“Casados à primeira vista”. Pode a ciência ser casamenteira em menos de 24 horas? /premium

13 Outubro 2018105

O casting é rigoroso e o processo "real". O novo reality show, que não está isento de polémicas, quer casar desconhecidos e acompanhá-los durante 8 semanas. Mas será que o drama é só para as câmaras?

Casar com um completo desconhecido na televisão, diante da família — também desconhecida — de ambos os noivos. Esta é a premissa do próximo reality show que SIC vai transmitir. A data de estreia de “Casados à Primeira Vista” ainda não é conhecida, mas há meios nacionais, como a TVMais, que apontam o arranque para o dia 21 de outubro. O casting começou em julho, sabe-se que Diana Chaves será a apresentadora do programa, e que as filmagens serão realizadas fora do país: os casamentos deverão acontecer no México —  à semelhança do que acontece na edição espanhola —, país que também serve de cenário para as várias luas-de-mel. O mais certo é que “Casados à Primeira Vista” compita diretamente com “First Dates”, o reality show que a TVI tem previsto para novembro, apresentado por Fátima Lopes e por Rúben Rua, que deverá ocupar o horário nobre durante 10 semanas, de acordo com o site A Televisão. É caso para dizer que romance estará literalmente no ar.

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Há casório, mas ainda não é o meu… ???????? vamos casar alguns portugueses que não têm tido muita sorte no amor ???? e que vao passar a ter!! Convido vos a entrarem nesta viagem comigo. Vamos lá! Casados a primeira vista!???? ???????????????? #novatemporada

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O novo programa da SIC é uma adaptação de “Married at First Sight”, cujas versões espanhola e australiana passam na SIC Mulher, género teste de lançamento. Em todas as edições, os concorrentes casam-se no mesmo dia em que se conhecem. O formato estreou na Dinamarca em 2014 e, desde então, levantou voo e chegou a vários países — EUA, Austrália, Israel, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Itália, Polónia, França e Nova Zelândia incluídos. Portugal será o 14.º da lista. Os “casamentos arranjados” em pleno século XXI passam pelo crivo de especialistas — sociólogos, terapeutas em comunicação e em relacionamento — cuja profissão pode mudar consoante a edição do programa. São eles que escolhem os participantes e juntam os casais, naquela que tem sido anunciada como uma experiência sociológica “única”. O slogan? “Num instante tudo vai mudar.” O mais certo é que mude. Mas será que a premissa funciona?

Só depois de casados diante das câmaras, que acompanham os participantes uma média de 10 horas por dia, é que estes se podem conhecer melhor: primeiro na lua-de-mel paga pela produção, depois nas cinco a oito semanas (dependendo do país) que deverão passar juntos sob o mesmo teto. É aí que a verdadeira experiência começa: após alguns dias a namorar, os participantes são “convidados” a fazer vida de casados com quem mal conhecem. À exceção da edição australiana (cujo impedimento prende-se com motivos legais), todos os casamentos são oficiais. Se terminadas as oito semanas o casal optar pela separação, a produção fica responsável por pagar o divórcio, incluindo os advogados. E, para evitar complicações de maior, todos os participantes assinam um acordo pré-nupcial.

Questionários de 12 horas e entrevistas gravadas

A primeira temporada nos Estados Unidos teve a cidade de Nova Iorque como pano de fundo. À data, nem os produtores estavam convictos de que conseguiriam pessoas para participar no programa. Havendo, afinal, candidatos, houve muitos que desistiram assim que perceberam que a ideia era casar com um desconhecido. Ainda assim, “foi surpreendente ver quantas pessoas acabaram por ficar”, contou o sociólogo Pepper Schwartz ao E!.

Para lá chegar foi preciso passar por um casting rigoroso. Não se conhece o processo adotado em Portugal, mas lá fora o recrutamento ficou conhecido por ser exigente e por ter envolvido questionários “incrivelmente detalhados” que podem levar até 12 horas a completar — ao todo, têm 50 perguntas.

Os anúncios do casting são transmitidos na televisão, divulgados nas redes sociais e até em bares da cidade selecionada (onde a equipa de produção passa bastante tempo a preparar-se). Mas há países em que o apelo às inscrições acontece em aplicações de encontro como o Tinder. Foi o que aconteceu com Clark, ex-concorrente da edição norte-americana, que contou à Cosmopolitan como, só muito mais tarde no processo, percebeu o que estava em causa. “Ninguém te força a nada, mas existem pressões. Sentimos que estamos muito adiantados para recuar”, disse, assegurando, no entanto, que o processo é “100% real”.

Em Portugal, a SIC usou as redes sociais, além da televisão, para promover o processo de recrutamento. No Twitter, partilhou a seguinte mensagem: “Se a solidão não é para si… se procura o amor… se espera uma aliança de noivado… se pretende o par ideal… Inscreva-se”.

Às entrevistas por telefone ou via Skype seguem-se os extensos questionários já antes referidos. Há também workshops e entrevistas com cada um dos peritos — as entrevistas são gravadas, até porque as histórias inconsistentes são um fator de eliminação. “O processo de juntar pessoas é incrivelmente intenso. A primeira coisa que fazemos é dar workshops de grupo”, revelou Sam Dean, produtor executivo da versão norte-americana, ao Entertainment Tonight. “Os workshops vão ajudar os produtores a diminuir os candidatos a cerca de 60 participantes”, diz, referindo que o trabalho é feito através de avaliações psicológicas e de investigações ao passado das pessoas. “Cada um dos nossos quatro peritos conduz a sua própria pesquisa individual, num processo particularmente cansativo. Isto requer horas e horas e horas de vida dos participantes… Os nossos psicólogos dão a cada um dos candidatos um questionário psicológico, que tem cerca de 50 perguntas. Se preenchido de forma correta, leva cerca de 12 horas a ficar concluído”.

De todos os 18 participantes das anteriores temporadas nos EUA, apenas dois casais ficaram juntos. No mesmo ano, no Reino Unido, 1.500 pessoas inscreveram-se e, no final, apenas três casais foram escolhidos.

“A vida dos participantes é analisada a pente fino, para se excluir dívidas significativas ou registos criminais”, revelou também a perita em relacionamentos Rachel DeAlto ao Et Online. Em julho de 2016, apenas seis participantes foram escolhidos para integrar a quarta temporada da edição norte-americana, à qual concorreram mais de 30 mil pessoas. De todos os 18 participantes das anteriores temporadas nos EUA, apenas dois casais ficaram juntos. No mesmo ano, no Reino Unido, 1.500 pessoas inscreveram-se e, no final, apenas três casais foram escolhidos.

As avaliações não se ficam por aqui, até porque os especialistas, que têm a última palavra no processo de seleção, estão encarregues de acompanhar os diferentes casais durante toda a jornada. Segundo o canal E!, durante as semanas em que os casais vivem juntos, os especialistas mostram-se disponíveis para conversar numa base diária, não vá a relação desfazer-se.

Ciência ao serviço do amor

“Todos os peritos têm sempre a última palavra e isso representa um nível extraordinário de segurança que a estação deposita neles”, dizia Chris Coelen, CEO da Kinetic Content, empresa de produção responsável pelo formato norte-americano, em julho deste ano.

O casais são escolhidos com base na sua “compatibilidade científica”. O recrutamento é pensado de maneira a que as pessoas não se cruzem umas com as outras até ao derradeiro momento. Até lhes é retirado o acesso às redes sociais. Os “casamenteiros”, se assim os podemos chamar, estão à procura de participantes capazes de aceitar um desafio, autênticos e com capacidade para seguir conselhos. Pepper Schwartz, sociólogo e um dos peritos da versão norte-americana, explicou ao E! que o facto de estas pessoas começarem uma relação com um casamento muda a forma como os participantes agem e impacta a noção de investimento na relação.

Pessoas para quem a transgressão seja apelativa, com personalidades mais narcisistas e "com as cabeças cheias de romance", que idealizam o outro com facilidade e que gostam de adrenalina, são as mais propensas a participar no programa.

Pessoas para quem a transgressão seja apelativa, com personalidades mais narcisistas e “com as cabeças cheias de romance”, que idealizam o outro com facilidade e que gostam de adrenalina, são as mais propensas a participar no programa, segundo Ana Alexandra Carvalheira, investigadora do ISPA – Instituto Universitário de Psicologia Aplicada. Um fator de rejeição dos candidatos é a procura destes pela fama – é preciso existir vontade genuína em entrar num matrimónio, mesmo que de olhos vendados. A reforçar a ideia, sabe-se que os noivos recebem “praticamente nada” para entrar no formato. Embora não existam ganhos financeiros com o programa, a produção encarrega-se de assegurar determinadas despesas, incluindo o vestido de casamento e a própria cerimónia — cada noivo só pode convidar até um máximo de 20 pessoas para o casamento. Traços obsessivos e raiva extrema são também características consideradas desviantes que invalidam os candidatos.

A ciência pode ajudar a prever o que acontece numa relação depois de esta estar estabelecida. A observação de casais e das suas respostas à resolução conflitos podem ser premonitórias do sucesso ou insucesso de uma união, diz ao Observador a psicóloga Cláudia Morais, que fala em John Gottman, mundialmente conhecido pelo seu trabalho em estabilidade conjugal e previsão de divórcio — no currículo tem 40 anos dedicados a pesquisas inovadores e vários prémios; dá ainda nome a um instituto.

Juntar casais e assegurar a sua felicidade são coisas que já ultrapassam a ciência, assegura Cláudia Morais, psicóloga clínica e autora do livro “25 Hábitos dos Casais Felizes”. “Mesmo que façamos uma avaliação de personalidade ou um estudo sobre os estilos de vinculação, qualquer relação amorosa depende muito da química, que escapa à ciência.” Ana Alexandra Carvalheira, psicóloga, concorda: “Ninguém pode prever que dois seres humanos se vão sentir atraídos um pelo outro”. No entanto, a investigadora acrescenta fatores que podem servir de contributo a estas relações: “O programa oferece uma ideia romanceada e isso é muito atraente, sobretudo para as mulheres. Além disso, o facto de o casamento ser com um desconhecido faz desta uma situação de transgressão, completamente fora da caixa, o que também é apelativo”.

"Mesmo que façamos uma avaliação de personalidade ou um estudo sobre os estilos de vinculação, qualquer relação amorosa depende muito da química, que escapa à ciência."
Cláudia Morais, psicóloga clínica

Chris Coelen já antes explicara que os produtores não conseguem prever a forma como as pessoas vão reagir ao facto de estarem a ser filmadas 10 horas por dia durante oito semanas. “Olhamos para isto como um documentário”, diz Coelen. “Eles não estão numa propriedade controlada por nós, eles estão a viver as suas vidas reais, pelo que vão sempre acontecer coisas.”

“O que vende é a intimidade das pessoas, é o sexo”, atesta a investigadora Ana Alexandra Carvalheira, para quem as câmaras podem criar um “artificialismo perturbador” da evolução natural de uma relação — para quem o vive na pele e para quem o vê sentado no sofá. “É provável que os participantes se sintam constantemente avaliados pela sociedade e acho que vamos ficar com uma imagem deturpada das coisas.” E sexualmente falando? “O acompanhamento das câmaras pode criar pressões e inibições. É uma pressão para o sucesso.”

Os casos de sucesso associados ao programa são poucos, ainda assim, existem. Jamie Otis e Doug Hehner são um exemplo disso. O casal pode não ter começado com o pé direito quando, em março de 2014, contraiu matrimónio, mas anos depois continuam juntos e são pais de uma menina. A história de amor de ambos —  que começou com Jaime a admitir que não se sentia atraída por Doug — tem servido de exemplo, com o casal a estar mais do que habituado a dar entrevistas sobre a relação amorosa que protagoniza há quatro anos.

As várias polémicas

“Casados à Primeira Vista” surge meses depois do tumultuoso “SuperNanny” que chegou, inclusive, a tribunal. Apesar da decisão pouco abonatória do Tribunal Judicial de Oeiras — foi dada razão à SIC quanto ao terceiro episódio, embora se tenha considerado a existência de ameaça ilícita à personalidade dos menores retratados no primeiro e segundo episódios —, a estação de Carnaxide optou por apostar num formato de reality show que também não está isento de polémicas.

Quando o programa estreou na Austrália, em 2015, a “experiência social” foi alvo de críticas por ser “moralmente doentia” e um insulto à campanha dedicada a promover o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como consequência, foi criada uma petição contra o programa, que reuniu mais de 20 mil assinaturas, muito embora a sua emissão tenha continuado. Entre os comentários do signatários da petição estavam argumentos como a ideia de que o programa ridicularizava o conceito de casamento.

A opinião, publicada em diferentes meios internacionais, nem sempre foi favorável: em março do ano passado lia-se no jornal The Guardian que o programa era “ridículo” e oferecia alguma esperança num “mundo cínico”. O mesmo jornal, num outro artigo, escrevia como funcionam os bastidores do programa, ao dar “voz” ao testemunho da ex-concorrente Simone Lee Brennan. A maquilhadora participou na segunda temporada da edição australiana. O dia mais feliz da sua vida não o foi o do casamento, mas sim aquele em que saiu da casa do então marido. Mais tarde escreveria um post no respetivo blogue sobre como teve de subir ao altar quatro vezes, de dizer os votos outras três e de beijar o noivo no altar duas vezes para que as câmaras apanhassem os melhores ângulos. Contou também como as conversas forçadas terminavam assim que as câmaras eram desligadas e como os jantares supostamente planeados pelo marido eram da exclusiva responsabilidade dos produtores.

"Mesmo que façamos uma avaliação de personalidade ou um estudo sobre os estilos de vinculação, qualquer relação amorosa depende muito da química, que escapa à ciência."
Cláudia Morais, psicóloga clínica

Uma ex-concorrente da edição australiana chegou ainda a acusar os produtores de “encorajarem” o drama para engordar as audiências. Citada pelo News.au, Nadia Stamp admitiu que os produtores encorajam o que é polémico, mas negou que haja algum tipo de guião.

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