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Aos 43 anos, César Mourão é um dos atores e apresentadores mais elogiados da sua geração
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Aos 43 anos, César Mourão é um dos atores e apresentadores mais elogiados da sua geração

Igor Martins / OBSERVADOR

Aos 43 anos, César Mourão é um dos atores e apresentadores mais elogiados da sua geração

Igor Martins / OBSERVADOR

César Mourão: "As pessoas têm alguma dificuldade em perceber o que sou e isso não me desagrada"

César Mourão é um dos fenómenos humorísticos mais consensuais em Portugal. Em entrevista fala dos rótulos e do reconhecimento, da vontade internacional e da aventura que iniciará em breve na música.

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Foi numa passagem pelo Porto, onde esteve à boleia de mais um espetáculo do grupo “Commedia a la Carte”, que encontrámos César Mourão, agitado e apressado, entre reuniões e muitas solicitações. Parecia não ter tempo para conversar, mas foi sentado no bar do hotel, com uma caneca de chá nas mãos, que respondeu a todas as perguntas sem pressa, ignorando as notificações do telefone e até os cumprimentos dados à distância.

Podia ter seguido desporto, mas assegura que se tornou ator “meio sem querer”. Foi a interpretar personagens cómicas e a explorar o improviso que começou a dar mais nas vistas, tanto na televisão como no teatro. Seguiram-se as rubricas na rádio, a oportunidade na apresentação e a escrita de programas e guiões para ficção. Apesar de fazer várias coisas ao mesmo tempo, César Mourão parece não se cansar nem sentir a necessidade de abrandar. “Só deteto que estou cansado quando já faleci, até lá não noto muito. Felizmente este pico de trabalho já dura há uns anos e quase que me habituei a ele, mas sei que é uma fatura que posso vir a pagar no futuro”, diz.

Consciente do seu posicionamento num mercado de trabalho pequeno, o ator vive mergulhado numa criatividade constante, luta para conseguir gerir a sua imagem, tantas vezes exposta, e embora que não se considere um humorista, foi a fazer rir os outros que ficou mais conhecido. “O humor vinca muito para o bem e para o mal, é algo que aproxima, as pessoas sentem-se quase como tuas amigas, mas depois rotulam-te muito. Parece que quando alguém faz humor não pode fazer outras coisas e em Portugal ainda existe muito esse preconceito”, lamenta.

Garante que nem sempre é o mais engraçado numa mesa de jantar e diz fazer um esforço para ser simpático com as pessoas na rua — afinal o público exige-lhe isso. Para César, ser consensual no meio artístico e fora dele não tem nada de assustador, de perigoso ou de comercial, antes pelo contrário. Sente-se um privilegiado por agradar à criança de oito anos, à dona da retrosaria e ao CEO de uma grande empresa e isso parece aguçar-lhe a vontade de fazer coisas diferentes para “não cansar tanto”.

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Recorda trabalhos como o programa “Terra Nossa”, onde percorre localidades portuguesas para homenagear personalidades de várias áreas, ou a série “Esperança”, onde dá vida a uma viúva octogenária, revela que gostaria de fazer mais cinema e assume que o reconhecimento não lhe traz mais responsabilidade.

Camaleónico, observador e com uma dose generosa de sensibilidade, o ator trocou, para já, uma carreira internacional para constituir família, tem na fotografia e na gastronomia duas das suas grandes paixões, mas é na música, um ingrediente essencial no seu trabalho, que dará os primeiros passos como profissional com o lançamento de um tema original, já no início do próximo ano. Antes disso, estreia-se em dezembro o primeiro documentário da sua produtora, a 313, onde realizou seis episódios sobre o antigo futebolista Paulo Futre.

César Mourão não é dono de uma grande gargalhada e são mesmo as pequenas coisas do quotidiano que o fazem rir, sente que os outros têm dificuldade em perceber exatamente o que é, mas isso não o desagrada completamente. “Não sou só macacadas, mas também não sou super culto.”

O ator não se considera um humorista e admite que o humor é um rótulo que o impede de fazer outros trabalhos

Igor Martins / OBSERVADOR

Está cansado?
Não, só deteto que estou casando quando já faleci, até lá não noto muito. Felizmente este pico de trabalho já dura há uns anos e quase que me habituei a ele, mas sei que é uma fatura que posso vir a pagar no futuro. Esta gestão do tempo talvez seja a minha maior dificuldade, não percebo quando é que tenho de parar.

Passa muito a ideia de que está sempre a fazer muita coisa ao mesmo tempo. Não há efetivamente a necessidade de parar?
Não, há o desejo de equilibrar e é isso que tento fazer cada vez mais. Nem sempre podemos fazê-lo, mas hoje tenho a sorte de poder escolher e há muita coisa que rejeito. Nesta fase consigo equilibrar e faço-o porque tenho família e amigos, pois na verdade sinto-me com capacidade para fazer muito mais coisas em muito menos tempo. Sempre tive esta vontade, mas hoje equilibro essa vontade de forma diferente, ou pelo menos tento. Ainda assim, acho que faço de mais.

Essa vontade vem de onde? De um lado criativo sempre efervescente ou de uma insatisfação constante?
Temos um mercado muito pequeno, tenho amigos brasileiros que têm a mesma profissão e precisam de fazer muito menos, o nosso mercado exige que nos desdobremos de certa forma. Por outro lado, este meu lado criativo, por ser muito criativo não quer dizer que seja bom, faz com que procure incessantemente fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. Não sei se estou no caminho certo, mas não penso muito nisso, não traço muitos objetivos e não tenho muitas metas. Acho que tenho um lugar, um posicionamento que gosto de atingir, mas depois dentro desse posicionamento não traço outros, à medida que o tempo vai avançando vou gerindo.

Esse posicionamento foi algo pensado?
Sempre tentei fazer as melhores escolhas possíveis para mim, mas quando estamos num mercado como Portugal e trabalhamos com uma estação televisiva, como é o meu caso, as escolhas limitam-se. Felizmente a SIC sempre percebeu bem o meu posicionamento, o que quero e não quero fazer, mas já houve coisas híbridas, coisas que não gostava tanto de fazer e fiz porque achava que a estação precisava e, por isso, dei o meu contributo. Por outro lado, a estação também já apostou em coisas que não sabia se iriam correr bem e confiou a 100% em mim, como foi o caso da série “Esperança”, que foi uma proposta minha.

Há uma cedência, é isso?
Tenho de dar o outro lado da moeda, mas sempre muito balizado. Não vou fora dos meus limites, tenho a sorte de a SIC ser uma televisão muito inteligente que nunca me exigiu nada que fosse fora da minha zona de conforto. Houve desafios, mas não patéticos.

"Não gosto muito de barulho, não gosto de risos altos em casa, odeio se estiverem duas pessoas a falar ao mesmo tempo, raramente entro numa discussão porque não consigo afirmar-me e tudo isto é conectado como arrogância, mas faz parte da minha personalidade."

Disse numa entrevista que tinha uma imagem muito estereotipada em Portugal. Ainda sente isso?
Sinto, mas não sei se é uma coisa assim tão má. Há coisas comerciais que não são más por serem comerciais e há outras péssimas. Acho que ainda há um rótulo de humor e o humor vinca muito, para o bem e para o mal, é algo que aproxima, as pessoas sentem-se quase como amigas, mas depois rotulam muito. Parece que quando alguém faz humor não pode fazer outras coisas, em Portugal ainda existe muito esse preconceito.

Isso chateia-o?
Não me chateia porque, na minha opinião, não é depreciativo ser humorista, às vezes impede-me de fazer outras coisas, mas não me considero um humorista. Não chamo a atenção, não sou eu o mais engraçado numa mesa de jantar, talvez até seja o mais tímido, um humorista tem mais essa ginástica, essa facilidade e esse dom, eu não tenho. Trabalho com o humor e há quem diga que seja algo inato, mas não considero depreciativo ser considerado um humorista. Entendo a posição de quem contrata, e desde que tenho uma produtora percebo ainda mais. É normal que muitas vezes procurem como protagonista de uma série ou de um filme alguém que seja menos comercial, menos conhecido, até para as pessoas entenderem melhor aquela personagem. São escolhas, não posso dizer que sou muito conhecido para fazer televisão, mas depois não sou nada conhecido porque quero uma série. Se me sinto capaz de protagonizar uma série? Claro que sim, é o meu trabalho enquanto ator, mas percebo quem está do outro lado e tem outra visão.

Mas isso não acaba por ser injusto e limitador?
Não, os que não são conhecidos acabam por não ter o lado da televisão e a sorte de encher um Sá da Bandeira ou um Tivoli de quinta a domingo. Não acho que seja injusto, é o que é. São caminhos que se vão fazendo e depois impossibilitam outros, a partir do momento em que vou para a direita, tenho que optar, não me divido em dois.

Gostava de ter mais oportunidades fora do humor?
Hoje já não procuro isso assim dessa forma. Fui convidado para fazer uma série que não é de humor, ainda não posso dizer o nome, mas irá passar na Opto.

Quem trabalha com o humor, como é o seu caso, sente a pressão de ter que estar sempre bem disposto?
Já senti mais, quando era mais novo. Não sou o mais engraçado numa mesa de jantar, mas se naquele dia me dá para ser, sou, e muito destacadamente. Já senti a obrigação de ser o mais engraçado em festas de amigos, ter que dizer uma piada porque caso contrário as pessoas acham que sou antipático, mal disposto, arrogante ou até que estou doente, já aconteceu muitas vezes. Hoje já não sinto tanto essa pressão, ou já não me preocupo tanto com ela, fiz um caminho e as pessoas já me conhecem, mas claro que me esforço para não parecer antipático porque não o sou. Não gosto muito de barulho, não gosto de risos altos em casa, odeio se estiverem duas pessoas a falar ao mesmo tempo, raramente entro numa discussão porque não consigo afirmar-me e tudo isto é conectado como arrogância, mas faz parte da minha personalidade.

Como se consegue chegar a essa tranquilidade?
Ainda não é bem tranquilo, acho que tem a ver com a experiência e com a idade. O “Terra Nossa”, por exemplo, é um programa que vive de uma abordagem muito próxima das pessoas e na rua ainda exigem muito que seja igual ao que sou no programa e sinto que o público merece que eu seja um bocadinho mais aberto do que às vezes me apetecia ser. Percebo que não seja justo que quando tenho um microfone na mão e uma câmara à frente brinque e faça trinta por uma linha e depois já não ser nada assim. Claro que não estou a trabalhar, um dentista também não está sempre com uma broca na mão, mas acho que as pessoas merecem que seja aberto e simpático.

Há um botão que se liga e desliga? Uma personagem construída?
Não há uma personagem, mas há esse botão, sim. É uma espécie de screensaver, de ficar ali meio à espera que alguém toque sem querer no rato para que comece outra vez a trabalhar. Não deixo de ser o mesmo computador, mas estou em modo à espera que aconteça alguma coisa. Não gosto de pôr um phones, uns óculos de sol e dizer apenas tchau quando as pessoas vêm ter comigo na rua, ajo naturalmente e tendo a ser mais simpático porque as pessoas também o são comigo.

César Mourão, comediante e apresentador, no hotel e espaço cultural M.Ou.Co, na cidade do Porto. Porto, 22 de Novembro de 2021 Igor Martins / OBSERVADOR

Pai de três filhos, confessa que preferiu formar família a aposta numa carreira internacional, algo que poderá conseguir à boleia da sua nova produtora

Igor Martins / OBSERVADOR

Calculo que se deve divertir muito a fazer o “Terra Nossa”, há um trabalho que não é visível?
Sim, existe um trabalho gigantesco de preparação por parte da produção, não só relacionado com o lado mais burocrático, com autorizações e autarquias, mas também de me levarem por um determinado caminho porque já sabem que há uma senhor que pode falar comigo. Para mim é sempre uma surpresa, nunca sei com quem vou falar, limito-me a ir para a rua e a deixar fluir. As pessoas são mesmo as protagonistas do programa, eu só faço o link entre elas e o público com um microfone e uma câmara de televisão. É engraçado porque normalmente adoram o programa na terra dos outros, mas na sua própria terra as pessoas tendem a ficar tristes. Em Penafiel, por exemplo, disseram que o espetáculo foi giríssimo, mas não admitiam que não tenha falado da biblioteca, do museu ou da igreja matriz. Aquilo não é um programa de cultura ou para mostrar o património, é ir para a rua e entrar numa pastelaria que se calhar não é a melhor pastelaria de Penafiel.

Muitos reconhecem-lhe a capacidade de se adaptar e comunicar com graça tanto com um presidente da câmara como com um pastor. Concorda?
Sou muito camaleão, sempre fui, inclusive na minha vida privada. Uma vez almocei em casa do Nel Monteiro, queria convidá-lo a participar num espetáculo dos “Comedia a la Carte” em 2018, e nesse mesmo dia jantei na suite presidente do Ritz com o chef Alex Atala, um dos melhores do mundo. As pessoas que estavam eram completamente diferente umas das outras, mas fui feliz em ambos os sítios. Não uso o mesmo vocabulário, não tenho a mesma postura, mas sou eu nos dois universos e sei perfeitamente posicionar-me neles. Este é o truque do “Terra Nossa”, mas é algo inato em mim. Nada ali é construção ou estratégico, aliás, não tenho estratégia na minha profissão, trabalho com a verdade. Nos “Commedia a la Carte” é igual, nos primeiros anos as pessoas achavam que combinávamos tudo, e esse era o melhor elogio que nos podiam fazer, mas tudo o que dizemos em cima palco é rigorosamente a verdade.

Disse numa entrevista que a “Esperança” foi o trabalho mais duro que já fez até hoje. Porquê?
Fisicamente foi o mais duro, sem dúvida, porque eram quatro horas diárias de caracterização. Nesse tempo todo ouvia música, fiz amizade com o maquilhador, falámos de muita coisa e partilhávamos músicas inclusive.

Faz amigos facilmente?
Sim, mas tenho um grupo restrito de amigos de casa e quase nenhum é deste meio, mas é uma coincidência, não acho que seja especialmente difícil fazer amigos neste universo.

Voltando à “Esperança”…
Eram quatro horas de sofrimento, descolorei o cabelo e fazia a barba para depois colocarem-me cola, acetona e muita prótese, isto sempre sentado e sem me poder mexer. A ideia foi minha e esse é o meu problema, tenho as ideias e depois quero concretizá-las tal e qual como as idealizei. Seria mais fácil colocar uma peruca e optar por uma maquilhagem mais simples, mas quisemos fazer as coisas com rigor e isso obrigou-me a um desgaste físico gigantesco.

Haverá uma segunda temporada?
Essa possibilidade está falada, felizmente a SIC já me mostrou várias vezes a vontade de que exista uma segunda temporada, mas fazê-la obriga a muita coisa. Os maquilhadores não são portugueses e teriam de voltar cá, eu não posso ter outros trabalhos porque estou com o cabelo loiro e sem barba. Há aqui muita coisa a pensar e sobretudo há uma dose de coragem da minha parte que é necessária para mergulhar outra vez sem garrafa e sem ar e atravessar o oceano. Estou à espera desse fôlego.

Uma coragem maior do que na primeira vez?
Sim, agora já conheço o esforço de caracterização, já sei que tenho de abdicar de muita coisa em casa, lidar com a ausência e a falta de concentração porque tenho filhos muito pequenos. Tenho de sentir esse fôlego para ir novamente.

Recebeu alguns prémios com este trabalho, como lida com o reconhecimento? Funciona como uma espécie de combustível para trabalhar melhor?
Não é um combustível, durante muito tempo não ganhei prémio nenhum e não foi por isso que baixei os braços, mas não posso mentir e dizer que não valorizo um prémio. A responsabilidade que sinto depois é exatamente a mesma, talvez faça as coisas com mais certeza de que é válido aquele trabalho, mas única coisa que os prémios me dão é a satisfação de ver um trabalho ser reconhecido e pensar que pelo menos alguém viu e gostou daquilo que fiz. Fiquei muito mais feliz com o reconhecimento de alguns colegas meus.

Qual foi o elogio que mais o surpreendeu?
Foram muitos. Lembro-me de um telefonema muito emocionado da Maria Rueff a agradecer e a dizer que foi a melhor coisa que viu nos últimos tempos, mas também recebi do Herman José e do Joaquim Monchique. Fiquei muito feliz a ouvir pessoas do cinema, como o Afonso Pimentel ou o Nuno Lopes, que é um ator que admiro imenso.

"As minhas redes sociais são feitas de fotografias porque gosto muito de fotografar, claro que quando publico a minha fronha ou a cara dos meus filhos tenho 40 mil likes e quando publico a imagem de um carro tenho quatro mil, mas isso é-me um bocadinho indiferente."

O facto de ser tão consensual não pode tornar-se perigoso e desconfortável?
Não vejo perigo nisso, acho que ser consensual tem um lado bom, mas para mim não é sinónimo de ser comercial. Ter uma criança de 8 anos que me adora e quer tirar uma fotografia comigo, assim como a senhora da retrosaria ou o CEO de uma grande empresa também é algo muito raro, tenho esta sorte e fico feliz por conseguir isto, não me assusta minimamente. Tenho é vontade de fazer coisas muito diferentes para tentar ser o mais abrangente possível, ou seja, ter alguém que adore ver a “Esperança” e deteste ver-me no “Terra Nossa”.

Estando presente em tantas frentes, não corre o risco de ficar com uma imagem gasta e cansada?
Esse risco existe, claro. A gestão dessa exposição na profissão é a minha maior dificuldade. Talvez tenha necessidade de fazer coisas tão diferentes para não cansar tanto.

Onde se sente mais confortável?
É difícil responder, adoro fazer os “Commedia a la Carte”, mas também adoro fazer a “Esperança” Gostava de fazer muito mais cinema, mas claro que tem a ver com a escolha que fiz, não posso ser protagonista de um filme e ser uma pessoa consensual e conhecida.

Que imagem é que acha que as pessoas têm de si?
Acho que as pessoas têm alguma dificuldade em perceber o que sou e isso não me desagrada, baralho-as um bocado, mas não faço por isso. O meu Instagram, por exemplo, não é imediato do que sou na minha profissão porque efetivamente não tenho graça no meu dia a dia. As minhas redes sociais são feitas de fotografias porque gosto muito de fotografar, claro que quando publico a minha fronha ou a cara dos meus filhos tenho 40 mil likes e quando publico a imagem de um carro tenho quatro mil, mas isso é-me um bocadinho indiferente. Não sou só macacadas, mas também não sou super culto, não vejo só filmes espetaculares. Odeio o “Star Wars” e o “Game Of Thrones”, mas também não vejo o “Bad Boys 5”. Sou muito eclético.

Gerir a exposição da sua imagem é o mais difícil para o ator e apresentador que, apesar de fazer várias coisas ao mesmo tempo, não sente necessidade de parar

Igor Martins / OBSERVADOR

A música parece ser um ingrediente importante no seu trabalho, porquê?
Sim, há quem diga que não há humor sem música, que quem não sabe música não sabe fazer humor, e concordo com isso. Há um tempo na música que é o tempo do humor, por isso boa música e bom humor para mim estão muito próximos. Sempre tive um fascínio muito grande por música, tenho muita pena de não ser músico. Desde muito novo que toco, os meus pais ofereceram-me uma guitarra e fui aprendendo a ouvir, piano a mesma coisa, mais tarde comprei um saxofone e também aprendi. Os meus pais ouviam muitos vinis lá em casa, principalmente de música popular brasileira, Caetano, Gil e João Gilberto, mas também Rui Veloso, Paulo Gonzo, Stevie Wonder, um dos meus artistas preferidos, e mais tarde Prince, Queen e Michael Jackson.

O que anda a ouvir agora?
Oiço tudo isto, não me considero muito do rock, e sou fanzaço do Lenine. Depois adoro o trabalhos dos meus amigos, do Miguel Araújo, que é um guitarrista de sonho, mas também do Zambujo, da Luísa e do Salvador Sobral. Tiro o chapéu a muitos cantores portugueses, sou muito eclético e é muito difícil rotularem-me. Oiço um Santana como oiço um Miles Davis.

Quando vai um concerto não pensa que podia estar em cima do palco a receber aplausos de pé?
Sim, todos os dias e a toda a hora. Infelizmente, não sei demasiado para estar ali, mas ainda vou a tempo e é isso que estou a fazer. Vou lançar um tema original, música e letra, no início do próximo ano. A direção musical é do Guilherme Marinho e a mistura é do João Bessa, será o meu primeiro single.

A fotografia é outra paixão visível nas redes sociais. O que gosta mais de fotografar?
Gosto de fotografar tudo, mas essencialmente pormenores. Este lado observador talvez seja a minha maior qualidade, sou muito atento e vejo algumas coisas que às vezes os outros não reparam. Todos os dias olho para expressões, reações e estereótipos, tudo é matéria para o meu trabalho, incluindo um croissant pousado num prato.

Curiosamente não partilha muitas opiniões políticas ou sociais, é algo consciente ou estratégico?
Posso dizer que até pode ser um ato de cobardia da minha parte. Admiro muito quem o faz, não me escondo, se me pedirem opinião dou, mas guardo muito para o meu núcleo fechado de amigos, assim como não partilho outras coisas como a minha família ou os sítios onde vou. Não me sinto obrigado a partilhar, como artista sou obrigado a posicionar-me em defesa de algumas coisas como a homossexualidade, o racismo, a xenofobia ou a igualdade de género. Não partilhar numa rede social isto ou aquilo não quer dizer que não o faça. Sinto que por vezes não acrescento muito mais e que estou só fazer um post para ter muitos likes, mas também acho que o devo fazer porque tenho muitos seguidores. Como em tudo na minha vida, tento equilibrar, embora não faça disso uma bandeira. Penso pouco nessas coisas, tenho uma opinião, mas vou aprendendo muito com opiniões contrárias à minha. Se calhar não sei o suficiente para passar uma determinada mensagem, pode parecer uma ato de cobardia, e de certa forma é, mas domino completamente algumas matérias. Sei o que quero e o que defendo, se me perguntarem a minha opinião dou-a, mas não faço disso propriamente uma causa.

"O meu objetivo não é ser um peixe grande num aquário pequeno e isso é um bocado aquilo que já sou em Portugal. Sempre tive esta consciência, vou ao Brasil ou aos Estados Unidos e sou mais um igual a tantos outros, mais um que tem a mania que faz umas coisas com graça."

Já fez algumas coisas no Brasil, nunca pensou ter uma carreira internacional?
Já, mas optei por ter família.

Então quando os seus filhos tiverem 18 anos arrisca?
Talvez. Não tenho esse objetivo, não trabalho para isso. Mentira, com a minha produtora trabalho para isso, sim.

Como é que ela surge?
Era uma vontade antiga que tinha. Com o Diogo Brito, um arquiteto do Porto com uma paixão cinéfila, um dia começámos a conversar sobre séries e filmes e ele mandou-me umas coisas escritas, fiquei apaixonado por aquilo que escreveu e a maneira como ela pensa esse tipo de conteúdos. Chamámos mais dois sócios, o Bruno Coelho Vaz e o Ricardo Bastos, fizemos uma sociedade e abrimos a Produtora 313. O nome vem do número de quilómetros da minha antiga casa à casa do Diogo. Sempre gostei muito desse trabalho de backoffice, de perceber como as coisas são feitas. Aliás, no futuro gostava de sair para o backstage, seja para escrever ou para realizar. Surgiu tudo muito naturalmente, fechamos um contrato com a SIC por três anos e em dezembro irá estrear-se um documentário sobre o Paulo Futre de seis episódios realizado por mim e pelo Nuno Garcia. Para o próximo ano já temos pensado um serial killer escrito por nós e pela Inês Braga e o Pedro Goulão.

Como foi desempenhar o papel de realizador?
Nunca tinha realizado, acho que tenho a sensibilidade do que oiço e esse lado esteta da fotografia. Sei o que quero, não sei ainda muito bem fazer, mas realização é um trabalho de equipa em que temos de confiar nos outros. Gostava que o meu futuro passasse muito por aqui, não sei se tenho capacidade, mas gostava muito.

Ir lá para fora continua a não fazer parte dos planos?
O meu objetivo não é ser um peixe grande num aquário pequeno e isso é um bocado aquilo que já sou em Portugal. Sempre tive esta consciência, vou ao Brasil ou aos Estados Unidos e sou mais um igual a tantos outros que tem a mania que faz umas coisas com graça. No Brasil já fiz umas coisas com a Porta dos Fundos, ele gostam muito de mim e sou muito próximo deles, se quisesse acho que teria porta aberta. Ir lá para fora é ser um peixe pequeno num aquário gigantesco e ver o que existe lá dentro, tenho essa vontade e acho que vai acontecer com a produtora, já há muitos convites e muitas ideias a surgir.

O que o faz rir?
Não sou uma pessoa que ri muito.

Daí a pergunta…
Faz-me rir o disparate puro e duro, os meus filhos, a minha filha mais velha já prepara muito bem piadas, mas sobretudo o quotidiano. A forma como todos andamos, o que fazemos, as nossas rotinas. Não me rio de grandes piadas, embora ache graça, mas depois a simples história do autocarro faz-me rir muito.

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