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MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR

MICHAEL M. MATIAS / OBSERVADOR

Circular em Lisboa: fomos fazer o teste ao trânsito e às obras

  • Texto de Hugo Tavares da Silva, João de Almeida Dias, João Pedro Pincha e Milton Cappelletti

Uns de carro, outros de transportes públicos. Atravessámos Lisboa às 8h30 da manhã, encontrámos obras, filas, estações de metro cheias. Mas, contas feitas, estivemos longe de viver um pesadelo.

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Debate-se esta terça-feira, na Assembleia Municipal de Lisboa, o Estado da Cidade. A discussão dá-se numa altura particularmente especial da vida da capital. Há diversas obras de grande envergadura a decorrer e, ao mesmo tempo, o sentimento de frustração pelo estado dos transportes públicos parece nunca ter sido tão alto.

O Observador fez-se à estrada para testar a mobilidade em Lisboa. Como correu? Aqui está a nossa experiência.

Gare do Oriente (Parque das Nações) – Museu do Oriente (Alcântara), de carro

Do Oriente ao Oriente ainda é caminho e, lá pelo meio, há uns quantos buracos, as proverbiais obras de já-não-falta-muito-para-as-autárquicas e os transtornos que estas causam. É mesmo assim, da Gare do Oriente (Parque das Nações) até ao Museu do Oriente (Alcântara). Só não sabia quanto tempo é que o percurso me ia tomar e até que ponto é que ele seria feito sem problemas.

São 8h32 quando começo o meu percurso em direção a Alcântara e as primeiras dezenas de metros não têm muito por onde melhorar. Está a ver quando entra numa reta minada de semáforos vermelhos que pouco antes da sua passagem se vão tornando verdes? A este fenómeno chama-se “onda verde” e o meu carro surfa-a ao longo da Avenida Dom João II ao estilo de Garrett McNamara: a idade já pesa, mas para isto ainda chega.

E quando tudo está a correr bem, aparece o primeiro vermelho, na Alameda dos Oceanos. Faz parte, é assim mesmo, mas a fila que para aqui está muito dificilmente teria este comprimento se não fosse pelas obras na segunda metade da rua. O semáforo fica verde mas eu estou tão lá para trás que levo com o vermelho outra vez. Agora na pole position. Atrás de mim, um condutor aproxima-se insistentemente da parte de trás do meu carro, num gesto de impaciência. Pouco depois, a luz verde liga-se e enquanto me preparo para seguir a marcha, o meu vizinho de trás já me dá a buzinadela da ordem. São 8h41. Ou seja, bastaram nove minutos de viagem para isto acontecer e eu já começo a pensar que o problema não são as obras em Lisboa, mas sim os lisboetas.

Alameda dos Oceanos

Alameda dos Oceanos

Sigo em frente e viro à esquerda na placa amarela que diz “DESVIO”, que me leva de novo à rota convencional, na Alameda dos Oceanos. Contorno a rotunda, saio em direção à Rua Cintura do Porto e preparo-me para o desvio que tenho pela frente — a via do meu lado está suprimida ao longo de cerca de 500 metros e por isso eu e os meus colegas de estrada temos de passar para a faixa esquerda, onde os carros circulam temporariamente nos dois sentidos. O chão está cheio de marcas amarelas — as tais que indicam os percursos temporários em época de obras. Por momentos, fantasio com a possibilidade de um dia destes investir numa fábrica de tinta amarela e fazer fortuna em altura de eleições autárquicas.

Basta meio quilómetro para esquecer o meu projeto industrial e continuar o meu passeio à beira-Tejo. Às 8h43, isto é, 11 minutos depois da minha partida, já estou a passar pelo Beato, ao largo da Avenida Infante Dom Henrique. Do meu lado não há fila, mas no sentido oposto há uma fila com cerca de 20 carros que esperam à frente de mais uma placa de “DESVIO”. Com votos de boa viagem, deixo-os pelas costas e avanço sem problemas até Xabregas.

Sigo pela faixa da direita, porque fui bem ensinado pelo meu instrutor de condução, mas logo sou prejudicado pelo meu bom comportamento quando começo a subir o viaduto antes da estação de Santa Apolónia. É que, mesmo no início da subida, parece estar concentrada uma boa parte da chuva que caiu ao final da tarde de domingo em Lisboa. O início da subida é complicado, o ritmo de circulação na faixa da direita abranda perante a enchente, ao passo que na da esquerda não há problemas. Ponho o carro em primeira e lá ultrapasso esta prova, às 8h47.

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Na Avenida Infante Dom Henrique, quase a chegar ao Terreiro do Paço

Chego a Santa Apolónia e avanço sem problemas, apesar do caos. A páginas tantas, já quase a chegar ao Campo das Cebolas, a rua interior é cortada e vai desaguar na Avenida Infante Dom Henrique que, por sua vez, é cortada para metade da largura. Agora circulamos todos do lado esquerdo da rua, cada faixa para seu lado. O chão continua pintalgado de amarelo, eu volto a pensar no meu futuro de industrialista abastado, mas logo reparo que ainda há setas no chão do meu lado que apontam para trás. Mas não sou eu que estou mal — e, se estivesse, teria esta gente toda comigo. Na pior das hipóteses, é uma bela manhã de desobediência civil. Calha mesmo bem, agora que estou quase a chegar aos ministérios do Terreiro do Paço. O relógio marca as 8h54.

À entrada do Cais do Sodré, lembro-me das noites em que, quando frequento um ou outro bar daquela zona, me dá vontade de ir à casa de banho. Primeiro penso que dá consigo evitar, depois rendo-me às evidências e ponho-me a andar. Segue-se um caminho que faço com extremo cuidado, a ver se não escorrego num copo partido, se nenhum tipo me entorna cerveja para cima ou se aquela miúda que dança exuberantemente não me vaza uma vista a meio do solo da Bohemian Rhapsody dos Queen.

Avanço sem demoras, até consigo ir mais depressa do que um jovem que se esforça na sua corrida matinal. Mas depois há aquele epicentro da construção civil ao qual, um dia, os lisboetas chamaram de Cais do Sodré. À entrada, lembro-me das noites em que, quando frequento um ou outro bar daquela zona, me dá vontade de ir à casa de banho. Primeiro penso que consigo evitar, depois rendo-me às evidências e ponho-me a andar. Segue-se um caminho que faço com extremo cuidado, a ver se não escorrego num copo partido, se nenhum tipo me entorna cerveja para cima ou se aquela miúda que dança exuberantemente não me vaza uma vista a meio do solo de guitarra da Bohemian Rhapsody dos Queen. Só quando o Freddy Mercury canta “nothing really matters… to meeeee” é que descanso. Ufa, já estou na Avenida 24 de julho e são 8h57.

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As obras no Cais do Sodré

Há dias de sorte e hoje é um deles: mais uma onda verde. Do outro lado é que as coisas estão mais complicadas, com uma fila que vai desde a altura do Jardim Dom Luís até à entrada do Cais do Sodré. Boa sorte a todos, tenham cuidado com os copos partidos. Eu cá vou andando, rumo ao meu objetivo final. Às 9h00 já estou a passar pela Rocha do Conde de Óbidos. Sigo em frente, passo debaixo do viaduto da Avenida Infante Santo e já vejo o Museu do Oriente do lado de lá da linha do comboio. Agora não tem nada que saber: subo ao viaduto das docas e, chegado ao outro lado, avanço triunfalmente até ao Museu do Oriente.

Estaciono o carro e vejo no relógio que são 9h04, que é como quem diz que a minha viagem durou 32 minutos. Enquanto isso, o deputado do CDS e vereador em Lisboa João Gonçalves Pereira acusa, em direto na TSF, o presidente da câmara de estar a tratar a cidade como um videojogo. “A cidade não pode ser o Sim City”, diz. E não poupa nas palavras dirigidas a Fernando Medina: “Estou contra esta política autoritária de um presidente substituto que tem uma agenda eleitoralista que se sobrepõe a qualquer interesse da cidade”.

Pego no telemóvel e vejo no Facebook que o Garrett McNamara está a fazer um vídeo em direto da Nazaré, a mostrar as ondas do costume. Ó Garrett, se tu tivesses estas ondas que eu surfei hoje é que te passavas…

Texto de João de Almeida Dias

Campo de Ourique – Lumiar, de transportes públicos

Primeira parte: autocarro

Tei quer óf ió bilónguingues. Pei chpéchial atentchion uén enteringue ó eisitingue de tren

A mensagem soa duas vezes, intercalada por um aviso para ter cuidado com a distância entre o cais e o comboio. Há anos que oiço este aviso na estação do Marquês de Pombal e nunca achei particularmente perigoso entrar no metro. Não é para avaliar se o mind the gap faz sentido que aqui estou, no entanto. Propuseram-me o desafio de ir de Campo de Ourique ao Lumiar de transportes públicos e já estou prestes a iniciar a segunda etapa.

A primeira começou junto aos Prazeres, no lisboetíssimo bairro de Campo de Ourique. É um lugar encantador, cheio de motivos de interesse, mas com poucos transportes. Exatamente às 8h30 estou na paragem de autocarros mesmo junto ao muro do cemitério. Analiso percursos e horários. A melhor opção parece ser o 709, que sai dali em direção aos Restauradores e faz paragens no Rato e junto à Avenida da Liberdade, a pouca distância do metro. O cartaz afixado indica que o próximo 709 sai às 8h35. Curiosamente, o que saiu antes (às 8h22) ainda não passou da rotunda em frente à entrada do cemitério, porque há muitos automóveis parados em segunda e terceira fila para deixar crianças no Colégio dos Salesianos, situado nesta praça.

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Este cartaz não prometia nada auspicioso…

Estou sozinho na paragem e assim fico durante quatro minutos. Depois, ao aproximar-se a hora prevista de partida, aparecem umas cinco pessoas. O autocarro chega atrasado dois minutos e põe-se em marcha mal os passageiros acabam de entrar.

São 8h37. A rotunda já está desimpedida e o 709 lança-se velozmente pela Rua de Saraiva Carvalho e deixa para trás todas as lojas de tecidos, a igreja de Santo Condestável, o mercado, o restaurante japonês e o supermercado. Quase no fim da artéria, antes de descer a Domingos Sequeira para a Estrela, paragem para abastecer de passageiros. Agora estão umas quarenta pessoas a bordo.

O bom ritmo da viagem é interrompido abruptamente à entrada da Rua da Estrela, que contorna o jardim homónimo pelo lado esquerdo e dá acesso à Avenida Álvares Cabral. Aqui há fila e, para fazer o percurso até à esquina do Liceu Pedro Nunes, o autocarro demora quatro minutos. Depois, na avenida, alguns semáforos e passadeiras atrasam ligeiramente o ritmo da marcha — mas chego ao Largo do Rato menos de três minutos depois. Vamos a contas: desde que entrei no autocarro passaram 13 minutos; desde que cheguei à paragem passaram 20. Os vinte segundos que o 709 leva a atravessar o Rato até ao início da Alexandre Herculano dão-me confiança para não sair já e espero pela paragem do fim desta rua, junto à Avenida da Liberdade, muito próxima da entrada do metro do Marquês de Pombal. Sempre é menos uma estação.

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Largo do Rato, muito smooth

Aposta ganha. Já na rua, olho para o cronómetro: 15 minutos de viagem no autocarro. Falta ainda o percurso mais longo, desde o centro até à parte alta, o Lumiar. Obviamente, vou de metro.

Segunda parte: metro

Até à estação a caminhada é pequena e agradável: a avenida cheira a terra molhada. Entro no túnel, desço à plataforma da linha azul e viro-me para subir até à linha amarela. Contratempo! As escadas rolantes que sobem estão paradas. Vou pelas escadas normais, atravesso a passadeira rolante completamente sozinho e, quando chego ao átrio que dá acesso à linha amarela, um mar de gente começa a vir na minha direção. Acabou de passar um metro com destino ao Rato.

Pelos vistos também não foi há muito tempo que passou um no sentido de Odivelas. Chego ao cais e só lá está meia dúzia de pessoas. São 8h58. O placard eletrónico não diz quanto tempo falta para o próximo comboio. Entretanto a plataforma começa a encher-se de gente. Quatro minutos de espera depois, lá vem o metro. Fica bem composto mas não cheio. Arranja-se facilmente um lugar sentado.

A viagem decorre sem qualquer acontecimento de relevo. O comboio demora minuto e meio a ir do Campo Pequeno a Entrecampos. Ali, olho pela janela e vejo uma multidão de pessoas à espera do metro em sentido contrário. Ele aproxima-se enquanto ainda estamos parados e já vem cheio. Em contraste, as estações do Saldanha e da Cidade Universitária estão praticamente vazias.

Chego à estação do Lumiar depois de 14 minutos de viagem. São 9h16. Passaram 46 minutos desde que cheguei à paragem nos Prazeres e 29 desde que entrei no autocarro. Basta um brevíssimo passeio e chego ao destino: centro comercial do Lumiar, mesmo à saída do metro.

Contas finais: 29 minutos em viagem, 21 em transbordos e tempo de espera. Ao todo, exatamente 50 minutos desde que saí de Campo de Ourique. Como terá sido a viagem dos outros?

Texto de João Pedro Pincha

Odivelas – Amoreiras, de carro

Às vezes o número 1 não o seria se não fosse pela genica do número 2. Okay, larguemos as charadas. Nicky Grist foi o experimente copiloto de Colin McRae (1997-2006), uma lenda do rali mundial, que morreu em 2007 depois de um acidente de helicóptero. Esta lengalenga serve para dizer que precisei de um senhor copiloto para fazer esta travessia entre o centro de Odivelas e as Amoreiras, perto do Marquês de Pombal. O meu número 2 é o Google Maps, por isso vou tratá-lo por Nicky.

Fechado o live para o Facebook do Observador, era tempo de me fazer à estrada. Estou no centro de Odivelas, não conheço patavina. O Nicky vai merecer um almoço à maneira. Hora de ligar as ferramentas todas: dois gravadores para ir comentando a viagem, uma app de corrida para medir o ritmo a que comia quilómetros (seria um fracasso esta ideia) e o carro.

O Nicky diz-me que vamos limpar isto em 30 minutos. São 15 quilómetros entre o centro de Odivelas, mais ou menos perto das Finanças, e o centro comercial das Amoreiras. Não haverá obras pelo caminho, como acontece no centro da capital, mas surgirá um ou outro desafio. Siga: são 8h39.

Na saída de Odivelas está tudo sereno. Vou seguir em direção à CRIL e Pontinha. Há meninos a caminhar com as mochilas penduradas às costas, há homens e mulheres com o passo mais acelerado. É segunda-feira de manhã. Com tanta ferramenta ligada, o rádio tem de estar desligado. Os sentidos estão mais apurados, parece uma verdadeira missão. O Nicky está habituado a estas andanças, claro, nem treme.

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A36

“Um quilómetro”, berra a senhora da aplicação da corrida. Demorei cinco minutos e quatro segundos a fazer o primeiro quilómetro desta aventura. “Já fiz melhor a queimar sola do sapato”, ocorre-me a gabarolice. Bom, vamos a isto, vão começar os desafios. Há algum abrandamento na entrada para a A36. Veem-se muitos carros, mas dá para ir em terceira, outras vezes dá apenas para manter os 40km/h — vão ser quase 6 quilómetros aqui. O Nicky garante que é melhor sair onde diz Damaia, Venda Nova e Amadora. Antes, na zona do centro comercial Strada, há outra entrada para as pessoas que querem sair de Odivelas e o trânsito volta a ficar ao ralenti. O Nicky começa a ficar vaidoso e diz que chegaríamos às Amoreiras pelas 9h08. Ainda faltam 11 quilómetros, homem…

O céu prometia uma carga de água daquelas que metem respeito. Os avisos nas estradas, para moderar a velocidade com chuva, iam surgindo. Mas o prometido não chegaria. Continuando, o Nicky meteu-nos por caminhos alternativos. Já dei um toca e foge na Damaia e Buraca. Veem-se muitos prédios, carros nem por isso. O sol parecia querer romper, como que elogiando a iluminada sabedoria do copiloto. Não conhecendo Odivelas, nem sabendo como chegar às Amoreiras, confio cegamente no Nicky. Ou seja, não nos metemos por sítios do costume, não há rotinas, não há vícios. Esta conclusão leva-me a refletir que muita gente demorará sempre mais do que nós, por fazer o mesmo de sempre todas as manhãs.

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Estrada de Monsanto (HTS)

Chego então a um lugar que já conheço de trás para a frente: Pina Manique. A Segunda Circular é já ali; o campo do Casa Pia fica ali atrás. O congestionamento vai subindo de tom, mas nada preocupante. Circulava tudo com normalidade. Seguimos agora para a Estrada de Monsanto, como se fôssemos em direção a Ajuda, Alvito, ou até outras opções como A5. As rotundas pelo caminho vão, no limite, atrasando um pouco o processo.

Olho para o Nicky e ele já está a tornar-se mais humilde nas previsões. Está com menos moral, com as complicações na Estrada de Monsanto. A seguir, respira-se melhor na Estrada do Alvito, de onde já era moral e já pinta a vermelho algumas das rotas. Começamos então a abrandar a sério nesta viagem, e até já consigo vislumbrar o filme de terror da A5.

Olho para o Nicky e ele já está a tornar-se mais humilde nas previsões. Está com menos moral, com as complicações na Estrada de Monsanto. A seguir, respira-se melhor na Estrada do Alvito, numa zona onde já pinta a vermelho algumas das rotas. Começamos então a abrandar a sério nesta viagem, e até já consigo vislumbrar o filme de terror da A5: muitos carros, para-arranca. Fazer isto tudo sem música é só mais um castigo.

O Nicky diz-me que faltavam 3.5 quilómetros para o destino final, e que os conseguiríamos fazer em dez minutos. You wish, my friend. Era vê-lo a somar minutos à previsão, como quem enche os bolsos de rebuçados à socapa numa festa, qual “Jeremias, O Fora da Lei”. Na Estrada do Alvito esteve tudo pacífico, mas a coisa desafinou na Estrada da Pimenteira, que nos levará ao Viaduto Duarte Pacheco. Aí convergem condutores que chegam do Eixo Norte-Sul, Praça de Espanha e Av. Ceuta. E acontece o expectável: esperar, esperar, esperar, numa espécie de Walking Dead sobre rodas.

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Viaduto Duarte Pacheco (HTS)

Faltam dois quilómetros para o destino final e, lá está, o amigo Nicky diz que faltam os tais dez minutos. Esses dez minutos talvez tenham servido só para entrar no viaduto. Devagar, devagarinho, sem buzinas, sem stress, isto é o fado desta gente diariamente.

E, pronto, lá seguimos a procissão naqueles 1300 metros até às Amoreiras. O filme matinal do centro de Lisboa continua para aqueles que seguem em frente, para o Túnel do Marquês. Para nós, está feito. Desligo o cronómetro e ele canta 44 minutos. O Colin McRae era capaz de fazer melhor, mas o Nicky fez o trabalho dele e inventou fugas ao trânsito. Missão cumprida. Hora de chegada: 9h23.

Texto de Hugo Tavares da Silva

Largo da Graça — Colégio Militar, de transportes públicos

O nosso objetivo é experimentar o funcionamento do metro e do elétrico em Lisboa, numa segunda-feira de manhã, no contexto das obras que estão a ser realizadas na cidade. O ponto de partida é o Largo da Graça e o destino final é a estação de metro do Colégio Militar/Luz. Não é necessariamente o trajeto mais prático, mas representa uma boa oportunidade para observar como a cidade se move em transportes públicos e quanto tempo demora para realizar este trajeto.

A nossa viagem começa no Largo da Graça, onde a Câmara Municipal de Lisboa está a trabalhar para alargar os passeios e criar uma praça, no lugar em que, atualmente, se encontra a paragem do elétrico 28. Alheias às obras, cinco pessoas esperam a chegada do meio de transporte mais icónico da cidade. Às 8h52, subimos no elétrico 28E – seis minutos depois de chegarmos à paragem.

O elétrico está cheio, mas não está lotado. Apesar de todos os assentos estarem ocupados, há espaço para viajar de pé. A maior parte das pessoas são turistas — o elétrico parece ser o meio de transporte preferido dos visitantes da capital portuguesa. Havia ainda duas mães com os seus filhos, preparados para ir para a escola, e alguns idosos. Questionados pelo Observador sobre a frequência com que utilizam o elétrico, os idosos responderam que esta é principal maneira para sair da Graça, mas apenas durante a manhã, quando há menos passageiros.

Não há nenhum contratempo durante o trajeto. Na Calçada de São Vicente, em frente à Igreja de São Vicente de Fora, uma carrinha interrompe momentaneamente o trânsito para fazer uma descarga. No entanto, ninguém parece importar-se com a paragem, pois a igreja, localizada exatamente ao lado esquerdo, ocupa-se de distrair os passageiros. É quase uma paragem programada num passeio turístico.

Outra pequena interrupção acontece na Rua do Limoeiro, na descida em direção à Sé de Lisboa: a porta traseira do elétrico não está fechada. O condutor tem de descer e fechá-la manualmente. Para os turistas, é mais uma anedota sobre a experiência de andar de elétrico. Para os passageiros ocasionais, é um evento relativamente comum para quem utiliza este meio de transporte no seu quotidiano.

Às 9h11, chegamos ao Largo do Chiado. Estamos, até ao momento, imunes a eventuais congestionamentos resultantes de obras, num percurso com duração total de dezanove minutos.

A segunda parte da viagem começa às 9h36 na estação de metro Baixa-Chiado.

A Lisboa apressada, que se move por debaixo da cidade, acorda cedo. Desde o corredor de acesso ao metro, é possível ver a plataforma da linha azul cheia, no sentido Reboleira. O relógio indica que faltam seis minutos para a chegada do próximo metro e, a menos de dois minutos, o cenário anterior volta a repetir-se com a plataforma devidamente ocupada.

Às 9h46, estamos dentro de uma carruagem completa, mas não lotada. Estudantes, trabalhadores e turistas preenchem o espaço com a mesma naturalidade com a qual descem e observam o seu lugar ser ocupado por outra pessoa. Algumas pessoas olham o relógio preocupadas com o seu eventual atraso. O tempo de chegada ao destino é, contudo, previsível e facilmente calculado com a experiência de utilizar a mesma linha (quase) todos os dias.

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(Milton Cappelletti)

Após a estação de São Sebastião, no cruzamento com a linha vermelha, já é possível sentarmo-nos. Às 10h02, 15 minutos depois de entrar no metro, já estamos no Colégio Militar/Luz, o ponto final da nossa viagem. Sem filas ou congestionamentos, a Lisboa subterrânea não deve lembrar-se da existência de obras na cidade. No total a viagem durou 34 minutos.

Texto de Milton Cappelletti

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