Hugo Soares está de saída da liderança da bancada parlamentar do PSD, porque Rui Rio preferiu mudar de presidente do grupo de deputados sociais-democratas. No primeiro Carpool emitido em direto pelo Observador, num trajeto entre a Assembleia da República e a Rua da Junqueira, onde fica o Centro de Congressos de Lisboa, este “passista” que foi líder da JSD, disse que tinha “todas as condições para trabalhar com Rui Rio”. Mas espera que o PSD vote contra o próximo Orçamento do Estado. Durante a viagem, foi o entrevistado que teve de segurar com o joelho, a máquina — sempre a cair — que permitia que a entrevista estivesse a ser emitida no site do Observador e no Facebook.

A sua saída de um cargo em que só esteve seis meses é uma despedida dolorosa?
Não, não. Doloroso é fazer este primeiro carpool em direto, com esta maquinaria toda. Mas não, não é nada doloroso. A vida partidária é assim mesmo. Estamos sempre a prazo nas funções que exercemos. Isso não é nada doloroso, é até natural.

Rui Rio não reconheceu o seu trabalho?
Aqueles que quero que reconheçam o meu trabalho são os meus colegas deputados, numa primeira linha, e os portugueses e as portuguesas, numa segunda linha. Não creio sequer que esteja em causa a avaliação do meu trabalho por parte de Rui Rio. Não me parece que tenha sido a influenciar a decisão de Rui Rio.

Mas Rui Rio deu-lhe uma justificação para que não continuasse?
Essa questão já é pública. Tivemos uma conversa em que Rui Rio manifestou o desejo de trabalhar com outra liderança parlamentar e, nesse momento, decidi convocar eleições e devolver a palavra aos deputados.

Acredita que tinha condições para continuar? Trabalharia com Rui Rio? É sabido que Rui Rio não se identifica, por exemplo, com o seu estilo, mais assertivo e agressivo…
… não tenho um estilo agressivo. Acutilante, talvez. Tinha todas as condições para trabalhar com Rui Rio. Mas é preciso ver uma coisa: a direção do grupo parlamentar é um órgão autónomo no interior do partido. E tem um legitimidade dupla que decorre da eleição dos deputados escolhidos democraticamente pelo povo soberano e pelo facto de serem os deputados a eleger a direção. E por isso tem que haver essa autonomia. O que tem é de haver uma articulação leal e frontal com a liderança do partido. Essa teria certamente, nem sei estar de outra forma na vida.

A candidatura de Fernando Negrão à liderança da bancada corre alguns riscos em termos de votação. O que seria para si uma votação razoável?
Não vou cometer essa descortesia de dizer que votação Fernando Negrão deve ou não ter. Ele é que deve olhar para a votação que tiver e tirar daí, como o próprio já disse, as consequências que quiser tirar. Não era elegante da minha parte fazer considerações sobre o número de votos que Fernando Negrão deve ter.

Quando foi eleito, achava que teria legitimidade para exercer funções se tivesse menos de dois terços dos votos?
Quando concorri sentia que tinha a adesão do grupo parlamentar. O resultado de 85% espelhou isso. Com toda a franqueza, nunca pensei se poderia ter este ou aquele resultado. Não fiz sequer essa reflexão.

Como é que encara este Congresso? É um líder que chega para ser aclamado, mas já se antevê alguma crítica  e oposição interna sobretudo por questões que têm que ver com o tipo de relação que Rui Rio espera ter com o PS. Como é que se vai posicionar nestes dias, visto que agora até está mais livre…
Estive sempre livre. A direção do grupo parlamentar é um órgão autónomo. Se não houver essa liberdade de pensamento, essa liberdade de confrontação com a direção nacional do partido, então estamos mal porque temos um grupo parlamentar na mão do presidente partido. Não é isso que se quer. Os deputados não são verbos de encher. Agora, espero que este congresso seja um congresso de aclamação do novo líder, seja um congresso também de afirmação de uma estratégia, de clarificação de alguns pontos…

Que pontos?
O PSD não pode permitir, por exemplo, que Bloco de Esquerda e PCP finjam que são oposição, porque não são. Eles validam todas as opções do PS. Ora, o PSD é oposição e tem de ser alternativa a este modelo de governação. O próximo Orçamento do Estado é determinante para sabermos como é que se vão posicionar os dois partidos. No momento em que o Bloco e o PCP perceberem que o PSD viabiliza o Orçamento do Estado, eles saltam fora. Porquê? Para poder capitalizar o eleitorado que sempre foi deles e que perderam nas últimas eleições autárquicas. O PSD tem de ser muito claro e dizer “não” ao próximo Orçamento do Estado. É uma questão política essencial.

E se Rui Rio deixar essa questão em aberto? Há alguma possibilidade de votar contra a orientação do líder?
Não. De maneira nenhuma. É evidente que manifestarei publicamente a minha discordância em relação a essa orientação. Tenho muito respeito pelas regras internas. Respeitarei a orientação da bancada.

Discordância política mas com a disciplina partidária intacta.
Claro. Respeitarei a orientação da direção da bancada.

Já sabemos que Rui Rio tem mais abertura para falar com o PS do que tinha a anterior direção do partido.
Isso não é verdade. Sempre tive liberdade para falar com o PS, o PS é que não fala connosco. É ao contrário.

Mas agora abre-se aqui uma linha de comunicação que não havia do lado do PS. Que pontos é que Rui Rio pode negociar com o PS e quais são as linhas vermelhas?
Honestamente, creio que em todas as questões que se colocam no dia-a-dia do Parlamento o PSD deve procurar espaços para consensos para fazer as reformas de que o país precisa. Dou-lhe um exemplo: a reforma da Segurança Social é uma daquelas questões que devem discutidas entre o PS e o PSD.

Mas essa é impossível a esquerda aprovar.
Está a ver, está a dar-me total razão. É que este PS está preso ao Partido Comunista Português e ao Bloco de Esquerda e este PS não quer discutir as coisas ao centro com o PSD. É o PSD que vai ter de ir a correr para os braços do PS? Não. Vamos correr para os braços do PS nas áreas em que eles precisam de nós porque não têm o apoio do PCP e do BE? Não creio que seja essa a estratégia. E também digo: nunca vi o dr. Rui Rio dizer que esta é a estratégia dele. Tudo isto é a espuma mediática.

Rui Rio admitiu acordos pontuais em matérias específicas. Não o Bloco Central mas acordos em matérias específicas, mas admitiu outra questão interessante, a eventual viabilização de um Governo socialista. O que leva a duas questões: primeiro, o líder fez bem ou mal em admitir esta eventual viabilização e, segundo, não devia deixar o PS nas mãos da esquerda outra vez?
O PSD tem a obrigação de ganhar as próximas eleições legislativas mas não tem esta obrigação – e não digo isto do ponto de vista de colocar uma fasquia ao dr. Rui Rio, não faço mesmo. O PSD tinha obrigação de ganhar as eleições em 2009, em 2011, em 2015. Nós temos mesmo de ganhar a terceira eleição legislativa consecutiva porque o projeto que o PSD tem para o país é melhor que aquele que o PS tem implementado. Dito isto, parece-me evidente que o dr. António Costa disputa estas eleições depois de as ter perdido anteriormente. Ora, ele tem que legitimar a sua posição e tem que as ganhar se quiser continuar a governar. Se não as ganhar com maioria absoluta, ele deve formar Governo a contar com aqueles que o apoiaram quando ele perdeu as eleições, que é o BE e o PCP.

Neste momento, o líder do partido parte com um contexto difícil. A economia ajuda o Governo, a baixa do desemprego ajuda o Governo. As coisas desse ponto de vista estão a correr bem.
Não concordo com essa leitura.

Rui Rio vai ter um papel difícil.
Sim, é evidente que, numa altura em que a economia cresce, poderá entender-se que é mais difícil fazer oposição. Mas porquê? Se nós, em 27 países, temos 20 países na Europa à nossa frente a acrescer. Na zona euro temos 19 países a crescer à nossa frente. Esta ambição do PS é muito pouco e o PSD tem de ter este discurso para poder ganhar as eleições. E, depois, alguém pode explicar como é que, estando tudo tão bem, a economia a crescer, porque é que as pessoas que nos estão a ouvir esperam horas no Serviço Nacional de Saúde, porque é que o SNS acumula dívida e mais dívida a fornecedores e volta a ultrapassar valores de 2011? É importante que isto seja explicado às pessoas.

Antes das legislativas há europeias. Se o resultado for poucochinho, como aconteceu no PS – António Costa achou que António José Seguro tinha tido um resultado poucochinho.
Veja lá, ganhou o Seguro e depois o Costa perdeu as eleições legislativas.

Mas Rui Rio está obrigado a ganhar por quantos?
O PSD deve disputar as eleições europeias para ganhar. Creio que o PSD deve procurar ter mais votos e mais mandatos nas próximas eleições europeias e, por isso, deve disputá-las para ganhar, como deve apresentar-se em todas as eleições. Eu não ponho isto do lado do caráter da obrigatoriedade para poder fazer um julgamento da liderança do partido, não é disso que se trata.

Mas tem de haver um julgamento da liderança do partido se Rui Rio não ganhar as europeias e se, a seguir, não ganhar as legislativas.
Estamos a caminho de uma reunião da minha família do PPD/PSD. Haverá outra daqui a dois anos. Essas matérias são para discutir quando elas se colocarem, daqui a dois anos. Não faço futurologia e acredito, estou muito convencido e vou dar tudo o que estiver ao meu alcance para que Rui Rio e o PSD possam ganhar as próximas legislativas.

Acha que aqui se vai desenhar um embrião de crítica interna?
Haver críticas às lideranças do PSD, como às do PS, sempre aconteceu. É óbvio que isso tem, do ponto de vista mediático, mais ou menos impacto. Mas sempre aconteceu. Que haja intervenções que possam divergir mais ou menos do líder do partido parece-me normal e não é daí que vem mal ao mundo. Pelo contrário, é também nesse debate de ideias que se afinam as estratégias e que ganhamos todos.

Pode antecipar alguma coisa que vá dizer ao líder? O que é que lhe vai pedir? Já que tem algum capital porque renunciou ao cargo para o qual tinha sido eleito.
Não renunciei, convoquei eleições mas percebo o que está a dizer. Não vou pedir nada ao líder do partido. Vou partilhar a minha reflexão sobre o PSD e o país com os militantes do meu partido. É a eles que quero falar sobre isso em primeira mão, não cometendo aqui nenhuma descortesia com o Observador, e agradecendo o convite.

Luís Montenegro pode ser um bom candidato à liderança do partido daqui a dois anos?
Estou absolutamente apostado em que Rui Rio ganhe as eleições e, por isso, quero que o dr. Rui Rio, daqui a dois anos, volte a ser candidato à liderança do partido.