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ANDY RAIN/EPA

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Como está a correr o desconfinamento no Reino Unido? Com vacinação a todo o vapor, novos casos ainda não subiram significativamente /premium

Há duas semanas que o Reino Unido abriu as escolas, num desconfinamento gradual e cauteloso. Os números de novos casos permanecem ao nível do início de março. Explicação pode estar na vacinação.

As ruas nunca ficaram completamente vazias e não se via a polícia mandar parar os carros ou a abordar quem circulava, lembrando-os das regras do confinamento decretado em janeiro, no Reino Unido. Por isso, na primeira semana em que o país avançou para o primeiro passo do desconfinamento, ao abrir as escolas, a diferença foi apenas essa: mais crianças na rua e nos transportes públicos, enquanto o comércio não essencial, restaurantes e bares continuam encerrados ao público.

Quem assim o descreve é Margarida Beja, uma portuguesa de 26 anos que trabalha como nutricionista num hospital a sul de Inglaterra, e que pelas suas funções junto dos doentes com Covid-19 nunca ficou verdadeiramente fechada em casa. Desde o início de janeiro, quando foi decretado este terceiro confinamento, até ao dia 8 de março, quando abriram as escolas, Margarida fez diariamente o seu caminho a pé, de casa para o hospital, que não lhe chega a tomar meia hora do dia para cada um dos lados. Via pessoas na rua, via carros a passar, não sentia o controlo policial, mas as crianças estavam mais resguardadas — mesmo sem horários para recolher a casa, como foi definido em Portugal. O comércio e os pubs fechados foram medida suficiente para impedir grandes concentrações de pessoas.

“Nunca vi as ruas completamente desertas. As pessoas cumpriram e não estavam tanto tempo fora de casa. Mas nunca vi  a Polícia a dizer às pessoas para irem para casa, como se vê aí em Portugal, a mandar parar os carros. Aqui nunca vi tal coisa. Hoje noto as pessoas mais na rua e mais crianças”, conta, por telefone, ao Observador.

Margarida Beja trabalha como nutricionista num hospital no sul de Inglaterra

D.R.

Já no seu serviço encontrou algumas diferenças em relação aos meses anteriores. Como trabalha numa Unidade de Cuidados Intensivos, apercebeu-se de que a segunda vaga de casos, em outubro, foi muito “pior do que a primeira”, com muitos mais doentes a precisarem de ventilação e em situação de saúde considerada mais grave. Isto depois de terem chegado a estar dois meses sem nenhum caso de Covid naquele serviço, após ser posta em marcha a testagem frequente de todos os profissionais de saúde. Ainda assim, avalia, estavam “mais preparados” na fase pior, porque o conhecimento da doença era muito maior do que em março de 2020.

"Nunca vi as ruas completamente desertas. As pessoas cumpriram e não estavam tanto tempo fora de casa. Mas nunca vi  a Polícia a dizer às pessoas para irem para casa, como se vê aí em Portugal a mandar parar os carros"
Margarida Beja

Aliás, conta, em fevereiro de 2020, quando o vírus começava a disseminar-se pelo mundo, ela própria sofreu uma pneumonia que a levou a ficar internada vários dias. Dias antes, a sua colega de casa tinha chegado da Alemanha com sintomas de uma gripe. Hoje, à distância, Margarida acredita que possa ter sido Covid-19, mas não foi testada porque à data só o era quem tivesse viajado para Itália ou para a China.

Agora, Margarida deposita toda a confiança nas vacinas. É uma dos 27.997.976 que já receberam a primeira dose da vacina no Reino Unido, segundo os números divulgados esta segunda-feira. Neste momento no país há 2.281.384 com a vacinação completa contra a Covid-19.

Os efeitos, garante, estão a sentir-se no serviço onde trabalha, onde não têm chegado tantos doentes infetados em estado mais grave e a precisar de ventilação, e trazem-lhe mais esperança de uma vida normal que passa por vir a Portugal, onde não vem desde agosto — contrariando o hábito de vir trimestralmente, como fazia antes. Este último natal foi também o primeiro que passou sem a sua família. Tudo isso tem pesado numa rotina que, segundo descreve, torna-se mais difícil porque lida diariamente com a doença. E, quando chega a casa, tem dificuldade em desligar, até porque na televisão não se fala de outra coisa.

Os números de infeção por Covid-19 caíram a pique durante o confinamento e, de facto, não sofreram um grande aumento desde que as portas das escolas foram abertas. Se olharmos para os dados do gráfico seguinte percebe-se que a 1 de março, já as medidas de desconfinamento tinham sido anunciadas, registaram-se 5.455 novos casos de infeção (4.738 dos quais em Inglaterra). No dia em que as escolas reabriram, as autoridades de saúde registavam 4.712 casos no Reino Unido, uma descida em relação à semana anterior. E duas semanas depois deste primeiro passo para desconfinar, os números continuavam abaixo de 1 de março: com 5.342 positivos (4.746 dos quais só em Inglaterra). Esta quinta-feira houve já um pequeno aumento, com 6.220 novos casos, mais ainda nada que aponte para um descontrolo.

Rita Teixeira, de 35 anos, ainda veio a Portugal no Natal e ficou algum tempo, a reboque de uma intervenção cirúrgica que teve de fazer. Esta portuguesa, técnica de um laboratório de análises clínicas em Londres, sente que houve uma redução no seu volume de trabalho. É que ela não está com os testes de Covid-19, mas com a “química especial”, que perdeu doentes que adiam os exames por causa da pandemia.

Rita Teixeira trabalha num laboratório de análises clínicas em Londres

D.R.

Quando voltou a Portugal, Rita foi testada e descobriu nesse momento que estava positiva, embora assintomática. Só regressou a Londres em janeiro, já o confinamento tinha sido decretado. E se, na primeira vez, o laboratório onde trabalha fechou e ela teve de ir para casa, desta vez apenas os informáticos ficaram em teletrabalho. Por isso, também ela, como Margarida, saiu diariamente para trabalhar. Mas a diferença das pessoas nos transportes públicos e na rua acentuou-se, de facto, a dia 8 de março — quando as escolas abriram, segundo conta.

Rita considera que agora o primeiro-ministro Boris Johnson foi mais cuidadoso nas medidas. Na sua cabeça permanece a imagem do dia 10 de dezembro, quando todo o comércio foi aberto e a Oxford Street ficou intransitável, levando o governo, apenas uma semana depois, a cancelar o Natal. Na verdade, foi nessa altura que foi identificada a nova variante da doença, a britânica, que fez disparar o número de casos de infeção e levou à tomada de medidas.

O desconfinamento não depende das datas, mas dos “dados”

Os números atuais permitem algum otimismo quando à possibilidade de ir avançando no plano de desconfinamento desenhado pelo governo até junho. Tal como em Portugal, foram estabelecidos parâmetros que vão definir se se avança ou não para o passo seguinte. Essa avaliação será feita de quatro em quatro semanas, o tempo que as autoridades britânicas entendem que permite avaliar as consequências de cada um deles. E por isso existe um intervalo de cinco semanas entre cada uma destas etapas.

Mas que critério são esses? Se em Portugal entram nos critérios o número de casos positivos e o índice de transmissibilidade, assim como a capacidade de acompanhamento, internamento e resposta de cuidados intensivos do Serviço Nacional de Saúde e as capacidades de testagem e rastreio, no Reino Unido são quatro os testes que têm que ser passados para avançar.

O primeiro-ministro Boris Johnson avisa que o plano de desconfinamento terá em conta "dados e não datas"

LUDOVIC MARIN / POOL/EPA

Avançar para o passo seguinte depende do programa de vacinação contra a Covid-19, da efetividade da vacina e dos seus efeitos na redução dos internamentos, das taxas de infeção e da sua pressão no Serviço Nacional de Saúde britânico, assim como a avaliação de possíveis novas variantes que possam surgir.

Contactada pelo Observador, a epidemiologista Carla Nunes explicou que cabe ao Joint Biosecurity Centre (JBC) “aconselhar os diretores médicos (chief medical officers)” e estes aconselham os ministros sobre o nível de alerta do Reino Unido relativamente à Covid-19. Este nível de alerta, porém, não é determinado através de uma fórmula estatística, mas avaliando vários indicadores que são considerados em conjunto, como o índice de transmissibilidade (Rt) ou a incidência dos casos. A 25 de fevereiro, por exemplo, os diretores médicos recomendaram a descida do nível 5 para o 4, dado o alívio no sistema de saúde.

O Observador tentou perceber junto do professor David Spiegelhalter , do Centro de Ciências Matemáticas de Cambridge, que se tem dedicado a várias estatísticas sobre a Covid-19 no país, quais seriam as linhas vermelhas destes critérios. Sem saber uma resposta, o professor remeteu o desenvolvimento do tema para um artigo publicado pelo editor de Ciência da UnHerd. No texto, Tom Chieves reflete sobre os dados de que Boris Johnson fala, mas critica: “O Governo deu-nos quatro ‘testes’ para aliviar as restrições, mas não sabemos o que implica ‘passar nesses testes’”.

Há algum sinal vermelho que faça chumbar no teste?

Chieves contactou então o investigador Duncan Robertson, da Universidade de Loughborough University, que lhe explicou que quanto à vacinação é difícil perceber efetivamente que população idosa falta vacinar, isto porque as bases de dados britânicas não estão completamente corretas no que toca aos idosos em instituições de terceira idade. Alguns aparecem alojados em mais do que um sítio, por exemplo. Também os dados por região não estão organizados de forma igual em todo o lado, pelo que não é possível concluir quantos já foram vacinados por zona e aferir quantos faltam efetivamente vacinar.

Ainda assim, há metas de vacinação definidas: todos com mais 70 anos e todos os residentes em lares devem ser vacinados até 15 de fevereiro; todos os adultos acima dos 50 anos e outras pessoas consideradas mais vulneráveis até 15 de abril; e todos os adultos até 31 de julho. Se estes planos baterem certo, no final deste mês de março terão sido administrados 32 milhões de primeiras doses a todos os prioritários, enquanto todos os restantes adultos terão sido vacinados (primeira dose pelo menos) até ao final de maio. O que significa que, pelo menos neste ponto da vacinação, o teste será passado para avançar com o passo 2 do desconfinamento.

A epidemiologista Carla Nunes lembra que a avaliação de cada fase no Reino Unido é uma análise de vários indicadores e que não assenta numa fórmula matemática.

Outro dos testes a passar para dar o passo seguinte é eficácia da vacina. E tendo em conta que a vacina poderá reduzir em 90% o número de internamentos e de mortes, os números podem mostrar se de facto existe ou não eficácia. Olhando para o testemunho de Margarida, que trabalha numa Unidade de Cuidados Intensivos e tem visto a diferença, há menos internados por Covid-19 em situação grave.

Mas o que dizem os números? O número de internamentos em hospitais começou a cair logo em meados de janeiro, praticamente duas semanas depois de ter sido decretado o confinamento. A 19 de janeiro eram 38.839 os internados, só em hospitais do Reino Unido, e desde então os números não param de descer: a 15 de março, os últimos números disponíveis, eram 7.226. O país tinha começado a desconfinar há uma semana. Nas Unidades de Cuidados Intensivos, porém, os números no Reino Unido só começaram a descer a 26 de janeiro, quando se chegaram aos 3.961 doentes com suporte ventilatório. A 16 de março eram 968 os internados nestas unidades. Estes números podem encontrar uma justificação nas vacinas já administradas. No entanto, as autoridades de saúde estão atentas a possíveis novas estirpes das quais a vacina possa não proteger — e esse é outro dos testes para dar o passo seguinte no desconfinamento.

Quanto à pressão no Serviço Nacional de Saúde britânico também não existe um número definido que acenda uma luz vermelha e implique travar a fundo. Desde o início de março que há cerca de 600 admissões diárias por Covid-19 nos hospitais ingleses, mas a 9 de janeiro chegaram a ser admitidos 4.125 doentes. Na primeira onda, em abril, nunca chegaram a atingir os 3 mil, como é possível ver nos dados disponibilizados no site do governo.

Em janeiro o número de mortes disparou, chegando a passar as 1.800 mortes diárias na primeira quinzena. A pior semana foi a de 22 de janeiro, com um total de 9.056 mortes. Desde então os números estão a descer: na semana de 12 de março morreram 1.637 pessoas vítimas de Covid-19.

Quanto aos doentes internados em Unidades de Cuidados Intensivos e com necessidade de ventilador chegaram a ser 4.077 a 24 de janeiro, sendo o pico destes internamentos. Só em abril de 2020, durante a primeira onda, a curva destes internamentos tinha estado mais alta, e mesmo assim com um pico registado a 12 de abril, com 3.301 internados.

Também o número de mortes no país teve uma tendência semelhante. Se olharmos para o gráfico das vítimas mortais por Covid-19 no Reino Unido, percebemos bem a curva da primeira onda no final da segunda quinzena de abril de 2020, em que se chegaram a registar quase mil mortes diárias. Na semana de 17 de abril morreram 9.553 doentes. Entre julho e outubro, os números foram residuais, nunca chegando ao zero. E em novembro começaram novamente a aumentar, com uma média de 400 mortes diárias. Na semana de 27 de novembro foram 3.405 mortes. Em janeiro, o número de mortes disparou, chegando a passar as 1.800 mortes diárias na primeira quinzena. A pior semana foi a de 22 de janeiro, com um total de 9.056 mortes. Desde então, os números estão a descer: na semana de 12 de março morreram 1.637 pessoas, vítimas de Covid-19.

Número de mortes por Covid-19 por semana no Reino Unido

A nova avaliação da evolução da pandemia no Reino Unido deverá ser feita na próxima semana. No último sábado, à semelhança do que aconteceu em vários países do globo, houve manifestações em Londres contra as restrições, com vários manifestantes sem máscaras e sem distanciamento entre eles — que levaram mesmo a confrontos com a polícia e a detenções. Esta quinta-feira, porém, serão debatidas novas regras para juntar ao pacote de restrições já anunciado: regras para a realização de manifestações em determinadas circunstâncias e, também, para impor multas a quem decida viajar sem fundamento. O governo quer impedir viagens de férias até a pandemia estar controlada no país.

“Step by step” do desconfinamento, ou um passo de cada vez

Para já, a certeza é de que o mapa de desconfinamento deve aplicar-se em todo o país, uma vez que os números não têm sido muito díspares no território. O plano do governo britânico foi desenhado em cinco passos. À semelhança do que acontece em Portugal, cada passo será avaliado antes de ser dado, mas num intervalo de quatro semanas (e não de duas, como por cá), como o Observador aqui explicou.

Desconfinamento “a conta-gotas”? A comparação com o calendário inglês mostra que não

O primeiro passo estabelecido num plano que está disponível no site do governo britânico tem duas fases em Inglaterra: a primeira arrancou dia 8 de março, uma segunda-feira, duas semanas depois do anúncio de desconfinamento, com todas as escolas a abrirem. Alunos a partir do secundário são obrigados a usar máscara. Por outro lado, passou também a ser possível as pessoas encontrarem-se com uma outra fora do seu agregado familiar para um café ou um pic-nic no exterior. Os lares também começaram a receber uma visita por utente e a regra do permanecer em casa passou a ser a do manter-se na sua zona, sem grandes deslocações.

A segunda fase deste passo será a 29 de março, altura em que o teletrabalho continuará a ser recomendado, mas em que se poderão alargar os contactos com mais pessoas e não apenas nos parques, mas no jardim de cada um, desde que não estejam mais de seis pessoas. O desporto ao ar livre, incluindo em piscinas exteriores, passará também a ser permitido.

Rita Teixeira diz que sentiu alguma diferença nos transportes públicos em Londres com a abertura das escolas, mas a cidade continua sem vida por estar tudo fechado.

Já o segundo passo será dado nunca antes do dia 12 de abril, com a abertura do comércio não essencial, incluindo os cabeleireiros, os salões de estética e as livrarias. Bares e restaurantes com esplanada poderão receber clientes nesse espaço, mas não poderão servir álcool. Zoológicos e parques temáticos também abrem por esta altura, assim como os ginásios, mas sempre mantendo as regras que já existiam antes, como o distanciamento social e a lotação limitada.Também neste passo poderão começar a abrir casas de férias, desde que sem espaços partilhados e apenas para um agregado familiar. Os funerais podem ter 30 pessoas, os casamentos e receções 15.

A 17 de maio será a vez de aliviar as regras do convívio ao ar livre, estendendo os encontros até um limite de 30 pessoas. Neste terceiro passo poderá também ser possível juntar pessoas em casa até um máximo de seis, ou então dois agregados familiares. Serão também reabertos os cinemas, hotéis, centros de entretimento, museus e os bares e restaurantes poderão receber pessoas no inteiro. As regras permitem também a prática de desporto em recintos fechados, mas com restrições na lotação.

No plano faseado do governo britânico, o quarto e último passo do desconfinamento não será dado antes de 21 de junho. Boris Johnson acredita num quase regresso à normalidade nessa altura, em que todas as restrições serão levantadas e serão reabertas as discotecas e recuperados os grandes eventos. Sem certezas ainda quanto ao distanciamento social obrigatório.

Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales têm regras de desconfinamento próprias, embora também tenham optado por fazê-lo faseadamente por datas de reabertura, como explica a BBC.

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