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RAQUEL MARTINS/OBSERVADOR

RAQUEL MARTINS/OBSERVADOR

Caça ao Voto 1 - O dia em que ninguém quis atravessar a ponte /premium

PS e BE passaram o dia em clima de guerra fria, a CDU pôs-se ao fresco e o CDS tentou a sorte em território hostil (não teve muita). Já o PSD insiste em provar que tem um Centeno melhor que o de Costa

Fazer pontes com outros partidos em campanha é um exercício difícil e habitualmente inútil, pela própria natureza da disputa eleitoral. Mas verdade é que em 2015 isso foi feito e acabou a produzir resultados. Ora, se há coisa de que temos falado ao longo dos últimos meses é da possibilidade de as esquerdas se voltarem a entender num cenário de vitória do Partido Socialista.

E o que o longo período de debates mostrou é que, para já, esse cenário está mais longe e que a campanha, desta vez, não vai por aí. Na segunda-feira à noite, no debate a seis, Catarina Martins quis desmentir Costa (e Manuel Alegre), dizendo que Bloco e PS já tinham falado sobre uma solução governativa mesmo antes da reunião PS/PCP.

O tom da discussão entre os dois azedou no debate e esta manhã, na primeira ação de Costa no Barreiro, era inevitável que os jornalistas quisessem saber afinal em que ponto se estava. Deu jeito ao secretário-geral do PS que o comboio tivesse chegado ao destino: “Olha, já estamos no Fogueteiro”. E dali não saiu, por assim dizer, tentando dar por encerrado o incómodo assunto, recusando alimentar polémicas e despachando “essa fase da campanha” que até agora só interessou “aos políticos e aos jornalistas”. Costa quis centrar-se no que “interessa às pessoas”, mas não disfarçou o irritante que o assunto veio trazer à caravana.

“A fase dos debates acabou”. Costa quase aliviado quer encerrar caso com BE

Neste primeiro Caça ao Voto, faz sentido, por isso, recordar os Jafumega, que já em 1981 cantavam que “a ponte é uma miragem”. E por falar em Jafumega, mais ou menos à mesma hora em que Costa tentava controlar o fogo, Catarina Martins estava nos bombeiros da Marinha Grande, mas ainda com o lança-chamas ligado. Tinha acabado de publicar um artigo no Expresso em forma de carta aberta a Manuel Alegre onde conta que na manhã das eleições legislativas de 2015 houve um encontro informal entre Fernando Medina e Jorge Costa para se estabelecerem os princípios para um entendimento entre PS e BE.

E, como se isto não chegasse, ainda argumentou aos jornalistas: “O PS rescreveu um pouco a história destes quatro anos com factos que não correspondem à verdade“, voltou a acusar. “Acho que é importante repor os factos e foi isso que fiz para que se possa continuar a trabalhar bem no futuro“.

Catarina Martins esteve no quartel de bombeiros mas preferiu manter acesa a polémica com o PS

Uma resposta passivo-agressiva, para pôr o ónus do lado do PS. “Não queremos que haja pontes queimadas sobre o que aconteceu porque sabemos que as pontes que construímos nos últimos quatro anos foram tão importantes para melhorar a vida das pessoas”, acrescentou em declarações aos jornalistas.

Sem mais resposta do lado de Costa, o Bloco pareceu dar o assunto por encerrado ao final da tarde, numa visita às instalações da EMEF por onde a CDU também já tinha andado de manhã. E se o arrufo BE/PS era o tema do dia, Jerónimo de Sousa aproveitou para se pôr ao fresco e deixar a luta para os outros dois eixos da “geringonça”. A princípio nem se queria meter nisso, depois lá aproveitou para avisar que não é com KO’s que se vencem debates e que a tensão entre os partidos “não ajuda quem está em casa a assistir”.

Jerónimo “não se quer meter” entre PS e BE mas diz que objetivo “não é deixar o adversário KO”

Sem se sujar, a CDU lá seguiu tranquilamente a passar a mensagem que tinha prevista para o dia: capitalizar com a integração da EMEF na CP e pedir mais investimento na ferrovia e, já agora, nos transportes públicos.

É uma ponte estranha, passar de Jerónimo para Assunção Cristas, mas a líder do CDS também trazia o mesmo tema na agenda. Atravessou para a margem sul, mas de barco, e chegou ao Barreiro onde pouco depois das oito da manhã já entregava (ou tentava entregar) panfletos a quem se preparava para fazer a viagem para o trabalho em Lisboa: “Entendemos que deve ser aberta a travessia do Tejo a mais operadores e, portanto, aberto à concorrência“.

O flyer entregue por Cristas, além da abertura da travessia do Tejo a novos operadores, tinha uma segunda proposta: “Metro até Almada”, que a líder do CDS diz que “é preciso estudar”, já que “faz sentido ligar as duas margens do rio por meio ligeiro”. Sem pontes, portanto. A ação não foi um sucesso, o Barreiro está longe de ser terreno do CDS e a hora de ponta não ajudou. Mais tarde, o partido incluiu na agenda uma arruada improvisada em Braga onde Cristas teve apoios de peso, Nuno Melo e Paulo Portas (mas em versão comunicado)

Portas, Melo (e a rua) na ajuda ao sonho de Cristas

Ali mesmo ao lado, e exatamente à mesma hora, era o próprio António Costa quem fazia campanha. Ambos no Barreiro, embora Costa mais em casa, junto à Câmara Municipal que o PS conseguiu roubar ao PCP nas últimas autárquicas. O mesmo tema escolhido por Cristas, mas do ponto de vista oposto. Costa andou de autocarro e de comboio entre o Barreiro e o Pragal e disse que o trajeto que fez permitiu “ver que o investimento no transporte público é muito compensador do ponto de vista ambiental” e “para as famílias, a alteração do custo do passe permitiu alterar as relações sociais” dentro dos 18 concelhos da área metropolitana de Lisboa que aderiram à redução do preço do passe.

Este é um trunfo eleitoral e num dia com parcas ações de campanha (duas apenas), Costa joga outro à noite: Mário Centeno, o ministro que Rui Rio (inadvertidamente?) elogiou tanto no debate com Costa que o que ficou deste dia de campanha foi a tentativa de emendar a mão. Depois de uma visita ao hospital Garcia de Orta, em Almada, para criticar o estado do SNS, Rio almoçou com empresários e aproveitou para fazer um desafio: e que tal um duelo de Sarmentos (Joaquim Miranda Sarmento é “o Centeno” de Rui Rio)?

PSD. Rio desafia Centeno para luta de Sarmentos (e elogia Merkel)

“Se António Costa tem tanta segurança nos números que jogou para cima da mesa, de certeza que o seu Sarmento também aceitará fazer esse debate“. O repto, para já, ficou sem resposta. Tal como as inevitáveis perguntas sobre críticos internos no PSD. Não será na campanha eleitoral que Rio construirá pontes para esses lados. O alvo já está definido: o presidente do PSD quer falar para os indecisos e não perder um segundo com guerrilhas internas.

Falta referir o PAN que, coerente com a sua agenda para as alterações climáticas, não fez campanha esta terça-feira e, assim, não deixou qualquer pegada ecológica.

Voto a favor

Se Jerónimo de Sousa esteve apagado, mesmo nos debates mais acesos, a discrição da CDU pode ser um trunfo eleitoral importante, sobretudo numa altura em que os outros dois eixos da “geringonça” passaram as últimas 24 horas a trocar acusações. Alguém estará a mentir, mas o PCP “não se quer meter nisso”. Ficando na margem, consegue que a comunicação social se centre na sua agenda.

Voto contra

Uma agenda minimalista com apenas duas ações por dia (às vezes nem isso) com a desculpa de que tem um país para governar. Passos Coelho também teve, José Sócrates também e todos eles fizeram campanha e deram a cara no terreno quando se tratou de pedir votos. Costa parece preferir refugiar-se em São Bento o máximo de tempo possível e só fazer aparições esporádicas na rua. Será suficiente ou a agenda vai ficar mais nutrida à medida que forem divulgadas sondagens?

Começar o dia em território hostil a distribuir panfletos a quem está com pressa para ir para o trabalho pode revelar alguma coragem, mas tem uma eficácia mais que duvidosa. Cristas estava no terminal de barcos do Barreiro à hora de ponta, e não só foi insultada como foi largamente ignorada.

Rio voltou a chamar a atenção de todos para o erro que cometeu quando se deixou enredar num debate com Costa sobre quem tem o melhor Centeno. Resolveu vir a público pedir um duelo de Sarmentos. Percebe-se que a ideia é reforçar a notoriedade do seu ministro sombra das Finanças. Mas é como se Rio tivesse caído num buraco e continuasse a escavá-lo.

Fotografia do dia

Rui Rio esteve esta terça-feira no Hospital Garcia de Orta, em Almada

TIAGO PETINGA/LUSA

Papa quilómetros

PS – Entre o comboio, o autocarro e o carro, António Costa fez 80 km neste primeiro dia de estrada oficial. Lisboa – Barreiro – Coina -Pragal – Lisboa

PSD – Rio arrancou a campanha em Almada, passou por Setúbal e depois fez-se à estrada até Portimão. A noite acaba em Faro, o que perfaz um total de 297 km.

CDS – A caravana centrista andou por Lisboa, Barreiro e Setúbal (nem sempre de carro), depois rumou a norte e acumulou quilómetros com passagens por Braga e Famalicão. Aos 450 km, Cristas é a recordista deste primeiro dia de campanha oficial na estrada.

BE – O Bloco arrancou em direção à Marinha Grande, passou pelo Entroncamento e termina a noite em Torres Novas. Fez 219 km.

CDU – Jerónimo de Sousa partiu de Lisboa, passou pelo Entroncamento, São Pedro de Moel e termina a noite em Samora Correia. São 332 km.

PAN – Mantém o contador a zeros. 0 km

O Caça ao Voto é uma análise diária ao dia de campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana de campanha, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes. A Fotografia do Dia é uma escolha do editor de Fotografia João Porfírio.

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