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Artigo em atualização ao longo do dia

Jesuína Guerreiro tem 80 anos e está “há mais de três anos” sem médico de família. Já não estranha ter que acordar às 5 horas da manhã para percorrer alguns metros entre a sua casa e a porta do centro de saúde para aguardar uma consulta com um dos médicos. “Felizmente a distância não é muita”, diz ao Observador. Quando “apenas” precisa de medicação, o segurança escreve o nome dos comprimidos numa folha e deixa numa caixa onde o médico mais tarde passará. Jesuína não sabe ler nem escrever, mas sabe que “isto vai de mal a pior”. Vale-lhe a “cadeirinha”, como lhe chama, já que os problemas nas pernas não lhe facilitam a espera.

Foi ali, no Centro de Saúde da Amora, no Seixal, que Jerónimo de Sousa pôde ouvir de viva voz as várias queixas dos responsáveis pela unidade de saúde e, claro, dos utentes. Num universo de centenas de milhar de utentes há milhares sem médico de família. Nada que tenha surpreendido o secretário-geral. Os que lá trabalham garantem fazer um esforço para que “tudo continue a funcionar”, mas nem a melhor das vontades é capaz de operar a multiplicação de médicos, enfermeiros e assistentes operacionais. Nas três unidades de saúde da Amora há 25 médicos e 32 enfermeiros para quase 54 mil pessoas.

Jerónimo escolheu o centro de saúde para fazer notar uma vez mais as consequências do desinvestimento no SNS e destacou em particular a falta de apoio do Estado a algumas vacinas, nomeadamente para a hepatite B. “Morreram 46 crianças com hepatite B, mas creio que todos concordam comigo quando digo que mesmo que fosse só uma seria uma batalha importante”, disse. A vacina contra o vírus da hepatite B está inscrita no Orçamento do Estado, mas ainda não chega a todas as famílias. “Quem tem dinheiro pode vacinar os filhos, quem não tem não pode”, faz notar o secretário-geral.

Mas o problema ali não é só esse e Jerónimo falou também diretamente aos utentes do centro de saúde, porque todos os votos contam. Apontou para o teto da entrada principal e disse que em dias de chuva “é habitual jorrar água”, notou a falta assistentes operacionais e técnicos administrativos que facilitariam a vida dos utentes e dos profissionais de saúde que por ali passam. “O governo é do PS e é este PS que pode ficar livre” para continuar a inscrever coisas no Orçamento do Estado que depois não cumpre, concluiu.

Tancos. “Ninguém está acima da lei”

À hora da visita, saíam as notícias a confirmar que Azeredo Lopes vai ser acusado pelo Ministério Público (MP) de quatro crimes: dois crimes de denegação de justiça, prevaricação, abuso de poder e favorecimento pessoal praticado por funcionário no caso do desaparecimento das armas de Tancos. Jerónimo de Sousa “não se quer precipitar”, mas diz que “ninguém está acima da lei”.

Sobre o facto de a acusação ser conhecida em plena campanha eleitoral o secretário-geral não vê quaisquer consequências, nem para uma eventual fragilização do PS (e perda da maioria absoluta). “Não é uma questão central nesta fase da campanha quando só falta praticamente uma semana”, disse.

Ainda sobre a hipótese de uma nova comissão de inquérito a Tancos, Jerónimo diz que “dependerá dos conteúdos”, do funcionamento da Assembleia da República e do julgamento que, entretanto, “poderá ser concretizado”.

Beja: um socialista insatisfeito e o governo que faz lembrar Pilatos

Começou cedo a jornada da caravana comunista e também a daqueles que preparavam o almoço para cerca de duas centenas de apoiantes da CDU na Vidigueira. Lina Lourenço é cozinheira “desde sempre” e diz que o gosto que tem pela cozinha atenua o cansaço. Começou às 8 horas a preparação do almoço e não conta sair do Mercado Municipal da Vidigueira, em Beja, antes das 18 horas. Bem depois dos apoiantes que, mal terminado o almoço arrumaram as mesas num piscar de olhos e entraram nos carros e num autocarro que os esperava para regressar a Pedrógão, bem perto.

Mas não foi só o almoço preparado por Lina que satisfez Jerónimo. No almoço esteve também um socialista que admitiu a Jerónimo que “ultimamente eles (PS) não se andam a portar bem”. O secretário-geral não quis dizer de quem falava, mas garantiu que era um velho amigo, e que se o sentido de voto dele no dia 6 fosse para a CDU seria sempre um “voto certo e seguro nos avanços do país”.

Antes, Jerónimo de Sousa aproveitou a intervenção para chegar a um setor que ainda não tinha abordado nestes dias de campanha: o da banca. Citou as notícias que dão conta do “verdadeiro assalto aos rendimentos que as comissões bancárias representam”, apelidou-o de “escândalo de campeia”.

“Um escândalo de campeia perante a cumplicidade do regulador e governos que atinge particularmente a população mais vulnerável e de menores rendimentos, muitas delas apenas com contas à ordem”, disse o secretário-geral. E claro que Jerónimo não desperdiçou a oportunidade de colar, uma vez mais, o PS à direita. Em julho, lembra o secretário-geral, o PCP levou à Assembleia da República um projeto-lei para limitar as comissões de manutenção de contas à ordem em 4 euros por ano. Foi chumbado por PS, PSD e CDS. “Isto [valores cobrados pelas comissões bancárias] é um escândalo em que os reguladores e o governo parece que têm uma posição de Pilatos como se não tivessem nada a ver com isto”, disse Jerónimo para alertar para o perigo de dar ao PS a hipótese de colocar o país a “andar para trás”.

E para os mais indecisos, ou cépticos, Jerónimo garante: “isto não é nenhuma profecia, é realidade, se eles puderem voltam para trás particularmente no que significa de direito de avanço dos trabalhadores e do povo português”.

Mais uns quilómetros, mais um ataque ao PS

Os ataques aos socialistas têm subido de tom ao longo da campanha e, em Moura, depois de um momento protagonizado pelo grupo coral de Santo Amador, Jerónimo aproveitou a lei laboral para mais uma tacada: “O PS que se afirma de esquerda, não pode ser de esquerda. É uma questão importantíssima, não pode ser de esquerda quem se coloca do lado do patronato”.

Nas costas do cenário montado para os discursos ouviam-se algumas crianças a brincar, mas Jerónimo falava para quem tinha à sua frente, uma plateia de reformados, retrato da população que vive na cidade. E como não há muito tempo para conquistar os tão necessários votos na CDU o tema estava escolhido. Era o momento para falar na necessidade de aumentar as reformas e pensões, uma das prioridades comunistas para a próxima legislatura e, em Moura, há bem quem concorde com Jerónimo.

António Lebre tem 64 anos, trabalha num café junto à praça onde há minutos Jerónimo falava e desabafa que “há muita coisa mal” em Moura onde já “nem hospital nem comboio há”. E, além dos 64 anos, António também é um exemplo de quem “sofreu com a crise” durante a presença da Troika e do governo do PSD e CDS ou, como a CDU gosta de apelidar, os quatro anos de má memória para os portugueses: já teve dois cafés, mas não conseguiu mantê-los.

E, caso não tenha sido suficientemente claro no início, Jerónimo reforçou: “cada voto perdido é um voto que abre a possibilidade e o perigo de voltar para trás”.