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O Cinebolso existe há 44 anos, no centro comercial com o mesmo nome, junto ao Saldanha, em Lisboa. Hoje a fachada está descaraterizada e já só há uma loja a funcionar

O Cinebolso existe há 44 anos, no centro comercial com o mesmo nome, junto ao Saldanha, em Lisboa. Hoje a fachada está descaraterizada e já só há uma loja a funcionar

Cinebolso. Fomos ao último cinema pornográfico de Lisboa /premium

Abriu em 1975 pela mão de um conhecido empresário da noite e não passou só fitas para adultos. Na semana passada foi notícia: um idoso morreu na plateia a ver um filme. Esta é a história do Cinebolso.

Aconselhada por alguém que em tempos entrou no Cinebolso (também em trabalho, claro), da primeira vez que se deslocou ao último cinema pornográfico de Lisboa, a jornalista foi acompanhada de um colega, nem por isso mais experiente no tema, pelo que o plural utilizado abaixo não é majestático. 

Não vimos o filme — “Rocco e as suas meninas amestradas” —, nem metade dele sequer. Talvez tenhamos aguentado cinco minutos no total, tempo de os olhos se habituarem à penumbra e conseguirem contar cinco ou seis vultos na sala, e de os ouvidos serem capazes de distinguir pelo menos três conjuntos de gemidos: um de Rocco Siffredi, estrela já meio decadente do cinema pornográfico italiano, tanto hetero como homossexual; outro da “menina” no ecrã; um terceiro, bastante mais perturbador, vindo do fundo da sala — que até está equipada com imagem digital mas não com sistema de som dolby surround.

De pé, encostados à parede, junto à porta de batentes, com pequenas janelas para o exterior, fomos perscrutados de perto pelo vai e vem de cinéfilos irrequietos que se passeiam pelas coxias, mudam de poiso e fazem piscinas rumo à casa de banho, mesmo ali ao lado. Não é pelo filme, hardcore, triplo ou quádruplo X, que saímos de forma precoce, mas pelo homem, idade pós-reforma, que se senta na cadeira mais próxima, olha ostensivamente para nós, em vez de na direção do ecrã, e leva a mão à zona da cintura — não ficámos para ver as cenas seguintes.

Lá fora, ao cimo do lance de escadas que separa a última sala de filmes pornográficos ainda em funcionamento em Portugal da zona do bar e da sala de televisão, também acessível apenas a portadores de bilhetes, percebemos que não estávamos a exagerar.

Hoje o Cinebolso tem bilhetes a 3, 5 e 7 euros. Mulheres não pagam

“Então? Vieram ter convosco?”, pergunta uma empregada de limpeza, baixinha, cabelo preso num rabo de cavalo, 50 e muitos anos, avó, bata azul com a marca da casa a amarelo, numa combinação a fazer lembrar a quase extinta Blockbuster. “Quando veem casais assim como vocês às vezes eles metem-se”, continua a explicar, sorriso meio malandro de quem conhece a casa e os hábitos de quem a frequenta há muitos anos (16 ou 17, responder-nos-á).

O Cinebolso é uma sala de cinema, sim; aliás, a última sala de cinema a exibir fitas pornográficas em Lisboa; mas muitos dos que a frequentam fazem bem mais do que ver filmes — e isso é do conhecimento popular, com direito a piadas de algibeira sobre o nome da casa e informação disponibilizada em blogues e roteiros de sexo na capital. “É só velhotes”, avisava um internauta em 2012, numa de 977 respostas a uma publicação com quatro parágrafos a pedir dicas sobre “zonas de engate em Lisboa”.

Por muito que, ao Observador, um dos cinco funcionários faça questão de dizer que existem regras e que, tal como num cinema dito “normal”, ali não são permitidos atos sexuais nem atentados ao pudor — “Entro lá dentro muitas vezes e se vejo alguma coisa a acontecer vou lá: ‘Então?! Isto não é uma casa de putas! Se querem fazer isso vão ao Elefante Branco”; que também dizem que é uma casa de strip, não é? Já aconteceu algumas vezes: entro e eles não reparam que sou eu e vêm logo tocar-me. Dou-lhes um grito, ‘Então?!’, e eles pedem desculpa, são todos muito educados, nunca houve aqui confusões nem cenas de porrada, nem nada disso, alguns já são amigos, às vezes trazem-nos bolos e tudo” —, é fácil perceber que não será bem assim.

"Já aconteceu algumas vezes: entro e eles não reparam que sou eu e vêm logo tocar-me. Dou-lhes um grito, ‘Então?!’, e eles pedem desculpa, são todos muito educados, nunca houve aqui confusões nem cenas de porrada, nem nada disso, alguns já são amigos, às vezes trazem-nos bolos e tudo”
Funcionário do Cinebolso

O cubículo da casa de banho masculina, por exemplo, está fechado à chave, para impedir atos sexuais a dois ou mais, e só com a supervisão da empregada de limpeza é que a porta se abre. A conta de lixívia da empresa, a que o Observador não teve acesso, será uma das mais elevadas da cidade, sobretudo tendo em conta a dimensão do espaço, composto por uma sala de cinema com capacidade para 140 pessoas, duas casas de banho, uma sala de estar intimista com quebra-luzes e televisão, uma zona de bar e um corredor onde, como em 1975, ano de abertura, ainda é permitido fumar.

Todas as manhãs, serão cerca de 15 os litros de desinfetante gastos na limpeza apenas da sala de cinema — “Lavo tudo, o chão, as cadeiras, uma a uma, e as paredes. Isto aqui é em todo o lado, até nas paredes”, confidencia a solícita funcionária, que garante ter abandonado o hábito de tomar o pequeno-almoço desde que ali trabalha, mas ainda se insurge quando nos assustamos com a descrição — “As paredes?!”. “Ó, menina, e pode encostar à vontade, já lhes disse que limpei tudo!”, atira com impaciência, como se não confiássemos no seu zelo.

Enfartes, ataques epiléticos e morte

Passava das 16h00 da passada quarta-feira, dia 13 de novembro. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, o Cinebolso tem sessões contínuas entre o meio-dia e as 22h30 (aos fins de semana o horário de funcionamento é outro: das 14h00 às 23h00), e três tipos de bilhetes, a 3, 5 e 7 euros. O primeiro é válido para entradas a partir das 20h00, o segundo é de acesso único, o último permite entrar e sair do recinto, no interior do outrora centro comercial Cinebolso, na Rua Actor Taborda, junto ao Saldanha e em pleno centro de Lisboa, as vezes que se quiser.

De acordo com outro funcionário, apesar de os dias de maior movimento serem os sábados e os domingos, a venda de ingressos durante o resto da semana tende a ser bastante imprevisível: “Tanto podem estar aí 40 pessoas numa quarta ou numa quinta-feira como 140, às vezes eles combinam e vêm todos juntos. Sabe que os homossexuais e os bissexuais, que também vêm cá alguns, frequentam todos os mesmos sítios, é fácil combinarem e aparecerem”. Tudo isto para dizer que entre as 12h00 e as 16h00, com Rocco Siffredi e respetivas meninas amestradas a passar em loop, não terão faltado ocasiões para apagar os efeitos da limpeza matinal.

Adiante: apesar de, confirmam vários funcionários, raramente por ali aparecerem mulheres (quando aparecem serão a) prostitutas ou b) metade de um casal necessariamente desempoeirado e desinibido), foi sem curiosidade que o empregado do bar/ projecionista/ funcionário da bilheteira/ segurança nos vendeu um bilhete de cinco euros: “Senhoras não pagam”, limitou-se a informar.

“Tanto podem estar aí 40 pessoas numa quarta ou numa quinta-feira como 140, às vezes eles combinam e vêm todos juntos. Sabe que os homossexuais e os bissexuais, que também vêm cá alguns, frequentam todos os mesmos sítios, é fácil combinarem e aparecerem”
Funcionário do Cinebolso

Um dia mais tarde, seria outro dos cinco funcionários do Cinebolso (três com funções polivalentes, duas encarregues da limpeza) a explicar-nos que, por muito que na sala passe somente pornografia hardcore heterossexual, a maior parte dos seus frequentadores são homens, homossexuais, grande parte deles casados e invariavelmente com idades acima dos 60; e prostitutos masculinos, bastante mais novos e facilmente identificáveis. “Nem querem ver filmes gay, se passássemos algum começavam logo a reclamar.”

As paredes do espaço, onde nos tempos áureos chegaram a funcionar florista, loja de discos, tabacaria, perfumaria, marroquinaria e até pizzaria mas que atualmente alberga apenas uma loja de fotocópias com horário de funcionamento incerto, estão decoradas com pósteres de estreias passadas e futuras: “Escravas dos Matulões”, “Orgias Maduras”, “Cabritas Exóticas” e “Bingo e Linhas Sexuais” serão os exemplos mais brandos. Na passada terça-feira, 5 de novembro, dia em que um octogenário se sentiu mal no Cinebolso, acabando mesmo por morrer no local, o filme em cartaz era “Um Casal e uma Sex Doll”.

O alerta foi dado pouco antes das 14h00 por outro frequentador do cinema, que percebeu que o homem, de 83 anos, estava inconsciente. Ricardo, 32 anos, ex-técnico de manutenção de máquinas industriais e funcionário do Cinebolso há apenas um ano, tratou de acender as luzes da sala e prestou-lhe os primeiros-socorros ali mesmo. “Percebi logo que não estava só desmaiado e que era uma paragem cardio-respiratória. Não tinha pulso, comecei a fazer a reanimação e consegui recuperá-lo. Depois perdeu-o outra vez. Chamámos o INEM às 14h03, apareceram às 14h52. Estive meia hora de volta dele, a tentar reanimá-lo. Infelizmente não consegui”, relata, revoltado com o tempo de espera e ainda em choque com a situação. “Já tínhamos tido outras situações, já houve enfartes, ataques epiléticos, mas nunca morreu aqui ninguém. Nunca tinha morrido aqui ninguém…”, garantiu.

“Já tínhamos tido outras situações, já houve enfartes, ataques epiléticos, mas nunca morreu aqui ninguém. Nunca tinha morrido aqui ninguém...”

Apesar de grande parte dos frequentadores do cinema ser conhecido pelo nome, não terá sido esse o caso: “O homem tinha 83 anos mas não parecia ter mais de 64. Nunca o tinha visto, nem me lembrava de lhe ter vendido o bilhete. Não faço ideia sobre se tinha família ou não, isso já é com a polícia”, termina o funcionário, que teve de receber apoio psicológico para lidar com o que aconteceu.

Outro empregado revelou ainda que o facto de alguns dos cinéfilos terem o hábito de tomar medicamentos para a disfunção erétil antes das sessões também tem dado azo a sustos: “Ainda o mês passado houve um senhor que se sentiu mal. Disse-nos que tinha tomado Viagra mas era casado e a família não sabia que ele vinha aqui, tivemos de o sentar lá fora e de chamar o INEM”.

Da fase do cinema de autor ao homicídio do proprietário

A funcionar desde 8 de março de 1975, o Cinebolso é um dos poucos resistentes dos cinemas lisboetas da era pré-multiplex. O atual Ideal, na Rua do Loreto, no Chiado, será outro que, no início da década e ainda como Cine Paraíso, até era a única concorrência da sala da Actor Taborda, igualmente com sessões contínuas, também dedicado em exclusivo à pornografia. Atualmente, como o Cinebolso, só existirá outro sítio em todo o país: o Estúdio 111, no Porto, que depois de encerrar em 2011 voltou à vida em 2015.

Também o Cinebolso esteve, a espaços, fechado. Aliás, apesar de o site ostentar com orgulho a medalha da longevidade — “A projetar emoções desde 1975” —, a verdade é que ao longo dos últimos 44 anos a sala não só teve várias vidas como vários nomes.

No início, o Cinebolso, no centro comercial com o mesmo nome, já se destacava, mas por vender bilhetes sem lugares marcados e por não interromper os filmes com intervalos. Na altura nem sequer passava filmes para adultos: a primeira estreia foi “Salamandra”, do cineasta suíço Alain Tanner, candidato em 1971 ao Óscar de melhor filme estrangeiro; o primeiro porno, “Núpcias de Porcelana”, só chegou oito meses depois, a 12 de novembro desse ano.

Fundado pelo então ainda não muito conhecido empresário da noite José Gonçalves e pelo cineasta e escritor José Bandeira Freire, o Cinebolso é contemporâneo do icónico cinema Quarteto, o primeiro multiplex do país — que também abriu portas em Lisboa em 1975 pela mão da mesma dupla, explica José Augusto Leite, no blogue Restos de Colecção.

No início ambos exibiam cinema de autor, europeu e americano, e entre 1983 e 1985 o Cinebolso chegou mesmo a chamar-se Quinteto (o “Blade Runner” estreou lá, a 25 de novembro de 1983), mas rapidamente os sócios se separaram, ficando cada um com o seu nicho de mercado. Depois de um breve período em que se chamou N’Gola e exibiu, entre outros, Jean-Luc Godard, o Cinebolso reabriu a 17 de julho de 1986 com “Sexo ao Vivo” — desde então, e tirando ocasionais encerramentos para férias, todas as segundas-feiras estreiam filmes pornográficos naquele ecrã.

Em 1978, como atualmente, o Cinebolso só exibia filmes para adultos, sem intervalo e em sessões contínuas

Restos de Colecção

Durante algum tempo, os bilhetes foram vendidos numa máquina automática e as entradas feitas de forma autónoma e discreta, num sistema de torniquetes, mas rapidamente se percebeu que os frequentadores do espaço, cada vez mais idosos, não se ajeitavam com a tecnologia. Hoje, que não existe sequer letreiro na fachada do edifício com o nome do cinema e os bilhetes são vendidos no bar, só o torniquete continua no sítio, comandado pelo mesmo funcionário.

O Observador tentou, via telefone e pessoalmente, chegar à fala com a atual proprietária do espaço, mas Ana Maria Machado Gonçalves, filha mais velha de José Gonçalves, manteve-se sempre incontactável. “Até já houve um jornal espanhol que tentou, mas ela não aceita, não quer dar entrevistas. É compreensível, se me tivesse acontecido o mesmo também ficava traumatizado”, justificou um dos funcionários do Cinebolso, referindo-se à morte violenta do fundador do espaço.

Três anos anos depois de ter sido baleado à porta da casa onde morava, José Gonçalves, à data testemunha do caso “Passerelle”, foi assassinado. Na madrugada de 2 de dezembro de 2007, uma bomba explodiu no preciso momento em que o empresário entrava no seu carro, parado à porta do também mítico Avião, o bar de alterne montado num Convair 880, estacionado junto à Segunda Circular, de que era proprietário. Jorge Chaves, seu sócio num outro bar de alterne, o Show Girls, em Ponta Delgada, nos Açores, chegou a ser condenado a 22 anos de prisão e a uma multa de mais de 100 mil euros, mas acabou por ser absolvido em 2012.

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