Caça ao Voto 5 - as dores de uma campanha que já vai a meio /premium

Costa saiu da rua, Rio foi a todas as que pôde. O caso Tancos mantém-se na agenda, com Cristas a denunciar pressões, César a pedir "maioria de valor reforçado" e Rio a sonhar o com taco-a-taco

Qualquer político ou jornalista que tenha feito semanas seguidas de campanha eleitoral, sente as dores de Jerónimo de Sousa. Dores, aqui, no sentido figurado que as que foram sentidas literalmente dizem respeito a António Costa e sobre ele falaremos mais abaixo.

Para já, o secretário-geral do PCP que estava a dar início a um comício em Almada quando olhou para a plateia repleta que tinha à frente e se impressionou com a mobilização, ainda por cima “a um dia de semana” (o comício decorreu a um sábado). Quem anda na estrada da caça ao voto, com sucessivas noites mal dormidas e milhares de quilómetros no contador, sabe lá a quantas anda. Não há sábados, nem domingos, nem feriados, porque os dias e as terras se sucedem uns aos outros.

É chegar, assentar arraiais temporariamente e partir para a próxima. Ali em Almada, a CDU tinha uma mensagem para aqueles que estão a confiar nas sondagens (más para a CDU). Uma espécie de fiem-se nisso e não corram e depois vão ver o que acontece. Jerónimo de Sousa quis lembrar que a “geringonça” não domesticou os comunistas – para o provar, até citou Karl Marx -, mas insistiu que agora também não é altura de deixar o PS “de mãos livres”.

Ora, neste jogo de espelhos que é uma campanha eleitoral, a vários quilómetros de distância António Costa fazia exatamente o contrário e também fazia exatamente o mesmo. Olhou para a plateia do Largo Donaes, saudou o presidente da Câmara e dirigiu-se a todos os autarcas do PS do concelho de Bragança (estava em Guimarães).

Corrigido o erro, que isto das campanhas é o que é, ninguém terá levado a mal até porque Costa não teve um dia fácil. Está lesionado (Jerónimo desejou-lhe as melhoras), a conselho médico cancelou metade da agenda que implicava andar pela rua, e resumiu as ações a almoços e comícios.

Tal como Jerónimo, também se focou nas sondagens (boas para o PS), no mesmo estilo fiem-se nisso e vão ver o que acontece, mas com uma mensagem oposta. Os socialistas lideram as projeções e isso não lhes serve de nada quando se quer “estabilidade” (ou outra qualquer forma de dizer que é preciso despachar os parceiros à esquerda): “O que conta mesmo são os votinhos com a cruz posta à frente do símbolo da mãozinha”.

Uma referência vintage num dia em que só à noite viriam as referências diretas aos assuntos (mais ou menos) tabu na caravana socialista, Tancos e maioria absoluta. Este último é tema recorrente nos comícios do Bloco de Esquerda, e este sábado não foi exceção. Num mega almoço em Lisboa, onde juntaram cerca de 1500 pessoas, os bloquistas mostraram vídeos e fizeram discursos a apelar ao “voto útil” (uma boa ironia do BE) na esquerda para evitar a “arrogância das maiorias absolutas” que significam sempre “um recuo”.

E no dia em que Costa fez declarações ao Expresso alegando que “esta solução teria sido impossível” em 2015 “se o Bloco tivesse tido mais peso”, Catarina Martins não só pede precisamente mais peso como se mostra empenhada em reorganizar uma reedição da “geringonça”, sempre a três, em que ninguém salta fora: “As melhorias que conseguimos foram graças aos três, gostámos desta cooperação e orgulhamo-nos dela”.

Depois das mensagens para PS ouvir, o Bloco fez-se à rua para uma ação no Parque das Nações, muito discreta, sobretudo se comparada com as que o PSD organizou. A norte, em terreno confortável – como o próprio Rio reconheceu -, a comitiva laranja bebeu do entusiasmo das gentes que vieram abraçar e beijar Rui Rio e a mensagem passou a ser a de que a campanha está em crescendo, e que quem duvidava de que o PSD não ia conseguir disputar o primeiro lugar, se enganou: “Está tudo em aberto!”, disse o presidente do partido.

O caso de Tancos veio pôr um trunfo nas mãos de Rio, e o líder do PSD não quer desperdiçá-lo. No dia em que o Observador e o Expresso divulgavam a tese que vigora na caravana socialista de que pode haver uma conspiração a envolver o Ministério Público, Rio acusou Costa de andar a dizer “coisas sem nexo” e acrescentou que “o Partido Socialista, relativamente à questão de Tancos, está atrapalhado e não sabe o que há de dizer”.

A bipolarização Costa-Rio é evidente nesta questão, mas Assunção Cristas também não quer ficar de fora. E de manhã, tal como prometido, reuniu a Comissão Executiva do partido e anunciou em direto que quer uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito, que o partido vai viabilizar a comissão permanente antes das eleições pedida pelo PSD e ainda fez um pedido a Ferro Rodrigues para que enviasse as declarações que António Costa fez na Assembleia da República para que sejam analisadas pelo Ministério Público.

Por essa altura, continuava a campanha semi-marginal do PAN, recheada de visitas e ações cujo propósito político nem sempre é fácil de identificar. Numa espécie de encolher de ombros para um tema que não descola da agenda, André Silva diz sobre as exigências de Cristas que por ele tudo bem, mas que o importante “é voltar a confiar nos políticos e na política e pôr as pessoas a votar, muito mais do que estar a centrar a campanha num caso judicial”.

Não era a opinião do PAN que interessava a Cristas, claro, que apontava a mira bastante mais acima e que à noite, num dos raros jantares-comício da volta, carregou nas tintas ao chamar ao caso Tancos ” tramoia socialista” e “um dos maiores escândalos da vida democrática” e avisou que “a única conspiração que existe é contra o Estado de Direito”. Na mesma noite tirou ainda da manga a denúncia de que anda a receber mensagens com pressões para que o CDS não fale do caso: “Não temos medo do PS”, garantiu.

Mas ninguém lhe respondeu do lado socialista, nem sequer para a felicitar pelo aniversário (Cristas festejou 45 anos durante o comício). Em Guimarães, Carlos César foi o peso-pesado que o PS pôs a executar a estratégia de centrar a luta eleitoral sobretudo num só alvo: Rui Rio e o PSD. O presidente do PS acusou Rui Rio de querer fazer do Parlamento “um tribunal”, por causa de Tancos. E caricaturou os princípios do líder do PSD, onde provavelmente mais lhe dói: “Sentencia quem não foi julgado e calunia quem nem é sequer suspeito. ”

Cereja no topo do bolo? A forma criativa como César pediu a maioria absoluta que Costa não quer pedir: “Uma maioria de valor reforçado”. A referência remete para as chamadas leis de valor reforçado que, se forem orgânicas, são as que têm de ser aprovadas por maioria absoluta dos deputados.

VOTO A FAVOR

O dia correu-lhe francamente bem. Com Costa forçado a cancelar todas as iniciativas que envolviam contacto direto com a população, Rui Rio encheu o dia com toda a rua que foi possível agendar. Andou por Valpaços, Vila Real, Régua e Bragança. Genericamente bem recebido, chegou a viver momentos de grande entusiasmo popular que o levaram até a ensaiar um discurso cheio de confiança (embora de realismo questionável) sobre o “taco-a-taco” com Costa. Dá sempre imagens fortes para passar nas tvs, mas o ponto positivo de Rui Rio é ser ele próprio a desmontar aquilo que outro político qualquer tenderia a hipervalorizar: “Estou animado, mas também sei ver que se estivesse em Beja ou em Évora não teria a mobilização que tenho aqui em Bragança ou Vila Real, ou no Porto. No norte é mais fácil, para mim e para o PSD, desde a sua fundação”.

VOTO CONTRA

O PAN não tem sabido construir uma campanha eleitoral com impacto mediático e isso nota-se até na organização da própria agenda de campanha, muitas vezes com ações sem grande mensagem política ou demasiado voltadas para realidades e projetos específicos. Com uma agravante: André Silva quase nunca contacta com as populações dos locais por onde passa. Faz visitas a instituições e a projetos e organiza, na rua, as iniciativas “Pergunta-me o que quiseres”, que até agora se têm limitado a curtas distribuições de panfletos. Este sábado, por exemplo, depois de um destes circuitos por uma Santa Maria da Feira praticamente deserta (que incluiu uma passagem por uma feira de cerveja artesanal ainda em montagem, e, portanto, sem clientes), André Silva, a comitiva e os jornalistas subiram a pé por uma estrada movimentada apenas por carros na qual não se cruzaram com nenhum potencial eleitor — para chegar à estação de comboios da Feira. Depois embarcaram numa viagem em que o candidato apenas… almoçou.

FOTOGRAFIA DO DIA

Depois de cancelar a arruada da manhã, António Costa apareceu em Famalicão visivelmente incomodado com as dores na perna e discursou com uma cadeira atrás de si. Discursou de pé, mas teve de se sentar assim que terminou o apelo ao voto no PS.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

PAPA-QUILÓMETROS

PS – A caravana do PS passou por Viana do Castelo, seguiu para Vila Nova de Famalicão, encerrou com um comício em Guimarães, mas ainda foi dormir ao Porto. Ainda assim foram apenas 167km para um acumulado de 1339 km.

PSD – Não foi dia de papar quilómetros, no PSD. O roteiro Bragança – Mirandela – Valpaços – Vila Real obrigou a percorrer apenas 164km. Total de 1361 km.

CDS – Se a manhã começou no Largo do Caldas, em Lisboa, com a reunião da Comissão Executiva do partido, Cristas seguiu para Oeiras, Amadora e só depois fez o maior percurso do dia em direção a Aganje, Albergaria-a-Velha. Total de 302 quilómetros, o que eleva as contas do CDS aos 1789 km.

BE – Curiosamente, quem acompanha o Bloco de Esquerda não teve muitas ações de campanha neste sábado. Mas fartou-se de gastar combustível. Viagem de Viana do Castelo a Lisboa, para o tradicional almoço, e depois partida para Viseu. É o recorde do dia, 619 km, o que acumula já um total de 2015 km.

CDU – Embora bastante menos que o Bloco, a CDU também fez muita estrada este sábado. Partida de Faro, destino seguinte Palmela, depois Moita, Almada e Sines. Fez-se 437 km, num total acumulado de 2058 km.

PAN – De Aveiro a Santa Maria da Feira, depois Espinho, Viana do Castelo e viagem até Paredes de Coura, onde dormiu a comitiva. 211 km neste sábado, o PAN passou hoje a fasquia dos mil quilómetros. O total vai em 1043 km.

O Caça ao Voto é uma análise diária à campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana dos partidos, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes. A Fotografia do Dia é uma escolha do editor de Fotografia, João Porfírio.

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