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“Lembro-me de si”. Marisa Matias não se esquece do que viu em Monchique depois dos incêndios

A líder do BE no comboio da campanha com elogios ao silêncio de Marcelo e críticas às indecisões do PS no Parlamento. Bagagem suficiente para animar uma viagem feita numa carruagem quase vazia.

(Este artigo foi atualizado ao longo do dia)

E ao segundo dia de campanha, Catarina Martins entrou em cena. E veio com a mira afinada. A líder do Bloco de Esquerda esteve ao lado de Marisa Matias na primeira ação do dia: uma viagem de comboio na linha do Alentejo, entre Vila Nova da Baronia (Alvito) e Beja. O objetivo era apontar a necessidade de investir na ferrovia, sobretudo no interior do país. Um clássico das campanhas políticas. Na mala, a líder trazia elogios para Marcelo Rebelo de Sousa e críticas para um PS indeciso no Parlamento.

Catarina Martins entra em força. “O PS, em matérias em que parecia sólido, tem vindo a recuar”

Esta segunda-feira o BE quis ir mais longe e aproveitar para criticar também os critérios de co-financiamento do Plano Juncker. Afinal, estas eleições são para eleger mandatos para o Parlamento Europeu e é preciso falar de Europa.

Ao longo da viagem, a caravana bloquista não conseguiu ter muito contacto com a população. Contavam-se pelos dedos de uma mão os passageiros que viajavam no mesmo comboio que o Bloco de Esquerda e os trinta minutos de conversa foram passados com conversas cruzadas entre membros do partido. Aqui e ali, lá surgia uma interpelação aos passageiros, que reagiam de forma envergonhada. “Desculpe este aparato. Eles não fazem por mal”, disse uma bem-disposta Catarina Martins, referindo-se à quantidade de repórteres de imagem e de jornalistas que tinham abordado Joaquim Barrocas, de 87 anos, durante o percurso para prestar declarações sobre a ferrovia. “Não tem mal”, respondeu. A conversa não prosseguiu e a líder bloquista voltou para o seu lugar e para a conversa com Marisa Matias e José Gusmão.

Os passageiros foram abandonando a carruagem até só restarem membros do partido. “Íamos tão bem aqui até ao Algarve”, desabafou Catarina Martins como quem manda uma laracha sobre o tempo para cortar o silêncio embaraçoso. Ainda que improvável, foi o gancho ideal para se falar de mais um problema da linha do Alentejo. “Pois íamos. Mas não existe essa ligação. Temos de ir quase até Lisboa, até ao Pinhal Novo, para voltar a descer. 

Ainda assim conseguiram ouvir alguns lamentos. “Houve uma noite em que o comboio ficou parado a meio da linha e os passageiros tiveram de fazer o resto do percurso a pé”, conta um passageiro. “É verdade. E eu já cheguei a esperar mais de quarenta minutos por um comboio”, reclamou Joaquim Barrocas. “Pois. Aqui é assim. O comboio llega quando llegar e parte quando partir”, concluiu num portunhol mal amanhado um membro da comitiva do Bloco de Esquerda residente em Beja.

Os passageiros foram abandonando a carruagem até só restarem membros do partido. “Íamos tão bem aqui até ao Algarve”, desabafou Catarina Martins como quem manda uma laracha sobre o tempo para cortar o silêncio embaraçoso. Ainda que improvável, foi o gancho ideal para se falar de mais um problema da linha do Alentejo. “Pois íamos. Mas não existe essa ligação. Temos de ir quase até Lisboa, até ao Pinhal Novo, para voltar a descer. Não faz sentido”, indignou-se um membro do Bloco de Esquerda local. Uma conversa que terminou instantes depois com a chegada do comboio a Beja. E só aí é que a política pura e dura entrou em campo.

Em declarações aos jornalistas, Catarina Martins falou sobre todos os assuntos do momento. Da campanha ao Parlamento, passando pelo silêncio — ontem quebrado — do Presidente da República. “Acho que o Presidente da República esteve bem”, considerou. O adversário mais atacado foi o PS. “Neste final de legislatura, o PS, em matérias em que parecia sólido, tem vindo a recuar”. Os recuos entraram definitivamente no léxico político.

A afirmação resume os últimos tempos desta relação complicada. Os dossiês sobre a lei de bases da Saúde, sobre a legislação laboral ou sobre a lei de bases da Habitação são alguns dos que ainda estão em aberto no Parlamento e o entendimento entre BE e PS, tão comum nesta legislatura, parece mais longe do que nas discussões iniciais. O Bloco de Esquerda diz que não perde a esperança de chegar a acordo com os socialistas. Mas não cede nas suas linhas vermelhas. No caso da saúde, por exemplo, o limite está na existência de novas PPP.

E aproveitando a deixa, Marisa Matias criticou a Comissão Europeia e, mais concretamente, o Plano Juncker, cujos critérios considera que “beneficiam as PPP e o lucro e não servem as populações que precisam”.

Perante a inexistência de uma linha que ligue Beja ao Algarve, a caravana do Bloco de Esquerda seguiu viagem para Faro de carro. Todos menos Catarina Martins, que seguiu rumo a Lisboa e ao Parlamento para estar presente no plenário desta tarde. “O dia da Marisa vai ser mais longo do que o meu”, anunciou antes de se despedir.

“Lembro-me de si, e de si, e de si…”. A (re)visita de Marisa Matias a Monchique

Antes da chegada a Almancil houve duas paragens: Monchique e a aldeia de Alferce, duas das localidades mais afetadas pelo incêndio de Monchique no verão passado. Visita ao quartel dos bombeiros e contacto com a população, já sem Catarina Martins mas com João Vasconcelos, deputado do Bloco de Esquerda eleito pelo círculo de Faro.

O tema dos incêndios, mais do que uma pedra no sapato deste Governo — que também o é —, é uma causa que mexe diretamente com a vida das pessoas que por eles foram afetadas. “Eles bem que podem vir cá, porque isto ainda está igual. Não há uma única mudança desde que o fogo aqui passou”, confessava ao Observador um habitante de Alferce antes da chegada da reduzida comitiva bloquista a aldeia. “E olhe que era preciso”. O olhar prendia-se na serra onde já começam a brotar alguns arbustos verdes, que disfarçam os troncos ardidos. Sentado num banco, à sombra de uma oliveira, com cinco amigos, aguarda pela visita do Bloco de Esquerda “e do João [Vasconcelos]”. “Ele é de cá, sabiam?”, pergunta aos jornalistas.

Marisa Matias aproxima-se e cumprimenta as poucas pessoas que aguentavam os 30º C das 17h15 ao sol. “Eu lembro-me de si no ano passado. Falámos ali à porta da mercearia”, constatou a candidata enquanto cumprimentava o primeiro dos seis. “E deste senhor também”. Mais um cumprimento. A referência à visita que o Bloco de Esquerda fez à zona ardida de Monchique nos dias seguintes ao incêndio de agosto de 2018 era um bom trunfo: “Olha… ela lembra-se mesmo!”. “Foi mesmo à porta da mercearia que falámos”. A visita tinha começado com o pé direito.

"Se quiserem que volte no fim...", ia dizendo a candidata. "Temos de votar em si, é isso?", interrompeu o mais novo, provocando a gargalhada aos colegas de jogo. E também a surpresa de alguns membros da comitiva. Mas a candidata não se deixou levar

O Presidente da Junta de Alferce, José Gonçalves (PS), caminhava ao lado de Marisa Matias, mas o seu esforço por apresentar a candidata era rapidamente reduzido pela memória da eurodeputada. “Lembra-se de mim? Em agosto viemos cá e falámos um bocadinho. Houve alguma mudança?”, questionou um senhor que, apoiado na sua bengala, encolheu os ombros. “Tudo na mesma”. Ao Observador, admite que estas visitas animam a população. “É bom que venham. Pode ser que as coisas melhorem e que olhem para nós”, suspirou. “E ela lembra-se de nós”, orgulhava-se. “Lembra-se mais ela do que eu“, disse a sua mulher, encerrando a conversa.

A lição estava bem estudada. A cada rosto conhecido a correspondente referência: “Continuam a pagar IMI pelas casas e pelos terrenos ardidos”. “Pois é…”

Marisa Matias falou a todos os habitantes de Alferce, em Monchique, mesmo aqueles que jogavam às cartas para se refugiar do sol

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A volta seguiu sem percalços. No fim, lá se voltou a falar de Europa. “A Comissão Europeia comparticipou a 100% ajudas para a recuperação aqui em Alferce. Falta mais fiscalização e a realização de um cadastro. Foi por isso que o Bloco de Esquerda propôs, em 2010, a criação de um mecanismo de Proteção Civil europeu”, recordou mais tarde aos jornalistas. Protestou contra “a floresta financeirizada” e garantiu que o Bloco de Esquerda não ia ceder nesta luta. “Que também é sobre alterações climáticas”. A bandeira que o Bloco não larga nesta campanha.

A visita à pequena aldeia fez-se rapidamente e não se prolongou para “só um café antes de irem” com o deputado algarvio e com o autarca socialista por pressões de agenda. Há ainda uma viagem até Almancil, onde se dará por encerrado um dia de campanha “morno” com um jantar e algumas intervenções.

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