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Carlos e Carles. Um pai espanholista e um filho independentista sentam-se à mesa para falar da Catalunha

Carlos é contra a independência da Catalunha e o seu filho Carles quer deixar de ser espanhol. No dia de reflexão antes das eleições, sentaram-se à mesa para falar sobre aquilo que os separa.

Reportagem em Granollers, Espanha

Carlos Saez tem 72 anos e o seu filho mais novo, Carles Saez, está com 31. Antes de se mudar para a Catalunha à beira da idade adulta, o pai viveu em vários sítios de Espanha. O filho nasceu e cresceu na Catalunha. Carlos Saez é contra a independência da Catalunha “porque não vai mudar nada” e Carles Saez é a favor dela “porque é a única maneira de mudar o sistema”. Esta quarta-feira, dia de reflexão antes das eleições autonómicas da Catalunha, sentaram-se à mesa para falar sobre as eleições e sobre o processo independentista.

O encontro deu-se num restaurante de um hotel em Granollers, uma pequena cidade nos arredores de Barcelona. Antes de entrar, pai e filho caminham lado a lado. Não fossem as roupas de um de e de outro tão diferentes — o pai veste uma calças de ganga e um pullover com camisa por baixo, ao passo que o filho veste roupa mais relaxada, que o mais velho descreve como “a farda da CUP”, referindo-se ao partido de extrema-esquerda independentista — poder-se-ia dizer que são o reflexo um do outro. Ambos caminham com calma e de costas direitas, trocando pequenas provocações em tom de brincadeira. Porém, antes de entrar, o pai faz questão de apontar para as diferenças. “Provavelmente, dentro da nossa família, nós somos os que estão mais em cada um dos extremos”, atira para o ar. O filho pergunta-lhe: “Porque é que disseste isso?”. A resposta é também ela uma provocação: “Bom, porque eu penso o que penso e tu… bom, tu és um anti-sistema”.

Vale a pena começar pelos nomes. “Só aí dá para perceber as diferenças”, explica o pai. Há 31 anos, ainda antes de Carles ter nascido, os Saez reuniram-se em Aguilar del Río Alhama, a aldeia de La Rioja de onde a família é proveniente. Por estar prestes a nascer mais um membro da família, pais, tios, primos, todos em conjunto, decidiram o nome do próximo Saez: seria Carlos, como o pai. “Foi uma decisão tomada em conjunto, porque era um nome que agradava a todos, e porque já tínhamos o hábito de dar os nomes dos mais velhos aos mais novos”, conta Carlos. “Mas agora ele já não é Carlos, agora é Carleeees”, acrescenta o pai, referindo-se ao nome catalão que o filho adotou.

Quando nasceu o seu terceiro filho, Carlos e a família decidiu dar-lhe o nome do pai. Mas desde jovem que toda a gente fora de casa o conhece como Carles, o correspondente em catalão. "Faz parte da minha identidade", explica "Eu sou catalão e esse é um nome catalão."

Ao lado, Carles ri-se. “Bom, a verdade é que ainda não mudei o nome oficialmente, mas já estou a tratar dos papéis para mudar oficialmente para Carles”, corrige. E porque quer mudar do espanhol Carlos para o catalão Carles? “Porque faz parte da minha identidade. Eu sou catalão e esse é um nome catalão. E toda a gente me conhece como Carles, dentro e fora da Catalunha”, explica. Agora, é o pai que ouve com um sorriso na cara. Da sua parte, garante que não guarda rancores por o filho mudar de nome, mas também assegura que vai sempre chamá-lo de Carlos. “Só quando queres gozar comigo é que dizes ‘Carleeees’, não é?”, comenta o filho.

Antes de começarem a conversa, cada um concentra-se em ler cuidadosamente o menu escrito em castelhano e em catalão. Estão sentados lado a lado quando chega o empregado e lhes pergunta o que vão comer. Carlos pede chocos grelhados, falando espanhol. Carles escolhe fideuà, um prato valenciano, e fá-lo em catalão.

Ultrapassada essa fase, a conversa tem de começar por algum lado. E é Carlos que a começa.

“Então afinal, explica lá porque é que queres a independência da Catalunha. É porque achas que os espanhóis não gostam de vocês, é isso?”, pergunta o pai.

“Isso é uma mentira, tenho amigos em La Rioja, em Castela e Leão, na Galiza…”, responde o filho, que é interrompido.

“Isso dos amigos não tem nada a ver com o assunto. É porquê, afinal? Por causa da História? Da política? Da economia?”, lança-lhe Carlos, em jeito de desafio, embora sereno.

“Não. É por causa do abuso. Pelos abusos sociais, pelos abusos contra as nossas administrações, pelo desrespeito contra as nossas decisões”, devolve-lhe o filho.

Nas eleições deste domingo, Carlos vai fazer algo que nunca fez na vida: não votar à esquerda. “Devo votar no Ciudadanos, por causa da Inés Arrimadas”, diz. “Bem sei que são de direita, isso não há como esconder, mas vejo que são o partido mais capaz de pôr um fim a esta loucura da independência.” Já Carles, vai votar na CUP. Ou, como o pai diz quando fala com o filho, “lá os teus”. Tudo em tom de brincadeira, claro.

Carlos tem 72 anos e está reformado. Carlos tem 31 anos e trabalha numa empresa de consultoria (João de Almeida Dias / Observador)

João de Almeida Dias / Observador

“Come, mas é, ó independentista!”

A conversa não tarda a chegar um tema central da discussão: a corrupção e os tribunais. Aqui, há um apelido que tanto Carlos como Carles referem sem poupar: Pujol. De Jordi Pujol, presidente da Generalitat entre 1980 e 2003, e de alguns dos seus filhos. O patriarca esteve envolto em vários casos de corrupção e de evasão fiscal, tendo mantido contas na Suíça para ocultar o enriquecimento da família. Dois dos seus filhos também foram apanhados na teia. Porém, apesar terem sido imputados crimes aos três Pujol, só o filho mais velho foi condenado a uma pena de prisão, em abril deste ano.

Para Carles, não há dúvidas de onde parte aquilo que descreve como “impunidade”. “Os nossos tribunais são escolhidos a dedo a partir de fora da Catalunha”, garante. “Quando há alguma coisa que não lhes convém, deixam os corruptos todos em liberdade. Porque se prendem um, depois têm de prender muitos. Então ficam quietos”, queixa-se. Carles acredita que no dia em que a Catalunha for independente — se esse dia alguma vez chegar —, o desfecho de casos como este será diferente. “Porque já não vão estar a cumprir as ordens que são ditadas pelas hierarquia do Governo central”, diz.

"Não é por a Catalunha se tornar independente que a corrupção desaparece. Estás a confundir a independência com mudança. Tudo o que estás a dizer não vai mudar só porque de repente a Catalunha passa a ser um país. Os corruptos de cá continuam a estar cá e os juízes continuam a cumprir ordens superiores."
Carlos, para o filho Carles

Carlos é também altamente crítico de Jordi Pujol, tanto que sempre que refere o seu nome refere sempre que este “montou uma rede de clientelismo em toda a Catalunha para pôr e dispôr”. Porém, discorda do filho, apontando-lhe alguma ingenuidade.

“Não é por a Catalunha se tornar independente que a corrupção desaparece”, diz o pai. “Estás a confundir a independência com mudança. Tudo o que estás a dizer não vai mudar só porque de repente a Catalunha passa a ser um país. Os corruptos de cá continuam a estar cá e os juízes continuam a cumprir ordens superiores.”

Carles revira os olhos perante o pessimismo do pai e suspira. “Então e achas que se não mudarmos nada, se ficarmos na mesma situação, as coisas vão melhorar?”, atira o filho ao pai. A pergunta é retórica — e a conversa dá lugar ao silêncio. Até agora, o filho fala mais do que o pai. Já que não usa a boca para falar, Carlos aproveita-a para comer os chocos grelhados. Já a fideuà de Carles está praticamente intacta no prato, com um ar cada vez mais frio. “Come, mas é, ó independentista!”, atira-lhe o pai. “Come, vá!”

O espanhol que entrou na Catalunha, o catalão que quer sair de Espanha

Carlos chegou à Catalunha no final dos anos 50, quando tinha 15 anos. A sua infância foi passada em várias partes de Espanha. Nasceu em Zaragoza, depois fixou-se em La Rioja, mais tarde passou por Navarra. As mudanças eram motivadas pela profissão do pai, que era da Guardia Civil, sempre que ele era promovido. “A única coisa que tinha de má era que mudava muitas vezes de escola e então afastava-me dos meus amigos”, conta. “O resto, foi bom no geral. Deu para conhecer várias partes do país.”

Aos poucos, a família começou a mudar-se de Navarra para a Catalunha. Primeiro, foi o irmão mais velho, que chegou à procura de trabalho — e, como tantos outros que vinham de fora, encontrou. Todos lhe seguiram os passos, até Carlos, o mais novo. Antes de chegar à Catalunha, só ouvia coisas más da região e das pessoas que nela viviam. “Quando era pequeno, falavam da Catalunha como se só cá vivesse má gente, parecia que comiam as pessoas cruas, aqui”, recorda. “Mas quando vi como eles eram na realidade, percebi que não éramos assim tão diferentes.”

Chegou com um curso profissional e começou a trabalhar no comércio de material de eletricidade. De emprego em emprego, chegou à Endesa com cerca de 25 anos, onde trabalhou até aos 55, idade em que foi para a pré-reforma. “A verdade é que tive muita sorte aqui na Catalunha”, diz. “A geração do meu filho tem uma vida bem diferente.”

Carlos viveu em várias partes de Espanha antes de se fixar na Catalunha aos 15 anos. Carles nasceu na Catalunha e viveu praticamente sempre na região. O pai diz que se sente espanhol. O filho diz que é apenas catalão.

Carles tem dois cursos: ciências ambientais e ciências florestais. Os estudos foram feitos em grande parte desse tempo na Catalunha, mas também passou pelo Brasil, num programa de intercâmbio. Atualmente, trabalha numa empresa privada que faz consultoria a entidades que queiram aceder a subsídios da União Europeia, ajudando-os a preparar os processos de candidatura. A maior parte dos casos que gere estão relacionados com subsídios relacionados com a área da energia verde.

A sua identidade é catalã, por oposição a uma identidade espanhola. Para explicá-lo, fala com entusiasmo dos castellers e muda imediatamente o tom quando fala de touradas. “Existe uma ligação sentimental de um grupo de pessoas que partilha os mesmos costumes, que celebra a mesma cultura”, diz o filho, cujas palavras são recebidas pelo olhar cético do pai. “Não é por haver essa ligação sentimental que tens de querer a independência, todos os grupos têm um sentimento de pertença”, atira-lhe o mais velho. “Eu sinto-me espanhol, mas não é por isso que ando aí nas ruas com as bandeiritas de trás para a frente, como os independentistas fazem.”

"Sou mais independentista agora porque comecei a ver os políticos e os media de Espanha a bombardear constantemente a dizer que a Catalunha é o pior que há neste país. É constante, somos insultados todos os dias nos media, que escrevem mentira atrás de mentira."
Carles

O catalanismo de Carles cresceu bastante nos últimos tempos, explica. “Sou mais independentista agora porque comecei a ver os políticos e os media de Espanha a bombardear constantemente a dizer que a Catalunha é o pior que há neste país. É constante, somos insultados todos os dias nos media, que escrevem mentira atrás de mentira”, refere o filho, para depois dar o exemplo da TVE, a televisão pública espanhola. “Estão sempre a fazer propaganda contra a Catalunha”, garante. O pai devolve-lhe com a TV3, televisão pública da Catalunha: “E os de cá fazem o quê? Fazem o mesmo”. O filho torna a revirar os olhos e quando começa a responder-lhe, o pai, que já terminou de comer, volta a olhar-lhe para o prato: “Come lá isso, ó independentista. Come, Carleeees”.

“Separei-me dela porque ela era independentista”

Não há ninguém na Catalunha que olhe para os meses que se passaram e digam que eles foram um exemplo de calma e tranquilidade. É até frequente é ouvir histórias de pessoas, contadas na primeira ou na terceira pessoa, que se romperam amizades e cortaram laços familiares por não concordarem um com o outro no tema da independência da Catalunha. Por enquanto, Carlos e Carles parecem estar longe disso.

Porém, Carlos terminou recentemente um namoro que mantinha desde 2001, referindo que a questão da independência “foi a gota de água”. “Separei-me porque já não aguentava aquilo”, conta, num suspiro. “Separei-me dela porque ela era independentista, essa é que é a verdade.” Da ex-namorada, faz uma descrição que cabe aos catalanistas mais inveterados: sempre que havia uma manifestação independentista participava; várias vezes ia bater panelas para a janela à hora marcada; no referendo de 1 de outubro foi para as mesas de voto de madrugada e só saiu lá de noite, porque queria absorver tudo.

“Não era só ela, era o meio dela. Os familiares, os amigos, eram todos independentistas”, conta. “E depois estava lá eu, no meio, perdido entre eles.” Sentia-se um “patinho feio” entre todos aqueles catalanistas com nomes catalães, do primeiro aos apelidos. “Percebi que cada vez mais não era bem-vindo e por isso, bom, fui-me embora.”

Do seu lado, Carles garante que não perdeu nenhuma amizade nem se chateou com familiares por discussões relacionadas com o independentismo. E, ao contrário daquilo que já é o reflexo natural de muitos, garante que procura discutir o tema sempre que entende que alguém não concorda com ele. “Não é para convencê-los”, garante. “É para que nos possamos ouvir.”

Carlos terminou uma relação que tinha com uma mulher há 16 anos "porque ela era independentista". "Claro que havia outras coisas, mas o independentismo foi a gota de água. Separei-me porque já não aguentava aquilo", conta.

Um exemplo disso passou-se num grupo do Whatsapp. Ao longo dos anos, Carles foi mantendo um grupo de amigos cujas famílias remontam à aldeia de La Rioja onde o seu pai passou grande parte da sua infância. Daqueles jovens, nenhum vive ali, mas são todos filhos de famílias que por ali passaram. Dali, cada família saiu para fazer a sua vida em diferentes partes de Espanha — e por isso, são muito diferentes uma das outras, incluindo na política. “Há gente que até do Franco gosta e depois há gente que pensa como eu”, diz Carles, a título de exemplo. Ora, no dia 1 de outubro, enviou uma mensagem para todos, onde escreveu: “Desculpem se ultimamente não tenho ido a La Rioja, mas não tenho tido oportunidade. Mas no dia em que voltar, gostava de ver-vos a todos lá. E quando estivermos todos juntos, gostava de que falássemos deste tema”.

As respostas partiram de quem menos esperava. “Praticamente só me responderam os que são mais de direita, os que são praticamente fascistas. Até um, que é militar, me respondeu. E nenhum deles me insultou, nem disse mal de nada. Responderam bem, com piadas”, diz.

Carles retira conforto desta história, por ser um exemplo cada vez mais raro de calma e moderação onde só parece restar acrimónia e tensão. Mas o pai logo trata de fazer disso uma piada. “Mete-te a falar com eles sobre isto e eles tiram-te logo do grupo, vais ver!”, diz-lhe, provavelmente escaldado com o fim da sua relação amorosa. “Sempre que se discorda muito, as coisas correm mal. É inviável.”

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