Para a história ficará o dia em que teve de ir buscar “umas galinhas que o ex-embaixador de França tinha oferecido à Agatha”. Entenda-se: trabalhar com Agatha Ruiz de la Prada significa que não há dois dias iguais. Opinativa, racional, diplomática e exigente, Catarina é valente, como o seu apelido dita, tem 30 anos, o dom da palavra, e sabe bem o que quer. Comunicar faz parte de si, depois de várias colaborações em diferentes áreas, foi a primeira estagiária da revista Time Out Lisboa, é hoje um elemento decisivo na equipa mãe da conhecida designer, em Madrid, sendo responsável pelo departamento de comunicação nacional e internacional da marca espanhola.

Conhecida pelo seu universo infantil, colorido, cheio de fantasia e muita imaginação, Agatha Ruiz de la Prada tem 58 anos, estudou Arquitetura e Belas Artes, lançando a sua primeira coleção em 1981. O seu nome é sinónimo de sucesso em todo o mundo, reinventa-se em cada estação, fazendo das suas peças verdadeiras obras de arte. Os seus produtos vão do vestuário ao estacionário, passando pelos acessórios e pela decoração. Em Portugal, a marca tem a única loja própria no Porto, na zona do Aviz, e é possível vislumbrar alguns artigos no El Corte Inglés e em espaços multimarca. Entre viagens, festas e desfiles, distribuídos pelas principais capitais da moda, e o lançamento da nova coleção de sapatos da marca, o Observador entrevistou o braço direito da designer arrojada e irreverente. Eis uma viagem à volta do mundo de Catarina Valente.

Sempre soubeste que o teu futuro seria comunicar?

Desde nova tive uma grande facilidade em expressar-me e aprender línguas. No colégio acabava sempre por ser escolhida para apresentações de trabalhos de grupo, gosto de pensar que tenho um “knack” [talento natural] e um enorme à vontade para falar em público. Acho que quando chegou o momento de escolher uma área de especialização a comunicação foi uma escolha óbvia e orgânica. Estudei Comunicação Empresarial no ISCEM (Instituto Superior de Comunicação Empresarial), em Lisboa.

Passaste por vários países, como foi o teu roteiro pelo mundo?

O meu pai é diplomata por isso vivi em Bruxelas, Estocolmo, Pretória e Roma. Com 17 anos fui para Lisboa, bastante contrariada, para “criar raízes”. Depois de me licenciar em 2009, fiz o mestrado na Nova SBE, onde parte do programa académico incluía um semestre de um estágio no estrangeiro. Consegui um lugar na CBS em Copenhaga e no ano seguinte parti para a Agatha Ruiz de la Prada, em Madrid, onde fiquei até hoje, tendo passado por diferentes cargos e países.

Qual foi o país com que mais te identificaste?

Sem dúvida Itália! Os italianos têm uma verbosidade maravilhosa, quando escrevem um e-mail usam imensas palavras robustas, uma prosa interminável com uma formalidade única. Acho que isto também existe em Portugal, eu gosto porque mostra que somos países que respeitamos um bocadinho essa tradição da diplomacia e de uma formalidade antiga, quase esquecida. Depois eles vivem segundo a lei da la dolce vita, o ritual de parar, de gozar a vida é sagrado, quase um mandamento. Eles aproveitam qualquer segundo, param para almoçar; são duas horas da tarde e bebem um copo de vinho, aproveitam esse momento de descontração e eu acho isso muito romântico e uma filosofia de vida muito bonita. Hoje em dia, especialmente a nossa geração, vivemos agarrados ao telemóvel, estamos sempre em frente ao computador a trabalhar e é preciso de vez enquanto pararmos e gozarmos a vida. Finalmente, têm imenso orgulho no seu país, vivem aquela Itália gloriosa que já passou, do Renascimento, da cultura e da arte. Em Portugal também fazemos isso, somos muito agarrados à nossa época de ouro, mas de uma forma mais melancólica e pessimista, se calhar. Eles recordam com imenso otimismo, acreditam mesmo que são o país mais importante do mundo.

O interesse pela moda quando surgiu?

Em Roma, onde vivi entre 2002 e 2006, ou seja, entre os meus 13 e os 17 anos, descobri o mundo das marcas de luxo e deslumbrei-me como muitas outras teenagers da minha geração, que podiam saber o que era uma Chanel ou uma Louis Vuitton, mas talvez não soubessem o que era a Fendi, por exemplo. Era um mundo ao qual eu nunca tinha estado exposta, nessa altura em Portugal não havia o culto das marcas de luxo, a Avenida da Liberdade não era o que é hoje. O que mais me chamou a atenção foi quando fui a Milão, ao quarteirão da moda, e passei por uma espécie de centro comercial Armani, onde ele tinha as várias marcas concentradas num só local. Entrávamos e havia a Armani flores, chocolates, jeans, uma livraria e depois o Emporio Armani e a Armani Prive. Tudo isto era o princípio de quando as marcas começaram a perceber que tinham que chegar a todo o tipo de consumidor, porque também era muito mais rentável. Antigamente no setor de luxo o perfume era o produto aspiracional, uma pessoa que não podia comprar um vestido ou um fato Armani de dois mil ou três mil euros, podia comprar um perfume. Mas de repente oferecer coisas fúteis como um chocolate ou uma flor é muito importante, pois o consumidor que naquela altura só pode comprar isso, quando começar a ganhar mais dinheiro investe mais nessa marca. Eu acho que roda tudo à volta da estratégia que foi desenvolvida pelas marcas de luxo de criar uma verdadeira experiência. Uma marca não era só uma peça de roupa, havia uma estética associada a um determinado designer e essa estética era aplicável a qualquer produto.

Catarina Valente no camarim do Casino Estoril, durante o desfile realizado em outubro de 2018

Como foste parar à marca Agatha Ruiz de la Prada?

Tive a sorte de ser contratada, enquanto estava a estagiar, para uma vaga que havia na loja de Paris, onde acabei por trabalhar como vendedora e assistant manager durante um ano e meio. No início de 2014 voltei a Madrid para trabalhar no departamento de comunicação. Em 2016 a Agatha pediu-me para substituir a diretora da flagship store de Milão, e acabei por lá viver um ano e meio. Em Agosto de 2017 voltei mais uma vez para Madrid, onde fui responsável pela comunicação, organização de eventos e colaborações internacionais da marca. Quando a minha colega e responsável do departamento saiu em outubro do ano passado, tive de assumir a gestão do departamento de comunicação e eventos a nível nacional e internacional.

Do que mais gostas no teu trabalho?

A Agatha é uma mulher muito culta, perspicaz e ao mesmo tempo ponderada. Tem uma energia inesgotável e é a pessoa mais trabalhadora no estúdio. É muito mais que uma designer, é uma artista, uma intelectual, uma visionária e a sua imaginação não tem limites… Gosto e considero um privilégio trabalhar de maneira tão próxima com uma pessoa provocadora, que não tem medo de quebrar as barreiras estéticas e os dogmas deste sector. Como não acredita em posições fixas ou cargos específicos, aprendi a trabalhar em diferentes “roles”, o que acho uma enorme mais valia, pois defende a filosofia de que “é importantíssimo saber fazer tudo nesta vida”. O facto de vendermos todo o tipo de produtos faz com que o meu trabalho não se limite exclusivamente ao mundo da moda e vou aprendendo sobre o funcionamento e as tendências de outros sectores.

Tens alguma rotina? Como é o teu dia?

Nunca há um dia igual, o meu trabalho é muito variado. Desde a organização do desfile em Madrid, em Nova Iorque ou mesmo em Malta, até a visitas e almoços na Fundação, acompanhar a Agatha a eventos ou sessões fotográficas, a organização de eventos, exposições ou lançamentos de produtos nos nossos espaços, recrutamento de estagiários ou mesmo organização da agenda da designer… Há dois verões, por exemplo, houve um dia em que tive que ir buscar umas galinhas que o ex-embaixador de França tinha oferecido à Agatha.

O que foi mais fácil e o mais difícil até agora?

O mais fácil foi aplicar o “ser desenrascada” aos vários cargos que desempenhei na empresa. Quando trabalhei no estrangeiro não se contava uma equipa tão grande como a de Madrid, portanto como dizem os espanhóis, perante uma situação que precisa de ser resolvida é fulcral “ponerte las pilas” e saber tomar decisões. O mais difícil é a gestão de vários projetos ao mesmo tempo…Na Agatha Ruiz de la Prada participamos em cerca de 60 catwalks por ano, a Agatha dá mais de 100 entrevistas e realizam-se inúmeras colaborações de design para todo o tipo de marcas, produtos e ONGs. Acaba tudo por ser uma questão de organização, mas you can never let your guard down, há sempre imprevistos pois são muitas as bolas no ar.

Como é a tua relação com Espanha?

A minha relação com Espanha é um bocadinho morna, nos últimos anos tem vindo a acaliantar-se, como dizem os espanhóis. Nunca morri de amores por Madrid, confesso, mas gosto de viver aqui, é uma cidade que tem uma dimensão perfeita, pois não é muito grande nem muito pequena. É cosmopolita, uma capital bastante relevante na União Europeia, mas sinto algumas diferenças culturais. Os espanhóis têm uma coisa ótima que os italianos também têm: sabem gozar a vida. Um domingo típico em Portugal é um dia sossegado, de introspeção, passado em família. Aqui é um dia de celebração, a cidade está cheia de pessoas nas ruas, nos bares, a comerem tapas ou a beber cerveja, há imensa atividade e eu acho isso bom. Os espanhóis têm imensa energia, são barulhentos, é verdade, mas eles sabem gozar a vida. Profissionalmente, os portugueses são formais e rigorosos, mas os espanhóis são despachados e se calhar mais eficazes.

Catarina com Agatha numa recepção oferecida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

Que desafios gostarias de abraçar no futuro?

Gostaria de colaborar nos setores de gastronomia, da beleza ou do entretenimento. Adoro trabalhar em comunicação, mas sobretudo na comunicação de experiências. Aqui, especialmente no mundo da moda e da beleza e da gastronomia, organizam imensos eventos, há sempre festas em Espanha e como diz a Agatha, e muito bem, nós temos que ir até à inauguração de uma bomba de gasolina. Por isso parte do meu trabalho é ir a vários eventos organizados pelas marcas com as quais colaboramos, ou temos amigos e contactos, e acho que nos últimos anos nota-se que as marcas têm feito um investimento muito maior, não só a nível económico, mas também criativo. Criam toda uma experiência quando fazem uma festa para promover um produto ou até mesmo uma festa de Natal. É muito interessante a parte de organizar um evento, um lançamento, escolher quem vão ser os embaixadores… São coisas que se conseguem fazer muito bem no mundo da gastronomia e da beleza. No setor do entretenimento acho maravilhosas as novas plataformas que têm surgido, como a Netflix, e gostaria de trabalhar no marketing e na comunicação destas empresas que têm muito poder económico para investir nestas áreas.

O que te faria regressar a Portugal?

Ter a oportunidade certa de trabalhar com uma marca que quisesse fazer um investimento em Portugal, se calhar já consolidada e que tivesse um bom budget para apostar na comunicação em eventos e na criação de experiências. Hoje há consumidores em Portugal bastante interessantes, inteligentes, viajados, internacionais e eu gostava muito de fazer parte de uma empresa que me desse a oportunidade para trabalhar com o mercado português.

Do que sentes mais saudades?

Da vista para o rio Tejo, sem dúvida.