Caça ao Voto - O dia em que a geringonça voltou a mexer /premium

Houve ameaças de agressões, amuos e trocas de mimos entre candidatos e altas figuras do Estado. Mas quando um dos pontos altos do dia foi uma manhã no Parlamento, é porque a campanha anda morna.

Quando, em plena campanha eleitoral, o dia começa com a emoção toda centrada num parlamento a serviços mínimos, isso diz muito da temperatura morna que se faz sentir nesta reta final. Esta era a famosa quarta-feira em que a conferência de líderes se ia reunir para decidir se havia ou não reunião da comissão permanente antes das eleições.

Reconheçamos que, a nível de entusiasmo, não é propriamente a final de um campeonato do mundo. Mas para quem gosta de política, sempre era uma desculpa para, por exemplo, tentar esquecer Assunção Cristas a cantar desafinada o hino do CDS. Nem de propósito, daí a umas horas a líder dos centristas haveria de ser responsável (involuntariamente) pela maior emoção do dia de campanha, mas já lá iremos que até nesta história da reunião para decidir outra reunião Cristas vai ter protagonismo.

Estava então o eleitorado a roer as unhas de ansiedade, quando sai a decisão: a Assembleia da República vai voltar a discutir o caso Tancos, sim, mas só na próxima quarta-feira, depois das eleições. Ou seja, não se fez a vontade ao PSD. Ao contrário do que se supunha inicialmente, o PS não ficou isolado, fez temporariamente as pazes com os velhos amigos Bloco, PCP e PEV que votaram ao seu lado a proposta de calendário apresentada por Ferro Rodrigues, e a direita voltou a não conseguir ultrapassar a muralha de aço.

A notícia foi dada por Fernando Negrão, que num tom amuado, referiu que o Parlamento vai ficar “cego, surdo e mudo” aos desenvolvimentos de Tancos, um caso de “enorme gravidade”. Nuno Magalhães do CDS concordou, e aproveitou para estender o manto de suspeição dizendo que “no momento da verdade, as esquerdas unem-se para dar a mão ao PS”.

E, de facto, quando se pensava que estava (temporariamente?) estacionada a estranha máquina que pôs a andar este governo durante uma legislatura, eis que se voltaram a ouvir os motores a trabalhar. A “geringonça” pode estar amolgada, das duras pancadas que tem levado durante a campanha eleitoral, mas ainda não encostou à boxe.

Um a um, todos os partidos da esquerda – e o governo – vieram explicar que o calendário proposto pelo PSD seria inédito (nunca a permanente reuniu durante uma campanha eleitoral), que o Parlamento não deve ser palco da campanha eleitoral e que a Assembleia da República não deve ser instrumentalizada. Ficou para a semana.

E na estrada? Na estrada, Rui Rio resignou-se: “A maioria decidiu, está decidido” e “ninguém morre por isso”. O twist talvez tenha apanhado de surpresa quem seguia esta novela há vários dias. Não foi o PSD quem andou a alimentar o caso e insistiu que o Parlamento discutisse durante a campanha eleitoral as novidades vindas a público com a acusação? Sim, mas. “Não vou fazer um barulho incrível porque não há reunião da comissão permanente esta semana”, disse.

E pronto, uma resposta morna num dia morno, onde a campanha tirou o pé do acelerador, mas não desligou completamente os motores. A fazer campanha em casa, em Aveiro (o seu vice Salvador Malheiro é líder da distrital e Ribau Esteves é Presidente da Câmara), mesmo assim Rio não aproveitou para dar uma festa como na noite anterior.

Foi mais pijama e chinelos confortáveis numa talk de fim de tarde, onde houve um sketch sobre corrupção com referências a Sócrates e um painel de “conversas no feminino” onde se falou sobre economia e finanças, PS e Mário Centeno, claro, o tema fetiche desta caravana. Desta vez até ali estava Joaquim Miranda Sarmento, que continua entretido a perguntar a Centeno se aceita ou não debater com ele (Não aceita, Centeno quer Rio).

Ora, se o PSD parece já não querer saber de Tancos, o CDS não podia ter reagido de forma mais diferente. Onde Rio encolheu os ombros, Cristas apontou o “dedinho esticado” a Ferro Rodrigues e acusou o presidente da Assembleia da República ser parcial” e de estar “mais preocupado em proteger o PS e o Governo” do que o Parlamento.

Como quem vai à guerra dá e leva, a líder do CDS apanharia dois sustos mais tarde nas ruas do Porto. O primeiro foi político, meteu Rui Moreira sobre quem tinham circulado notícias – entretanto desmentidas – de que ia anunciar o apoio ao CDS. O segundo foi mais literal, quando uma mulher quase chegou a vias de facto e tentou agredir Assunção Cristas.

Sem consequências físicas a registar, a líder do CDS talvez não se oponha a que haja consequências políticas – as sondagens não andam espetaculares para o partido – e já de noite, partilhou a sua indignação nas redes sociais.

Por essa altura, já em Viseu se malhava na direita. Jorge Coelho, homem da terra, era o atirador de serviço no comício da noite e apontou direto a Rui Rio que, dias antes, tinha estado na mesma cidade a pedir “o regresso do Cavaquistão”. Na altura, a referência pareceu extemporânea mas, a acreditar nas palavras de Coelho, os viseenses levaram a sério e ficaram “ofendidos”. Num inflamado discurso, o socialista dramatizou o apelo ao voto e relativizou os casos que vão marcando a campanha como “fait divers que não interessam nada”.

No fundo, a mesma técnica de António Costa que, de tão empenhado na caça ao voto até visita obras por começar, e que despachou tudo o que era marginal ao foco da sua campanha – é verdade, Costa regressou à campanha – com frases curtas de enxotar jornalistas: a comissão permanente era tema para o Parlamento, que não acredita ser “prioridade dos portugueses”; Tancos era tema para a Justiça, e as sondagens também pouco interessam, desde “que o PS tenha um resultado que dê um claro reforço e que permita dar força para mais quatro anos de estabilidade política”.

Quanto ao facto da “geringonça” ter voltado a funcionar de manhã, no Parlamento, quando tem sido tão mal-tratada durante esta campanha, António Costa garantiu que “sempre funcionou”.

Mas o avançar do dia, depois das tréguas matinais, conta outra história. Na feira de Famalicão, Catarina Martins denunciava como a fuga ao fisco das maiores empresas portuguesas havia lesado o Estado em 630 milhões de euros, em 2o16: “Dava para quase cinco vezes de aumento extraordinário das pensões“.

O tema viria a ser recuperado por Catarina Martins no comício da noite, em Coimbra sem que António Costa tivesse ficado com as orelhas a arder. Mas José Manuel Pureza também subiu ao palco nessa noite, e tinha uma missão: encostar o PS à direita e acertar contas com alguns dirigentes socialistas que têm defendido que é um risco se o BE reforçar votos no domingo: “Para a direita, qualquer voto a mais no Bloco será aquilo a que alguém chamou desmesurado”. Quem chamou foi Augusto Santos Silva, no passado fim-de-semana quando falou dos riscos de um BE com “poder desmedido” ou “influência desmesurada”.

Marisa Matias completava o quadro com a defesa de um reforço do Bloco para evitar “o empecilho da maioria absoluta”. Os mesmos temas que Jerónimo de Sousa trouxe para a conversa em dia de arruadas movimentadas na margem sul:  é preciso votar na CDU para que “não voltem as maiorias”e é preciso que o ministro das Finanças explique para onde foram 600 milhões de euros.

Mas nessa noite, o alvo não era o principal parceiro da “geringonça”, mas antes a peça sobressalente que um dia pode vir a ser precisa na máquina: o PAN. Na CDU há um partido ecologista que está a sentir o território invadido por aqueles que “nem são carne nem são peixe, mas alinham num bacalhau com todos”. E fez notar o desconforto.

Mas para já, não teve sorte nenhuma, porque o PAN não respondeu e continua na sua campanha paralela que não é carne nem é peixe, mas é morcelas e enchidos vegetarianos e muita esperança de que no domingo se consiga duplicar o número de deputados. Na prática, é passar de um para dois, mas é o suficiente para que o partido já possa, por exemplo, participar numa conferência de líderes convocada de emergência e ter direito a participar na decisão.

Voto a favor

É verdade que foi na margem sul, em terreno onde não há qualquer risco. Mas a CDU também não é conhecida propriamente por arriscar em territórios fora do seu circuito fiel. Por isso, não se percebe porque é que não pôs mais vezes Jerónimo na rua, nesta campanha. Continua a ser um trunfo eleitoral, viu-se quer na receção que teve na Baixa da Banheira, quer na forma como retribuiu o contacto com quem dele se aproxima. Foi a primeira grande arruada, e já mesmo no fim da campanha.

Voto contra

António Costa foi visitar “as obras” da ala pediátrica do Hospital de São João. O assunto alimentou polémica durante meses a fio, quando foram denunciadas as más condições, com crianças internadas em contentores e a fazerem tratamentos nos corredores, por causa de obras que vinham sendo interrompidas desde 2015 — e estavam prometidas há dez anos. Compreende-se que Costa lá queira ter ido. Problema: por uma daquelas coincidências típicas de campanha eleitoral dos anos 90, o estaleiro tinha sido instalado exatamente um dia antes da visita do primeiro-ministro/candidato. Os taipais estavam ainda a ser colocados quando o secretário-geral do PS entrava para ver aquilo que, por enquanto, não é mais que um plano com o projeto das novas instalações. Nada que impeça Costa de declarar que este foi “um problema resolvido pelo Governo”.

Fotografia do Dia

Mulher tentou agredir Cristas no Porto e chegou a existir contacto físico, que podia ter sido pior se membro da comitiva não a tivesse afastado.

Rui Oliveira

Papa-quilómetros

PS – A partir de Aveiro, onde a comitiva que acompanha a caravana do PS havia passado a noite, seguiu-se para a arruada de Coimbra, depois o Porto e a noite a terminar com o comício em Viseu. Total do dia, 288 km. O PS já leva 2452 km.

PSD – Rui Rio arrancou de Viseu para Santa Maria da Feira, passou por Águeda e depois terminou a noite em Aveiro. Com mais 154 km de estrada, o PSD percorreu já no período oficial de campanha 2810 km de estrada.

CDSO CDS tem sido o campeão da rodagem dos carros na caravana, com distâncias percorridas quase sempre superiores às dos outros partidos. Mas hoje pôs o pé no travão. Do Porto para Gaia, de Gaia para o Porto, não fez mais de 42 km. Total: 3484 km. Ainda assim, continua na frente do pelotão.

BEO Bloco partiu do Porto em direção a Vila Nova de Famalicão e depois seguiu para Coimbra. No total, 322 km para o dia. Leva 2706 km.

CDU – A CDU esteve hoje em terreno que tradicionalmente nunca falha no apoio. Jerónimo de Sousa fez a rota da margem sul, Almada-Seixal-Baixa da Banheira-Setúbal, apenas 92km. Total: 3441km.

PANApenas na Grande Lisboa, o PAN fez o circuito Cascais – Sintra – Lisboa e um total de 66 km. Contas feitas, 1614 km.

O Caça ao Voto é uma análise diária à campanha com os contributos dos repórteres do Observador na caravana dos partidos, Rita Tavares, Rita Dinis, Rui Pedro Antunes, José Pedro Mozos, Rita Penela e João Francisco Gomes.  A Fotografia da Semana é uma escolha do editor de Fotografia João Porfírio.

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