Bloco de notas da reportagem no BE. Dia 5. Marisa não arrisca. Uma campanha sem multidões /premium

18 Maio 2019

O Bloco de Esquerda apostou novamente em ações sem contacto popular. Em ambientes controlados e junto de eleitorados favoráveis, o partido não arrisca e vai fazendo uma campanha tranquila.

E ao quinto dia de campanha, o Bloco de Esquerda voltou a dispensar o contacto popular. Desde que a campanha bloquista começou que tem optado por fazer ações de campanha em ambientes controlados. Quando sai para a rua, o partido tem o objetivo tão fechado que é difícil promover o contacto com a população. Poucos serão os habitantes do Porto que esta sexta-feira deram pela passagem do partido pela cidade — como já tinha acontecido em Beja, por exemplo.

Tirando o momento dos comícios, em que a entrada é livre, o contacto dos bloquistas com a rua tem sido quase nulo. E mesmo nesses momentos o contacto é relativo, já que a maior parte do tempo é passada a ouvir os vários discursos da noite.

Foi assim com a causa animal, tentando arranhar a fatia do eleitorado do PAN, com o comício feminista de quinta-feira e com as ações desta sexta-feira: primeiro na EMEF, com reforço sindical — CDU, fait attention – e depois numa visita a uma cuidadora informal, que é uma bandeira do BE que o CDS também tem tentado cunhar como sua.

Conseguindo sempre relacionar os temas que tem abordado com a Europa, Marisa Matias voltou a escolher ser a candidata que quer marcar a campanha pelo discurso exclusivamente concentrado nas eleições europeias com um perfil mais low-profile. Mas esta postura tem o reverso da medalha: pouca garra nas intervenções.

Isto apesar de, aqui e ali, ir lançando umas farpas aos adversários que não chegam a atingir verdadeiramente os alvos. Algo que pode vir a ser compensado com o “mega-almoço” e com a arruada programados para sábado, em Lisboa. Um ambiente  onde a candidata se sente confortável e em que costuma sair vencedora.

“Estou, senhor Pires? Daqui é a Marisa”

O momento fez lembrar as peripécias a que Marcelo Rebelo de Sousa foi habituando os portugueses. Ver um político a telefonar a um cidadão comum tornou-se quase um ato com patente presidencial. Mas não é. E Marisa Matias comprovou-o esta tarde durante a visita que o Bloco de Esquerda fez às instalações da EMEF no Porto.

Ao início da visita, a candidata passou por um conjunto de trabalhadores que olhavam de longe para o aparto causado com a chegada da comitiva do Bloco de Esquerda. O contacto com aqueles funcionários não fazia parte dos planos da visita, por isso a cabeça-de-lista do partido prometeu que voltaria no fim do percurso para lhes dar uma palavrinha.

Ao fim de uma hora, Marisa Matias regressou de facto ao ponto de partida para falar ao grupo. Mas faltava uma pessoa. Por sinal a que mais tinha insistido para que a eurodeputada regressasse “mesmo”. A candidata deu pela sua ausência e perguntou por ele. “O senhor Pires já foi embora”, responderam. A bloquista pediu o número do funcionário, pegou no telemóvel e ligou-lhe.

“Estou, senhor Pires? Daqui é a Marisa. Então eu disse que vinha aqui no fim ter consigo… Não acreditou em mim?”. Do outro lado a resposta foi longa. “Olhe, quando passar esta confusão toda voltamos a falar, está bem? Este é o meu número”, rematou.

Alto. Um dia sem sobressaltos. Se é certo que às vezes o controlo que o Bloco de Esquerda tem tido sobre as suas ações de campanha torna alguns momentos mais enfadonhos, também é verdade que Marisa Matias quase nunca foi apanhada pela imprevisibilidade ou por algum contratempo. A candidata tem conseguido que os objetivos não falhem. Esta sexta-feira voltou a ser um dia tranquilo para a candidata — um ambiente que cola bem com a imagem de moderação em que tem apostado, sem arriscar.

Baixo. Ausência de contacto popular. Como a própria Marisa Matias afirmou ao Observador no dia 25 de abril, “a campanha é um momento de contacto com os eleitores por excelência”. No entanto, essa não tem sido a tónica desta campanha. Embora tenha vindo a ouvir representantes de fatias do eleitorado que são targets do Bloco de Esquerda, tem dispensado o contacto com o cidadão comum, onde muitas vezes estão os votos dos indecisos. Uma decisão que deixa de fora da campanha até agora um dos maiores trunfos da candidata, que nas ruas goza de alguma popularidade que podia capitalizar.

Luísa Vieira, de 59 anos. Vive no Porto, em Paranhos, com o seu marido, Jorge Silva, de 60 anos. “Ziza”, como é conhecida entre os seus amigos, não trabalha há cerca de sete anos para cuidar do seu marido, que sofre de alzheimer desde os 53 anos. Fá-lo a tempo inteiro. É uma dos 800 mil cuidadores informais existentes em Portugal.

“Não recebo qualquer ajuda do Estado. Além da pensão do Jorge [410 euros], recebemos apenas 105 euros mensais do complemento de dependência dele”, diz.

O trabalho recai quase todo sobre Luísa, que conta com “a preciosa ajuda” dos dois filhos, que só não ajudam mais “porque trabalham”. Uma vida suspensa que raramente dá a esta cuidadora informal algum tempo livre para si própria. “Quando consigo ter uma hora para ir tomar um café com uma amiga é uma alegria“, desabafa.

Os dias são duros. As noites, “a pior parte”. “Às vezes digo-lhe para calçar um chinelo e ele não percebe o que eu quero e não consegue mexer a perna para que eu o ajude”, exemplifica.Um relato feito na primeira pessoa aos jornalistas com Marisa Matias a ouvir. Apesar de já conhecer a história desta cuidadora informal, de quem é amiga, a cabeça-de-lista chegou a emocionar-se várias vezes.

LUSA

Marisa Matias esteve esta tarde nas instalações da EMEF no Porto. Depois de ouvir explicações sobre uma carruagem de 1924, e ladeada por José Gusmão e Sérgio Aires — os números dois e três da lista –, a candidata decidiu agarrar-se ao volante da locomotiva para simular que a conduzia. Com algum esforço, conseguiu rodar a manivela. Um retrato curioso e que levou os jornalistas a questionar a eurodeputada sobre se era aquela a equipa que queria levar com para Bruxelas “Estamos aqui os três”, respondeu de forma sugestiva. Mas logo de seguida tentou pôr água na fervura, não vão as expectativas escalar. “Mas não traço metas”, concluiu.

Depois de um dia passado exclusivamente na cidade de Coimbra, o Bloco de Esquerda voltou a fazer-se à estrada. O quinto dia de campanha começou nas instalações da EMEF no Porto. Seguiu-se a visita a casa de Luísa Vieira, uma cuidadora informal que reside em Paranhos, também no Porto. Para encerrar o dia, novo comício. Desta vez em Aveiro. O dia só fica concluído depois de a comitiva viajar até Lisboa, onde passará o sábado. No total, 462 quilómetros. Desde segunda, o conta-quilómetros do Bloco de Esquerda já marca 1.867 quilómetros.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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