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Bode Miller, a lenda do esqui alpino. "Passei grande parte da minha carreira com medo" /premium

Bode Miller cresceu numa cabana sem eletricidade, jogou ténis e futebol, ganhou títulos olímpicos e mundiais e é comentador. Ao Observador, explica a receita para o esqui ser mais seguido em Portugal.

“Saudades? Honestamente, não sinto falta nenhuma da competição. Hoje, quando estou a assistir a uma corrida, sinto-me mesmo feliz por não fazer aquilo, pelo nível de stress e de preocupações pelo nível de risco que tinha. Talvez fosse diferente para mim, porque tomava imensos riscos para estar ao nível que queria. Se fosse como o Hirscher ou o Kristoffersen, que não têm de arriscar tanto, as coisas podiam ser diferentes. Estou agradecido por não ter de estar a fazer aquilo ainda e contente por ter o meu corpo a trabalhar. Estou satisfeito por ter sobrevivido a isso – tinha consciência que o meu tempo estava a chegar ao fim, deixei o legado que ambicionava e por isso estava pronto na altura de terminar a carreira.”

Um ano e meio depois de ter terminado uma das mais gloriosas carreiras de sempre no esqui alpino e nos desportos de inverno, aquele estilo desconcertante está lá todo. Se perguntarem a Pelé ou Maradona se têm saudades dos tempos em que jogavam ou se têm vontade de rebobinar a fita do tempo às alturas, até por questões físicas a resposta instintiva podia ser não mas, passados os segundos, o “bichinho” interno lá mordia e deixava escapar um “mas…” entre dentes. E era assim com eles como também poderia ser com Michael Jordan, Pete Sampras, Alain Prost ou Usain Bolt (propositadamente, Michael Phelps fica de fora nesta lista dos melhores entre os melhores já retirados mas por razões distintas que o próprio consegue hoje assumir). Aos 41 anos, Bode Miller continua igual a si próprio. E mantém os “mínimos olímpicos” de ligação à modalidade, sendo o comentador do Eurosport neste Campeonato do Mundo de Esqui Alpino que está a decorrer na cidade sueca de Äre. Uns viram dirigentes, outros treinadores, outros ainda conselheiros; o americano prefere apenas desfrutar daquilo que gosta mas hoje não lhe faz falta.

É por figuras como Bode Miller que os desportos de inverno, nomeadamente o esqui alpino, ganharam outra atenção. Por toda a sua história, por todos os feitos e pela própria personalidade, o americano nascido em Easton (New Hampshire) tornou-se uma espécie de pop star da modalidade. Foi – e continua a ser – referência para as novas gerações, tornou-se um ícone ao conquistar quatro ouros em Campeonatos do Mundo e um (entre seis medalhas) nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2010. Tudo ao longo de duas décadas, onde conseguiu ainda mais de 30 vitórias em Taças do Mundo e registos como o facto de ter sido um dos cinco atletas que ganharam provas nas cinco disciplinas – sendo o único a ganhar cinco ou mais vezes em cada uma. Mas o início de vida, que o puxou para o mundo do esqui, apontava para tudo menos um traçado com tantos êxitos.

Bode Miller e a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, um dos pontos altos da carreira

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Bode cresceu numa cabana nas Montanhas Brancas de New Hampshire. A história que teve início nos avós, que se conheceram no esqui: o avô era um oficial da marinha que queria aprender a esquiar e queria abrir uma estância por causa da guerra, a avó era uma instrutora de esqui que fazia competição. Depois da Segunda Guerra Mundial, compraram um terreno nessa zona e foi aí que o antigo campeão olímpico e mundial cresceu, sem eletricidade ou canalização interna, como vegetariano e a ter aulas em casa. O esqui tornou-se uma inevitabilidade mas também lhe trouxe alguns sustos, como quando quase ficou debaixo de uma avalanche com apenas 13 anos. Desde miúdo que o seu objetivo era apenas um: ser o mais rápido de sempre. De forma quase desprendida, passava ao lado do ganhar taças mas tinha uma meta pessoal com muito de olímpico – ser mais forte para se tornar mais rápido e chegar mais alto. Foi esse espírito altius, citius, fortius que o levou onde provavelmente não pensaria chegar.

Conseguiu uma bolsa para a Carrabassett Valley Academy numa altura em que já andava na escola depois da separação dos pais. À partida, tudo linear em relação ao seu futuro. Mas se o esqui foi como amor à vista, o ténis e o futebol tornaram-se romances que não quis deixar durante vários anos. Um dia, lá acabou por deixar. E ainda havia uma paixão menos referida que só mais tarde se tornaria conhecida – os cavalos. Tudo começou com um sonho, o sonho de um cavalo que gostava e que um dia iria buscar. O mesmo cavalo que tem num total de oito. Outro pormenor na vida de alguém que permanece avesso às tecnologias e à imprensa. “Os jornais deprimem-me, a TV estupidifica e a rádio está cheia de música má e pessoas que falam mais do que sabem”, disse um dia, explicando o porquê dessa fraca ligação com os meios de comunicação.

O esqui foi como amor à vista, o ténis e o futebol tornaram-se romances que não quis deixar durante vários anos. E ainda havia uma paixão que só mais tarde se tornaria conhecida – os cavalos.

Em 1998, com apenas 20 anos, Bode Miller aparece nos primeiros grandes eventos pela equipa americana: o Campeonato do Mundo e os Jogos Olímpicos de Inverno. Conseguiu chegar a um pódio da Taça do Mundo em 2000 mas foi em 2002 que tem o ano de afirmação, quando conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Olímpicos de Salt Lake City, no combinado e no slalom gigante. O americano vivia então os anos de maior sucesso: nos Mundiais de St. Moritz, em 2003, sagrou-se campeão no combinado e no slalom gigante (ganhando ainda a prata no Super-G); no Campeonato do Mundo seguinte em Bormio, dois anos depois, ganhou o Super-G e o downhill. No entanto, em 2006, chegou o reverso da medalha: no seguimento de declarações que levantaram polémica, como dizer que “o esqui é uma modalidade desperdiçada”, falhou por completo nos Jogos de Inverno em Turim (quinto no downhill, sexto no slalom gigante) e tornou-se uma espécie de alvo preferido da imprensa internacional.

Americano começou a dar nas vistas nos Jogos de 2002, onde conseguiu duas pratas em Salt Lake City

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Pouco depois, Bode Miller tomou a decisão de deixar a USA Team e passar a competir como independente. Correu bem, em 2007; correu muito mal, em 2008: depois do triunfo na Taça do Mundo, esteve largos meses sem vencer qualquer prova e começou a pensar-se que essa trajetória poderia refletir uma carreira também em queda, adensado por uma lesão no seu tornozelo esquerdo. O próprio chegou a admitir a possibilidade de reforma mas essa atitude mais não foi do que um aliviar de pressão para recuperar o fôlego, regressar à equipa americana e voltar aos triunfos nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, em Vancouver, onde ganhou o ouro no super combinado, a prata no Super-G e o bronze no downhill, antes do calvário de problemas físicos que lhe roubou vários meses até aos Jogos seguintes, em Sochi, onde conseguiu o bronze no Super-G. Seria o último grande momento antes de três anos marcados por lesões, paragens para passar mais tempo com o filho e disputas legais por causa da marca dos esquis que teria de utilizar. De forma inevitável, anunciaria em outubro de 2017 o final da carreira.

“Segredos? Passei grande parte da minha carreira com medo”, admitiu numa entrevista a jornalistas de vários países. “Percebi desde muito cedo que havia uma série de atletas melhores do que eu tecnicamente e também na parte física, mais fortes e mais atléticos. Para ganhar e chegar aos resultados que queria, tive de tentar e arriscar mais. Passou tudo pela parte mental e pela minha intensidade. Tive de ser mais direto, fazer linhas mais arriscadas – e fazer isso com maior intensidade. Era assustador porque assumia os riscos que os outros não tinham de assumir num desporto que por si só já é perigoso. A parte boa disso é que ficava mais interessante para quem via. Isso foi algo que consegui acrescentar ao desporto e ajudar outros atletas”, acrescentou.

"Agora que estou retirado, a passar tempo com os meus filhos, sinto-me um afortunado por ter o meu corpo ainda em tão boas condições, sem dores. Posso jogar golfe. O objetivo deve ser terminar de acordo com os próprios termos."

“A minha retirada acabou por ser fácil porque não fui daqueles atletas que tive o corpo a dizer para parar. Sabia bem com a minha família quais eram as minhas prioridades. O final resulta para qualquer atleta quando olhamos para o trabalho que fizemos para trás, vemos a carreira toda, olhamo-nos ao espelho e percebemos que não deixámos nada por fazer. Acabei por fazer mais ou menos algumas retiradas no meu trajeto mas percebi que havia ainda algumas coisas que queria conquistar antes de acabar de vez. Agora que estou retirado, a passar tempo com os meus filhos, sinto-me um afortunado por ter o meu corpo ainda em tão boas condições, sem dores. Posso jogar golfe. O objetivo deve ser terminar de acordo com os próprios termos”, destacou.

Bode Miller com a compatriota Lindsey Vonn, após a conquista da Taça do Mundo de 2008

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Sobre o Campeonato do Mundo que está agora a decorrer, o agora comentador do Eurosport falou também de Mikaela Shiffrin e Lindsey Vonn, que considera estarem entre os melhores de sempre a par de Ingemar Stenmark e Marcel Hirscher (também se coloca na lista, a ele e a Marc Girardelli, quando fala de esquiadores de cinco eventos). “A Mikaela é daquelas atletas que o nosso desporto precisa, tal como a Lindsey. Ganhar cinco medalhas? E todas de ouro? É preciso ver que isto não é natação, não é atletismo, existem muitas variáveis que não conseguimos controlar. Perdi corridas por causa dessas variáveis, assim como também perdi por erros meus. Penso que está em boa posição para ganhar pelo menos três medalhas”, referiu. “Há uma coisa muito positiva nesta retirada da Lindsey: está a colocar as cartas todas em cima da mesa, sem deixar nada por fazer. Conseguiu tantas coisas que não há nada de que se possa arrepender. É claro que gostaria de ter ganho mais corridas para poder ser a melhor na história mas vai retirar-se orgulhosa do seu trabalho – e esse é o objetivo de qualquer um”, salientou.

Ainda neste contexto, Bode Miller respondeu a uma espécie de “provocação” sobre a “atitude americana”. “Os americanos estão habituados a concorrer nos grandes eventos e foi sempre assim. É uma mentalidade de cowboy que os homens e as mulheres parecem ter nos Estados Unidos. Em termos estatísticos, os americanos apresentam-se melhor nas grandes competições do que noutras corridas. Não sei se é porque isso nos alimenta ou por uma questão de ego mas os americanos estão dispostos a correr mais riscos nas grandes corridas. Talvez os europeus pensem que têm apenas de fazer bem aquilo que fazem sempre, enquanto os americanos sabem que têm de fazer algo especial para chegarem à vitória”, argumentou.

"É uma mentalidade de cowboy que os homens e as mulheres parecem ter nos Estados Unidos. Em termos estatísticos, os americanos apresentam-se melhor nas grandes competições do que noutras corridas." 

Em resposta ao Observador, o americano deu a sua visão sobre um outro lado com tanto de difícil e arriscado como a competição: como se consegue criar um maior interesse pelo esqui alpino e pelos desportos de inverno num país sem tradição como Portugal? “O desenvolvimento do desporto foi sempre uma questão. A cobertura feita é importante. Não existe um substituto para algo como colocar o produto à frente da cara das pessoas e garantir que veem, por forma a que percebam a experiência e a emoção. Em termos genéricos, acho que essa promoção tem sido fraca. Se olharmos para os Estados Unidos, para a forma como se consegue promover o futebol americano ou as World Series de basebol, se olharmos para a Europa, para a forma como promovem a Liga dos Campeões de forma séria, não temos isso nos mercados europeus e americanos com o esqui. Os Jogos Olímpicos de Inverno ainda são muito básicos e tradicionais e é aí que que estão a falhar”, detalhou.

Bode Miller a ser consolado pela mulher, Morgan Beck, no final da prova de Super G dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014

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E para quando pistas artificiais, assim como já acontece por exemplo nos Estados Unidos com o surf? “Sinceramente, acho que vamos lá chegar, só não acredito que seja neste momento. As experiências 4D dão uma ideia da sensação… Acho que chegaremos lá mas não consigo dizer de forma realística quando é que isso vai acontecer. Em termos de verdadeiro ambiente outdoor, a utilização de neve artificial é improvável que aconteça enquanto a tecnologia não evoluir mais”, salientou.

A terminar, e tal como já tinha feito em vários momentos da conversa, Bode Miller colocou de parte a possibilidade de estar ligado de forma direta à modalidade nos próximos tempos por ter como grandes prioridade a família, ainda mais após o acontecimento traumático no verão de 2018, quando perdeu uma filha, Emeline, de 19 meses, por afogamento numa piscina. “Ser treinador? Não é algo que me desperte interesse agora. Gosto de inspirar atletas mas nesta altura estou a adorar o papel de pai com o meu filho. Tudo isso faz com que tenhamos de passar muito longe da família. Talvez quando for muito, muito mais velho, quando eu e a minha mulher decidirmos tirar algum tempo para viajarmos, pode ser que faça algum treino; neste momento, seria muito complicado tendo em conta o tempo que quero passar com a minha família”, realçou o antigo campeão americano.

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