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Claques, engarrafamentos, relatos. Por detrás da cortina da Fórmula 1, o circo nómada que voltou a ser de Monte Carlo /premium

Charles Leclerc venceu em Monza, na casa da Ferrari, e voltou a ser o mais rápido do circo que é cada vez mais de Monte Carlo. O Observador esteve em Itália e conta os bastidores da Fórmula 1.

A experiência de um verdadeiro adepto, seguidor ou entusiasta de um determinado desporto afunila à medida que esse mesmo adepto, seguidor ou entusiasta se dedica de forma progressiva àquilo que o move. Ou seja, especifica-se de maneira crescente quando também o adepto, seguidor ou entusiasta vai colecionando os cromos da caderneta de experiências a ter. No futebol, naquela que é a realidade mais próxima dos adeptos, seguidores e entusiastas portugueses, tudo começa ao assistir aos jogos em casa da equipa predileta. Depois, o objetivo afunila para os jogos fora de casa e em seguida para os que acontecem fora do país, em caso de competições europeias.

A experiência de um verdadeiro adepto, seguidor e entusiasta de futebol, porém, não se restringe a um clube. Com o passar do tempo, os cromos a colecionar tornam-se ainda mais raros: uma final de uma Liga dos Campeões, uma final de um Campeonato da Europa ou do Mundo, mesmo que todas estas aconteçam sem a presença de uma equipa portuguesa ou da Seleção Nacional. O mesmo acontece com o basquetebol e com os verdadeiros aficionados que se deslocam aos Estados Unidos para ver um jogo da NBA ao vivo; com os inveterados apaixonados por ténis que viajam até Inglaterra à procura de um lugar em Wimbledon; e com os amantes de atletismo, canoagem, judo ou qualquer outra modalidade olímpica que organizam com anos de antecedência a ida à edição seguinte dos Jogos.

O piloto monegasco foi mais rápido do que Lewis Hamilton pela segunda semana consecutiva

NurPhoto via Getty Images

A escala de dedicação de um adepto, seguidor e entusiasta é diametralmente proporcional à raridade dos cromos que faltam nas respetivas cadernetas. Na Fórmula 1, o primeiro passo para ser um verdadeiro aficionado prende-se com a decisão de pagar a mensalidade de canais de televisão para assistir às corridas; depois, os fãs de Fórmula 1 têm normalmente uma equipa – e um piloto – predileta; o passo seguinte está no ato de organizar uma viagem, entrar num avião e ir passar um fim de semana inteiro a uma qualquer outra cidade para assistir a um Grande Prémio. Por fim, a escolha do Grande Prémio. Que para um adepto, seguidor e entusiasta nada tem que ver com orçamentos, turismo ou clima e está intimamente relacionada com o passo número 2. Um fã da Mercedes, escolherá o Grande Prémio da Alemanha para jogar em casa; um fã da Renault, escolherá o Grande Prémio de França pelo mesmo motivo; um fã da Ferrari, sem sombra de dúvidas, escolhe o Grande Prémio de Itália. Porque entrar no circuito de Monza vestido de vermelho é muito mais do que estar em casa.

Este domingo, Charles Leclerc foi o piloto mais rápido dos 20 que arrancaram quando os semáforos se apagaram às 15h10 italianas em ponto – garantindo a segunda vitória consecutiva, a segunda vitória da carreira e a segunda semana de alegria para a Ferrari depois de uma primeira metade de temporada que correu mal em quase toda a linha. Mas antes disso, antes de o piloto monegasco subir ao lugar mais alto do pódio – e tornar o circo da Fórmula 1 cada vez mais de Monte Carlo, onde nasceu –, já Monza e arredores tinham virado um autêntico mar vermelho. Em Milão, a principal cidade à volta do circuito, as camisolas vermelhas, os bonés vermelhos e os casacos vermelhos já eram parte da paisagem desde sábado, antes sequer do início das qualificações. Num cenário que em Portugal só é comparável ao de um jogo de futebol, com as habituais romarias de adeptos vestidos a rigor, grupos de três, quatro, cinco (…) pessoas vestiam, de forma aparentemente normal, as cores de uma equipa de Fórmula 1 que é muito mais do que isso.

Na Fórmula 1, o primeiro passo para ser um verdadeiro aficionado prende-se com a decisão de pagar a mensalidade de canais de televisão para assistir às corridas; depois, os fãs de Fórmula 1 têm normalmente uma equipa – e um piloto – predileta; o passo seguinte está no ato de organizar uma viagem, entrar num avião e ir passar um fim de semana inteiro a uma qualquer outra cidade para assistir a um Grande Prémio.

E se a corrida da prova rainha do automobilismo só começou na tarde de domingo, a verdade é que a experiência de todos aqueles que não perderam a oportunidade de estar nas bancadas de Monza começou logo nas primeiras horas de sábado. A qualificação da Fórmula 3 ofereceu os primeiros roncos de motor que arrepiam qualquer um e deu depois lugar à da Fórmula 2, que se encarregou de fazer o mesmo. As categorias inferiores da Fórmula 1 – que competem com os mesmos motores do primeiro escalão mas com alterações nos turbos –, mais do que servirem de entrada para o prato principal, servem de maneira de conhecer desde logo aquele que será o futuro das grelhas, dos paddocks e das garagens. Afinal, apenas há alguns anos – ou até há alguns meses! –, Charles Leclerc, Alexander Albon, Lando Norris e George Russell abriam o apetite para Lewis Hamilton, Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen.

A qualificação da Fórmula 1, o prato forte de um sábado de Grande Prémio, obriga às primeiras recordações do sítio onde estamos. Assim que os primeiros carros saíram das garagens, as bancadas do circuito de Monza juntaram à enorme mancha vermelha formada por camisolas, bonés e casacos várias bandeiras gigantescas – novamente só comparáveis, à escala portuguesa, àquelas utilizadas pelas claques nos jogos de futebol. O símbolo mítico da Ferrari unia-se a ilustrações de Leclerc e Vettel, os dois pilotos, e a uma frase repetida em cartazes e demonstrações de apoio: “Non si può descrivere la passione, la si può solo vivere“,Não se pode descrever a paixão, só se pode vivê-la em português. Mas este ano, este fim de semana, existia uma outra cara que não a dos dois pilotos que era protagonista em inúmeros cartazes. A de Niki Lauda, que nos últimos anos até esteve intimamente ligado à Mercedes mas que foi um símbolo da Ferrari, que morreu há três meses e teve (mais) uma sentida homenagem em Monza.

Nas bancadas, muitos adeptos viraram costas à pista para assistir à corrida no ecrã gigante

AFP/Getty Images

E se as bandeiras abanavam com entusiasmo e as vozes se ouviam com ímpeto sempre que um dos dois carros vermelhos passava, a verdade é que abanavam com fervor ao som de assobios sempre que Lewis Hamilton acelerava perto de uma bancada. O piloto inglês, que está na liderança da classificação geral e que será, muito provavelmente, campeão mundial pela sexta vez na carreira, é o principal rival e obstáculo das ambições da Ferrari – e ninguém em Monza se esqueceu disso. No final da qualificação, Charles Leclerc garantiu a pole position, tal como havia feito na semana passada, e deixou os dois Mercedes na segunda linha. Na ida para casa, os tifosi vestidos de vermelho levavam a esperança da vitória que escapava desde 2010, ano em que Fernando Alonso ganhou o Grande Prémio de Itália pela Ferrari, um feito que permanecia por repetir até este fim de semana.

Domingo. Se a circulação de carros e pessoas já era difícil no dia anterior, a coexistência de milhares para assistir ao Grande Prémio cria verdadeiros engarrafamentos nos acessos ao circuito, num caos só controlado pela paciência dos inúmeros stewards que, de voz certeira e decidida, gritam stop e go como autênticas vozes de comando. Lá dentro, quase a mesma rotina de sábado: corrida da Fórmula 3, corrida da Fórmula 2 e tudo preparado – e ansioso – para o início da prova de Fórmula 1. Enquanto Hamilton, Vettel e companhia completam a parada de pilotos à boleia de carros antigos e históricos, lá fora os carros das categorias inferiores já estão parqueados, no habitual período depois da bandeira de xadrez em que os veículos têm de ficar imobilizados caso exista um protesto por parte de alguma equipa. As equipas, essas, começam a arrumar o circo nómada que muda de cidade, e por vezes de continente, de duas em duas semanas. Desmontam-se os carros, arrumam-se ferramentas, empilham-se pneus. Entre tendas e tendas, todas contíguas umas às outras, já praticamente vazias e só com mecânicos e engenheiros atarefados, destaca-se a imagem de Anthoine Hubert, o piloto de Fórmula 2 de apenas 22 anos que morreu no último Grande Prémio, na Bélgica. A equipa do jovem francês, a BWT Arden, viajou com um quadro com a fotografia do piloto. E na ausência de carros, na ausência de pessoas, na ausência de estruturas, era Anthoine Hubert quem permanecia na tenda.

Domingo. Se a circulação de carros e pessoas já era difícil no dia anterior, a coexistência de milhares para assistir ao Grande Prémio cria verdadeiros engarrafamentos nos acessos ao circuito, num caos só controlado pela paciência dos inúmeros stewards que, de voz certeira e decidida, gritam stop e go como autênticas vozes de comando.

Lá dentro, tudo pronto para o arranque. Na zona VIP, saltavam à vista as caras conhecidas, entre o recém-reformado Patrice Evra e o português Miguel Veloso, que aproveitou a paragem da Serie A para os compromissos das seleções para assistir ao Grande Prémio. Charles Leclerc foi líder do princípio ao fim, Lewis Hamilton perdeu o segundo lugar para o colega Valtteri Bottas, Sebastian Vettel fez um pião logo nas primeiras curvas e não conseguiu mais do que uma 13.ª posição. Tudo isto era relatado pelo speaker do circuito de Monza como, novamente, é habitualmente relatado um jogo de futebol: com uma ultrapassagem a ser descrita como um golo, com um erro a ser descrito como um penálti falhado, com uma luta por um lugar a ser descrita como os últimos segundos de uma final da Liga dos Campeões. Com a voz a quebrar e um inevitável mamma mia a aparecer de quando em vez, o speaker acrescentava emoção à já impressionante corrida. Nas bancadas, mais do que bandeiras, camisolas, bonés e casacos, os tifosi da Ferrari tinham este domingo autênticos dinamizadores, um rapaz e uma rapariga à frente de todas as filas a encenar coreografias e a motivar reações.

Nove anos depois, a Ferrari ganhou em Monza. E nove anos depois, a já habitual (e sempre impressionante) invasão de pista pelos milhares de fãs da equipa italiana tornou-se ainda mais especial. Depois da última passagem pela reta da meta, depois da subida ao pódio e depois do fim de um corte de estrada que se estendeu desde antes das 17h às 19h – e que impediu a saída de qualquer carro do circuito –, os adeptos, seguidores e entusiastas da Ferrari seguiram para casa satisfeitos. Seja essa casa em Itália, na Europa ou em qualquer parte do mundo. Em Monza, o circo nómada que voltou a ser de Monte Carlo arrumou as malas e já pensa no destino de daqui a duas semanas, em Singapura.

O Observador viajou a convite da Philip Morris International

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