Era a última oportunidade que os líderes dos partidos com assento parlamentar tinham para estar em confronto direto. O debate começou morno e parecia encaminhar-se para um adormecimento coletivo mas os ânimos começaram a aquecer meia hora depois do início. Assunção Cristas surgiu como a principal pivô dos ataques a António Costa e conseguiu provocar o primeiro-ministro, que chegou a comparar a líder do CDS a Trump e a pedir-lhe para “não apontar o dedinho”.

Quando a clivagem PS-CDS já tinha tomado conta do debate, mais pela tensão entre Costa e Cristas do que pelo desentendimento ideológico, Catarina Martins entrou em cena para roubar parte do protagonismo. Mais uma vez, o alvo a abater era António Costa. A líder do Bloco de Esquerda quis responder sobre as negociações de 2015 que deram origem à “geringonça”: Costa diz que reuniu primeiro com o PCP e que só depois é que o BE se mostrou disponível; Catarina Martins acusa o primeiro-ministro de querer rescrever a história e revelou que os dois partidos chegaram a reunir-se de forma informal no próprio dia das eleições legislativas de 2015. António Costa irritou-se, mas não confirmou – nem desmentiu – a existência dessa reunião.

Rui Rio ia assistindo “com gosto” ao arrufo mas também quis entrar no debate com uma calculadora para desfazer as contas de mercearia de António Costa. Não chegou a sujar-se. Jerónimo de Sousa apareceu para deixar recados aos profetas da “geringonça” 2.0 e André Silva só surpreendeu no minuto final.

“Geringonça” vai coxa. Catarina e Costa zangaram-se em direto

A “geringonça” até estava a rolar sem grandes tropeções até que Catarina Martins trouxe ao debate um ajuste de contas com António Costa. O socialista tinha dito, no debate da manhã com Rui Rio nas rádios, que há quatro anos, o BE só tinha mudado de posição sobre um acordo com os socialista “depois da reunião do PS com o PCP”. Não caiu bem no parceiro menos amado pelos socialistas e Catarina Martins deixou isso claro ao acusar Costa de reescrever a história. Ao mesmo tempo estendia-lhe pontes (embora genéricas).

[O melhor do último debate antes das eleições]

Mas antes, a líder do BE contou um “encontro informal” a 4 de outubro de 2014, de manhã, entre o Bloco e o PS: “À noite sabíamos que o PS tinha aceite descongelar as pensões e que estávamos disponíveis. Sabemos os dois o que aconteceu”. Costa não gostou da revelação que não confirmou nem desmentiu, até porque “não fala em público” de conversas privadas. Mas contra-atacou com força, acusando Catarina Martins de, ela sim, rescrever a história quando disse, numa entrevista à Lusa, que “a história desta legislatura é a tensão entre o Partido Socialista e a esquerda”. “Só mesmo na sua cabeça e na do Bloco de Esquerda”, concluiu Costa irritado.

Para o líder do PS, a bloquista está a “colocar o PS como adversário principal”, depois de Catarina Martins ter repetido um aviso que já tem feito na pré-campanha: “Não se queimam pontes quando se querem fazer pontes”. É certo que nenhum dos dois virou as costas ao outro, quando confrontados com a abertura para negociações futuras. Aliás, Catarina Martins disse mesmo que “não sabe se o PS está zangado com os últimos quatro anos, mas o BE não está zangado, quer continuar a trabalhar”. E até apontou “o que é preciso”: “Ter o investimento determinado na transição ecológica, investir nos serviços públicos e garantir salários e pensões dignos”. Ainda assim, o debate deixou mais uma vez exposta a tensão entre os dois. Ou “arrufo”, como lhe chamou Rui Rio — e também notou Assunção Cristas. Os dois líderes de direita parecem, no entanto, pouco convencidos da veracidade desta zanga.

Certo é que no PS, os parceiros da esquerda já foram classificados de “empecilhos” (pelo vice-presidente da bancada parlamentar, Carlos Pereira). No debate, Costa foi confrontado com essa qualificação e reagiu mal: “Desculpe lá acho que isso não interessa às pessoas”. Respondeu que “não”, não são empecilhos, mas queixou-se de “sempre que o PS diz alguma coisa do PCP ou do BE cai o Carmo e Trindade”. Defendeu a “geringonça” de que “as pessoas gostam” e sobre a qual não lembram que “foi uma luta entre o PS e o PCP e o BE”, como diz Catarina Martins. Os dois trouxeram contas antigas para ajustar neste debate e continuam a cavar um fosso de desentendimento de estilos entre as duas partes.

Trump, Angola e um dedinho esticado. Um combate inopinado entre AC’s

No canto azul, A.C. (Assunção Cristas), no canto vermelho A.C. (António Costa). Mais do que um debate, houve um combate entre os líderes de PS e CDS. E ambos foram às cordas. Se, de manhã, perante Rio, António Costa mostrou as mangas, perante Assunção Cristas teve de as arregaçar. No ringue foi golpe contra golpe, e a líder do CDS conseguiu puxar da versão mais irritada do primeiro-ministro.

O primeiro round foi logo sobre a saúde, com Cristas a atirar a degradação do Serviço Nacional de Saúde contra Costa, destacando que há “710 mil portugueses sem médico de família” e que as listas de espera “aumentaram em 22%”. E disse mesmo que queria fazer uma pergunta a António Costa. Que, com ar de enfado, se virou para Cristas: “Então pergunte lá”. E Cristas perguntou: “Quantos médicos saíram do SNS?” O primeiro-ministro respondeu que, em termos líquidos, “são 12 mil [de saldo positivo] entre os que saíram e os que entraram”. Costa até disse que tinha uma “prenda” para Cristas, mas não concretizou e lembrou apenas que houve “mais de 700 mil consultas por ano só nas unidades de cuidados de saúde primários”. A discussão continuou.

O segundo round acabaria por chegar quando Costa disse que o IRS é “o que interessa às pessoas que trabalham”. Cristas ficou “perplexa” e assumiu-se como a senhora “combustíveis mais baratos”. Acusou Costa de ter um “desconhecimento profundo que Costa tem de todo o país”. Da operária Cristina do Louriçal, à dona Maria contínua, expôs o drama do aumento do gasóleo. A conversa voltou a azedar ao ponto de Costa dizer: “Não debato consigo, não vale a pena.” Mas o debate continuou e, antes desta ronda, Costa ainda desferia um golpe, quando Cristas o voltou a acusar de não conhecer o país:”Não conheço é só o país das herdades do Alentejo”. Para isso chegaria resposta mais tarde. Assim sobre clima, afinou a mira e comparou a líder do CDS ao presidente norte-americano, que em tempos já negou os efeitos alterações climáticas: “Só há duas pessoas no mundo que defendem a descida dos impostos sobre os combustíveis: Assunção Cristas e Donald Trump”.

O terceiro round ainda marcaria um combate mais duro, com vários ataques. Mesmo que ninguém tenha vencido por K.O. houve sangue de ambos os lados. Cristas usou da artilharia toda que tinha e com toda a força foi para um patamar que ninguém tinha ido: lembrar os casos judiciais. A líder do CDS disse mesmo: “Não vejo ninguém perguntar a António Costa, nem os parceiros, nem a comunicação social sobre os casos que ocorreram neste governo. Cinco membros do governo foram constituídos arguidos, saíram cinco membros, entre casos como Tancos e Galpgate”. E concluiu: “Isto é uma vergonha nacional”.

Provocou em Costa a irritação ao estilo do célebre inopinadamente. O que ainda ganha maior dimensão, dada a proximidade física a que estavam: ao lado um do outro. “Não me estique o dedinho“, disse Costa enquanto Cristas lhe apontava o dedo. Cristas replicou de imediato: “Estico o dedinho, sim“. E continuou o ataque. Não esquecera a referência aos agrobetos alentejanos do CDS: “Nunca tive uma herdade, não tenho fortuna e se tivesse estaria em Angola, onde a minha família deixou tudo e não foi devidamente indemnizada”. Veio de dentro, de uma família de retornados, dos que culpam Soares e Almeida Santos por uma descolonização mal feita. Uma crítica que Portas fazia com frequência enquanto líder do CDS.

Rui Rio não pagou bilhete, mas levou a máquina de calcular, para assistir ao espetáculo

O debate ia longo e pouco se ouvia Rui Rio. A câmara por vezes filmava o líder do PSD e não era raro encontrá-lo a sorrir. Rio foi assistir a um debate — e gostou. O próprio disse-o depois de Catarina Martins ter ensaiado um ajuste de contas com António Costa sobre a história da “geringonça”. “Não paguei bilhete mas estou aqui a gostar de assistir a este arrufo, que normalmente é tratado dentro de casa, mas aqui foi tratado em público”, disse, sugerindo que as tensões BE/PS são artificiais, apenas para captar votos, porque, no day after, lá se entendem outra vez (se for preciso).

Com pipocas ou sem pipocas, a verdade é que Rui Rio manteve o registo que tem adotado em quase todos os debates: participativo, mas não destrutivo, sem pôr as mãos na lama. Esse papel deixou-o para Assunção Cristas e até para Catarina Martins, que protagonizaram os momentos de maior tensão com António Costa. O momento mais crítico para Rui Rio apareceria quando Costa levou para cima da mesa o tema da revisão em alta dos dados do INE sobre crescimento económico, conhecidos esta segunda-feira.

Para o líder do PS, os dados do INE “arrasaram” a narrativa da direita. Mas Rio garante que as “continhas” que fez estão certas, porque fez com “máquina de calcular” e o que os números mostram é outra coisa: houve um crescimento dos impostos sobre o PIB, devido ao aumento dos impostos indiretos (apesar de o IRS ter baixado), a carga fiscal aumentou e o rácio da dívida pública em função do PIB também. Para Rio, a única coisa que o INE veio agora dizer é que, afinal, a economia cresceu mais 0,8% em 2017 do que se pensava. Nada mais do que isso.

Na resposta, o que Rio ouviu de Costa foi um insulto em jeito de elogio. Instado a explicar o “milagre” dos impostos — “propõe um enorme choque fiscal, mas prevê um aumento de dois mil milhões de euros de receita, isso é um milagre” —, Costa apelidou Rio de “ultra-optimista”. “Eu que sou tido como otimista, o meu amigo, cuidado! É ultra-otimista”, disse Costa, questionando Rio sobre como tenciona cortar em 3.700 milhões de euros em impostos e aumentar a receita fiscal em dois mil milhões de euros. Rio explicou: a folga orçamental que o PSD prevê é de 15 mil milhões, onde 25% vão ser usados para cortar impostos, outros 25% para aumentar investimento, e a outra metade para aumentar a despesa. Portanto, é fazer as contas. Números, números, números. Rio ainda tentou emendar a mão desta manhã, quando disse que também tinha um Centeno, para dizer, finalmente, que o seu Centeno se chama, afinal, Sarmento. Mas quanto a isso, já foi tarde.

A nega e o aviso de Jerónimo

“Geringonça” 2.0? Jerónimo tem resposta e é bem claro: “Conjuntura não é repetível”. A prioridade do partido é mesmo “reforçar a CDU” no próximo dia 6 de outubro e é para isso que Jerónimo de Sousa tem recordado as prioridades do partido, umas mais que outras, mas todas ditas várias vezes para que seja mais fácil memorizá-las.

A voz de Jerónimo não tem sido das mais presentes nos debates, mas esta noite, um pouco mais interventivo, o secretário-geral do PCP deixou escapar um comentário em resposta a Rui Rio para ser ouvido por Costa. Quando o líder do PSD sugeria que os arrufos entre BE, PCP e PS se resolviam e que os partidos dariam novamente as mãos depois das eleições, Jerónimo, do outro lado da mesa, alertou: “Não faça profecias, que se pode enganar”, levando a crer que pode não estar mesmo nos planos do PCP viabilizar um novo governo do Partido Socialista.

Uma vez mais, Jerónimo puxou das já muito conhecidas bandeiras da legislação laboral, do aumento dos salários e da criação de uma rede de creches gratuita até aos três anos. Uma espécie de resumo do essencial do programa e das propostas de que o partido não parece disposto a abrir mão, tanto assim é que Jerónimo desafiou diretamente António Costa a acompanhar o aumento do salário mínimo nacional para os 850 euros.

Afinal, a prioridade do PAN é a corrupção

Ao longo do debate, André Silva esteve muitas vezes à margem da discussão. Foi na ronda final que o líder do PAN conseguiu destacar-se pela primeira vez. Quando foi desafiado a destacar uma medida do programa eleitoral que representasse a sua visão para o país, escolheu falar de corrupção. “Queremos aumentar os meios da PJ e do Ministério Público e combater a judicialização da política, com tribunais mais especializados em matérias de corrupção para termos julgamentos mais rápidos e eficazes”, explicou. Ao contrário do que seria expectável: nem ambiente, nem bem-estar animal, nem felicidade humana. Corrupção.

Quando tinha oportunidade de discordar dos restantes líderes partidários sobre os temas que iam sendo lançados para cima da mesa, o líder do PAN utilizava argumentos alternativos. Questionado sobre os dados económicos do país, por exemplo, André Silva reconheceu que é importante que haja crescimento mas preferiu falar dos efeitos secundários: “Portugal é dos países com maior tráfico de seres humanos. O país está a desenvolver-se mas com mão de obra escrava, com condições precárias”.

Não foi atacado pelos seus pares e evitou ataques diretos, escapando às balas que iam sendo disparadas pelos restantes membros do painel. Também não conseguiu impor os seus temas. A estratégia remeteu André Silva para um papel discreto ao longo das duas horas de discussão.