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Corbis via Getty Images

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Boris Johnson não é favorito só na Inglaterra rural. Também ganha no coração financeiro de Londres /premium

É uma ilha conservadora na Londres trabalhista. Na City, os Lib-Dems estão à espreita. Mas entre o Brexit ou Corbyn, até empresários e analistas financeiros "remainers" preferem sair da UE.

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[Durante esta semana, o Observador viaja em reportagem pela Irlanda do Norte, pela Escócia e por Inglaterra para acompanhar uma das eleições mais decisivas na história do Reino Unido]

“Bom, a Eurovisão sempre foi política, não é?” Para falar do papel do Brexit na União Europeia, Farah Farazad puxa a cartada do festival mais conhecido pelo barulho das luzes. “O Reino Unido costuma sempre ficar num dos últimos lugares, não temos grandes amigos na Eurovisão.” Mas este ano, pela primeira vez, esta empresária bem sucedida, que segue a Eurovisão com atenção, ficou estranhamente entusiasmada com os resultados: “Fiquei chocada. A Alemanha teve zero pontos no voto popular por telefone. Os europeus já não estão todos do lado da Alemanha. Senti que isso era um sinal de que as coisas estão a mudar.

Análise política ou wishful thinking, a verdade é que, à beira de conhecer os resultados desta eleição legislativa desta quinta-feira no Reino Unido, Farah está entusiasmada como não se sentia há três anos, quando o Leave venceu o referendo. Depois de anos a trabalhar na área financeira na britânica Lloyd’s e depois na indústria dos seguros, esta britânica — que se tornou uma empreendedora de sucesso com uma produtora de eventos e uma plataforma comercial que liga várias empresas — tem finalmente esperança de que o Brexit que desejou se concretize. “Confio a 100% em Boris Johnson, acho que ele tem a capacidade de tomar as decisões difíceis que precisamos que alguém tome”, diz ao Observador.

Farah Farazad a fazer campanha junto de outros membros do Partido Conservador. À sua direita está o ministro das Finanças, Sajid Javid

Não é certo, contudo, que o voto de Farah faça diferença para dar uma maioria confortável ao líder do Partido Conservador. Eleitora no círculo eleitoral da City e Westminster (também conhecido por “Two Cities”), aqui prevê-se uma luta feroz entre conservadores e liberais-democratas, com os trabalhistas a complicarem as contas. Nickie Aiken é a aposta dos tories, estreante no palco nacional e uma conservadora que votou Remain, mas que hoje adota a cartilha do seu líder. Chuka Umunna, o antigo trabalhista blairista que saltou para o Grupo Independente e depois para os Lib-Dems é o principal adversário.

[As eleições britânicas estão a ser o tema do Zoom desta semana na Rádio Observador. Pode ouvir aqui o último sobre Boris Johnson e o Partido Conservador]

Estamos no coração de Londres, com os arranha-céus da indústria financeira e dos serviços não muito longe daqui. Numa zona que votou 72% para ficar na União Europeia, muito por força de uma lógica pró-globalização que o Brexit ameaçava, poder-se-ia facilmente pensar que aqui os votos se encaminhariam agora para a esquerda, onde está a maioria dos Remainers. Mas não é exatamente assim: no centro financeiro londrino, que é também um centro mundial, há muita desconfiança face às políticas da ala esquerda do Labour que Corbyn representa. E Aiken sabe-o: “Independentemente de como votámos no referendo, o mundo dos negócios tem dito que precisa de certezas”, apontou a candidata Aiken.

Farah concorda. E não é a única: a sondagem mais recente do YouGov dá mesmo a vitória aos conservadores neste círculo eleitoral, que parece ter sido contagiado pela Borismania. Quem reduzir o eleitor do Brexit a uma caricatura vinda das Midlands, a um britânico de classe média simples que representa a Little England de mente fechada, está enganado. Farah viveu toda a vida em Londres, estudou ciência computacional e modelos de inteligência artificial, especializou-se na área financeira, trabalhou no Dubai e na Turquia, foi consultora para grandes empresas sobre terrorismo e fundou o seu próprio e bem-sucedido negócio. Hoje, não tem dúvidas: “Gosto muito de Boris Johnson porque ele faz-me lembrar um jovem Churchill. É um homem que quer resolver as coisas e não se preocupa tanto com o facto de ser ou não adorado pelas pessoas.”

“É a economia, estúpido”, dizem estes empresários

E não se pense que Farah Farazad é a única no mundo da alta finança que admira genuinamente Boris Johnson. Mark Shearer está totalmente de acordo com a visão da empresária — não só porque é um vereador eleito pelo Partido Conservador naquele círculo eleitoral, mas também porque sempre votou nos tories e foi, como ele próprio se define, um “Leaver relutante” desde o primeiro momento.

"Gosto muito de Boris Johnson porque ele faz-me lembrar um jovem Churchill. É um homem que quer resolver as coisas e não se preocupa tanto com o facto de ser ou não adorado pelas pessoas.”
Farah Farazad, ex-analista da Lloyd's e atual produtora de eventos

“Entrei na política sabe Deus porquê”, comenta entre risos o antigo consultor imobiliário que trabalhou para a gigante Cushman & Wakefield e que foi eleito vereador nas Two Cities há apenas 18 meses. “Conheci a Nicki Aiken, gostei muito dela e ela convenceu-me a entrar. Sou, provavelmente, o político menos experiente de toda a autarquia, o que é bom e mau ao mesmo tempo. Mas tem sido uma extraordinária aprendizagem, sobre como gerir um centro urbano como este”, acrescenta. A conversa decorre precisamente no coração deste bairro cosmopolita, num restaurante de cozinha francesa. A abadia de Westminster e as Câmaras do Parlamento ficam literalmente a menos de dez minutos de distância, a pé. A City financeira está um pouco mais longe dali, mas não muito, com os seus arranha-céus a estenderem-se pela Cannon Street, que corre paralela ao rio Tamisa.

Mark Shearer, vereador do Partido Conservador no círculo eleitoral da City e Westminster

Cátia Bruno/Observador

Estima-se que, de acordo com o jornal online da cidade de Londres On London, este círculo eleitoral produza sozinho o equivalente a 6% de toda a economia do Reino Unido, tal é a concentração de grandes empresas aqui. E, talvez por isso, é um bastião tory no meio de uma Londres trabalhista, com os conservadores a vencerem aqui desde 1950. É que a mesma comunidade de negócios que aposta numa política económica liberal não gosta da ideia de perder acesso a mercados com o europeu e, por isso, rejeitou em massa o Brexit. Mas, a fazer fé nas sondagens e nos testemunhos ouvidos pelo Observador, isso não será razão para as Two Cities deixarem de ser azuis nesta eleição.

“Eu às vezes digo que não sou azul, sou turquesa, porque sou economicamente conservador, mas sou socialmente liberal”, avisa Mark. “Sou muito centrista. Mas a verdade é que, se lermos o programa eleitoral de Boris Johnson, é isso que lá está”.

A situação económica do país, creem estes dois empresários, voltará a melhorar imediatamente assim que o processo do Brexit começar a avançar. “O problema é que o Brexit ainda não chegou”, resume Farah. “O investimento estrangeiro recuou, porque os investidores precisam de ter confiança. E quando a nossa economia se vai abaixo, deixamos de ter o suficiente para o investimento público.”

As análises financeiras sobre se o programa político dos tories é de facto melhor ou não para a economia dividem-se, ou não fosse a macroeconomia uma ciência que também ela pode ser politizada. Do lado trabalhista, o conselheiro económico Simon Wren-Lewis tenta destruir a crença de que a economia cresce mais com governos dos tories e aponta que, durante os últimos nove anos de governos conservadores, o crescimento do PIB per capita — “uma forma melhor de medir a prosperidade do que o crescimento do PIB”, diz — teve uma média de 1,2% por ano, um valor abaixo dos 1,7% registados durante os governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown.

Do outro lado do espectro, o entendimento é outro: a austeridade ajudou a equilibrar as contas, o desemprego está baixo e, com o Brexit resolvido, dizem, o crescimento voltará, com “um estímulo do consumo e do investimento”, como prevê o fundo de investimento Toscafund, falando em possíveis subidas da libra para os níveis de há três anos.

Farah Farazad trabalhou como analista financeira para a seguradora Lloyd’s e a indústria dos seguros. Atualmente tem uma produtora de eventos

Mark assina por baixo: “A economia quer certezas. E, com o Boris, há uma certeza: vamos ter uma saída negociada com a União Europeia.” E a perspetiva de Chuka Umunna poder surgir de rompante e roubar aos conservadores a imagem de estímulo à economia, aliada a uma manutenção na UE não o assusta? “Dá-me vontade de rir”, responde o empresário. “Como é que se pode dizer que se é um partido ‘democrata’ no nome e depois querer ignorar o voto mais participado da nossa democracia?” Farah faz o remate final: “Os Lib-Dems não são uma ameaça. Não têm capacidade para formar governo, e o eleitorado sabe-o. E as pessoas não gostam de Jo Swinson”, acrescenta, referindo-se à líder do partido, que alguns britânicos nem sequer conhecem bem. Já Boris, relembra estes conservadores, nunca passa despercebido.

Entre Brexit e Corbyn, os conservadores Remainers preferem o Brexit

Boris Johnson passou a campanha inteira a repetir “Vamos alcançar o Brexit”, que se tornou a sua principal. Mas até mesmo os tories remainers podem ser convencidos de que essa é uma boa mensagem. É pelo menos essa a convicção de Laurence Wilson, gestor de 35 anos, que votou Remain no referendo.

O círculo da City e Westminster produz sozinho o equivalente a 6% de toda a economia do Reino Unido. Elege representantes conservadores desde 1950, mas mais de 70% dos seus eleitores votaram contra o Brexit. Apesar disso, as sondagens apontam para a vitória da candidata tory face aos liberais-democratas, que seguem logo atrás.

“Eu votei Remain, porque os acordos comerciais afetam-me”, reconhece. Depois de anos a trabalhar para multinacionais no Médio Oriente, na América Latina e na Rússia, este britânico, que fala cinco línguas diferentes, decidiu voltar a Londres e montar o seu próprio negócio, uma empresa de acessórios para cães. Mas quem pense que isso faz com que esteja revoltado com a possibilidade de o Brexit chegar, engana-se: “Acaba-se por se aceitar. Quer dizer, quando não se gosta do resultado, não se repete a eleição. Se Corbyn ganhar esta quinta-feira e eu não gostar do resultado, não vou pedir para voltar a votar, não é?”, é a pergunta retórica que atira ao Observador.

O Brexit é como um divórcio. E, num divórcio, não se pára a meio, avança-se. Eu também fui fã de Theresa May por isso, ela tentou. E o acordo dela também me satisfaria. Porque é preciso pensarmos numa coisa: quando alguém se divorcia, também perde às vezes um cão ou uns quantos livros… É assim que funciona.

Com o stock já todo reforçado, Laurence prepara-se para ter a empresa a funcionar totalmente já em 2020. E não se diz assustado pelos potenciais efeitos que a saída da UE pode ter no seu negócio: “As políticas de Boris para as pequenas empresas são boas. E, para além disso, somos uma nação forte. Só necessitamos de atravessar este momento mais cinzento”.

Laurence Wilson, empresário que votou Remain mas que agora apoia Boris Johnson

Cátia Bruno/Observador

Posição partilhada pelo “Leaver relutante” Mark. E “relutante” porquê? “Porque sempre adorei a Europa. Tenho origem italiana e irlandesa, passei a minha juventude a viajar pelo continente… Mas sinto que a UE não representa as pessoas como devia. Tem de ser uma instituição democrática. Por exemplo, eu como vereador, se não gostarem de mim podem tirar-me do cargo em eleições. Na UE, isso não acontece. E mais: com o Brexit, passaram-se três anos e a Europa não aproveitou esta oportunidade para fazer reformas, está na mesma.”

É por isso que tem a convicção de que, se houvesse um segundo referendo, o Leave voltaria a vencer — curiosamente, o oposto do que muitos Remainers pensam. “Eu vejo pelos meus amigos que votaram Remain”, apressa-se a explicar o antigo consultor imobiliário. “Primeiro, porque veem que o armagedão que se dizia que ia chegar à economia não chegou. E depois porque acham que a votação do primeiro referendo deve ser respeitada.” Nesta eleição, diz, esses seus amigos têm uma decisão difícil a tomar. Mas este vereador considera que a maioria se manterá fiel ao Partido Conservador: “É uma escolha entre o Brexit ou Corbyn. E acho que a maioria deles prefere tudo menos o Corbyn.”

“Tenho fé total em Boris”

Entre os analistas financeiros, investidores de risco, funcionários de seguradores, agentes imobiliários de topo, parece haver um consenso: um governo do Partido Trabalhista seria um desastre para os seus interesses. “Há um desajuste entre a maneira como o mundo funciona, em termos de economia, e a política fiscal de Corbyn”, aponta Mark.

O Remainer Laurence concorda em absoluto: “É só ‘vamos por dinheiro nisto, vamos por dinheiro naquilo’… e é tudo com dinheiro emprestado. Os jovens é que vão acabar por pagar isto. E, se ele vencer, a desvalorização da libra vai ser tanta que será uma catástrofe. Com o Labour, a economia simplesmente não funciona”, acredita o empresário.

A empreendedora Farah assina por baixo: “Os trabalhistas levam o país à bancarrota, como sempre fizeram”. E como explicar que os tories, que se dizem tão bons a gerir a economia, tenham atualmente sobre a sua alçada a economia com o ritmo de crescimento mais lento desde 2009, depois de nove anos a gerir o país?  “É preciso recordar que os governos tory chegaram ao poder depois de o Labour ter levado tudo à bancarrota. E sabe que mais? As coisas melhoraram. Em 2016 tínhamos níveis de investimento estrangeiro fenomenais, acima dos 180 mil milhões de libras. Só que agora, três anos depois, estamos a sofrer por causa do Brexit. Não porque o queiramos, mas porque os trabalhistas não nos deixam avançar com ele.

E, para quem acha que nem tudo se resume a libras e cifrões, tanto Farah como Mark apontam para outras áreas onde creem que os conservadores se destacam. “Fomos o primeiro partido a ter uma mulher primeira-ministra — e que grande líder que ela foi”, diz Farah cerrando o punho, como quem fala com convicção e admiração sobre Margaret Thatcher. “E não tivemos só uma, tivemos duas mulheres como primeiras-ministras. O Labour não teve sequer nenhuma mulher como líder do partido. E isto são coisas que para mim importam.”

“Há um desajuste entre a maneira como o mundo funciona, em termos de economia, e a política fiscal de Corbyn.”
Mark Shearer, vereador conservador nas Two Cities

Já Mark aponta a agulha para as minorias, destacando o escândalo de anti-semitismo no Labour. Quando confrontado com alguns dos comentários que Boris Johnson já fez sobre a comunidade islâmica (comparando as mulheres de burqa a marcos de correio, por exemplo), o  vereador tem a resposta pronta na ponta da língua: “O Boris sempre fez comentários insensatos. Mas não há islamofobia dentro do Partido Conservador. Enquanto que, no Labour, o anti-semitismo vem da própria liderança. Começa pela política do partido em relação a Israel, por exemplo”, acusa.

No balanço final, estes homens e mulher de negócios não têm dúvidas em apoiar com todo o afinco Boris Johnson — e torcer para que, esta quinta-feira, tenha uma maioria absoluta. “Eu gosto que Boris nos represente. É um político que se mantém firme naquilo em que acredita, ele não cede”, aponta o Remainer Laurence. “Veja o que aconteceu em Bruxelas, ele acabou por fazer as coisas avançarem.”

Ao falar de Boris Johnson, Mark recorda o dia em que a sua mãe, grafologista de profissão, analisou a caligrafia do primeiro-ministro e comentou com o filho que aquela era a letra de uma pessoa “muito inteligente”. “Ele tem aquele carisma de uma estrela. As pessoas podem não gostar dele, mas param para o ouvir”, sublinha o vereador. “Eu admirava imenso Theresa May, é uma política íntegra. Mas faltava-lhe capacidade de liderança. E são precisas personalidades diferentes para situações diferentes. Neste momento precisamos de liderança e ele é a pessoa certa para o lugar.

Estima-se que o círculo eleitoral da City e de Westminster produza, sozinho, o equivalente a cerca de 6% da economia nacional

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Farah Farazad também não tem dúvidas disso. “Aliás, desde que ele se tornou primeiro-ministro que ganhei ainda mais certezas. Parece que algo mudou dentro dele, ele assumiu a responsabilidade do cargo. E precisamos de pessoas assim, que consigam falar com os outros líderes mundiais e não serem intimidadas por ninguém.

Na noite desta quinta-feira, Farah estará a olhar para a televisão e a acompanhar cada minuto da noite eleitoral. A sua grande esperança é que Boris consiga uma maioria clara para governar sozinho — o que provocaria em si um entusiasmo ainda maior do que o que sentiu na noite em que viu a Alemanha receber um zero no televoto da Eurovisão. “Tenho fé total nele. Sei que Boris vai fazer o que é melhor para o país.” A incógnita é se o resto do país concorda com ela e com a City.

*Artigo alterado a 14 de dezembro: Farah Farazad não trabalhou para o banco Lloyd’s, mas sim para a a Lloyd’s de Londres

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