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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Com o cenário de fim da maioria absoluta, como se posicionam os partidos na Madeira para a eleição de domingo? /premium

Com a campanha eleitoral da Madeira a chegar ao fim, as sondagens apontam para nova vitória do PSD. Mas sem maioria absoluta. Consegue o PS virar o jogo? E o que fazem os outros partidos neste xadrez?

Enviados especiais à Madeira

Quem por estes dias andar pela ilha, em particular pelo Funchal, não conseguirá ignorar a quantidade de cartazes que se concentram nas grandes rotundas ou nas principais estradas da região. São de menor dimensão do que aqueles que se veem habitualmente no continente em eleições nacionais e estão sobretudo concentrados nas mesmas zonas. É difícil vislumbrar sinais de campanha em estradas alternativas ou em zonas menos populosas. Um contraste enorme com o centro da capital da ilha, que se veste com outdoors quanto mais nos aproximamos das zonas mais movimentadas. Os cartazes lembram aos madeirenses que no domingo há eleições como provavelmente nenhumas outras até agora, na Região Autónoma. A maioria absoluta do PSD pode estar a chegar ao fim. E se o PS vê mais longe o sonho de vitória inédita, ninguém quer desistir nesta reta final da campanha onde as principais mensagens estão afixadas há semanas. Afinal, o que nos dizem estes cartazes e que história contam da estratégia e das ambições dos candidatos às eleições regionais mais disputadas de sempre?

PSD-Madeira segue estratégia de… PS nacional

Miguel Albuquerque aposta na ideia de obra feita e palavra "cumprida". Como Costa no continente. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Paulo Cafôfo e Miguel Albuquerque dominam em número, embora o líder do PSD-Madeira se destaque por ser o único a utilizar cartazes de maior dimensão. “Cumprir. No rumo certo” é o slogan escolhido pelo Presidente do governo regional. A ideia da campanha laranja é precisamente essa: lembrar aos eleitores madeirenses e porto-santenses que ao longo dos últimos 43 anos foi sempre o PSD a liderar os destinos da região, tentando usar o capital desse passado para criar nas pessoas a ideia de segurança, estabilidade. No que resta de campanha é expectável ver o homem que substituiu Alberto João Jardim argumentar que um voto nos sociais-democratas é um voto num rumo que os eleitores do arquipélago já conhecem. A ideia de “não entrar em aventuras” e de manter a região “nas mãos de quem a trouxe até aqui” vai ser a grande aposta nos discursos que restam, como explica ao Observador uma fonte da campanha social-democrata.

Para isso, Miguel Albuquerque vai insistir no discurso que tem vindo a ensaiar nos últimos tempos e em que voltou a insistir no passado fim-de-semana: diabolizar o outro lado, em concreto o PS. O líder do PSD-Madeira quer incutir a ideia de que Paulo Cafôfo se vai deixar capturar pelos anseios dos partidos à esquerda do PS, a “extrema-esquerda”. “Imaginem o que era a Madeira governada por comunistas, por socialistas, por nulidades políticas, por indivíduos que não conseguem fazer uma sandes de queijo sem se enganarem na receita?”, questionou o presidente do governo regional no sábado. A receita do PSD é outra: acenar com o papão do socialismo — muito caro à reforçada comunidade luso-venezuelana na região e que pode valer cerca de quatro mil votos — e defender que é o partido da estabilidade.

A mensagem vai ser ainda complementada com a lembrança de “obra feita”. Daí a escolha do verbo “cumprir” para servir de mote à campanha social-democrata. Um estratégia que António Costa também está a seguir no continente na campanha para as legislativas — uma campanha de que não há sinal na região madeirense. São, aliás, muitas as semelhanças entre os cartazes do PSD-Madeira e do PS a nível nacional. Senão veja-se: Costa utiliza o lema “#cumprimos” e Albuquerque escolhe “#oPSDcumpre”. O mesmo verbo, uma hashtag parecida e a mesma ideia. Em ambos os casos, por baixo de cada lema, uma pequena lista de exemplos de promessas cumpridas. Miguel Albuquerque e António Costa têm trocado críticas ao longo dos últimos anos, mas nem tudo os separa.

Paulo Cafôfo quer ser o rosto da mudança. Mas moderada

Paulo Cafôfo quer ser o rosto da "mudança", a palavra que tem usado desde que se candidatou pela primeira vez à CM do Funchal. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Do outro lado da barricada está um confiante Paulo Cafôfo, que pode, pela primeira vez desde o 25 de abril, arrebatar o poder na região ao PSD. A última sondagem, divulgada esta terça-feira pela RTP, não aponta nesse sentido e aumenta a distância face aos sociais-democratas, mas o ex-presidente da Câmara Municipal do Funchal aposta tudo na ideia de “mudança”. Esta é, aliás, a palavra que mais tem utilizado desde que entrou para vida política: primeiro, em 2013, quando ganhou a autarquia da capital madeirense com uma coligação que usava o nome “mudança”; depois, quando renunciou ao seu mandato, em junho deste ano, para justificar a entrada na corrida à presidência do governo; e, finalmente, na campanha para as regionais do próximo dia 22.

A ideia dos socialistas passa por replicar aquilo que Cafôfo fez para roubar a Câmara do Funchal ao PSD, então ainda liderado por Alberto João Jardim: apelar ao voto em nome da mudança, mas uma mudança que se quer moderada. “Sabemos que existe algum medo no eleitorado. Muitos eleitores não sabem o que é ter outro partido que não o PSD à frente do governo regional. Nós queremos dizer que viemos para fazer diferente, que queremos uma mudança mas não queremos assustar. É uma mudança suave e progressiva”, explica ao Observador fonte próxima do candidato.

Por isso, a campanha socialista tem apostado no estilo “porta-a-porta” em substituição dos grandes comícios. Muitas ações de campanha passam por tocar à campainha das casas das pessoas e conversar com elas. “As pessoas têm de saber que aquilo que propomos não é mudança drástica. Têm de saber que podem confiar em nós”, justifica fonte oficial da campanha do PS.

A par e passo com esta ideia de “mudança pela positiva”, o núcleo duro de Cafôfo também sabe que “é preciso bipolarizar”. Ou seja, colocar PSD e PS em polos opostos para assinalar as diferenças e para fazer um apelo velado ao voto útil. “Especialmente porque todos os votos contam, sobretudo numas eleições tão partidas”, diz a mesma fonte.

O PS nunca esteve tão perto de poder conquistar a presidência do governo regional da Madeira e qualquer passo em falso pode deitar tudo a perder. É esse o motivo pelo qual o cabeça-de-lista do PS nunca tentou “pessoalizar” a campanha, evitando ataques ao caráter de Miguel Albuquerque.

O apelo feito nos cartazes do PS sintetiza esta estratégia em três palavras: “Coragem para mudar”. É isso que Cafôfo pede mas não é garantido que o eleitorado lhe responda na medida do esperado. Na caravana socialista, respira-se sobretudo um ambiente de confiança, embora em surdina se vá ouvindo comentários receosos sobre a “resistência dos madeirenses à mudança”. É aí que, acredita-se no PS, pode estar a chave para determinar para que lado pende a vitória: se para o PSD de sempre e do conforto, se para o PS da mudança e incerteza.

“Juntos, vamos caçar a rataria”

Raquel Coelho entra pela primeira vez em campanha leva o prémio de lema mais caricato. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Nos partidos mais pequenos a estratégia não é tão facilmente descortinável. Mas também há matéria para análise. O PTP convida o eleitor madeirense a “caçar a rataria”. A candidata, que curiosamente se apelida Coelho, surge abraçada a dois cães. No meio dos três, esparramado no chão, um discreto gato preto devolve o olhar curioso a quem contempla o cartaz. Um quadro bizarro para compor um outdoor que já chamava a atenção apenas com a frase escolhida.

Parte da explicação para seguir esta estratégia pode estar no facto de se tratar do PTP, o partido de José Manuel Coelho, o cáustico político madeirense mais conhecido pelas polémicas e números políticos que protagoniza do que pelas ideias que propõe. Outra quota de razão pode incidir no facto de a candidata ter como pai o próprio José Manuel Coelho, que deixou o lugar para a filha Raquel – por estar a braços com um processo na Justiça, onde foi condenado a uma pena de prisão efetiva de três anos e meio por difamação e desobediência, e que se encontra atualmente em fase de recurso.

O Juntos pelo Povo, por seu lado, pede que se dê “uma volta a isto”. O partido que detém 5 mandatos na Assembleia Regional e que desde então é a quarta força política da região, à frente de CDU e BE, pode ser crucial na definição de uma solução de governo. A última sondagem não é animadora, já que aponta para a perda de mandatos. Mas a campanha prossegue com  a linguagem simples que segue a estratégia que levou o JPP a ter uma expressão importante na região. Uma expressão que querem renovar numa legislatura que promete dar relevo e centralidade a um parlamento que até agora esteve sempre adormecido e em segundo plano por força das sucessivas maiorias absolutas do PSD.

Nestas eleições e pela primeira vez na região, os comunistas podem vir a fazer parte de uma solução de Governo, se Cafôfo ganhar e quiser uma "geringonça" local. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Já a CDU, que as sondagens indicam que possa vir a eleger até dois deputados em 47, mantém o estilo tradicional. Assim como mantém um candidato que os comunistas já apresentaram até noutras eleições além das regionais: Edgar Silva, que em 2016 foi o candidato apoiado pela CDU às eleições presidenciais que elegeram Marcelo Rebelo de Sousa. A frase que escolheram é, também ela, tradicional, sobretudo se se comparar com exemplo do PTP. “CDU, o voto que conta”, é o lema adotado pelos comunistas para estas eleições em que, pela primeira vez na região, passaram a ser considerados como possível parte de uma solução de Governo, caso Paulo Cafôfo vença e tente replicar no arquipélago a “geringonça” do continente, com acordos de incidência parlamentar à esquerda.

O BE usa o slogan nacional, “Faz acontecer”, mas acrescenta-lhe “A Madeira para todos” para distinguir as campanhas. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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E se por aqui é difícil entender a que é que a CDU se propõe nos próximos quatro anos, o mesmo pode ser dito do Bloco de Esquerda, que utiliza o lema que o partido escolheu para as eleições legislativas também na Madeira: “Faz acontecer”. Acrescenta-lhe apenas um genérico “A Madeira para todos” para distinguir as campanhas. De resto, nada de novo. Duas frases feitas que lidas sem contexto podiam ser proferidas por qualquer formação política. O número um bloquista, Paulino Ascenção, é o rosto do partido na região depois de ter deixado o Parlamento no ano passado na sequência da polémica das viagens dos deputados insulares. O ex-deputado recebia dois subsídios pela mesma viagem: o do Parlamento e o dos madeirenses residentes no continente. Agora, veste uma outra pele e assume um novo desígnio, que passa por eleger um número de deputados suficiente para influenciar a governação do arquipélago nos próximos quatro anos. As sondagens apontam para um resultado em torno a dois a três mandatos.

As rotundas são os lugares mais cobiçados pelas campanhas para expor os seus outdoors. MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Algo que o CDS também ambiciona. “Este é o momento”, proclamam os centristas num cartaz em tons de azul. Rui Barreto, que substituiu José Manuel Rodrigues na liderança do partido na Madeira, aparece sorridente. A frase pode parecer pouco concreta — e é — mas encerra em si uma evidência: nunca numas eleições regionais esteve tanta coisa em jogo, nunca como agora os partidos puderam tanto contar para a formação de um governo regional. Este é, de facto, um momento de mudança, quanto mais não seja pelo facto de tudo indicar que podem acabar na região os tempos da maioria absoluta. Mas se é verdade que o CDS é o maior partido da oposição na Assembleia Legislativa, com sete dos 47 mandatos, também é certo que a última sondagem conhecida esta terça-feira aponta para uma redução expressiva no número de deputados (passará para dois a três, diz o estudo da católica). Ainda assim, perante a perspetiva do fim da maioria absoluta do PSD, qualquer mandato pode vir a revelar-se decisivo e o CDS está a fazer essas contas. Aliás, o slogan escolhido pelos centristas tanto pode ser dito pelo CDS como por qualquer partido que venha a eleger. Estão todos os cenários em aberto.

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