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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Caldas, o clube dos amadores da mata encantada onde "ninguém passa"

Um raio que atingiu o avião da equipa, uma premonição e os jogadores que andam aos beijinhos. Na Mata ninguém passa, diz a música que ninguém sabe onde nasceu. Este é o Caldas e o Jamor é o destino.

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“Já sei o que é que eles gostam. Que meias é que aquele quer. Quais são os boxers de cada um”, diz às gargalhadas Cláudia Leal. É funcionária do Caldas Sport Club há quatro anos ou “responsável pelo chulé dos jogadores” como prefere apelidar-se. Estava desempregada e acabou por aceitar uma oferta de emprego no clube de futebol das Caldas da Rainha. “Já é rotina. Já sei praticamente tudo em relação a eles. Desde que não me mudem o plantel, eu sei”, diz enquanto se encosta à bancada onde estão as caixas com a roupa interior dos jogadores. Faz uma pausa e pára de rir. “Vamos lá. Estou confiante. Vamos lá desta vez”, assegura.

É na rouparia que os jogadores guardam os equipamentos e as malas já preparadas para levarem quando vão jogar fora

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Ao Jamor. É “lá” que Cláudia Leal acredita que o Caldas vai. Cláudia, o presidente do clube, o treinador, os jogadores ou os funcionários empoleirados em andaimes no Campo da Mata — onde esta quarta-feira o clube recebe o Desportivo das Aves para a 2ª mão da meia-final da Taça de Portugal. Todos falam a sorrir. Um sorriso nervoso. Por vezes, acompanhado de gargalhadas. Estão incrédulos mas motivados. É que o Caldas tem mais de 100 anos, mas está nas meias-finais da Taça de Portugal pela primeira vez e a um passo de estar na final — que se vai disputar no Estádio Nacional do Jamor no dia 20 de maio.

É na rouparia que os jogadores deixam a roupa suja depois do treino. Chegam a correr, deixam o cesto com o equipamento transpirado e voltam a sair a correr. No dia seguinte, trabalham. O treino acaba depois das 20h30 da noite. Dali a pouco mais de sete horas, às 3h50 da madrugada, Bernardo Carvalho tem de acordar. Tira folgas para poder ir a jogos durante a semana. Ao domingo nem sempre consegue e vem direto do trabalho para o jogo. O avançado é repositor de supermercado. “Saio do trabalho às 9h00. Vou a casa para comer qualquer coisa e descansar. Acordo, vou ao ginásio e depois vou para o treino”, explicou. Bernardo, de 20 anos, deixou de estudar para “tentar o primeiro ano de sénior de futebol e ver como corre”. “O meu pai perguntou-me se queria fazer uma pausa nos estudos para tentar o futebol. Ponderei um pouco, mas acabei por aceitar a proposta. Foi a decisão certa”, conta.

[Veja no vídeo a equipa do Caldas a falar sobre como equilibram a vida profissional com o futebol]

Tornaram-se famosos por terem feito história no futebol caldense, mas são jogadores amadores com outras profissões. Não recebem dinheiro para jogar, à exceção de subsídios de deslocação ou prémios de jogo da Taça Portugal, que são atribuídos ao clube pela Federação Portuguesa de Futebol. Por isso, o trabalho não pode ficar de lado. Rui Almeida, capitão da equipa, explica que jogar em divisões secundárias é “um modo de vida” em que os jogadores têm de “conciliar a atividade profissional com aquilo que mais gostam de fazer”. Sentem-se cansados. Admite que por vezes há desabafos no balneário, de quem ao fim de um dia de trabalho já não tem energia para treinar. Mas está certo de que são só desabafos. “No fundo não temos esse sentimento”, garante. Também ele o sente na pele. Tem 33 anos. É defesa, professor de Educação Física e, ainda, diretor técnico da formação do Caldas. “São um conjunto de sacrifícios que fazemos com gosto. E histórias como a que estamos a escrever este ano compensam“, garante. Compensam, mas não anulam o cansaço.

"São um conjunto de sacrifícios que fazemos com gosto. E histórias como a que estamos a escrever este ano compensam"
Rui Almeida, capitão

Estão cientes disso.  E o treinador sente-o. Sente “o cansaço normal de quem trabalha e não faz disto profissão”. Antigo jogador do Caldas, José Vala, de 46 anos, treina os jogadores e é também professor de Educação Física. Levanta-se às 7h00 da manhã para ir trabalhar e reconhece: “Até ando com um ar cansado.” “Costumo dizer: nós não somos profissionais — nem os jogadores, nem os treinadores — mas procuramos trabalhar como profissionais“, conta. Aliás, não esconde que um dia gostaria de ser profissional de futebol porque tem passado “embora menos do que aquilo que passam as equipas profissionais, momentos semelhantes”. “Como diria o [André] Villas-Boas, estou na minha cadeira de sonho”, admite, acrescentando: “Vivo o meu momento. E com grande alegria.” O segredo para fintar o cansaço é só um: motivação. É algo que “está no espírito dos jogadores”, conta o treinador, recuperando uma frase que o defesa de 26 anos (e funcionário do Hospital de Caldas da Rainha), Thomas Militão, costuma dizer e que se tornou o lema da equipa: “Não há cansaço, não pode haver cansaço.” Embora exista.

José Vala é treinador do Caldas tem 46 anos e foi ele próprio jogador do clube

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O cansaço não vence Alexandre Cruz. O avançado de 22 anos agradece ao pai por lhe ter incutido a paixão desde pequeno. “O meu pai era jogador. É relativamente jovem. Tem 42 anos, agora. Quando era criança, jogava nos seniores do Pataiense e levou-me para lá”, recorda. Alexandre Cruz já passou por vários clubes. Os jogadores brincam com ele e costumam dizer que já tem “mais clubes do que anos de idade”. Está no Caldas há dois anos. Agora está desempregado, mas durante a época tinha um part-time nos Correios de Portugal, que lhe permitia gerir os horários.

É também à família que Luís Farinha, avançado de 25 anos, deve o facto de conseguir conciliar a obrigação com a paixão. Está a acabar a licenciatura em Gestão de Desporto na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Falta-lhe só uma cadeira. Além disso, ajuda os pais na empresa da família de venda e distribuição de peixe fresco, em Peniche. “Os treinos ao final da tarde interferem com o trabalho, mas os meus pais sempre foram abertos em proporcionar aquilo que também quero”, explica. O que quer é o futebol e por isso agrada-lhe que a Taça de Portugal esteja “a ser uma grande montra”.

Os jogadores do Caldas têm de conciliar os treinos e jogos com a atividade profissional

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Estar nas meias-finais reacendeu, de facto, o sonho de um dia os amadores do Caldas virem a tornar-se jogadores profissionais. “Talvez muitos de nós já tenhamos na cabeça que esta é uma grande oportunidade para concretizar esse sonho o mais depressa possível”, explica de brilho nos olhos Diogo Clemente, de 22 anos. É “quase puro do Caldas”. Começou no Olho Marinho, de onde é natural e onde só treinava porque não tinha idade para jogar. Chegou ao Caldas com cerca de 10 anos. Esteve um ano no Torriense mas acabou por voltar ao clube onde hoje joga na posição de defesa. Tem sentimentos opostos: a vontade de chegar mais longe e o conforto do clube onde cresceu. “Por um lado, tenho a expectativa de chegar mais além. Por outro, continuo a sentir-me bem aqui neste clube”, explica. Está no primeiro ano da licenciatura de Turismo, no Instituto Politécnico de Leiria, em Peniche. “Dava para conciliar com o futebol e não se sabe o dia de amanhã. Se não conseguir ser profissional, tenho onde me agarrar”, conta Diogo Clemente, embora não deixe de vincar que o que quer “mesmo é chegar a profissional, nem que tenha de deixar os estudos uns anos de lado”.

O Campo da Mata sofreu intervenções para a realização da segunda meia-final da Taça de Portugal

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Os protagonistas da vitória e da derrota são quem se veste de preto e branco — a cor do equipamento do Caldas — mas o trabalho árduo vai além das quatro linhas do Campo da Mata. “Há pessoas que estão aqui todos os dias a trabalhar ‘pro bono’ em prol do clube”, conta o presidente do Caldas, Jorge Reis, ao apontar para os homens pendurados nos andaimes que estão há várias semanas a melhorar o estádio das Caldas da Rainha. “Muita da mão de obra é feita por nós. É a nossa forma de estar. Tudo o que possamos fazer para contribuir para o engrandecimento do Caldas, faremos, mas custa muito”, admite. Jorge Reis trabalha na Unidade Hospitalar das Caldas da Rainha, do Centro Hospitalar do Oeste. É responsável pelos recursos humanos. Está na direção do Caldas há 12 anos, embora só se tenha tornado presidente em 2016. Fala em sacrifício, mas “não na sua plenitude” e explica: “É um sacrifício com muito trabalho. Saímos daqui à noite, já tarde. Os fins-de-semana, passamos aqui.” Só lamenta um aspeto: “As famílias são prejudicadas pelo nosso aventureirismo.” Mas o presidente tem a certeza de que esse sacrifício “vai compensar e o Jamor é já ali”.

13 fotos

O “raio divino” no avião e o presságio do osteopata do clube

O Jamor é mesmo já ali. Só falta passar nas meias-finais para lá chegar. Mas chegar às meias-finais foi um desafio. “Temos sofrido bastante nestes jogos. Parece que sempre que temos um jogo da Taça, acontece-nos qualquer coisa”, recorda o treinador. Uma semana antes da segunda mão da meia-final desta quarta-feira, a equipa tinha acabado de levantar voo em direção à ilha Terceira, quando o avião onde seguiam foi atingido por um raio — “a cereja no topo do bolo”, para o treinador. Alguns jogadores ficaram afetados pelo susto mas agora brincam com o assunto. Dizem que foi um “raio divino”, conta o presidente do clube. “O raio foi um sinal de que estaremos presentes no dia 20 de maio na final do Jamor“, diz o capitão Rui Almeida, acrescentando: “São vários sinais que temos tido.” Um deles não foi interpretado na altura.

“Temos sofrido bastante nestes jogos. Parece que sempre que temos um jogo da Taça, acontece-nos qualquer coisa”
José Vala, treinador

Na gala final do ano passado do Caldas, o osteopata do clube, Paulo Parente, ia receber um prémio mas não pôde estar presente, recorda o treinador José Vala. Por isso, fez um vídeo para ser mostrado durante a gala. Nesse vídeo, Paulo Parente falava que tinha dois sonhos. Um era ver o Campo da Mata cheio. “Já aconteceu três vezes e vai acontecer mais uma”, diz o treinador. O outro era ver o Caldas no Jamor. “Na altura, foi o riso geral na plateia”, recorda José Vala. “Agora está a servir-nos também como motivação. Será que é um presságio?”, questiona.

O jogador mais velho do Caldas tem 37 anos e o mais novo tem 19

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O treinador estaria a mentir se dissesse que no início da época sonhava com o que o Caldas está a fazer na Taça. No época passada, o clube das Caldas da Rainha só tinha chegado à terceira eliminatória. José Vala previa “uma época tranquila” e tinha as “expectativas normais de uma época normal”. “Nunca ambicionávamos. Não passava pela nossa cabeça”, disse. Nem pela cabeça do treinador, nem dos jogadores que treina. “Se nos dissessem hoje que íamos passar por tudo isto que já passámos, ninguém acreditava. Essencialmente fomos ultrapassando várias barreiras e temos a felicidade de ser semi-finalistas da Taça de Portugal”, afirma o capitão. “Todos nós ali dentro do balneário sabemos tudo aquilo por que passámos e temos vindo a passar para dar essas alegrias a todos nós e a todos os caldenses”, lembra Diogo Clemente. É o ponto alto da carreira dos jogadores do Caldas? “Sem dúvida alguma”, responde Alexandre Cruz. “Alguma vez pensámos estar numas meias-finais da Taça de Portugal? Só mesmo nos melhores dos melhores sonhos”, diz ainda.

“Todos nós ali dentro do balneário sabemos tudo aquilo que passámos e temos vindo a passar para dar essas alegrias a todos nós e a todos os caldenses”
Diogo Clemente, defesa

José Vala recorda que só se apercebeu de que ter o Caldas nas meias-finais podia ser uma realidade, quando eliminaram a Académica e o sorteio ditou o Farense no Campo da Mata. “Apesar de ser uma equipa profissional, sabemos que é uma equipa que está ao nível de muitas equipas da segunda liga, era do nosso campeonato”, explicou o treinador, acrescentando: “Sabíamos que, no nosso campo, só um jogo — não sendo a duas mãos como é agora — teríamos as nossas possibilidades e confirmou-se.”

Os jogadores não recebem dinheiro para jogar futebol, à exceção de subsídios de deslocação ou prémios da Federação

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A Mata encantada e o beijinho na orelha, os segredos do sucesso

“Ninguém passa na Mata.” Há quem diga que havia uma claque há uns anos que tinha um cântico assim. O treinador começou a jogar no Caldas na década de 80 e não se lembra. Não se sabe de onde vem o cântico, mas este ano tem acompanhado o clube e “tem sido uma realidade pelo menos na Taça de Portugal”. “A Mata tem sido essa Mata Encantada e tem-nos permitido atingir os objetivos”, aponta José Vala. A verdade é que nos jogos realizados no Campo da Mata — situado e rodeado pela Mata Rainha D. Leonor, nas Caldas da Rainha — o Caldas nunca perdeu. O presidente do clube, Jorge Reis, está convicto de que conseguirá “mais uma vez fazer valer esse desígnio de que ninguém passa na Mata”. Reconhece que vai ser difícil “mas para o Aves também não vai ser muito fácil”, garante de sorriso na cara.

[Veja no vídeo a equipa a falar sobre o jogo deste quarta-feira no Campo da Mata]

“Entre nós, dizíamos que era sairmos da vila das Aves vivos”, conta o treinador, explicando: “Com um resultado que nos permitisse sonhar.” E o resultado permite isso. O Caldas perdeu a um golo a primeira mão com o Aves. “Sabemos que é difícil. Sabemos que as possibilidades continuam a ser reduzidas como eram no primeiro jogo. Mas sabemos que, nessa percentagem, deve existir lá uma parte que é para nós. Vamos nos centrar nelas, nessas possibilidades”, explica o treinador. Foi exatamente na vila das Aves, quando terminou o jogo, que, para Rui Almeida, a “segunda mão começou a ser jogada, com a manifestação que o público caldense”.

Estamos desertinhos para que venha quarta-feira“, diz José Vala, ao mesmo tempo que esfrega as mãos uma na outra. O treinador ainda não sabe o que vai transmitir aos jogadores antes do jogo porque tem “muita dificuldade em ser ator e levar discursos preparados”. Mas o capitão da equipa já sabe que vai pedir aos colegas que tenham confiança e a capacidade de transmitirem energia positiva uns aos outros.

Nas ruas da cidade, há manifestações de apoio ao Caldas por todo o lado

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Para Diogo Clemente não será difícil. O defesa de 22 anos defende que um dos pontos fortes do Caldas é a relação entre os jogadores. “Dentro do balneário não há um dia em que não haja a típica palhaçada de uns e outros. Há sempre brincadeiras de balneário que ficam dentro do balneário”, conta a rir-se. Se a segunda mão for difícil, Clemente tem uma solução: um beijinho na orelha de Alexandre Cruz. “É o toque do sucesso. O nosso beijinho na orelha um ao outro”, diz e explica que sempre que fazem isso, ganham. “Nos penáltis e tal, os outros todos ‘ai, ai’ e nós aos beijinhos e a rir”, conta, revelando que ele e Cruz são “apelidados de crianças do balneário”. Foi lá que cresceu, nesse “ambiente de balneário”.

“Não temos um Marquês mas temos uma Rainha” e um 12º jogador

Independentemente do resultado, a festa é certa. É que, todos concordam, o Caldas já ganhou. “Esta edição da Taça tem dois vencedores: o que ganhar e o Caldas”, explica o treinador do clube. Mas deixa claro: “O nosso desejo — e é para isso que vamos trabalhar — é que tenha só mesmo um vencedor que seja o Caldas”.

“Esta edição da Taça tem dois vencedores: o que ganhar e o Caldas. O nosso desejo — e é para isso que vamos trabalhar — é que tenha só mesmo um vencedor que seja o Caldas”
José Vala, treinador

Durante anos, as bancadas do Campo da Mata destacavam-se espaços vazios. Em cada jogo, havia apenas entre 200 a 300 adeptos. Muitos deles eram familiares. Agora o número ronda o milhar de pessoas. É por isso que o objetivo de “aproximar o Caldas das Caldas e as Caldas do Caldas” está, para o presidente do clube, cumprido. Jorge Reis recorda que, “com várias iniciativas, nunca conseguiu na sua plenitude” cumpri-lo. Na primeira mão, o Caldas levou 17 autocarros à vila das Aves. “Vale o que vale mas só para termos a comparação. Foi dito pelos diretores do Aves. No campeonato da 1ª liga, o máximo que tinha ido até à vila das Aves era 8 autocarros e foi o FC Porto”, revelou o presidente. Na segunda mão, espera-se uma adesão ainda maior já que os bilhetes já estão esgotados.

O clube das Caldas da Rainha foi fundado a 15 de maio de 1916

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José Vala apelida o público de 12º jogador. “Se não tivéssemos este Campo da Mata cheio, com tanta gente a apoiar-nos, teria sido muito mais difícil”, admite. É esse apoio caldense que a equipa vai tentar “gerir positivamente” e “transformar em motivação e força”, explica Luís Farinha, prevendo: “Se aconteceu o que aconteceu nas Aves, tenho a certeza que aqui vai ser 100 vezes melhor.”

A ligação das Caldas ao Caldas não passa despercebida à autarquia. “O fenómeno deixou de ser meramente desportivo e passou a ter uma rede de impactos sociais e económicos muito significativos. É essa dimensão sistémica que o desporto é capaz de gerar através de uma certa escala que importa considerar”, explica o vereador do Desporto, Pedro Raposo. É por isso que a Câmara Municipal de Caldas da Rainha está a organizar iniciativas para esta quarta-feira. O jogo será transmitido num pavilhão de eventos, a Expoeste, para quem não pode ir ao Campo da Mata e não conseguiu bilhete. “A festa vai continuar exatamente no espaço onde as pessoas estão a assistir ao jogo”, adiantou. Quer o resultado seja favorável ou desfavorável ao Caldas, está a ser preparada a tradicional saída dos jogadores num autocarro sem cobertura, a percorrer as ruas da cidades. “Não temos um Marquês de Pombal mas temos uma Rainha D. Leonor, onde o autocarro terá de fazer uma paragem obrigatória durante o tempo que a população quiser”, disse o vereador, que encara esta iniciativa como “um gesto de retribuição para todo o apoio que a comunidade deu”.

O Caldas esteve quase a mudar de nome e a meia-final vai dar prejuízo

O Caldas vive momentos de glória. Mas nem sempre foi assim. Há 12 anos, o clube atravessava sérias dificuldades económicas. “Falava-se na mudança de nome para não pagar as dívidas antigas“, explicou o presidente, que tem a agradecer à “equipa que abraçou a recuperação do Caldas com alguns riscos” e à Câmara Municipal por “todo o contributo que tem dado”. Com o Caldas a um passo do Jamor, os patrocinadores “têm surgido mais”. Houve até uma empresa do ramo automóvel a sortear um carro com o objetivo de angariar fundos para o clube.

Jorge Reis é presidente do Caldas há quatro anos mas está na direção do clube há 12

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Ainda assim, mesmo com os prémios que serão atribuídos ao Caldas relativos à segunda-mão da meia-final, o clube “vai ter prejuízo com este jogo” de quarta-feira, garante Jorge Reis. Isto porque o Campo da Mata teve de sofrer intervenções para que o jogo se pudesse realizar nas Caldas da Rainha. “O percurso feito até aqui foi doloroso e penoso: criação das condições para a televisão poder fazer a transmissão, questões de iluminação, preparação do relvado, controlo de acessos, videovigilância”, enumera o vereador. “Os custos são avultadíssimos”, revelou o presidente do Caldas, e só foram aliviados porque “há muita mão-de-obra que é realizada no Campo da Mata que é feita por colaboradores do clube”.

O Caldas está bem, garante o presidente, mas ainda pode ficar melhor. A ida à final é a esperança para que tal aconteça. É a “oportunidade para um melhoramento permanente”, diz o vereador, mostrando-se “seguro que o Caldas fará uma gestão e utilização criteriosos e estratégica desse investimento e financiamento”. Pedro Raposo adianta já que “aquilo que venham a ser os prémios de participação e de vitória do Caldas na final” serão “investidos naquilo que é o conforto dos sócios, adeptos, jogadores e 500 praticantes que o Caldas tem e também no conforto das famílias que os acompanham, que se sentam em bancadas sem cadeiras e sem cobertura”. O vereador está certo: “O Caldas saberá dar o melhor uso desse proveito que possa vir da participação na final”.

Houve uma empresa do ramo automóvel a sortear um carro para angariar fundos para o clube

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E se a euforia passar? “Vamos dar tudo dentro de campo para voltar a chamar a cidade”

José Vala nem sequer pensa na hipótese de o seu clube não ir à final. Mas obrigado a pensar sobre essa possibilidade, o treinador aredita que as pessoas que têm acompanhado o clube são para ficar. “Penso que, finalmente, nos aproximámos da cidade e penso que este cordão já não vai ser cortado“, diz. Quanto a esse tema, os jogadores não escondem o medo. “Tivemos o mérito de voltar a aproximar a cidade do clube. Temo que isto se possa perder, esta energia que se criou aqui”, admite Rui Almeida. Ainda assim acredita que “os adeptos devem ser adeptos do clube não só nas alegrias mas, quando há resultados menos positivos, devem dizer presente”.

Rui Almeida é o capitão da equipa e diretor técnico da formação do Caldas

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Aconteça o que acontecer, Rui Almeida já está satisfeito: “O nosso contributo para o desenvolvimento do clube é histórico e vamos ficar na história deste clube, sem dúvida”. O estado de espírito é de euforia. Os jogadores entram e saem do treino de sorriso na cara. “Nem nós próprios conseguimos dar o devido valor ao que estamos a fazer. Acredito que daqui a uns anos podemos realmente perceber o que é que atingimos“, remata o capitão.

Bernardo Rodrigues também tem medo. “Fica o objetivo para a próxima época de voltar a chamar essa gente. Vamos dar tudo dentro de campo para voltar a chamar a cidade aqui ao estádio. Se eles já estiverem aí, era espetacular, “, diz e corre para o balneário. Às 3h50 tem de acordar.

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