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A partir dos anos 80, o hotel transformou-se num autêntico "barril de pólvora" sem lei, onde quem arriscasse a passar o sexto andar tinha uma grande probabilidade de acabar assaltado ou até morto

A partir dos anos 80, o hotel transformou-se num autêntico "barril de pólvora" sem lei, onde quem arriscasse a passar o sexto andar tinha uma grande probabilidade de acabar assaltado ou até morto

Cecil Hotel. Bem vindos ao sítio onde "os sonhos chegam para morrer" /premium

Um edifício emblemático da baixa de Los Angeles transformado num epicentro de crime e violência. Uma nova série documental da Netflix conta a história do hotel e de um dos seus mais misteriosos casos.

Antes da pandemia, a rotina habitual para preparar a próxima viagem: os melhores sítios para comer, os transportes, os museus, pontes, jardins, o que fosse. Tudo escolhido a dedo para finalmente tirar as poupanças do mealheiro, ganhar coragem e fazer-se à estrada. Ou ao avião.

Foi o que aconteceu em 2013 ao casal inglês Mike e Sabina Baugh. Fartos do tempo chuvoso e triste do Reino Unido, tinham o sonho de visitar os Estados Unidos da América. Arranjaram um pacote barato com praticamente tudo incluído e lá foram. Chegaram à baixa de Los Angeles, com a excitação na barriga, e entraram no hotel marcado. “700 quartos disponíveis, preços baixos”, lia-se num grande outdoor colado ao edifício inaugurado em 1924. Imponente, grandioso, espaçoso, com um ar clássico, cartão de boas-vindas perfeito.

O quarto, nem tanto. Cheio de pó, mal tratado, quase parado no tempo. O casal não gostou, mas não havia volta a dar. Los Angeles estava lá fora à sua espera. A estadia foi suportável até ao dia em que a torneira começou a largar água castanha. Sabor estranho, não identificável. Daí até o hotel virar um local de crime, apinhado de polícias e jornalistas, foi um instante.

Afinal, estava em causa o desaparecimento de Elisa Lam, jovem canadiana de 21 anos, que tinha sido vista pela última vez naquele local a 1 de fevereiro desse ano — a entrar, não a sair. Bem-vindos ao Cecil Hotel, o local “onde os sonhos chegam para morrer” (um dos comentários na plataforma de reservas Booking). A nova mini-série de crime da Netflix, “Crime Scene: The Vanishing at the Cecil Hotel”, com quatro episódios (dos mesmos produtores de “As Gravações de Ted Bundy”), mostra o lado obscuro deste sítio e as histórias macabras que guarda. Sim, a de Elisa Lam é só a ponta do icebergue. Quanto a Mike e Sabina Baugh, são só mais uns dos clientes a entrar neste Titanic, apanhados no meio de um crime. Ou de um mero acidente.

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[o trailer de “Crime Scene: The Vanishing at the Cecil Hotel”:]

Baixa de Los Angeles: meca de negócios transformada em gueto de pobreza

Uma pesquisa no Google por Cecil Hotel basta para sabermos ao que vamos: um dos primeiros resultados é “a lista de mortes e violência” que guarda no seu historial. Há suicídios registados desde 1927, com recurso a veneno, armas, lâminas ou através de um passo em frente no parapeito do quarto. O primeiro a ser registado só chegaria em 1931, quando um hóspede de nome WK Norton, de 46 anos, acabou com a própria vida. Três anos depois, o episódio repetia-se com outro residente. E em 1937,  Grace E. Magro atirava-se do edifício acabando por morrer. Passados dez anos, conta-se que Elizabeth Sort, atriz mais conhecida por Dália Negra (“Black Dahlia”), viria a tomar o seu último copo neste hotel, sendo depois encontrada morta — de forma macabra – a poucos metros dali.

Saltamos para 1962, ano durante o qual uma discussão entre um casal fez com que a mulher saltasse da janela. Morreu e o peso do seu corpo matou involuntariamente um homem que passava naquela movimentada avenida. A viragem do século não abrandou o ritmo obscuro a que aconteciam estes eventos. A certa altura na nova série da Netflix, a gerente do hotel, Amy Price, chega a dizer que “as coisas más continuavam a acontecer, as mortes eram muito frequentes”. Price trabalhou dez anos no Cecil Hotel, sendo espectadora de aproximadamente 80 mortes.

Mas esta figura sombria em pele de hotel não foi só palco de mortes. Nos seus mais variados quartos moravam toxicodependentes, prostitutas e assassinos em série. Richard Ramirez, serial killer que ficou na história como Night Stalker (“Perseguidor da Noite”) nos anos 80, violava, raptava, assaltava e matava as suas vítimas na Califórnia — e que é também protagonista noutro documentário da Netflix. Foram cerca de 14 vítimas, de idosos a crianças. No fim dos crimes, voltava para o 14.º andar, muitas vezes com peças de roupa repletas de sangue, como se nada fosse. Pagava 14 dólares por noite.

Quando o Cecil nasceu ainda não adivinhava aquilo que estava para acontecer, em 1929. Dez anos antes, Los Angeles era das cidades que mais rapidamente crescia. E o hotel era uma "meca" de negócios, lazer e glamour na baixa da metrópole. Após o crash, o hotel passa a ser porta de entrada para homens mais velhos, com poucos rendimentos, que queriam passar todo o tempo possível enfiados num quarto.

Nessa época, o hotel transformou-se num autêntico “barril de pólvora” sem lei, onde quem arriscasse a passar o sexto andar tinha uma grande probabilidade de acabar assaltado ou até morto. Para perceber o porquê de ter chegado a este ponto, é necessário entender como é que o Cecil Hotel construiu a sua fama, servindo até de inspiração a outros filmes e séries de ficção, como “American Horror Story” ou mesmo “Barton Fink”, dos irmãos Coen. Um sítio que sofreu com a Grande Depressão e passou de ser um ponto de chegada para viajantes de negócios ou curiosos por Hollywood, para um foco de violência e morte.

É que quando o Cecil nasceu ainda não adivinhava aquilo que estava para acontecer, em 1929. Dez anos antes, Los Angeles era das cidades que mais rapidamente crescia. E o hotel era uma “meca” de negócios, lazer e glamour na baixa da metrópole. O edifício custou um milhão de dólares para ser construído, o que era muito para a altura. E a pretensão nem era de que fosse luxuoso. Preços acessíveis para os viajantes, esse era o objetivo. Um hotel itinerante, aberto ao mundo. Foi plantado no quarteirão perto da estação ferroviária Pacific Electric. Cem mil pessoas a entrar e a sair dos comboios.

Eis que chega a crise financeira que afetou todo o mundo e o Cecil Hotel entrou numa espiral recessiva. Passa a ser porta de entrada para homens mais velhos, com poucos rendimentos, que queriam passar o máximo tempo possível enfiados num quarto, longe da dura realidade que se ia cozinhando lá fora. A partir daí, transforma-se num ponto de encontro entre indivíduos esquecidos pela sociedade, sem-abrigo, toxicodependentes, doentes mentais, ex-presidiários, criando um gueto à sua volta, com cerca de 50 quarteirões, que ficou cunhado como “Skid Row”. Tudo isto bem perto das grandes letras que constituem a palavra “Hollywood”.

Foi nos anos 70, através de políticas de contenção, que a cidade de Los Angeles despejou todos os seus problemas para aquela região. São duras as imagens de polícias a “empurrar” pessoas para aquela zona. Estima-se que só ali vivam 8 a 10 mil sem-abrigo. “Um sítio onde é permitido que se sofra”, como conta Doug Mungin, historiador, na série. Nada mais, nada menos. Quando se criam guetos como este, é normal que o perigo cresça.

Depois do desaparecimento de Elisa Lam, as investigações dividem-se entre a polícia e os "detetives online", sucedem-se as teorias e os suspeitos e são esses elementos que a série reúne

Netflix

2007. Já com todo este historial tenebroso no currículo, o Cecil Hotel sofre uma reestruturação, depois de ser vendido. Mas a mudança de donos traz um problema: como faz parte de um programa específico onde, por lei, é obrigado a albergar pessoas sem-abrigo ou com baixos rendimentos, a nova imagem que tinha sido pensada para o hotel é suspensa.

É aí que fica decidida a criação de um novo hotel, dentro do mesmo edifício. Nasce o Stay on Main, moderno, turístico, com uma roupagem a fazer lembrar os Airbnbs de hoje. O problema? Os elevadores comuns, usados pelos residentes a longo e a curto prazo. A caminho do quarto podemos encontrar um predador sexual. E é aqui que entra a história do casal inglês Mike e Sabina Baugh. Mal um jornalista os apanha para serem entrevistados, passam também eles a ser protagonistas, no segundo episódio da mini-série. Férias de sonho transformaram-se num filme de terror. Aliás, é neste momento que ficamos a conhecer, sobretudo, Elisa Lam.

Elisa Lam: polícia, internet, pistas falsas e um desaparecimento sem explicação

O que é que uma jovem de 21 anos, a viver em casa dos pais em Vancouver e pronta a celebrar a idade adulta, pode querer? Não parece ter muitos amigos, apoia-se na internet, mais precisamente na sua página no Tumblr, que usa como diário. Um lugar onde cada um pode ser como quer. Além de ter trabalho e um curso, tem vontade de viajar. Foi isso que Elisa Lam decidiu fazer: arrumar as malas e rumar à Califórnia para fazer a costa Oeste dos EUA. Sozinha. O único compromisso era o de falar com os pais todos os dias. Até ao dia em que isso deixou de acontecer: 31 de janeiro de 2013.

Elisa, rapariga perfeitamente normal que se ia descobrindo através da internet, não evidenciava nenhum sinal de querer fugir. Ficaria quatro dias no Cecil Hotel num quarto partilhado com outras duas turistas. Depois, haveria de seguir viagem. Por causa de queixas das outras duas inquilinas, a canadiana teve de mudar de quarto. Assim que se dá o alerta do seu desaparecimento, voltam os fantasmas daquele sítio, de um passado não assim tão distante.

É aí que entra a secção de homicídios da polícia de Los Angeles (LAPD). Começaram a desenhar, passo a passo, possíveis razões para o que se tinha passado. Helicópteros, cães, todo o arsenal necessário foi chamado para o hotel. Não havia registo de consumo de drogas nem um historial médico preocupante. Primeiro, a equipa escolhida era até bastante considerável, mas assim que Christopher Dorner, ex-polícia, começou a atacar antigos colegas da LAPD a 3 de fevereiro, os meios disponíveis reduziram consideravelmente: 18 investigadores para apenas 4.

Foram-se passando alguns dias e Elisa Lam continuava desaparecida. Graças às câmaras de vigilância, foi possível encontrar o único elemento de investigação que podia ajudar a encerrar o caso. Vinte horas por dia à frente de duas televisões para rever cada centímetro percorrido pela canadiana. Quase quatro minutos de Elisa Lam, a sair e a entrar num elevador, com um comportamento estranho — para não dizer bizarro, a julgar pelos movimentos que fez com os dois braços e mãos.

[uma das muitas sequências de imagens com Elisa Lam que foram publicadas no YouTube após o desaparecimento:]

A chegar a um beco sem saída, a polícia decide tornar o vídeo público. O caso muda completamente. É preciso ter em conta que estamos numa altura em que as redes sociais estão ainda a dar os primeiros passos enquanto objeto de consumo massificado e viral.. O vídeo, em pouco tempo, contabilizou milhões de visualizações um pouco por todo o mundo, chegando até ao continente asiático. Uma atenção mediática que fez do Cecil Hotel um protagonista real desta história.

A “comunidade de detetives da internet” (sleuths, em inglês)  cresce a um ritmo alargado, os órgãos de comunicação social interessam-se cada vez mais pelo caso, num jogo conspirativo, feito de rumores e de perguntas sem fim, onde existia só um objetivo: encontrar a rapariga. Será que a gerência do hotel estaria a esconder algo? O vídeo foi editado? Será que Elisa não morreu? Poderá algum residente ter-lhe feito mal? Ou a jovem deixou-se apanhar na armadilha de perigo de Skid Row? Muitas perguntas, poucas respostas, milhares de pistas falsas. A análise que é feita às imagens faz lembrar outros casos de teorias da conspiração, como a presença de aliens na Terra ou até se o 11 de setembro realmente aconteceu. Esse desvio à investigação pode ser facilmente encontrado em diferentes páginas online.

Mais tarde, ainda no mês de fevereiro desse ano, surge o desfecho. Entre confirmações e surpresas, o veredicto estava descoberto. Entretanto, também se descobre que Elisa Lam era bipolar, o que pode dar umas luzes sobre o seu comportamento errático no vídeo, ainda que muito tenha ficado para contar. Ou não.

"Pergunto-me a mim próprio se algo me acontecesse ou à minha família, se gostaria que contassem a minha história? Sim, se o propósito fosse para algo maior do que o puro entretenimento", disse o realizador, Joe Berlinger, ao New York Times.

Já o Cecil Hotel, com a sua elegante art déco, pilares gigantes e um grande relógio parado ao alto, continuará a carregar o seu passado sombrio nos ombros. Parece ter ganho uma nova vida, tanto com a abertura de um espaço semelhante no seu interior em 2011, Stay on Main, como o encerramento do próprio hotel, em 2017, com reabertura prevista para este ano. Quanto ao casal inglês, é provável que nunca mais meta os pés em Los Angeles. Mas isso continuará a ser uma impossibilidade para muita gente, graças à Covid-19. Neste caso, talvez até possamos agradecer.

Montar um puzzle ficcional de um crime onde nem a família quis entrar

Quanto à série documental “The Vanishing at the Cecil Hotel”, as críticas dividem-se e há quem descreva uma exploração mediática que dá mais ênfase aos investigadores virtuais do que à execução da investigação oficial.

Mas olhemos primeiro para o trabalho do realizador veterano, Joe Berlinger (“Paradise Lost” ou “Crude”), que é descrito, pelo próprio, como “um pioneiro do crime real”, que se importa mais com a justiça do que com qualquer outra coisa no seu trabalho. Já nos anos 90 andava entretido nesta temática, muito antes dos documentários criminais terem o de sucesso que vemos hoje nas plataformas de streaming.

Agora, sabendo que este é o seu género perdileto, Berlinger, como conta um extenso artigo no New York Times, também sabe que sem a história de Elisa Lam não haveria documentário. Mesmo assim, sendo muito seguro do que faz, fica com uma dúvida: até que ponto estamos a explorar a vida de outra pessoa só para entreter as massas? “Pergunto-me a mim próprio se algo me acontecesse ou à minha família, se gostaria que contassem a minha história? Sim, se o propósito fosse para algo maior do que o puro entretenimento”, respondeu ao NYT.

"Decidimos que a abordagem seria dar ao espectador a mesma experiência que os investigadores virtuais tiveram quando se debruçaram sobre as várias teorias do caso", disse o realizador à Variety

Fica a dúvida, até porque nesta série aquilo que parece, pode mesmo não ser — e mais não se conta, para evitar spoilers. Berlinger, noutro artigo para a revista Variety, admite que “ficou fascinado” com a bizarria do vídeo de Lam, documento que também entende como representativo do poder que a internet tem ao debruçar-se sobre o crime.

A partir daí, falou com Josh Dean, um dos jornalistas que acompanhou a história — e que foi entrevistado nestes quatro episódios — para começar a construir o projeto. Sendo uma narrativa com alguns anos, o realizador optou por colocar o Cecil Hotel no centro, usando aquilo que tinha acontecido a Elisa como a história principal. “Decidimos que a abordagem seria dar ao espectador a mesma experiência que os investigadores virtuais tiveram quando se debruçaram sobre as várias teorias do caso. Ou seja, guardar informação até ao momento dramático certo”, contou à Variety.

Quanto a obstáculos, que possivelmente encontraria ao tentar entrevistar algumas pessoas, especialmente funcionários do hotel, Berlinger não teve grandes problemas. Foi fácil: mostrar-lhes as suas credenciais como realizador e “ser o mais direto possível, sem uma agenda” foi a técnica que escolheu. Alguns nunca tinham falado em público sobre o caso mas quiseram prestar declarações na série. Só não conseguiu entrevistar a família e amigos da vítima. “A família não respondeu, os amigos não quiseram participar. Mas ninguém nos disse para não fazermos o filme”, contou. A ausência de resposta dos mais próximos deu-lhe a garantia para fazer a tal “justiça cinematográfica” que tanto gosta de apregoar.

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