César Bardaji. “O melhor negócio do mundo sem uma equipa muito boa vai ser uma desgraça” /premium

08 Maio 2018

Com 30 anos de experiência como executivo, César Bardaji começou a investir em startups para fazer parte da "revolução". Pegou em parte das poupanças e criou um portefólio de "sucesso" de 37 empresas.

Tem mais de 30 anos de experiência em grandes empresas e começou a investir em startups há sete. De um portefólio de 37 investimentos, mantém 20 em carteira com um rácio de 1,5 tabelado pelos cinco sucessos que teve: das 17 empresas que já saíram da sua esfera, teve retorno de cinco — o suficiente para compensar os 12 fracassos dos quais saiu com “zero”. César Bardaji é um business angel (investidor privado) mentor do Startupbootcamp, membro da IESE Investors Network (rede de investidores da Escola de Negócios da Universidade de Navarra, em Barcelona) e da ESADE BAN (rede de business angels baseada em Barcelona). Desde janeiro de 2012 que faz parte da Crystal Ventures SL.

Com um enfoque em startups que estão numa fase muito inicial da sua atividade, César Bardaji especializou-se em empresas tecnológicas porque quer fazer parte da revolução que diz ser, em tudo, igual à da eletricidade. Numa visita a Lisboa, a propósito do Workshop Smart Angels, organizado pela AESE Business School, o investidor partilhou com o Observador as cinco regras de ouro em matéria de investimento privado. E deixa um aviso: as boas ideias e bons modelos de negócio que se previnam — de nada vale existirem se não estiverem suportadas por uma boa equipa. Se esta não existir, o investimento só tem um rumo, a “desgraça”. E para um carreira longa de investimentos, parece só haver um segredo: “o trabalho”.

Como é que um business angel atinge o sucesso?
É preciso trabalhar muito, não basta dedicar apenas um bocadinho de dinheiro, é preciso dedicar muito tempo para conhecer bem a empresa, os empreendedores e não só o investimento que se está a fazer. É preciso fazer muitos investimentos, procurar ter experiências que possam aplicar-se a outras empresas e tentar chegar a essa chave de sucesso. Cada um deve procurar saber qual é o seu perfil enquanto investidor, não há dois iguais. Não há dois business angels iguais. Cada um tem as suas próprias experiências, do passado, enquanto profissional e também enquanto business angel. É isso, é trabalho. Não há nada grátis.

Esteve durante muito tempo a trabalhar como executivo em grandes empresas. Porque é que decidiu começar a investir e há quanto tempo foi?
Comecei a investir como business angel há sete anos. Passei de executivo a investidor, porque na minha carreira profissional fiz muitas mudanças, era algo que gostava imenso de fazer. Tenho trabalhado em diferentes indústrias, em diferentes geografias e cheguei a um momento em que comecei também a dedicar tempo a posições não executivas, como diretor ou membro do conselho de administração. De alguma forma, descobri que na minha vida profissional não tinha de ser sempre um executivo, havia outras possibilidades.

Quando planeei descer o número de horas que dedicava enquanto executivo de empresas, comecei a pensar nas alternativas que tinha. Até àquele momento, durante 30 anos, fui intraempreendedor nas empresas em que trabalhei e depois decidi ajudar quem estava a lançar estas empresas de base digital e tecnológica, que sabem muitíssimo do mundo digital e da Internet, mas que se calhar não têm a mesma experiência no mundo dos negócios. E foi assim que passei a fazer parte, um bocadinho, desta revolução, de que estou a gostar tanto.

Mas podia ter usado as suas poupanças para outras coisas e optou por usá-las para investir em projetos que não tinha a certeza se podiam correr bem. Há algum valor mais alto que leve alguém a dedicar-se a investir nos outros?
Há duas questões: em relação ao dinheiro, é preciso ser muito prudente e não destinar as poupanças todas (ou uma parte muito grande) a isto, porque do ponto de vista técnico, o investimento como business angel é um investimento líquido. A longo prazo e o melhor que podes fazer, mesmo que gostes muito disto (como eu gosto), é reservar uma parte relativamente pequena para investir, que faz parte de um pequeno portefólio, construído à medida do tamanho do património de cada pessoa. Mas nunca mais de 25 a 30% do património líquido, mesmo muito líquido da pessoa e da família.

Quanto ao que nos leva a fazer isto, no meu caso está claro. Queria imenso estar ainda mais perto, fazer mesmo parte desta revolução digital e da Internet, que são duas coisas diferentes mas muito ligadas entre si: o mundo digital e o mundo da Internet. O que esta revolução está a fazer é acabar com o espaço e o tempo. Agora, é possível fazer coisas num dia que, anteriormente, demorava meses ou anos. E é possível falar com uma pessoa que está na Austrália ou nos EUA de forma incrível. Quando comecei a trabalhar, há muitos anos, tinhas de anotar no papel as coisas que gostavas de falar com as pessoas quando tivesses oportunidade de estar com elas. Agora, estás a ligar pelo Skype, pelo smartphone e não estás a pensar que, na realidade, estás a falar com duas, três, quatro pessoas ao mesmo tempo e que uma está em Portugal, outra se calhar está em Londres, no Canadá, onde seja. Já não estamos a pensar em termos de energia ou de espaço. Isto, para mim, é muito muito atraente e é por isso que, com as possibilidade que tenho, estou a ajudar estas pessoas a impulsionar as suas startups.

"Não é uma revolução de branco ou preto, preto ou branco. É uma revolução parecida, na minha opinião, com a revolução da eletricidade. A eletricidade é algo que, hoje, está presente em tudo"

É uma revolução, como disse, mas em todas as revoluções…
Há mortos (risos).

É verdade. E quais são os mortos desta revolução? O que é que fica para trás?
Aqueles negócios, aquelas empresas, aqueles processos que fazem parte da nossa vida e que não são capazes de mudar, de trocar, de dar entrada ao mundo digital e da Internet. E isto aplica-se não só a empresas tradicionais, aplica-se se também a dispositivos que utilizámos no passado e que ainda utilizamos, aplica-se à comunicação, às relações entre as pessoas. Não é uma revolução de branco ou preto, preto ou branco. É uma revolução parecida, na minha opinião, com a revolução da eletricidade. A eletricidade é algo que, hoje, está presente em tudo, não só na iluminação, mas no smartphone, naquele relógio, no computador, em todas as coisas que temos perto de nós ou connosco.

E a eletricidade faz parte da nossa vida em todos os dispositivos, em maior ou menos medida. O mesmo estará a acontecer com a revolução digital e da Internet. Estará presente em tudo no nosso corpo e nas coisas que estão perto de nós. Se calhar, há empresas e negócios onde a revolução digital e da Internet vai significar 100% do sucesso desse negócio no futuro, e há outros em que se calhar vai ser 10 ou 20%. Não sei… Mas o que aconteceu com a eletricidade, que está presente em todos os negócios e processos e em quase todos os dispositivos, vai acontecer também com a revolução digital e da Internet. Não é branco nem preto, é tudo cinzento, cinzento mais claro ou mais escuro, mas temos de estar abertos, porque só estamos a ver o princípio desta revolução.

E acha que estamos abertos para esta revolução? A Europa está aberta?
Em termos gerais, estamos abertos, sim. Mas também é verdade que não estamos a falar da mesma coisa quando estás a começar um novo negócio e a considerar as vantagens da revolução digital e da Internet, e a gerir um negócio que é tradicional, no qual  tens de pensar como vais trocar ou incorporar a realidade desta revolução. Se estás a começar do zero, é muito competitivo, mas é mais fácil porque não tens legado, não tens uma história. Se partes de uma realidade atual, se calhar partes das coisas que vais ter de fazer para te adaptares às novas tecnologias. E isso é que é realmente muito difícil.

"Tenho muito, muito claro que se calhar estou a investir hoje e tenho de sair em dois, três, quatro anos, mesmo que tenha muito êxito, pode chegar a um momento em que já não é válido para mim"

Quais são as indústrias que vão sair vencedoras desta revolução tecnológica?
Por vencedores, temos aqueles que vão acrescentar valor a esta revolução tecnológica, que, possivelmente, são aqueles nos quais a componente digital e tecnológica é muito maior. Porque é nesses negócios que todo o crescimento, todo o valor acrescentado vai vir da área digital e da Internet. Mas há muitas formas de entender o sucesso. Se calhar, mesmo numa indústria em que as empresas sejam capazes de, mais rapidamente, adaptar os seus projetos de negócio a esta revolução vão ganhar face à concorrência. Também podemos falar por área geográfica. Podemos ter um campeão de uma determinada indústria em Portugal, mas para quem vai ser muito difícil trocar para o mundo digital e da Internet, mas se só está presente em Portugal e em meia dúzia de países, se calhar é fácil começar noutros países, noutras áreas geográficas, que é uma das vantagens desta revolução: poder aplicar 100% das vantagens do mundo digital e da Internet. Há diferentes formas de encontrar campeões nesta revolução.

Vemos agora empresas com uma avaliação elevadíssima, a Uber, por exemplo, a valer cerca de 70 mil milhões. Acha que há indústrias que já estão saturadas ou sobrevalorizadas?
É muito difícil dizer se uma empresa está sobrevalorizada ou não. Posso dizer que qualquer investidor que está a entrar em empresas muito, muito grandes, como é o caso da que estás a falar, seja na etapa inicial seja em fase avançada, está, no seu Excel, a aliciar poder multiplicar o seu dinheiro por dez. Há pessoas que decidiram investir e que estão absolutamente convictas de que vão poder multiplicar o seu dinheiro por dez. Só o tempo dirá se estão certos ou errados, mas a realidade é essa. O que tenho claro como investidor e business angel é que há um momento para cada tipo de investimento e para cada perfil de investidor.

Também estou a fazer investimento em tempo e dinheiro. Há todo um desenvolvimento das startups e estou absolutamente convencido de que não é adequado para mim ir muito mais longe, porque se a empresa está a ter sucesso, está a entrar noutro tipo de investidores, com outros perfis, outras regras e outra formas de trabalhar e de trazer valor acrescentado, que não são compatíveis com as minhas. Então, tenho muito, muito claro que se calhar estou a investir hoje e tenho de sair em dois, três, quatro anos, mesmo que tenha muito êxito, pode chegar a um momento em que já não é válido para mim. Não posso estar na Uber… Nunca estive, mas mesmo que tivesse acertado e tivesse começado a investir na Uber, agora tinha de estar fora, porque estou absolutamente convencido de que essas cláusulas dos acordos dos acionistas, dos investidores, não são compatíveis com o meu perfil.

Em que estado tem de estar um investimento para se poder dizer que já é de sucesso?
O sucesso, em termos muito objetivos, é a saída. É quando estás a sair de um investimento. Do ponto de vista do dinheiro, tens de multiplicar o dinheiro por algum fator maior do que um, podes começar a falar de sucesso com a certeza que se multiplicares o teu dinheiro por cinco é melhor do que se multiplicares por 1,5, mas esse é o sucesso. Há pessoas que acham que o sucesso é poder investir numa empresa que tem tido muito sucesso. Mas na linha em que estava a falar antes, se calhar, a empresa está a ter muito sucesso, mas tu não. Se calhar, no momento da tua saída, estás a ficar com o mesmo dinheiro que tinhas, não é? E não é só isso… Se calhar estás a sair com o mesmo dinheiro que tinhas e ainda tiveste de investir mil horas do teu tempo. E o teu tempo é limitado. Então, isso não é sucesso. Para dizer as coisas de uma forma muito concreta, o sucesso é a saída, nunca é a entrada.

Um investidor que é meu amigo diz que a entrada numa empresa não é momento para celebrações, é todo o contrário, é uma desgraça. Porque, nesse instante, ficas com menos dinheiro e com a expectativa de que vais ter menos tempo teu, porque além do dinheiro vais ter de investir tempo. É uma “desgraça” o investimento. O sucesso está na saída. Com certeza que, entre a entrada e a saída vão passar três, quatro ou cinco anos e não é o mesmo sucesso no sentido absoluto, mas se as coisas estiverem a correr bem, se a empresa está a crescer, a atingir novos mercados, a ser reconhecida pelos utilizadores, a ter rondas de financiamento cada vez mais elevadas, então isso é sucesso, mas é um sucesso relativo.

Em quantas empresas um investidor tem de investir mais ou menos para conseguir ter retorno?
Podes ter sorte na primeira e ter um retorno magnífico, mas o que os business angels com alguma experiência recomendam é nunca investir em menos de 10 empresas. Há muitas outras regras, mas essa é uma: a diversificação é fundamental. De novo, se calhar estás a investir em duas e uma delas é fantástica, mas quando estamos a investir numa empresa estamos absolutamente convictos de que vai ser um grande sucesso, mas estamos errados. Porque seis ou sete acabam em nada, zero.

Se pensarmos que se calhar a empresa não vai ser bem sucedida e estivermos a investir, então estamos a tomar uma muito má decisão. E mesmo naquelas em que temos a certeza que vamos ter um grande sucesso, muitas delas acabam em nada. Então é por isso que tens de fazer uma boa diversificação e falamos deste número mágico: 10. Se calhar podem ser oito, se calhar podem ser 15, mas uma pessoa que está a querer fazer de business angel ou investimento privado e pensa fazer dois ou três investimentos, acho que corre um grandíssimo risco de perder todo o dinheiro. Ou de ter um retorno medíocre, ficar desanimado e não continuar a investir.

"A única questão é saber se estás a retirar todo o investimento nessa primeira oportunidade, ou a metade ou só duas partes ou o que seja. Se há oportunidade, tens de o fazer"

Quais são as cinco regras de ouro de um business angel?
Uma é, de novo, investir uma parte das sua poupanças líquidas, decidida de antemão, que pode ser de 25 a 30%. Depois, é toda esta diversificação da qual temos vindo a falar. Depois, é não confiar na experiência própria e, desde o início, participar em fóruns de investimento, em demo days de aceleradoras, ter exposição a outros investidores e a muitas startups. Se calhar, pela primeira vez, temos um ecossistema digital e da Internet que é certo que não é competitivo — não é ‘eu ganho e tu perdes’ — nem é um jogo de um a zero, mas sim de ajuda, de entreajuda entre os investidores, e mesmo entre investidores e empreendedores. É fundamental. Não posso fazer, não posso saber tudo e de certeza que o empreendedor não tem experiência necessária para saber tudo sobre a empresa. Então, é fundamental ter perto de si muitas pessoas, que tenham mais experiência.

A quarta é começar a investir cedo. Conheço muitos “investidores” que se calhar passaram um ano, dois anos, três anos a ir a fóruns, demo days, etc, etc. Gostam muito de falar, mas nunca investem porque sabem que é dinheiro, são as suas poupanças e é tempo. Mas se estás a começar, mesmo que não sejas bem sucedido, não podes descer pela curva de aprendizagem. É fundamental que comeces no dia um ou no mês um, nos primeiros seis meses, mas uma vez tomada a decisão, tens de investir, tens de começar a investir e a aprender com as falências, com os problemas. É fundamental.

A quinta é que tens de ser muito consciente de qual é o teu perfil enquanto investidor e que tens um tempo. Mesmo que a empresa seja muito bem sucedida, podem vir outro tipo de investidores com outras regras e, se calhar, o teu momento enquanto investidor acaba e tens de sair. E sair é algo que precisa de tempo e de esforço, porque são investimentos de novo ilíquidos. Tens de ver qual é a melhor oportunidade e, se houver uma oportunidade para fazer o desinvestimento, tens de o fazer. É muito, muito importante, senão vais ficar lá para sempre.

Como é que se sabe qual é a melhor altura para sair do investimento?
É muito fácil, porque há muito poucas. Se houver uma oportunidade para fazer um desinvestimento, a minha opinião é que tens de o fazer. A única questão é saber se estás a retirar todo o investimento nessa primeira oportunidade, ou a metade ou só duas partes ou o que seja. Se há oportunidade, tens de o fazer. Não há muitas e é muito fácil de entender. Se a empresa é bem sucedida e vai precisar de dinheiro para o crescimento ou para acelerar esse crescimento, vai precisar de dinheiro, mas esse dinheiro é preciso para a empresa, não é para pagar aos investidores.

Tem um portefólio de 20 investimentos. Considera-se um investidor de sucesso?
Depende. Posso dizer que é um investimento ilíquido, que requer muitos esforços, trabalho. Eu gosto imenso de estar perto desta revolução, destes empreendedores e portanto, para mim, é sucesso porque não estava à procura de um grande sucesso do ponto de vista económico. Com certeza que não estou a procurar perder dinheiro, mas ganhar dinheiro. Mas apliquei uma pequena parte das minhas poupanças a isto e, de facto, estou a investir muito tempo. Se estou a valorizar o meu tempo, é muito mais do que dinheiro que estou a pôr.

"O fracasso é sair entre zero e um. Teres múltiplos de mais de um (quanto mais melhor) compensa os fracassos que estás a ter"

Já saiu de alguns investimentos?
Até hoje, fiz 37 investimentos e tenho 20 no meu portefólio. E tenho um rácio de 1,5 de todo o dinheiro que já fiz destes investimentos.

Das 37, já não está em 17. E correram todas bem?
Não, da maioria saí a zero. Falamos de zero, mas não quer dizer que tenhamos saído com zero euros, mas de muitas delas sais com um euro, dois euros, zero euros. Este zero é sempre entre aspas. Então, destes 17, onze ou doze são zeros e, se calhar, nas outras cinco tive múltiplos que, no seu conjunto, para todos os investimentos que fiz, dá um multiplicador de 1,5 por um período médio de 2,5 anos de tempo investido.

Quer dizer que esses compensaram os zeros que teve. Mas os zeros são um fracasso? O que é um fracasso de um investidor?
Bom, se estamos a falar do ponto de vista do dinheiro, é mesmo isto: se estás a sair com zero é um fracasso. Mesmo num investimento de tantíssimo risco como este e mesmo que tenhas outras motivações pessoais que não só o dinheiro, não faz sentido nenhum saíres, dois anos depois, com o mesmo dinheiro com que entraste. O fracasso é sair entre zero e um. Teres múltiplos de mais de um (quanto mais melhor) compensa os fracassos que estás a ter.

Como se lida com esses negócios que correm mal?
Com muita paciência. Porque há que entender, de novo, que isto não é como investir em ações ou em bónus ou em obrigações. Isto é investir em pessoas, em projetos, estás a olhar nos olhos destas pessoas não todos os dias, mas, se calhar, todas as semanas ou todos os meses. No meu caso, dedico uma parte muito importante do meu tempo às startups e é muito natural estar um dia inteiro a lidar com os problemas de cinco, seis, sete das minhas empresas. E sei que a maioria delas pode dar em zero, mas se todos estiverem a fazer mais ou menos o que podem fazer, se calhar a empresa acaba em nada, mas as relações podem perdurar.

"O melhor projeto do mundo ou o melhor modelo de negócio do mundo com uma equipa que não é muito boa, vai ser uma desgraça"

Quando olha para um projeto, o que é mais importante para si, para decidir se quer investir ou não?
Podemos simplificar isto a duas coisas: o modelo de negócio e as pessoas. Lembro-me de, nos primeiros anos como business angel, estar em fóruns a responder a esta questão e de diferentes pessoas terem diferentes respostas. Simplificando muito, as respostas vão na linha de temas como o negócio ou a pessoa. E eu lembro-me, eu mesmo dizia isto, que as duas coisas são muito importantes, têm a mesma importância. Mas pela experiência que tenho nesta altura, posso dizer que as pessoas são mais importante do que o projeto.

O projeto com uma equipa excelente, ótima, pode atingir números incríveis e valorizações incríveis. Mas o melhor projeto do mundo ou o melhor modelo de negócio do mundo com uma equipa que não é muito boa, vai ser uma desgraça, de certeza absoluta, porque são empresas que estão a crescer tão rapidamente, estão a tomar decisões tão rapidamente que se a empresa não é suficientemente sólida, ambiciosa, e também sólida com pessoas e profissionais, na primeira volta deste circuito vai ter um problema e vai acabar em nada. Neste momento, as pessoas são mais importantes do que o projeto. Com certeza que nenhum business angel vai investir num projeto que não faça sentido…

Que tipo de pessoas é que fazem com que queira fugir de determinados projetos?
Depende muito do perfil do investidor. No meu caso, como sou um investidor com um perfil ativo, que não está a investir só dinheiro, mas também tempo, qualquer tipo de empreendedor que não valorize esse tempo, eu não invisto. Nunca na vida. A maior parte dos empreendedores são pessoas jovens, tens de ver que são pessoas jovens, que estão a querer avançar com a sua ideia, mas se não quiserem ouvir os demais, se não forem capazes de entender que outras pessoas, sejam da sua idade ou de outras, podem aportá-las na experiência do negócio, se não estiverem a ouvir ou quiserem ouvir, também não vou querer ouvir.

Tem acompanhado o que se passa no ecossistema português?
Não, mas estou a começar. Vim às duas edições da Web Summit e acho que é certo da parte do governo português ter apostado nisto. Espero que a Web Summit continue por cá durante muitos anos, porque estou convencido que é um catalisador dos investimentos e do desenvolvimento do ecossistema.

"Tenho visto empreendedores que não estavam a valorizar o dinheiro, que estavam a considerar com pouco respeito estes investidores, e muitos deles têm tido muito, muito trabalho, têm feito muitos esforços para conseguir umas poupanças, que utilizam parte para apostar nestas empresas"

O nosso Governo lançou um programa de benefícios fiscais para investidores que invistam entre 10 mil e 100 mil euros. O que acha deste tipo de iniciativas? São fundamentais para o ecossistema ou o Estado não se devia meter muito?
São iniciativas que são bem-vindas, até porque estão a ajudar a catalisar este ecossistema, do ponto de vista dos empreendedores, das startups e dos business angels. Não conheço este programa em Portugal, mas o que posso dizer pela experiência noutros países é que há duas coisas fundamentais: têm de ser simples de aplicar (se a quantidade de papel de que preciso para beneficiar destas ajudas não compensar, não faz sentido nenhum) e a outra é que têm de ser mesmo pensadas na ótica dos investidores reais. Se estas ajudas forem só para pessoas físicas e não contemplarem um veículo que possa ter, uma empresa minha, não faz muito sentido. Se é de um investimento como este que estamos a falar, com business angels, temos de ver que muitas empresas acabam em nada e que as falências acontecem muito rapidamente. Se, para podermos beneficiar destas ajudas, tivermos de ter um investimento vivo durante cinco anos, não faz sentido, porque não depende de mim.

O termo business angel remete para um investimento que parece um anjo. Correm o risco de estes empreendedores acharem que o dinheiro vem literalmente do céu e se desresponsabilizarem mais por isso?
Bom, é um risco. Os empreendedores têm que valorizar o tempo e o dinheiro dos business angels. É fundamental. É verdade, tenho visto empreendedores que não estavam a valorizar o dinheiro, que estavam a considerar com pouco respeito estes investidores, e muitos deles têm tido muito, muito trabalho, têm feito muitos esforços para conseguir umas poupanças que utilizam para apostar nestas empresas. Porque acreditam nesta revolução digital e da Internet. Tens de ter muito diálogo e muito contacto com o empreendedor mesmo antes do investimento ou então não tens de investir. Mas sim, é um risco.

Texto de Ana Pimentel, fotografia de André Carrilho.
Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: [email protected]

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)