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Com mão de lobo, Borrego estrangulou quatro e gabou-se de ter morto mais dez. O primeiro estripador português foi preso há 50 anos /premium

AVISO

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Entre março de 1969 e novembro de 1970, José Domingos Borrego matou e desfigurou pelo menos 4 homens. Confessou tudo com um sorriso — e um prato de bacalhau com batatas. Era frio, sádico e sanguinário

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Já não era a primeira vez que Sanduga, com quem vivia há um mês e meio numa barraca algures na estrada entre Porto Salvo e Paço de Arcos, lhe dizia que queria ir para França. Lá é que se ganhava bom dinheiro, chegavam a ser aos 250 escudos por dia, ia repetindo o homem, José Pedro dos Reis segundo o assento de nascimento, pelo menos era o que lhe tinha garantido, por carta, um amigo emigrado há pouco tempo.

O ex-marinheiro, que agora andava ao papel pelos caixotes do lixo, só tinha um problema: faltavam-lhe os cinco contos essenciais para o salto — dois para o passador que já se tinha disponibilizado a deixá-lo de lado de lá da fronteira, outros três para se aguentar nos primeiros meses em terras gaulesas.

Às 5h30, como um estranhamente sorridente José Domingos Borrego viria a confessar à Polícia Judiciária dois dias mais tarde, José Pedro dos Reis já estava morto — e desfigurado: para que não fosse reconhecido no “retrato dos jornais”, picou-lhe os olhos e cortou-lhe as orelhas.

Na noite de domingo, dia 15 de novembro de 1971, enquanto bebiam na Leitaria Marginal, Sanduga, 44 anos, voltou a pedir ao amigo que lhe emprestasse o dinheiro. E, para sua surpresa, José Domingos Borrego, 43, antigo pastor, amolador de tesouras e operário na construção civil, à data afinador de máquinas de costura e vendedor de roupas e algodão, ligaduras e tesouras em feiras e mercados, disse-lhe que sim.

Ali, na hora, passou-lhe para as mãos cinco notas “de quilo”, sob o olhar atento de duas testemunhas, o senhor Olímpio, dono da leitaria, e Daniel da Graça, bate-chapas de profissão. Depois, voltaram para a barraca, onde os esperavam os dez cães de Sanduga, e deitaram-se. Seria a última noite que passariam sob o mesmo teto baixo e de madeira. Na manhã seguinte, pelas 5h da madrugada, Sanduga meter-se-ia finalmente a caminho da tão almejada França.

Ansioso pela partida do amigo, José Domingos Borrego pôs ele próprio o despertador. Quando, às 5h, Sanduga se virou para o outro lado, em vez de se pôr de pé, Borrego fê-lo sair da cama. Assim que ele lhe disse que tinha mudado de ideias e que afinal já não ia, exigiu o dinheiro de volta. A discussão subiu de tom quando Sanduga, depois de começar por dizer que ia usar o dinheiro para fazer obras na barraca, desistiu e lhe atirou as notas para cima: “Meta o dinheiro no rabo!”.

Depois de descansar uma meia hora, deitado na cama, ao lado do cadáver, Borrego pegou num serrote e tratou de retalhar o cadáver de Sanduga: primeiro cortou-lhe o pescoço, com a ajuda de um cutelo, depois os braços e a seguir as pernas. No final, meteu o tronco num saco de plástico e a cabeça e os membros num outro, que guardou numa mala de madeira.

Daí até Borrego estar com as mãos em volta do pescoço do amigo e a bater-lhe na cabeça com a pedra que usava para os pregos foi um instante. Às 5h30, como um estranhamente sorridente José Domingos Borrego viria a confessar à Polícia Judiciária dois dias mais tarde, José Pedro dos Reis já estava morto — e desfigurado: para que não fosse reconhecido no “retrato dos jornais”, picou-lhe os olhos e cortou-lhe as orelhas.

Ainda assim, o trabalho do assassino, que entraria para a história como o primeiro estripador português, estava longe de terminado. Depois de descansar uma meia hora, deitado na cama, ao lado do cadáver, Borrego pegou num serrote e tratou de retalhar o cadáver de Sanduga: primeiro cortou-lhe o pescoço, com a ajuda de um cutelo, depois os braços e a seguir as pernas. No final, meteu o tronco num saco de plástico e a cabeça e os membros num outro, que guardou numa mala de madeira. Por volta das 7h, duas horas depois de o despertador ter tocado, já estava a sair da barraca, no Caminho do Mocho, rumo à estação de Paço de Arcos.

Cabeça e membros em Lisboa, tronco em Setúbal

O objetivo, reconheceria José Domingos Borrego à polícia, era evitar ser relacionado com o crime — “menos de 28 anos não apanhava”, chegou a dizer. Por isso mesmo, atravessou Lisboa inteira com a mala com os pedaços de Sandugo às costas: primeiro foi de comboio até Alcântara e de lá pagou 11 escudos por um táxi para Campolide, onde apanhou depois outro comboio, em direção a Moscavide. Seriam umas 10h quando entrou na taberna mesmo em frente ao apeadeiro e pediu uma laranjada: estava cansado e com sede, a mala estava muito pesada, explicaria aos agentes.

Borrego, sorridente, nas fotografias tiradas pela Polícia Judiciária

Também começava a pingar sangue, mas nisso quem reparou foi uma freguesa que entretanto entrou no tasco, onde se vendiam hortaliças e frutas além de bebidas. Questionado pelo taberneiro, que se apressou a deitar serradura para cima da poça encarniçada, Borrego explicou que se dedicava “ao negócio” e, sem mais explicações, saiu rapidamente em direção à linha ferroviária e ao Tejo. Quando encontrou um sítio suficientemente afastado e insuspeito, deixou o saco, limpou a mala com uns papéis que atirou ao rio e pôs-se a caminho da barraca.

Na altura em que as notícias apareceram nos jornais vespertinos do dia seguinte, 17 de novembro — uma rapariga de 20 anos tinha encontrado um pé dentro de um saco de plástico, na Matinha; a polícia achara o resto: pernas, braços e cabeça, com cabelos escuros —, Borrego, já tinha uma noite de sono bem dormida. E ia a caminho de Setúbal — comboio, barco, camioneta —, com a mala de madeira agora cheia com o que faltava de José Pedro dos Reis, o tronco.

“Lembrou-se de um poço que conhecia em Setúbal, na Quinta de São João, poço esse pouco fundo e sem água, próximo da esquadra, onde já havia pernoitado algumas noites durante o Verão”.
Manuel Fernandes de Sousa, agente da PJ, auto de declarações de José Domingos Borrego

“Lembrou-se de um poço que conhecia em Setúbal, na Quinta de São João, poço esse pouco fundo e sem água, próximo da esquadra, onde já havia pernoitado algumas noites durante o Verão”, viria a escrever-se nos autos em que o agente Manuel Fernandes de Sousa, da PJ, registou os depoimentos do homicida. Depois de largar a segunda metade do corpo ali mesmo, Borrego pôs-se mais uma vez a caminho de Paço de Arcos — com uma paragem no Cais do Sodré, onde depositou a mala ensanguentada e vazia, que já não se justificava continuar a arrastar pela cidade. Passava das 2h quando chegou à barraca. A polícia estava lá, à espera dele.

“Esta minha mão de lobo não perdoa”

Apesar do esforço que fez para deixar Sanduga irreconhecível e bem longe do casebre que tinham partilhado no último mês e meio, Borrego esqueceu-se de um pormenor essencial: o amigo tinha cadastro, portanto foi uma questão de horas até que a Polícia Científica processasse as impressões digitais e conseguisse a sua identificação. Daí até ficarem a saber, pelos vizinhos do Caminho do Mocho, que a vítima era inseparável de um homem alto, forte, endinheirado e que trabalhava como afinador de máquinas de costura, foram minutos.

O alarme tocou imediatamente: também Leonel Abrantes da Cunha, a vítima tatuada que um mês antes tinham encontrado já meio decomposta, morta, semi-nua e com a face desfigurada, num pinhal na Quinta da Varzinha, em Setúbal, tinha sido vista na companhia de um homem com características semelhantes — e profissão igual. Não podia ser coincidência: “Quem matou um, matou o outro”, determinaram antes de o verem sequer chegar.

A PJ recorreu à imprensa para tentar identificar o cadáver de Leonel Abrantes da Cunha

A confissão foi arrancada à força de um prato de bacalhau cozido com batatas, e vinho a acompanhar, numa tasca do Conde Redondo, viria a revelar o inspetor Artur Varatojo — que por várias vezes visitou o preso 649, na cela 4 da Penitenciária de Lisboa —, no livro “O Caso Borrego, o 1.º Estripador Português”.

“Vossas excelências, que me trataram tão bem, merecem que eu conte tudo, toda a verdade. Queiram fazer o favor de me seguir. Por aqui… sofro dos nervos e tenho a tensão alta”, citou o Diário de Notícias no dia seguinte, 19 de novembro, já Borrego — “sanguinário”, “frio”, “sádico”, “psicopata” — era adjetivado por todos os jornais.

Chamados a assistir à reconstituição dos crimes da Matinha e de Setúbal, os repórteres encontraram um homem aparentemente impassível, bem disposto, até, que descrevia com o mesmo sorriso com que tinha ostentado na fotografia de cadastro a forma como tinha assassinado, sem premeditar, os homens com quem tinha partilhado negócios e vida nos últimos meses. “Foi aqui que o cortei aos pedaços”; “Perguntem o que quiserem que eu respondo”; “Esta minha mão de lobo não perdoa”, ia dizendo enquanto detalhava a forma como tinha lutado com Leonel da Cunha, primeiro, e com José Pedro dos Reis, um mês mais tarde.

“Vossas excelências, que me trataram tão bem, merecem que eu conte tudo, toda a verdade. Queiram fazer o favor de me seguir. Por aqui… sofro dos nervos e tenho a tensão alta”.
José Domingos Borrego, durante a reconstituição dos crimes, a 19 de novembro de 1970

“Já que só posso apanhar 28 anos de prisão, tanto me faz que seja por um como por dois”, desvalorizou ainda, dentro da barraca infeta e suja de sangue, onde um cão jazia, degolado, a um canto. “Sente-se um cheiro nauseabundo de roupa suja e podre, à mistura com utensílios domésticos e dez cães rafeiros pertencentes à vítima”, descreveria no dia seguinte o repórter do jornal O Século. “A cama é uma enxovia inclassificável e todo o ambiente é simplesmente inenarrável, que toca as raias do mais porco e miserável que se pode conceber.”

O assassino da máquina de barbear

Apesar de ter feito um apelo público para identificar o cadáver que a 16 de outubro três caçadores tinham encontrado no pinhal da Varzinha — tinha como marcas distintivas um pentagrama tatuado num braço e um desenho tosco de um homem, careca, no outro —, a polícia acabou por identificar o alfaiate e contrabandista de café, casado, natural de Manteigas e com morada num lugar algures na Serra de São Mamede, nos arredores de Portalegre, de outra forma.

Tal como Sanduga, também Leonel da Cunha, 59 anos, “indivíduo pouco recomendável e mal visto na terra”, tinha cadastro — no caso por, anos antes, ter “causado a morte a uma filha”. Ou duas, retifica ao Observador Manuel Batista, seu neto, 52 anos, nascido precisamente dois anos antes de o avô ser assassinado, na noite de 12 para 13 de outubro de 1970.

“Tinha atos muito impulsivos, andava sempre metido em conflitos e com más companhias, a minha avó estava fartíssima de lhe dizer que se ia dar mal”.
Manuel Batista, neto de Leonel Abrantes da Cunha, uma das vítimas de Borrego

“Para além da minha mãe e do meu tio, que ainda é vivo, acho que os meus avós tiveram outras duas filhas, antes de a minha mãe nascer. Aquilo que se contava na família é que as tinha atirado ao ar e deixado cair, que tinha matado as filhas assim”, revela. “Tinha atos muito impulsivos, andava sempre metido em conflitos e com más companhias, a minha avó estava fartíssima de lhe dizer que se ia dar mal.”

Como Sanduga, à data da morte, também Leonel da Cunha conhecia José Domingos Borrego há muito pouco tempo. Terá sido na Feira das Cebolas, em Portalegre, onde Borrego se deslocou em trabalho, que se falaram pela primeira vez. Poucos dias depois eram sócios, com o vendedor ambulante a oferecer-se para ser “capitalista” do negócio — Borrego entrava com o dinheiro da mercadoria, Leonel tratava de a revender, no final dividiam os lucros.

Em 15 dias estavam em Évora, a apanhar a automotora para Casa Branca, de onde seguiriam a pé para Setúbal, onde o negócio de Borrego tinha sede. Depois de alguns dias a dormir ao relento, em zonas de pinhal — “Sabem, eu gosto de dormir no campo durante o bom tempo”, explicaria o homicida, durante a reconstituição dos seus crimes —, houve uma noite em que, já estavam bem bebidos, Leonel se lembrou de que podiam visitar a casa de um amigo, dos tempos da tropa, e ficar por lá.

“Depois afastei-me, foi quando dei pela falta da minha máquina de barbear. Voltei no dia seguinte. Passei por aqui três vezes e não dei com ela. Tive de comprar outra que me custou mais 50 escudos do que a primeira”.
José Domingos Borrego, a explicar como tinha assassinado Leonel Abrantes da Cunha

“Foi por aqui, mas ele nunca mais dava com a casa do amigo, até que nos zangámos”, contou José Domingos Borrego aos agentes da PJ, enquanto abria as mãos em forma de tenaz. “Deu-me um soco e eu deitei-lhe as mãos ao pescoço, assim, e matei-o, mas custou a morrer, pois lutámos muito. Ora caía um, ora caía outro. Aliás, não sei se cheguei a cair…”, continuou a descrever.

A observação que fez a seguir contribuiu em muito para alimentar a tese do assassino psicopata e de sangue frio: “Depois afastei-me, foi quando dei pela falta da minha máquina de barbear. Voltei no dia seguinte. Passei por aqui três vezes e não dei com ela. Tive de comprar outra que me custou mais 50 escudos do que a primeira”.

Por aqueles dias, nada habituada a crimes de tamanha violência e perversidade, a imprensa deu gás a várias outras teorias: uns jornais defendiam que Borrego se tinha inspirado num filme — Psicossíssimo, uma paródia italiana de Psycho, de Alfred Hitchcock, que à data estava em exibição em Paço de Arcos —, mas não consta que o assassino tenha entrado num cinema em toda a sua vida sequer. Outros, baseados em relatos de vizinhos da dupla Sanduga-Borrego, apostaram as fichas todas na tese da homossexualidade.

As “tendências” de Borrego

Quando foi encontrado, o cadáver de Leonel da Cunha estava despido, apenas de camisola interior, sem sapatos, meias ou cuecas. Durante a reconstituição do crime, Borrego explicou que lhe tinha tirado as roupas depois de o matar, para dificultar a sua identificação. O cenário, aliado às insinuações dos vizinhos de Paço de Arcos, que garantiam que a Borrego nada havia a apontar, a não ser “o conhecimento das suas tendências”, deu força à teoria de que o homem seria homossexual, tal como as suas vítimas, e que os crimes teriam tido uma motivação sexual. “O amigo da vítima procurava insistentemente a companhia de homens da localidade, aliciando-os”, escreveu na altura o Século, juntando o dinheiro, que a Borrego nunca teria faltado, à equação: “Era sempre portador de elevadas quantias em dinheiro — dezenas de contos — que frequentemente exibia”.

Vários artigos publicados na imprensa anos — ou até décadas — após os crimes dão conta de uma pretensa purga que Borrego teria empreendido a mando de Nossa Senhora, para acabar com o “pecado” da homossexualidade masculina. De acordo com os jornais, Borrego teria seduzido as vítimas para depois as matar, esquartejar e deixar junto a linhas de água, onde “finalmente seriam purificadas”. Mas a verdade é que não há, nem nas notícias publicadas na altura nem no livro do inspetor Artur Varatojo, escrito a partir dos autos policiais de diligências e declarações do próprio homicida, qualquer referência a esta teoria.

Depois de transportar o tronco de Sanduga para Setúbal, Borrego deixou a mala suja de sangue na Estação do Cais do Sodré

“À pergunta feita respondeu que nunca notou que o Leonel gostasse de homens, isto é que o Leonel fosse homossexual”, assentou em novembro de 1970 o agente responsável pela passagem ao papel do interrogatório de José Domingos Borrego, transposto mais de 30 anos depois para “O Caso Borrego, o 1.º Estripador Português”. O tema terá sido aflorado mesmo na parte final da conversa e de forma pouco aprofundada: “Pela parte do declarante, afirma que já teve várias mulheres, cujos nomes poderá vir a referir, odiando homossexuais. Mais não declarou. Lido o achou conforme, ratifica e assina”.

“Pela parte do declarante, afirma que já teve várias mulheres, cujos nomes poderá vir a referir, odiando homossexuais. Mais não declarou. Lido o achou conforme, ratifica e assina”.
Manuel Fernandes de Sousa, agente da PJ, auto de declarações de José Domingos Borrego

Poucos dias depois de terem sido publicadas as primeiras notícias sobre o crime da Matinha, os jornais começaram a falar sobre uma possível ligação a outros dois cadáveres, encontrados também despidos e desfigurados, em setembro, numa vala em Alverca. A confirmação, porém só chegaria quatro meses mais tarde, em março de 1971, depois de Borrego muito garantir que nada tinha tido a ver com o assunto — “Nada lucraria em negar outros crimes que tivesse cometido pois só poderia ser condenado uma vez”, argumentava perante a insistência dos inspetores.

Só depois de perceber que a polícia tinha conseguido reunir provas, explicou na altura aos jornalistas, convocados para conferência de imprensa, Alfredo Allen Gomes, então adjunto da subdiretoria da PJ de Lisboa, é que José Domingos Borrego acedeu em confessar o resto, inclusivamente os homicídios de uma dezena de moedeiros falsos com que se teria cruzado no “pós guerra” — “Já agora — disse — os senhores ficam a saber tudo”, citou o Notícias da Amadora.

Os crimes da Quinta das Drogas

Foi a 10 de setembro de 1970 que uma série de crianças encontraram um cadáver em avançado estado de decomposição na Quinta das Drogas, uma zona de salinas, junto ao Tejo, em Alverca, onde, um ano e meio antes, no final de março de 1969, já tinha aparecido outro corpo, que permanecia por reclamar.

Na impossibilidade de identificar o corpo, a PJ vasculhou toda a zona à procura de pistas, que haveriam de surgir em papel — depois de reconstruirem os pedaços que os colegas tinham encontrado no terreno, os técnicos do Laboratório de Polícia Científica descobriram dois nomes: Farinha e Misericórdia de Évora.

Em março de 1971, depois de revelados os crimes de Alverca, José Domingos Borrego voltou às primeiras páginas dos jornais

Uma vez no Alentejo, tudo se tornou simples: primeiro, confirmaram que tinha estado internado naquela Misericórdia um homem, natural da Aldeia da Vendinha, então com 57 anos, chamado Francisco Rosa Farinha — e identificaram o cadáver. Assim que chegaram à fala com Ti Chico Valente, o idoso com quem Farinha tinha vivido nos últimos anos, perceberam o resto.

Em maio, ambos tinham conhecido, numa taberna de Évora, um homem novo, encorpado e muito simpático — vendedor ambulante de roupas e afinador de máquinas —, que tinham chegado a acolher na “casa abarracada” em que moravam, mediante o pagamento de uma renda. Quando o homem decidiu voltar à estrada e retomar o negócio, Francisco Rosa Farinha foi também, para ajudar como moço de recados.

A última vez que Ti Chico tinha sabido do amigo tinha sido a 15 de setembro, quando Joaquina, irmã de Francisco, lhe mostrou o postal que tinha recebido do irmão, a dizer que tinha conhecido uma espanhola e que ia com ela para França, e a recomendar que tratasse bem o homem que lhe dera emprego se por algum acaso ele voltasse a passar na terra — tinha sido “muito bom” para si. A letra, percebeu imediatamente a PJ na comparação com outros documentos, era de Borrego — até os erros de ortografia eram os mesmos.

“Tudo correu bem até certa altura. Depois ele começou a mostrar má vontade e, na noite de 2 de agosto, recusando-se a armar a tenda para nos abrigarmos, fez-me perder a cabeça. Deitei-lhe a mão ao pescoço e pronto”, confessou José Domingos Borrego, quando percebeu que o tinham novamente apanhado.

"Na Quinta das Drogas, quando lhe disse para montar a tenda para nos deitarmos, recusou-se a fazê-lo, dirigindo-me palavras ofensivas. Deu-me a costumada veneta — e zás. As minhas mãos apertaram-lhe o pescoço. Com uma pedra, desfigurei-lhe o rosto. Atirei-o, depois, para uma vala e tive a impressão de que ainda se mexeu”.
José Domingos Borrego, a confessar o homicídio do mendigo José Rodrigues da Silva

Depois, abriu o jogo e contou o resto: o outro corpo pertencia a José Rodrigues da Silva, mendigo, natural da Areosa, no Porto, e a morte também era responsabilidade sua. “Trata-se de um miserável a quem dei emprego e que também julgou, depois, estar em terra conquistada”, começou a explicar. “Não sei a idade, mas calculo entre 26 a 30 anos. Era filho de mendiga e de pai incógnito. Encontrei-o no Fundão a mendigar em fins de dezembro de 1968 ou janeiro de 1969, não me recordo bem. Na Quinta das Drogas, quando lhe disse para montar a tenda para nos deitarmos, recusou-se a fazê-lo, dirigindo-me palavras ofensivas. Deu-me a costumada veneta — e zás. As minhas mãos apertaram-lhe o pescoço. Com uma pedra, desfigurei-lhe o rosto. Atirei-o, depois, para uma vala e tive a impressão de que ainda se mexeu”, acabou de descrever, impassível como de costume — dois crimes, um método, o mesmo móbil.

Julgado pelo Tribunal de Oeiras, José Domingos Borrego foi condenado a 30 anos de prisão. Lá fora, atrás de uma árvore, conta o neto ao Observador, esperava-o Mariana Casado Ribeiro, a viúva de Leonel Abrantes da Cunha, com uma foice escondida debaixo do xaile preto. “A polícia apercebeu-se e mandou-a ter juízo. A minha avó era uma mártir nas mãos do meu avô, como eram a minha mãe e o meu tio, mas era o marido dela”, tenta justificar Manuel Batista que, tal como o avô, acrescenta em jeito de piada, cresceu para passar a vida a entrar e sair da prisão — “Ele preso, eu como guarda prisional”.

Infância, vingança e suicídio

José Domingos, que só viria a ser Borrego depois de os pais o abandonarem e deixarem a um patrão, para quem trabalhou toda a infância como pastor, nunca chegou a perceber ao certo para que nasceu, a 13 de abril de 1927, em Aranhas, concelho de Penamacor.

Os pais, disse ao inspetor Artur Varatojo, que o visitou na prisão, só serviram para o gerar. Aos 9 anos, no fatídico dia de nevoeiro em que perdeu uma ovelha, quase morreu, depois da tareia a soco e pontapé que o dono do rebanho lhe infligiu e que o deixou a vomitar sangue. “Fiquei sem forças para me levantar. Dormi dois dias no sítio em que tinha levado a porrada. Valeu-me ser verão. Teria morrido ali mesmo. Ninguém me procurou”, recordou. “Remordi na cabeça uma vingança que não podia executar. À noite via nos sonhos a cara do meu patrão, que eu esmagava com uma pedra.”

“Fiquei sem forças para me levantar. Dormi dois dias no sítio em que tinha levado a porrada. Valeu-me ser verão. Teria morrido ali mesmo. Ninguém me procurou. Remordi na cabeça uma vingança que não podia executar. À noite via nos sonhos a cara do meu patrão, que eu esmagava com uma pedra”.
José Domingos Borrego, a recordar a infância, citado pelo inspetor Artur Varatojo

Valeu-lhe a tropa: com ela conheceu o conforto de uma cama, aprendeu a ler e escrever, provou o bacalhau cozido com batatas, prato à frente do qual fez a primeira confissão. No fim, nunca se chegou a apurar se foram “para cima de 30”, como o neto de Leonel Abrantes da Cunha diz que a PJ chegou a dizer ao tio e à avó, as vítimas de José Domingos Borrego. Da contagem oficial “apenas” fazem parte o mendigo José Rodrigues da Silva, Francisco Rosa Farinha, Leonel Abrantes da Cunha e José Pedro dos Reis, o Sanduga.

Apesar de ter tentado investigar, a polícia nunca conseguiu perceber se os tais dez moedeiros falsos que Borrego se gabava de “ter mandado para o diabo” tinham mesmo sido suas vítimas ou se tudo não passava de um delírio de grandeza.

A certeza que fica da leitura dos autos é que podiam ter sido muitos mais — até na prisão, antes de ser colocado em solitária, passava a vida a fazer ameaças de morte aos outros reclusos, agrediu um guarda e tentou assassinar um preso: “Se me picam, não resisto a lançar-lhes a mão ao pescoço!”, dizia.

Acabou, com uma corda que nunca se soube de onde veio, a enforcar-se na cela 649 da Penitenciária de Lisboa, na noite do dia 14 de novembro. Em cima do catre, escreveu na altura a Capital, deixou uma nota escrita, a avisar que deixava 850 contos, que tinha enterrado algures — mas não consta que tenham sido encontrados.

Acabou, com uma corda que nunca se soube de onde veio, a enforcar-se na cela 649 da Penitenciária de Lisboa, na noite do dia 14 de novembro de 1971. Em cima do catre, escreveu na altura a Capital, deixou uma nota escrita, a avisar que deixava 850 contos, que tinha enterrado algures — mas não consta que tenham sido encontrados.

No Instituto de Medicina Legal ainda esperaram meia semana, mas não apareceu ninguém a reclamar-lhe o corpo. José Domingos Borrego, o primeiro estripador português, acabou por ser depositado num caixão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e enterrado na vala comum do Cemitério de Benfica no dia 18 de novembro de 1971, menos de um ano depois de ter sido detido pela polícia na barraca do Caminho do Mocho.

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