Chic by Choice, o negócio fantasma das portuguesas que foram distinguidas pela Forbes

19 Fevereiro 20184.496

Aluguer de vestidos indisponível, telefone desligado, showroom que não existe e prejuízo de 1 milhão em 2016. As criadoras da Chic by Choice trabalham noutras empresas mas foram destacadas pela Forbes

A Forbes distingiu há um mês as portuguesas Lara Vidreiro e Filipa Neto como duas das 30 jovens sub-30 “mais brilhantes” da Europa, no ranking anual “30 Under 30”, mas o negócio de aluguer de vestidos de luxo que ambas lançaram em 2014 — e pelo qual foram distinguidas pela publicação norte-americana — não funciona. O aluguer de vestidos está sempre “indisponível”, o número de telefone da marca está desligado há semanas, a empresa aparenta não ter colaboradores, não se sabe onde é o espaço físico da marca e as empreendedoras estão desde o final do ano a trabalhar noutras empresas.

Mais: em 2016, as vendas da empresa totalizaram 278.162 euros, mas os prejuízos ascenderam a mais de um milhão de euros. No final desse ano, a empresa estava em falência técnica, com um capital próprio negativo de 28.155 euros.

O mistério que rodeia o negócio das jovens recentemente distinguidas pela Forbes tem sete meses. Desde julho de 2017 que o Observador tem tentado perceber o que se passa com a Chic by Choice — altura em que apurou que os colaboradores estariam a sair da empresa por motivos relacionados com a sustentabilidade das operações e que o site começou a vender vestidos em promoção de forma permanente. Nesse mês, contactou as cofundadoras e a Portugal Ventures, que é uma das entidades portuguesas que financiaram o projeto. Objetivo: saber se a empresa estaria a encerrar atividade e, por isso, a escoar o stock.

A capital de risco pública respondeu que “não lhes tinha sido comunicada qualquer informação que permitisse concluir que a Chic by Choice iria encerrar” e Filipa Neto mantinha a mesma versão ao Observador dias depois, explicando que o negócio estaria a passar por uma fase de reestruturação e mudança, mas ativo.

[Veja no vídeo os tempos da glória da Chic by Choice antes da crise]

Desde julho de 2017 que o site anuncia campanhas de promoção de venda de vestidos que chegam a atingir descontos de 80% — mas não é nesta lógica de vendas que assenta o modelo de negócio da startup portuguesa.

Desde julho de 2017 que o site da Chic by Choice faz promoções

Seis meses depois, a 22 de janeiro de 2018, a Forbes distinguia as portuguesas de 27 anos como duas das 30 jovens “mais brilhantes” da Europa na categoria de “Retalho e Comércio Eletrónico”. O Observador percebeu nessa altura que as campanhas de promoções se mantinham ativas e que era impossível alugar vestidos no site — tentámos mais de 40 vezes, com vestidos diferentes, sempre sem sucesso, e voltámos a contactar as empreendedoras. Até à hora a que este artigo foi publicado não houve qualquer resposta.

Na rede profissional LinkedIn, é possível ver que Lara Vidreiro está a trabalhar como consultora digital sénior de e-commerce na A2D Consulting desde novembro de 2017. Filipa Neto está a trabalhar como especialista de inovação na Farfetch desde dezembro de 2017. Na rede social, ambas mantêm os cargos de cofundadoras e Filipa Neto aparece como diretora geral da Chic by Choice, mas fonte da Portugal Ventures voltou a afirmar ao Observador: “Não nos foi comunicado qualquer desenvolvimento que permita tirar conclusões sobre o encerramento da empresa”.

Confrontada com o novo emprego das fundadoras, a mesma fonte acrescentou que “o acordo parassocial que a Portugal Ventures tem com todas as participadas e restantes parceiros que integram a estrutura acionista destas empresas obedece a acordos de confidencialidade“, que não iria quebrar. Ao Observador, a Faber Ventures, sociedade de capital de risco que também investe na empresa desde o seu lançamento, não quis prestar declarações.

Sem telefone, sem showroom e sem colaboradores

Na ausência de respostas, o Observador continuou a tentar alugar vestidos:

Dos seis funcionários que aparecem listados como colaboradores da Chic by Choice no LinkedIn, apenas uma aparece como estando atualmente vinculada à empresa, mantendo-se como operadora de armazém. Uma segunda está desde julho de 2017 noutra empresa, a terceira tem também uma nova função noutra entidade patronal desde janeiro de 2018 e há uma quarta colaboradora que, apesar de aparecer no LinkedIn ligada à empresa, acabou por confirmar ao Observador que também já não trabalha lá. No final de 2016, a empresa contava com 15 colaboradores.

Nas redes sociais, há alguns meses que a empresa não tem atividade. Na página da Chic by Choice no Twitter, o último post é de 31 de julho de 2017 e mostra a atriz Vanessa Martins a utilizar um vestido da loja. No Instagram, a última fotografia data de 17 de outubro de 2017 e mostra a blogger Bárbara Corby com um vestido da designer Catherine Deane. Na página da marca no Facebook, o último post da empresa é de 28 de novembro de 2017 e é uma felicitação ao noivado do príncipe Harry com Meg Markle. A atriz aparece com um vestido da designer Jill Stuart Aline.

No site da Chic by Choice, há um item no qual estão publicados os comentários dos leitores — o último data de julho de 2017. Na página do Facebook, contudo, há três publicações de clientes a queixarem-se de terem comprado vestidos e de nunca os terem recebido. Uma delas data de 9 de janeiro de 2018, outras duas de 25 de setembro de 2017.

Na secção “Como Funciona”, continuam a estar disponíveis os passos que cada consumidor deve executar para alugar um vestido e que passam por escolher o dia de entrega, guardar a embalagem e devolvê-la. Não há referência à possibilidade de compra dos vestidos, que é, na verdade, a única disponível para os consumidores.

No “Como Funciona” continuam a aparecer os três passos que cada consumidor deve dar para alugar um vestido

Até à mudança para a Doca de Alcântara, a empresa tinha um espaço físico noutra zona de Lisboa, na Rua Castilho — em pleno centro da cidade. Em julho, a marca anunciou que iria reabrir a sua sample store ao público para pôr à venda vestidos de coleções anteriores com um desconto mínimo de 30%. O intervalo de preços a que os clientes poderiam comprar os vestidos ia de 65 a 350 euros.

Em outubro, quando o novo espaço na Doca de Alcântara foi inaugurado, a marca voltou a anunciar que tinha uma seleção de vestidos de luxo com descontos até 85% de marcas como Valentino,​ ​Missoni,​ ​BCBG​ ​Max​ ​Azria​ ​ou​ ​Nicole Miller. Desde então que as promoções se mantêm no site.

Prejuízo superior a um milhão e capital próprio negativo em 28 mil euros

A 30 de novembro de 2015, a startup portuguesa anunciou que tinha recebido uma ronda de investimento no valor de 1,5 milhões de euros dos fundos de investimento em capital de risco Faber Ventures, Portugal Ventures e dos investidores Paulo Mateus Pinto (presidente da La Redoute Iberia) e Nuno Miller (ex-responsável pela área tecnológica da Farfetch e, na altura, responsável pelos canais digitais da Sonae). O objetivo da ronda era permitir que a empresa crescesse nos mercados do Reino Unido e Alemanha durante o próximo ano e meio, ou seja, até meados de 2017.

No final do ano seguinte (a última prestação individual de contas que a empresa apresentou é relativa a 2016), a Chic by Choice estava em falência técnica , com um capital próprio negativo de 28.155 euros, ou seja, com um passivo superior aos ativos. Simplificando: as dívidas que a empresa tem para com terceiros são superiores aos ativos que possui. Isto não quer dizer que a empresa esteja falida — para que isso aconteça tem de ser entregue uma declaração de insolvência. O Observador confirmou no portal Citius que não tinha sido entregue nenhum pedido deste tipo.

O relatório e contas da Chic by Choice de 2016 também apresenta um prejuízo de 1,074 milhões de euros e um volume de negócios de 278.162 euros. As contas de 2017 da empresa ainda não constam da Base de Dados de Contas Anuais do Instituto dos Registos e do Notariado.

Na altura em que a Chic by Choice recebeu o investimento de 1,5 milhões de euros, Filipa Neto disse ao Observador que o negócio estava a crescer entre 12% a 35% por mês e que “agora era necessário fazer crescer a empresa, captar novos clientes para continuarmos a crescer no Reino Unido e Alemanha e aumentar a equipa, em especial a tecnológica”. Em agosto desse ano, a startup já tinha feito notícia por ter comprado a rival alemã La Remia, mas as condições financeiras que envolveram a operação não chegaram a ser reveladas.

Aquando da compra da rival, Filipa Neto disse que a empresa estava “a ter um franco crescimento” e que, por isso, fazia todo o sentido acelerar a expansão da Chic by Choice e entrar num mercado que é muito forte em comércio eletrónico”. Em agosto de 2015, a empresa também anunciou que as fundadoras da alemã La Remia, Anna Mangold e Claudia von Boeselager, iriam integrar a equipa da empresa portuguesa como consultoras.

Chic by Choice tem sido destacada por várias publicações internacionais

Filipa Neto e Lara Vidreiro têm 27 anos e em janeiro de 2018 foram distinguidas no ranking dos jovens “mais brilhantes” da Europa no ramo “Retalho e Comércio Eletrónico”. No perfil das empreendedoras na Forbes, pode ler-se que a empresa foi fundada em 2014 e que aspira ser a Rent the Runaway da Europa (empresa americana fundada por Jennifer Hyman e Jennifer Fleissan, em 2009, que permite alugar vestidos e outros acessório de designers).

“A empresa com sede em Lisboa cobra apenas 85% do preço de retalho por vestidos de designer e envia-os para mais de 15 mercados europeus”, lê-se no perfil das empreendedoras na publicação.

O processo de seleção dos jovens “30 Under 30” para as várias áreas terá começado em outubro, bem como os contactos da Forbes, apurou o Observador. Terminaram em dezembro. Para que as candidaturas fossem aprovadas, os candidatos tiveram de responder a vários questionários com perguntas sobre a sua vida pessoal e profissional. O anúncio dos 30 escolhidos para cada área foi feito num evento em Londres.

Esta não foi a primeira vez que a Chic by Choice foi alvo de destaque internacional, nem da Forbes. Em fevereiro de 2015, a startup já tinha sido destacada pela mesma revista por estar a mudar a forma como as pessoas acedem a produtos de moda assinados por designers e a aproximar as marcas de luxo dos cidadãos. A jornalista Alison Coleman escrevia na altura que a Chic by Choice tinha dois objetivos: “Democratizar as marcas de designers e possibilitar às marcas líderes e aos sites de comércio eletrónico melhorar a gestão de stocks de uma forma mais proveitosa do que recorrendo a campanhas de descontos”.

Em 2016 e em 2017, a Chic by Choice também foi destacada pela revista Wired como uma das 10 startups mais sexy de Portugal e das 100 mais sexy da Europa. No último ano, a empresa de aluguer de vestidos de moda de luxo foi distinguida ao lado de nomes como a Attentive, Unbabel, Feedzai, Zaask, Misk, Landing.jobs, Uniplaces, Sword Health, Mellow ou Codacy. A 14 de junho de 2016, também foi considerada a melhor startup de moda dos “The Europas Conference & Awards”, um ano depois de a Farfetch ter arrecadado o mesmo prémio.

No final de 2015, o Observador também destacou Filipa Neto como uma das pessoas com menos de 30 anos a manter debaixo de olho para 2016.

A Chic By Choice nasceu em 2014 e conta com cerca de 2 milhões de euros de investimento captados em duas rondas: a primeira, no valor de 500 mil euros, decorreu em junho de 2014 e contou com a participação da Portugal Ventures, da Faber Ventures e da Edge Group. A segunda, no valor de 1,5 milhões de euros, ocorreu em novembro de 2015.

Em entrevista ao Jornal de Negócios, em dezembro de 2015, Lara Vidreiro contava que a empresa tinha surgido porque as empreendedoras queriam dar oportunidade “a todas as mulheres de poderem aceder a um vestido de sonho para cada ocasião, sem terem de investir demasiado numa peça que sabem que irão usar apenas uma ou duas vezes”. Tinham 23 anos quando lançaram a startup.

No “Sobre Nós” disponível no site da Chic by Choice, a empresa assume-se como “uma plataforma de aluguer premium, que disponibiliza vestidos de luxo inigualáveis, com 85% de desconto sobre o preço de venda”, porque as empreendedoras acreditam “numa experiência de estilo globalmente acessível: envio para mais de 15 mercados europeus, incluindo os principais centros de moda de Portugal, Reino Unido, França, Itália e Alemanha, e uma seleção de mais de 40 designers”.

*Sobre este artigo, a Chic by Choice exerceu um direito de resposta que pode ler nesta hiperligação.

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