repetiu. Viria, mais para o final, a atirar os ataques mais duros ao PS, acusando os socialistas de “lata e descaramento” relativamente à questão do contrato social para a Europa.

Apostada em fixar o eleitorado, a campanha da CDU focou-se essencialmente em zonas onde a coligação tem grande força eleitoral. Percorreu vários municípios comunistas e bastiões históricos e dedicou metade do tempo da campanha à região da Grande Lisboa. A passagem pelo centro e norte ficaria marcada por arruadas que não aqueceram muito — e usadas amplamente pelo candidato para assinalar, perante a comunicação social, que a caravana não tinha passado todo o tempo nos bastiões comunistas. Até chegou mesmo a pedir “um novo bastião comunista em Gondomar”.

No último dia, a caravana optou por zonas seguras. Uma arruada no Barreiro, a descida do Chiado, um jantar em Santa Iria da Azóia e um comício no Seixal encerraram uma campanha que se manteve fiel ao guião desde o início, com poucas flutuações de discurso e sem mudanças de agenda ao sabor dos ventos da campanha.

Alto. João Ferreira apresentou propostas concretas, palpáveis e que falam diretamente aos eleitores. O candidato soube aproveitar a presença da comunicação social junto da caravana para alertar para várias situações que considera serem de injustiça social e soube gerir os momentos em que esteve à frente dos microfones das televisões para apresentar propostas específicas para responder a problemas reais.

Baixo. A diferença entre a mobilização popular à volta da caravana nos chamados bastiões comunistas e nos locais (sobretudo a norte) onde a coligação tem menos força evidenciam bem que a esmagadora maioria das pessoas com quem João Ferreira contactou não precisavam de ser convencidas a votar na CDU. É certo que o candidato entrou em muitos cafés e lojas pelas ruas onde passou, mas a falta de entusiasmo no contacto direto com os potenciais eleitores não permite vislumbrar que tenha conseguido chegar muito além daquilo que já é o eleitorado da coligação.

Atualmente com três lugares no Parlamento Europeu, a CDU partiu para esta campanha com um objetivo claro: manter os três eurodeputados que tem. Para isso, precisava de garantir que o seu eleitorado não fugia para outras opções — e por isso apostou numa campanha focada em estimular o entusiasmo dos apoiantes e em fixar o eleitorado que já tem.

Muitas arruadas em terras comunistas, almoços, jantares e comícios em históricos bastiões e um evidente foco na região da Grande Lisboa, onde passou metade da campanha, marcaram estas duas semanas, num claro esforço de manter os eleitores que já sabe (ou espera) ter.

Porém, as várias sondagens que foram sendo conhecidas durante estes 15 dias pareceram frustrar as ambições da CDU, dando todas um resultado semelhante: a perda de um dos eurodeputados e a possibilidade de ficar atrás do Bloco de Esquerda. João Ferreira desvalorizou as sondagens todas com o mesmo argumento: “Não somos espetadores desta campanha, estamos ainda a construir o resultado”. Na arruada do Chiado, nesta sexta-feira, o próprio Jerónimo de Sousa afirmou que ainda faltavam “horas para ganhar mais um indeciso”.

Mas o secretário-geral do PCP já tinha começado a preparar o terreno para a possível derrota eleitoral da coligação, quando reconheceu que a conjuntura social de 2014 era diferente da de hoje, com um povo “fustigado” pela “violência da troika” e pelo “pacto de agressão”. Ao longo da campanha, João Ferreira também vinha desvalorizando as percentagens de votos, assinalando sempre que o essencial nestas eleições era a escolha dos 21 eurodeputados portugueses, e não quem fica à frente ou atrás.

O resultado definitivo só se conhecerá no domingo, mas a confirmarem-se as projeções apontadas pelas sondagens, estão já lançadas as bases para os argumentos com que a CDU poderá explicar a perda de um eurodeputado.

Mariano Vargas e António Espírito Santo. Têm ambos 83 anos, são militantes do PCP há várias décadas e fazem parte da tradição eleitoral da CDU. Como em tudo, há coisas que nunca mudam. Na coligação PCP-Verdes, as coisas que nunca mudam são quase todas. As arruadas iguais nos mesmos sítios, os discursos nas mesmas praças, os mesmos apelos de sempre. E o mesmo moscatel com bolinhos na rua Miguel Bombarda, no Barreiro, servido a Jerónimo de Sousa e a outros líderes comunistas por Mariano e António.

Os dois homens, naturais do Barreiro, são responsáveis pela distribuição de propaganda da coligação no centro da cidade. Durante todos os dias da campanha eleitoral, têm ali uma banca com panfletos, autocolantes, o Avante! e bandeiras. Sempre disponíveis para esclarecer quem passa sobre a CDU, vão apelando ao voto como podem. Mas o ponto alto é o último dia, a passagem da grande arruada por aquela artéria do Barreiro.

Jerónimo de Sousa já os conhece e não se nega a beber um moscatel e a comer um bolinho, mimo especial da banca no dia em que a caravana por ali passa. João Ferreira também não — e brindam todos à campanha que acaba agora. “Quando ele vem cá fazemos sempre isto. Distribuímos a propaganda por aí durante o dia, mas o moscatel é sempre no último dia quando ele cá vem”, explica Mariano Vargas ao Observador, depois da passagem da arruada. “Prova sempre, bebe só um bocadinho com um bolinho e vai satisfeito”, diz o homem, visivelmente orgulhoso.

Quando lhes perguntamos quem são, identificam-se como “militantes do glorioso Partido Comunista Português”, com a alegria de quem acabou de servir um copo e de arrancar um sorriso ao líder do partido. Servem mais um, “prove que vai gostar”, e siga para as urnas no domingo. “Saúde, hein!”

A arruada do Chiado, em Lisboa, foi o momento mais participado e entusiasmado da campanha. Centenas de pessoas desceram a rua Garrett e a rua do Carmo num cortejo encabeçado por João Ferreira e Jerónimo de Sousa. O candidato afirmou mesmo que a arruada era a prova de que a campanha estava “em crescendo”.

LUSA

No último dia de campanha, a caravana da CDU regressou à Grande Lisboa. João Ferreira fez 349 quilómetros para ir do Porto até ao Barreiro; mais 40 quilómetros para ir descer o Chiado, na baixa de Lisboa; andou mais 22 quilómetros até Santa Iria da Azóia para um jantar e, finalmente, acabará a campanha com um comício no Seixal, percorrendo mais 52 quilómetros.

Feitas as contas, a caravana da CDU acabou a campanha eleitoral com 2.944 quilómetros percorridos.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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