Bloco de notas de reportagem no CDS. Dia 2. Melo e Cristas com o dedo na ferida de Costa (e nos fundos) /premium

14 Maio 2019

CDS fez um três em um numa só manhã: alertou para o interior, falou dos fundos comunitários e pôs o dedo na ferida de Costa (os fogos). Mesmo quando a realidade tentou estragar a boa história.

A caravana centrista parou esta terça-feira no interior esquecido. No distrito de Coimbra, Nuno Melo visitou duas empresas de setores diferentes — transporte de mercadorias e setor alimentar — no mesmo polo empresarial em Vila Nova de Poiares, numa zona que foi afetada pelos fogos. Com Mota Soares e Raquel Vaz Pinto, Nuno Melo fez três em um numa só manhã: falar do interior, dos fundos comunitários e pôr o dedo na ferida de Costa, os incêndios. Pelo meio ainda atingiu Pedro Marques em cheio, já que era ele que, enquanto ministro, estava responsável por algumas destas pastas: os fundos e a requalificação das casas destruídas pelos incêndios.

Nuno Melo começou cedo, pelas 8h30, entrou no camião, fez o trajeto dito complicado, falou com a associação empresarial, ouviu queixas, defendeu que os fundos comunitários podiam ser aplicados em melhores acessibilidades no interior, para ajudar os empresários a escoar os seus produtos, e seguiu para a fábrica de bolos ali ao lado. Baralhar e dar de novo: com a bata e a touca vestidos, visitou uma empresa com 222 funcionários e a contratar, que exporta para 13 países e tem um nível de vendas para este ano estimado em 16.5 milhões de euros. Um sinal positivo do bom que se faz no interior. Também aí meteu Europa: a Nutriva candidatou-se por duas vezes aos apoios do Portugal 2020. E conseguiu aprovação do Governo. Mas o objetivo não era alertar para as falhas do Governo? Ficámos confusos. Mais ainda quando no power point que foi mostrado sobre a empresa, entre as “figuras relevantes” que ali tinham estado, à cabeça encontrava-se precisamente António Costa. “Também, mal fora que o governo não aprovasse alguns projetos”, chegou a dizer Melo para esvaziar a temática.

Dali, a caravana (já com a líder do CDS a bordo) seguiu para Oliveira do Hospital, para visitar duas aldeias onde Assunção Cristas tinha estado em dezembro, e onde tinha dado conta dos atrasos nas obras de reconstrução das casas consumidas pelos fogos. O ritmo foi dinâmico, a caravana seguia a todo o gás, sem paragens e com encadeamento. Mas à chegada à aldeia de Vilela, Cristas foi diretamente ter com uma senhora idosa, de 95 anos, com quem tinha estado em dezembro, e que naquela altura ainda não tinha recuperado a casa. Surpresa: já estava de chave na mão, pronta para se mudar no próximo sábado. Então não era para alertar para as falhas do Governo? Era, e foi. A caravana deu a volta: o CDS esteve no terreno a alertar para aquela situação e foi por isso que o processo se desbloqueou. E dois anos para recuperar uma casa — que tinha o carimbo de prioritária — , convenhamos, é muito tempo.

A visita, ainda assim, serviu para pôr o dedo na ferida de Costa: os incêndios de 2017 que mataram dezenas de pessoas e que deixaram centenas sem casa. E para voltar a falar dos fundos comunitários, neste caso para a floresta, que, segundo Nuno Melo, estão executados apenas entre 13% e 40% e as árvores queimadas continuam à vista.

“A vocação do CDS é pilotar, não é ser pendura, e tudo o que o CDS faz, e a lista de pessoas que tem, mostra que o CDS era melhor a conduzir, só não teve ainda os votos para isso. E mesmo quando vai de pendura, o CDS tem feito a diferença”.

Nuno Melo começou o dia a fazer um curto trajeto de camião TIR. O mote era pedir melhores acessibilidades, melhores acessibilidades no interior e melhor aproveitamento dos fundos comunitários para acessibilidades. Mas a viagem no lugar do pendura também motivou paralelismos políticos. Questionado sobre se gostava de ir à pendura, Nuno Melo percebeu a provocação e respondeu à letra. Primeiro, não tem carta de pesados. Depois, prefere pilotar. Não sendo possível pilotar, no lugar do pendura também se consegue fazer a diferença. E evitar acidentes? Talvez. Curioso é que há quem chame ao lugar do pendura, o lugar do morto. Mas isso não é para aqui chamado.

Alto: A Europa. Parecendo que não, a Europa anda sempre na ponta da língua de Nuno Melo. Ou melhor, a execução dos fundos comunitários, a real e a desejável, andam sempre na ponta da língua de Nuno Melo. No primeiro dia foi o mar e a necessidade de alocar dinheiros europeus à campanha Plástico Zero. No segundo, foram as acessibilidades e as florestas. Mais fundos, melhor execução. Nuno Melo não tem entrado demasiado no “bate-boca” com os restantes candidatos — mesmo que ele e Paulo Rangel estejam a andar praticamente pelos mesmos distritos, a par e passo — e tem procurado pôr sempre um bocadinho de “fundos” na rota do dia.

Baixo: Sócrates. Quanto ao discurso político, Nuno Melo não larga José Sócrates. Antecipando as críticas, defende-se com a ideia de que Sócrates não é passado, “é presente”, na exata medida em que cinco membros da lista do PS às europeias eram seus governantes, incluindo Pedro Marques. Até o número da foto de Sócrates e António Costa abraçados repetiu na noite passada, no jantar em Coimbra, depois de já o ter feito no primeiro debate televisivo com os candidatos. A ideia é colar Pedro Marques (o candidato formal) e António Costa (o candidato real) a José Sócrates e ao despesismo de José Sócrates. Mas já se percebeu a ideia.

Laura tem 95 anos e aguardava, no banco mais religioso da aldeia de Vilela, pela chegada da caravana centrista. Ou pela chegada de alguém, diga-se, já que não pareceu reconhecer bem quem era quem no meio de tanto aparato. A filha, assim que viu a comitiva, ainda tentou esvaziar o assunto dizendo que “já temos a nossa casinha”. Primeiro, pareceu confundir Assunção Cristas com “a senhora da Santa Casa”, mas depois lá percebeu que era a mesma Assunção Cristas que tinha estado ali em dezembro, num dia “bem mais frio do que o de hoje”, a chamar a atenção para o problema da reconstrução da sua casa — cuja obra estava parada.

Segundo contou a líder do CDS, o processo estava bloqueado por falta de pagamento aos empreiteiros e entretanto, depois da ida do CDS ao terreno, motivando depois reportagens televisivas sobre o caso, o processo foi desbloqueado. Hoje, a casa está pronta a ser habitada, e Laura vai finalmente sair da casa da filha, para onde foi há dois anos, quando o fogo levou a sua. Nada disto parece ter a ver com europeias. Mas é mais uma prova viva e trágica dos incêndios de há dois anos — que aconteceram sob a tutela de António Costa. Quanto a Laura, não quer saber de eleições, de partidos, nem quer saber de uma casa nova em folha, só queria a sua casa de sempre, com as suas coisas e as suas memórias.

Parece que ia cair, mas não caiu. O dia correu sem incidentes a Nuno Melo, que andou a chamar a atenção para os problemas do interior do país e a sublinhar os estragos dos incêndios que ainda não foram sarados, quase dois anos depois.

PAULO NOVAIS/LUSA

De Coimbra a Vila Nova de Poiares, de Vila Nova de Poiares a Oliveira do Hospital, daí para o Fundão e do Fundão para Rio Maior, indo dormir a Lisboa: a caravana do CDS percorreu neste segundo dia de campanha oficial nada menos do que 476 quilómetros.

Total acumulado: 735 quilómetros (a contar desde segunda-feira).

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