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O Hospital de Campanha Porto tem capacidade para 320 doentes

Octavio Passos

O Hospital de Campanha Porto tem capacidade para 320 doentes

Octavio Passos

Comida servida em plástico, desinfeção em zona neutra e controlada, trocas a cada 3 horas. No interior do Hospital de Campanha do Porto

É uma sala de espetáculos, mas tem agora outra missão: acolher doentes Covid-19 assintomáticos. Há uma nova estrutura, voluntários, mas também a esperança de que as 320 camas não sejam preenchidas.

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– Equipa vermelha podem vir para a zona de saída para retirar o material. Escuto.

– Zona vermelha, quando os doentes acabarem de comer a sopinha avisem. Temos aqui o resto preparado para enviar. Escuto.

De rádio na mão, e com o som a emitir as mais diversas conversas que incluem expressões como “zona vermelha” e “zona verde”, António Araújo circula pelos corredores do Pavilhão Rosa Mota/Super Bock Arena e verifica se tudo está a correr conforme o planeado. Nas paredes, as placas que indicavam a zona dos camarins da maior sala de espetáculos portuense têm agora a informação de balneários para equipas médicas, bombeiros e polícia, há novos espaços que acolhem a zona da farmácia e de armazém e a plateia transformou-se quase num labirinto de enfermarias. Porque também o público agora é outro.

Tudo o que é decidido e tudo o que é planeado para acontecer neste pavilhão passa também pelo presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos. Nos últimos tempos, António Araújo tem-se dedicado a coordenar este espaço que desde a semana passada está adaptado para uma nova missão: ser um hospital de campanha para doentes com Covid-19, o primeiro hospital do género a ser montado no país para acolher pessoas infetadas. Antes, houve horas seguidas de recolha de informação e planeamento do espaço para que nada falhe em termos de segurança e para que não se caia no erro cometido por alguns hospitais de campanha montados lá fora, alguns bem graves conhecidos, como aconteceu em Espanha.

“Foi preciso criar uma estrutura toda de início”, conta António Araújo ao Observador, enquanto percorre o pavilhão quase de uma ponta à outra, entre viagens de elevador e sempre atento ao som que sai do pequeno rádio que leva na mão. Em duas semanas, e com a organização da Câmara Municipal do Porto, o exército português entrou por ali dentro para montar camas, equipamentos médicos e estruturas, com o objetivo de ajudar a aliviar a pressão sentida em três hospitais do Grande Porto — o Hospital de São João, o Hospital de Santo António e, mais tarde, o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.

António Araújo é presidente da Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos e está a coordenar os trabalhos neste hospital de campanha

Octavio Passos

É para aqui que são encaminhados os doentes destes hospitais com Covid-19 que estão assintomáticos mas que não têm condições para fazer o isolamento em casa, os que têm alguma disfunção de outras doenças não-respiratórias (e que precisam de cuidados médicos básicos) e ainda os que estão na fase de recuperação, à espera de resultado negativo. Com eles estão mais de 300 voluntários que disponibilizam o seu tempo e trabalho para garantir que tudo corre bem.

Hospital de campanha no Porto vai receber primeiros doentes com Covid-19. Há 320 camas disponíveis

O labirinto de enfermarias e a importância de circuitos separados

A divisão mais básica do “Hospital de Campanha Porto” começa por duas zonas que determinam os diferentes cuidados que médicos, enfermeiros e auxiliares vão ter: a zona limpa (verde) e a zona suja (vermelha, onde estão os doentes infetados). O objetivo é garantir que não há cruzamento destas áreas e que existem circuitos de entrada e saída diferenciados, para evitar qualquer forma de contágio. Há caminhos diferentes para quase tudo: entrada e saída de profissionais, de doentes, da alimentação, medicamentos e vestuário e ainda a saída de resíduos hospitalares e materiais utilizados pelos doentes. “O fundamental foi partirmos da base de que tem que haver zona limpa e zona suja, circuitos de entrada e de saída e depois tentarmos simplificar ao máximo isto, que é uma estrutura básica de saúde. Aquilo que fazemos cá são sobretudo atos de saúde básicos”, explica António Araújo.

Os balneários são a primeira paragem dos cerca de 300 voluntários da área de Medicina e Enfermagem, bem como dos auxiliares e outros coordenadores médicos distribuídos pelas várias funções. Antes de entrar ao serviço, cada voluntário veste uma das batas disponíveis nas prateleiras de madeira encostadas à parede e coloca uma máscara cirúrgica. Ao lado há também o espaço do batalhão de Sapadores Bombeiros, Polícia Metropolitana do Porto e dos seguranças das instalações, que controlam e dão apoio a qualquer hora.

À entrada para a zona suja, numa das portas do pavilhão, uma antecâmara (onde se encontra a “zona amarela”, de transição) com a palavra “Obrigado” define e separa a entrada e saída dos profissionais de saúde da zona com os doentes infetados. Cá fora, há voluntários à espera de luz verde para entrarem. É neste local “neutro” que, além de permitir assegurar uma temperatura estável no pavilhão, cada um coloca ou retira o fato, as luvas, as viseiras, as máscaras e qualquer outro tipo de Equipamento de Proteção Individual (EPI), sendo que tudo é feito de forma separada e com a vigilância de outro profissional para garantir que não há nenhum deslize nestes procedimentos — entre cada fase de remoção dos materiais há um processo de desinfeção. Ninguém entra em salas da zona vermelha sem estar devidamente equipado e ninguém sai sem ter retirado tudo. Uma questão de segurança que, sublinha António Araújo, “é fundamental e foi das primeiras coisas a serem definidas”.

À entrada para a zona suja, uma antecâmara com a palavra “Obrigado” define e separa a entrada e saída dos profissionais de saúde

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No primeiro piso do pavilhão — que em circunstâncias normais seria a plateia do espetáculo — estão 160 camas divididas por 27 enfermarias, cada uma com seis camas. No piso de baixo há ainda outro espaço com mais 160 camas. A esperança é “que isto nunca chegue a encher e que feche ainda antes do dia 31 de julho”, mas é preciso que tudo esteja preparado para o pior. No início desta semana, quando o Observador visitou este hospital de campanha, havia 17 doentes com Covid-19, num espaço que pode levar até 320 pessoas.

Uma das maiores preocupações de quem coordena o espaço é dar o máximo de higiene e cuidados básicos possíveis. Relativamente às casas de banho, por exemplo, houve espaços que tiveram de ser adaptados, estando neste momento 16 casas de banho e 16 chuveiros disponíveis só para doentes no primeiro piso e ainda duas casas de banho para pessoas com mobilidade reduzida. Sempre que alguém entra ou sai de uma casa de banho, é feita a limpeza e desinfeção. “Se o espaço encher, será tudo coordenado por turnos a funcionar por enfermarias, quer para a alimentação quer para os banhos, por exemplo”, explica António Araújo.

Os “quartos” têm o básico: uma cama, uma garrafa de água, gel desinfetante, uma cadeira e triplas para carregar algum tipo de dispositivo eletrónico que cada um traz, ainda que parte dos seus bens seja deixada num espólio controlado pelas autoridades. As camas foram colocadas de forma a terem pelo menos um metro e meio de distância entre cada uma, todos os infetados e quem está na zona limpa usam máscaras cirúrgicas e a estrutura foi também pensada para dar o máximo de privacidade possível ao doente, no meio de um local onde não é fácil isso acontecer. “As portas nunca estão abertas nem para as entradas nem para as saídas das enfermarias. Quem entra não vê doentes”, explica Filipa Machado Vaz, uma das médicas voluntárias que integra a equipa de logística e gestão do hospital.

Pelos corredores da zona suja, médicos e enfermeiros equipados dos pés à cabeça percorrem as enfermarias para garantir que tudo está bem com os doentes. “Por esta altura temos ali dois enfermeiros, um ou dois médicos e mais um ou dois auxiliares”, acrescenta António Araújo. Se o número de doentes aumentar, aumenta também o número de voluntários que estarão nesta zona. Por agora é esta regra: de três em três horas há uma troca de profissionais de saúde na zona vermelha e cada fato ou outro objeto utilizado lá dentro é colocado de imediato no lixo. No caso das roupas e utensílios de higiene dos doentes, tudo é duplamente embalado diariamente e fica a cargo de uma empresa de gestão de resíduos e equipamentos hospitalares.

É difícil não reparar no silêncio naquela tão ampla, onde das bancadas é possível ver todo o “labirinto” de enfermarias que foi montado. Há quem faça pequenos passeios pelos corredores e quem esteja deitado a tentar arranjar formas de se entreter. Nas paredes acima de cada cama lê-se o número, o nome do doente e a data em que deu entrada. Numa das camas, uma doente faz o segundo teste, depois de o primeiro ter dado negativo. Mais à frente, numa outra enfermaria, dois profissionais de saúde falam com um utente. O equipamento pesado e a cobrir todo o corpo pode não deixar ver a cara de quem os trata, mas cada profissional anda com um crachá colado na zona do peito com o nome e a função.

Neste momento, o Hospital de Campanha Porto tem 17 doentes com Covid-19

Octavio Passos

“Quando um doente chega aqui pela primeira vez somos avisados algum tempo antes de que vai entrar mais alguém. Depois, é feita a admissão na secretaria, aberto um processo e é feita uma primeira avaliação do seu estado de saúde, sendo-lhe atribuída uma cama. E aí explicamos ao doente como é que tudo funciona”, refere António Araújo. A rotina já está decorada: “De manhã é feita a higiene, é dado o pequeno-almoço, é feita a observação clínica, seguindo-se a orientação. Durante a tarde faz-se a vigilância e dá-se a medicação necessária”.

No meio das 27 enfermarias deste piso está o “cérebro” de toda a operação: o posto de comando. Quadros com números e nomes, computadores, impressoras, folhas espalhadas pelas secretárias. É aqui que se reúne toda a atividade em termos de cuidados básicos de saúde. “Os computadores estão em rede com os computadores que temos lá em cima e é feito o registo clínico. Quando é necessário pedir análises ou fazer o registo dos sinais vitais também é aqui. Tudo isto é feito uma vez por turno, a não ser que seja necessário alguma vigilância mais apertada”, explica o médico.

Do lado direito do pavilhão, há ainda uma zona para pessoas com mobilidade mais reduzida, existindo quatro camas adaptáveis e oito enfermarias com oxigénio e vácuo, num espaço que inicialmente foi pensado para acolher os idosos de lares da cidade do Porto que tivessem testado negativo no programa de rastreio da Câmara Municipal do Porto, mas que rapidamente se tornou num hospital para acolher doentes Covid-19 encaminhados pelos hospitais. E se o estado de saúde de algum dos doentes se agravar? “Fazemos de imediato a transferência para o hospital que encaminhou esse doente”, responde António Araújo.

Há ainda uma zona para pessoas com mobilidade mais reduzida e um posto de comando que é o "cérebro" de toda a operação

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Voluntários para ajudar no combate à pandemia

O trabalho de logística e organização deste hospital de retaguarda está também centrado nas tarefas que são cumpridas no piso de cima, onde se encontra a sala dos voluntários. Todo este hospital de campanha conta com a colaboração de médicos, enfermeiros e auxiliares voluntários, cerca de 300 até ao momento . O cenário na sala é um misto entre trabalho e descanso: quadros rabiscados com horários e lembretes, computadores, folhas pelas mesas, mas também sofás e camas mais ao fundo. Joana Brandão, de 24 anos, tem passado horas nesta sala para garantir que tudo está nos eixos e analisar os casos de todos os doentes. A terminar o sexto ano na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, cumpre agora a tarefa de ajudar na logística de todo este espaço, incluindo organizar escalas e perceber as necessidades que surgem a cada dia. Em breve, deve também poder ir à zona suja ajudar.

“Quando pediram voluntários decidi inscrever-me porque quero ajudar e, ao mesmo tempo, aumentar o meu conhecimento clínico. Mas, acima de tudo, sei que podia ter algum tipo de contributo, mesmo que fosse na parte dos bastidores a ajudar a que o hospital funcione bem”, explica ao Observador. É pelas mãos da sua equipa que passa também a organização das escalas de médicos e enfermeiros voluntários, semelhante à de um hospital. Os médicos têm três turnos: das 8h às 16h, das 16h às 24h e das 24h às 8h. Os enfermeiros começam mais cedo, mas também têm três turnos com a mesma duração: das 7h30 às 15h30, das 15h30 às 23h30 e das 23h30 às 7h30.

Apesar de “ainda não estar lá em baixo”, Joana sabe quem são os doentes, quando entraram e que cuidados necessitam. “As pessoas têm todas um jogo de cintura que faz com que, mesmo em algum momento de mais stress, haja sempre forma de se gerir aquilo sem criar nenhum tipo de atrito. Numa equipa que não se conhecia, estamos a conseguir fazer uma equipa de trabalho com uma capacidade bastante alargada e abrangente nas pequenas tarefas que consegue fazer”, sublinha a futura médica, que se diz “habituada a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo” durante os tempos de universidade.

Joana Brandão, de 24 anos é uma das voluntárias e integra a equipa de logística e gestão

Octavio Passos

O facto de haver poucos doentes na fase inicial, explica, ajudou a determinar o ritmo de trabalho e “uma linha padronizada de pensamento sobre como gerir os doentes”. E Joana, que está na primeira semana de trabalho, não tem dúvidas de que tudo “foi sempre a andar rapidamente” desde o momento em que se voluntariou.

Também Filipa Machado Vaz, antiga gestora hospitalar, decidiu juntar-se ao projeto como voluntária. Juntou a vontade à disponibilidade que tinha e integra agora também a parte logística. “Aqui ninguém está a receber nada. Mesmo nós que estamos aqui na parte da gestão, está tudo em voluntariado”, destaca, acrescentando também o “espírito de missão” de todos os que integram a equipa.

Também Filipa Machado Vaz, antiga gestora hospitalar, decidiu juntar-se ao projeto como voluntária

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Um aniversário festejado e atividades para “não ser só médico”

Passam alguns minutos depois do meio-dia e está na hora de almoçar. Cada doente senta-se na ponta de uma mesa. No máximo, serão dois em cada uma, frente a frente e a mais de dois metros de distância. “Por agora podem vir todos ao mesmo tempo porque há espaço suficiente. Se começarem a chegar mais doentes caberá ao posto de comando dividir as refeições por enfermarias: chamar primeiro, por exemplo, a enfermaria 4, 8 e 12 para almoçar. Quando acabam, chamam a enfermaria 2, 6 e 16”, exemplifica António Araújo.

Os pratos e os talheres são de plástico, há pão embalado e uma garrafa de água e toda a entrada e saída das refeições é cuidadosamente controlada para não haver risco de contágio. A alimentação é uma das coisas que têm sido asseguradas pela autarquia, com a ajuda de donativos que chegam um pouco de toda a parte. “A nível da alimentação, da roupa e lavandaria e do tratamento de resíduos hospitalares é tudo despesas. O equipamento e a medicação vêm dos hospitais”, explica o coordenador.

Os doentes comem todos na ponta de cada mesa e toda a comida vem em pratos de plástico

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Na copa situada na zona verde, alguns médicos e enfermeiros também estão na hora de almoço. E também eles utilizam tudo em plástico. Em frente há uma zona com frigoríficos, garrafas de água, barritas, sumos, leite e bolachas para qualquer ocasião. O maior desafio de todo o projeto, revela António Araújo, não tem sido as horas que aqui passa — “isso é a parte mais simples”, atira. “O mais difícil é fazer a gestão dos recursos humanos. Como trabalhamos com voluntários temos de coordenar a disponibilidade de cada um, preencher horários, ajustar tarefas. E como não é por obrigação, mas sim por devoção, pode ser mais complicado”, explica.

Já para Joana Brandão, voluntária, o desafio é também dar aos doentes “uma experiência mais agradável” do que ver apenas médicos e enfermeiros protegidos de cima a baixo e horas a olhar para as paredes da enfermaria e o tecto do pavilhão. “Este não é um hospital feito de base e as condições têm de ser criadas para que elas tenham entretenimento ao longo do dia. Neste momento, esse está a ser um dos aspetos mais complexos, da parte em que posso colaborar. Já estamos a arranjar algumas atividades para ir fazendo com eles, mas mantendo as distâncias de segurança, mantendo a não transmissão. Por exemplo, talvez não dê para jogar às cartas porque eles vão andar a trocar e a mexer nas cartas, mas se cada um tiver o seu lápis ou a sua revista para ir lendo… isso já ajuda bastante”, refere.

No sábado, um dos doentes fez anos e a data não foi esquecida naquele hospital que só funciona há pouco mais de uma semana: “Arranjamos um bolo e os nossos voluntários cantaram-lhe os parabéns”, conta António Araújo. Joana acrescenta: “Há sempre alguém ali a dar uma voltinha só para ver se está tudo confortável, enquanto alguns colegas estão focados em alguns doentes. Um médico pode fazer a parte médica e na hora que lhe sobra ali dentro pode ir ajudar a levar os doentes a comer ou à casa de banho. Os doentes são autónomos, mas gostamos que haja alguém a ajudar a descer as escadas, só para sabermos que está tudo em segurança. Aí dá para um médico não ser só médico e fazer outras coisas”. Há também uma equipa de psicólogos disponível diariamente para os doentes e para os profissionais de saúde. 

Para que os doentes possam ter alta deste hospital de campanha é necessário terem dois testes seguidos negativos. Até lá, a esperança é que “corra tudo muito bem” e tudo acabe mais cedo, ainda que “sempre preparados psicologicamente para o pior”. “Imaginemos que tudo corre muito bem e que a 10 de maio não há doentes. Provavelmente iríamos deixar ficar a estrutura, aguentar mais um pouco, porque se tudo descambar com o desconfinamento, termos aqui uma válvula de escape para os hospitais”.

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