Como investir nos robôs que lhe vão tirar o emprego

03 Abril 2017128

O mundo está a mudar e devemos reagir com formação profissional e adaptabilidade. Por outro lado, há que investir nas empresas que vão alimentar a mudança. É o conselho da suíça Pictet, em entrevista.

Irá haver menos emprego no futuro, mas não fazem sentido as previsões catastrofistas que existem nessa matéria, defende Karen Kharmandarian. O gestor do fundo Robotics, da casa de investimento suíça Pictet, diz que no futuro próximo teremos, sim, empregos diferentes e processos económicos muito distintos dos que existem hoje. Em entrevista exclusiva ao Observador, durante uma visita recente a Lisboa a convite do Banco Best, o gestor de fundos diz que os Governos têm de resistir aos populismos e apostar na inovação — porque “não temos uma luta do homem contra a máquina. Temos uma luta entre o homem que tem uma máquina e o homem que não tem uma máquina“. E as pessoas? Devem apostar na formação profissional e precaver-se, poupando e investindo nas novas tecnologias.

O fundo que é gerido por Karen Kharmandarian, o Pictet Robotics, foi lançado em outubro de 2015 e tem registado uma forte entrada de investidores nos últimos meses, aproximando-se dos quatro mil milhões de euros sob gestão. O entusiasmo dos clientes levou a que o fundo tenha sido colocado em soft close, ou seja, com entrada limitada a novos investimentos, mas ainda é possível saltar a bordo. O fundo é comercializado em Portugal por bancos como o Banco Best, que teve o gestor em Lisboa para uma conferência sobre o tema, mas, também, em outros como o Banco Invest ou o Activo Bank.

Quem é Karen Kharmandarian?

Karen Kharmandarian começou a trabalhar na Pictet Asset Management em 2004 e é Gestor de Produto Sénior na equipa de estratégias temáticas desde 2007. Gere o fundo Pictet Robotics desde o lançamento, em outubro de 2015. Anteriormente, co-geriu a estratégia de high income (rendimento elevado), uma experiência que terá sido útil para a função que desempenha atualmente. Kharmandarian iniciou a carreira em 1994 na Société Générale, como conselheiro do Conselho de Administração para assuntos de banca. Em 1996, foi para a Aurel-Leven para criar e dirigir o departamento de analise de crédito e, em 1999, mudou-se para o buy side (ou seja, para as empresas que investem fundos reais) na Ixis Asset Management em Paris. Karen é bacharel em economia, mestre em banca e finanças pela universidade La Sorbonne e têm uma pós-graduação em negócios pelo Institut d’Etudes Politiques, de Paris.

Como é que escolhe as ações para investir, através do fundo que lidera — o Robotics?
Definimos um universo de cerca de 200 empresas, um pouco mais, que consideramos investíveis e que acompanhamos de perto. É a partir desse universo que, depois, escolhemos 40 a 60 ações para, a cada momento, fazerem parte da nossa carteira. Escolhemos empresas que estejam envolvidas no negócio da robótica, da inteligência artificial e da automação.

São empresas que se dedicam exclusivamente a estas áreas?
Temos empresas com diferentes níveis de pureza, mas para nós investirmos a empresa tem de ter pelo menos 20% da sua faturação nestas áreas (robótica, inteligência artificial e automação). Para nós, quanto mais pureza, melhor, porque as empresas vão beneficiar mais se, como acreditamos, o tema de investimento for bem sucedido. Atualmente, em média, o portefólio tem uma pureza de acima de 70%. Onde não investimos é em empresas que tenham alguma ligação a atividades militares. Se tiverem alguma coisa desse género, estamos fora. Porque é política a Pictet não promover, financeiramente, empresas que produzam armas ou que estejam ligadas a essa área, de um modo geral.

Têm ações de empresas como a Alphabet (Google), a japonesa Fanuc e, na Europa, a ABB e a Siemens, por exemplo, além de muitas empresas mais pequenas. Desse universo alargado de mais de 200 empresas, como é que escolhem, a cada momento, as que querem investir?
Depois desta filtragem, fazemos a análise financeira tradicional, avaliamos a qualidade da gestão, vemos se os preços das ações estão atrativos (a avaliação bolsista, no momento), avaliamos os níveis médios de volatilidade e de liquidez de cada ação… E, também, queremos diversificação para garantir que mesmo que se nos enganarmos numa ou noutra empresa, isso não nos prejudica o desempenho do fundo. A ideia é criar uma carteira que reflita as nossas convicções de que o tema de investimento — a robótica — é um bom tema.

38%

Rendibilidade do fundo Pictet Robotics nos últimos 12 meses

Porque está confiante de que é um setor com potencial, neste momento?
Dou-lhe um exemplo. Quando começámos o fundo, tínhamos um universo de cerca de 240 empresas identificadas como potenciais investimentos. Mas muitas empresas já foram adquiridas, em vários casos por grupos maiores que se aperceberam que a inteligência artificial é algo a valer, desta vez, e que a robótica está cada vez mais enraizada na economia e no mundo empresarial. E esses grupos maiores compraram empresas para se atualizarem, porque estavam a ficar para trás. Empresas como a alemã Kuka, que foi comprada por investidores chineses, ou a Arcam, por exemplo, na impressão 3D, a Mobileye, na área dos carros autónomos…

Estas são empresas em que investiam mas que foram compradas, certo? Isso é bom para vós…
Sim, é bom para nós e bom para os nossos investidores, porque quando são compradas e tiradas da bolsa, os adquirentes pagam um prémio alto. A boa prestação do fundo também se deve a este fator: as fusões e aquisições, uma tendência que certamente vai continuar. O lado negativo, para nós, é que ficamos com menos empresas para poder investir, a menos que a empresa compradora também seja suficientemente “pura” para podermos investir. A Kuka, por exemplo, foi comprada pela chinesa Midea, que já não tem “pureza” suficiente para podermos investir.

Ações podem corrigir, mas a longo prazo são ótimo investimento

Mencionou a questão da avaliação, ou seja, se os preços de algumas ações estão demasiado “esticados”, ou não, para as perspetivas futuras de rentabilidade. Qual é a sua opinião, em geral, sobre se as ações deste setor estão mais ou menos caras?
Temos de olhar para o setor à luz do restante mercado. Acredito que neste momento as ações, de um modo geral, estão um pouco esticadas. Afinal de contas, temos tido um bom momento nos mercados de ações — se olharmos para o índice MSCI, de ações mundiais, ele está em níveis mais elevados do que há coisa de um ano, com múltiplos que preveem um ganho médio de 10% nos resultados por ação, nas empresas que compõem o índice. É ambicioso. Estamos convencidos que, de um modo geral, as ações mundiais estão um pouco esticadas e provavelmente terão de corrigir um pouco, mas isso é uma consideração de curto prazo, porque depois podem voltar a subir.
E, então, as ações que mais lhe importam, para o fundo de robótica. Estão mais ou menos “esticadas” do que as ações em geral?
As ações viradas para a tecnologia são, tradicionalmente, um pouco mais caras do que outros setores. O que justifica pelas perspetivas de crescimento que os investidores atribuem a este setor. Se tivermos isso em conta, considero que as avaliações no setor continuam atrativas.

Mas só investe em empresas que tenham ações cotadas, que tenham o capital disperso em bolsa. A ideia que existe é que muitas destas empresas inovadoras não são cotadas.
Sim, conheci muitas empresas promissoras, durante o processo de criar o universo investível. Muitas delas tinham ótimas perspetivas, boa gestão e admitiam ir para a bolsa. Mas, depois de lançarmos o fundo, notámos que houve poucas que foram, realmente, para a bolsa. Questionei-me porque é que isso seria assim, se o mercado estava num bom momento, é fácil ir ao mercado e ter sucesso. Fomos falar com as empresas e elas disseram-nos que os private equity têm tanto apetite por este setor que se precisarem de dinheiro, ligam aos private equity.

Não precisam de contactar investidores privados, os investidores privados contactam-nos a eles…
Sim. Ir para a bolsa é uma chatice, dizem-nos, com todas as obrigações associadas a isso: comunicações ao mercado, escrutínio dos reguladores, relações com investidores, custos. O dinheiro está a fluir para estas empresas a avaliações muito elevadas. Mas isso leva-nos a uma questão: sabemos que para que estes investimentos sejam rentáveis, estes investidores privados terão de conseguir “sair” a preços muito altos, e essa saída vai ser difícil. Nós, por outro lado, somos investidores de longo prazo, estamos cá para investir a longo prazo na robótica. Sabemos que o ciclo vai virar e, a certa altura, mais destas empresas vão querer ir para a bolsa e vão querer o investimento dos nossos clientes.

Karen Karmandharian diz que muitas empresas preferem não ir para a bolsa, obtendo em vez disso capital por investidores privados, mas a tendência vai virar e, nessa altura, vão querer ir para a bolsa. FOTO: HENRIQUE CASINHAS/OBSERVADOR

“A inteligência artificial é algo a valer, desta vez”

Há pouco dizia que “a inteligência artificial é algo a valer, desta vez”. Porquê?
Tivemos duas fases de fascínio com a inteligência artificial, estamos na segunda. Na primeira vez em que se acreditou que seria algo que ia realmente mudar o mundo, depois houve alguma deceção sobre a importância que a inteligência artificial poderia ter, na realidade, para mudar a vida das pessoas, naquela altura.

Agora, será diferente?
O que mudou é que agora temos uma imensidão de dados disponíveis, com milhões de milhões de dispositivos eletrónicos conectados. Há muitos dados mas é preciso tirar sentido deles e, para isso, é necessário muito poder computacional. Essa é a diferença em relação ao passado: temos esse poder computacional e ele é suficientemente barato para que possamos extrair informação que é valiosa para as empresas.

Ações podem corrigir, mas a longo prazo são ótimo investimento

Mencionou a questão da avaliação, ou seja, se os preços de algumas ações estão demasiado “esticados”, ou não, para as perspetivas futuras de rentabilidade. Qual é a sua opinião, em geral, sobre se as ações deste setor estão mais ou menos caras?
Temos de olhar para o setor à luz do restante mercado. Acredito que neste momento as ações, de um modo geral, estão um pouco esticadas. Afinal de contas, temos tido um bom momento nos mercados de ações — se olharmos para o índice MSCI, de ações mundiais, ele está em níveis mais elevados do que há coisa de um ano, com múltiplos que preveem um ganho médio de 10% nos resultados por ação, nas empresas que compõem o índice. É ambicioso. Estamos convencidos que, de um modo geral, as ações mundiais estão um pouco esticadas e provavelmente terão de corrigir um pouco, mas isso é uma consideração de curto prazo, porque depois podem voltar a subir.
E, então, as ações que mais lhe importam, para o fundo de robótica. Estão mais ou menos “esticadas” do que as ações em geral?
As ações viradas para a tecnologia são, tradicionalmente, um pouco mais caras do que outros setores. O que justifica pelas perspetivas de crescimento que os investidores atribuem a este setor. Se tivermos isso em conta, considero que as avaliações no setor continuam atrativas.

Fale-me de casos concretos.
Um exemplo: o Facebook e o reconhecimento facial. Podemos ter milhares de milhões de fotografias que podem ser fornecidas ao algoritmo para o ajudar a identificar coisas como um cão, um carro… Treina-se o algoritmo para que, depois, ele deixe de precisar de ser programado. Consegue melhorar-se a si mesmo e, depois, criar valor para outras empresas como o Facebook ou qualquer outra, para personalizar os produtos e os serviços — que é o que faz a diferença. Outro exemplo: os carros autónomos. Há uma empresa em que investíamos [que foi comprada pela Intel] que fornece as câmaras e o software para mapear as ruas em tempo real. Tem parcerias com a Volkswagen, com a Daimler, todos os carros dessas marcas vêm equipados com estes equipamentos. Ao conduzir, se aparece uma estrada com trabalhos, que obriga a fazer um desvio ou a travar, a câmara e o sistema registam tudo isso, centralizam e reenviam para todos os carros que estão na estrada, que usam a informação para reajustar os trajetos.

Além da questão da exposição ao tema, o que mais procura nas empresas em que investe?
Temos três fatores que privilegiamos: a qualidade da gestão — se têm provas dadas, se mostraram competência no passado, qual é a visão que têm –, a qualidade do negócio — qual é a tecnologia, quais são as barreiras à entrada nos mercados, qual é a abordagem ao cliente –, e, claro, a avaliação. O que é evidente numa empresa como a Fanuc, por exemplo, é que eles têm o know-how para combinar o software e a máquina. A alemã Kuka também é um pouco assim, daí que tenha sido adquirida por chineses, que não têm esse know-how. Os chineses são ótimos a fazer robôs básicos, mas não são tão bons em software e a integrar o software e o hardware — essa é a parte mais complexa. A Fanuc tem o know-how, tem os engenheiros, é uma empresa controlada por apenas um acionista maioritário, tem visão de longo prazo e está a investir para o futuro — gostamos disso. E tem exposição à China, que acabará por ter de comprar esta expertise.

Estamos a falar de empresas com receitas e lucros. Por vezes no setor da tecnologia e da internet, o problema é que há muito investimento e é difícil ver a luz (os lucros) ao fundo do túnel. Evitam essas empresas?
Quando criámos o nosso universo (de cerca de 200 empresas), considerámos quantas empresas são lucrativas hoje, qual é a qualidade do balanço e quais é que estão, realmente, a gerar fluxos de caixa positivo e resultados positivos. Desse universo, só quatro empresas e que ainda tinham prejuízos. O que é algo surpreendente, tendo em conta a perceção que existe e a que aludiu.

E o que é que tende a afastá-lo de uma potencial empresa para investir?
Tentamos perceber se o que a empresa faz é facilmente replicável, se tem barreiras à entrada, se é ou não capaz de trazer valor acrescentado ao cliente. Há, também, a questão militar, de que falei, algo em que não queremos estar envolvidos. E, depois, claro, a questão da avaliação — não queremos entrar numa ação em que acreditamos que já está sobrevalorizada pela euforia. Queremos empresas que estejam numa trajetória positiva de resultados, isso é chave.

Falou de empresas japonesas, norte-americanas mas, também, alemãs. Existem algumas empresas portuguesas ou, pelo menos, ibéricas no seu radar?
Infelizmente, não. E há muito poucas empresas europeias, no geral. O que pode ser visto como um sinal de que na Europa, salvo algumas exceções, estamos a ficar para trás. É um pouco preocupante, sobretudo porque quanto mais para trás se fica mais talentos se perdem, de pessoas que vão para essas zonas onde existe maior inovação. A Europa precisa urgentemente de programas muito ambiciosos para ajudar as empresas europeias neste espaço.

“Não se deve tentar escavar ouro, deve-se vender pás”

Isto é um mercado em que se investe em várias empresas e se tenta acertar nos vencedores, porque haverá vencedores que vão “ficar com todos os despojos”, ou é uma questão de diversificar e obter ganhos moderados com várias empresas?
Acreditamos que o tema vai ser bem sucedido como tema de investimento, no geral. Além disso, escolher os vencedores é muito difícil. Mas há uma forma de atuar, nessa situação. Por exemplo, nos carros autónomos, não sei quem é que vai vencer a corrida: se será a Daimler, se será a Volkswagen ou se será a BMW, ou outra. Eu não sei quem vai vencer a corrida, mas o que sei é que dentro destes carros, ganhe quem ganhe, vão estar radares, sensores, câmaras, GPS, lidar, ultra-som, dispositivos de comunicações, todos estes sistemas vão estar presentes em todas as marcas. O meu lema é não tentar escavar para encontrar ouro, o melhor é vender pás.

Vender a quem tem as marcas como clientes, portanto…
Sim. Foi exatamente o que fizemos com a Mobileye, israelita, que tinha ótima estratégia e parcerias com as principais marcas. Acabou por ser adquirida pela Intel, há poucas semanas, com um prémio muito elevado.

Portanto, quando uma empresa assim é comprada fica feliz ou triste?
Ambas (risos). Para os investidores é ótimo porque a ação já se tinha valorizado e a Intel pagou um prémio elevado, de mais de 30% face à cotação, que já estava “altinha”. Mas fico com menos uma empresa para investir. Em vez de tentar encontrar os vencedores, julgo que a mais-valia que um gestor traz é evitar os perdedores. O que é bem mais fácil.

Porquê investir num fundo de robótica?

“A gestão ativa traz selectividade e timing”, diz Karen Kharmandarian. “Sobretudo num setor como este, em que as coisas mudam muito rapidamente, a gestão ativa é importante. Ao investir num ETF, terá menos custos e estará exposto ao tema. Mas estará exposto ao tema de uma forma indiscriminada. No caso da robótica, temos vários segmentos: os sistemas de sensores, a medicina, os carros autónomos, a robótica de consumo, a robótica que está na fábrica, a robótica mais ligada à logística, a impressão 3D. A questão é que estes segmentos não são, todos, igualmente promissores. E, dentro de um mesmo segmento, as empresas não são igualmente boas. Portanto, uma gestão passiva permite acompanhar este tema de investimento, que acreditamos ser um bom tema, mas o problema é que ao ganhar exposição de forma indiscriminada não estamos a ver onde estão as avaliações mais baratas e mais caras, quais as melhores empresas e as piores. A questão é que ao optar pela gestão passiva, 90% da carteira pode ter um bom desempenho, mas se 10% das empresas do ETF não tiverem um bom desempenho, isso vai matar o desempenho, a longo prazo”.

Li que um dos setores em que apostam menos é na impressão 3D. Porquê?
Quando lançámos o nosso fundo, em outubro de 2015, havia um ETF que teve um desempenho bom até 2014, atraiu muitos investidores. Em 2014, esse ETF tinha 10% de exposição à impressão 3D. Foi uma fase de muita euforia em torno da impressão 3D, as pessoas achavam que, ao virar da esquina, toda a gente ia ter uma impressora 3D em casa. Depois as pessoas começaram a temperar essas expectativas e as avaliações já estavam muito caras, pelo que houve uma correção. Esses investidores sofreram um declínio de 50% em algo a que tinham uma exposição de 10%. Ou seja, perdeu-se 5% de desempenho, só com impressão 3D. E depois os ETF reequilibram-se periodicamente, pelo que se um segmento cai depois há um reforço que, se o declínio continuar, vão-se multiplicar as perdas na carteira.

Mas estão cautelosos com a impressão 3D porque acham que há uma euforia?
Porque achamos que não é altura, de um ponto de vista de avaliação, e porque há empresas que estão ativas neste espaço que são muito fracas do ponto de vista financeiro, ou do ponto de vista da gestão, algumas nem têm administrador financeiro, nem presidente-executivo, alguns saíram, foram despedidos, foram para outras empresas. E muitas estão muito ligadas ao setor B-to-C (business to consumer), e não vejo muita procura por parte dos consumidores para já. Mas o setor B-to-B (business to business), esse está a ter mais sucesso. Empresas como a General Electric, a Adidas, a Nike, estão a apostar muito nesta área para produzir os seus produtos on demand, personalizados para cada cliente. Queremos investir só em empresas que têm exposição ao B-to-B e não ao B-to-C. E também gostamos de empresas que tenham acesso aos canais de distribuição, é outro elemento-chave.

Em vez de encontrar os vencedores, julgo que a mais-valia que um gestor traz é evitar os perdedores. O que é bem mais fácil.
Karen Kharmandarian, gestor de fundos da Pictet

Fale-me de uma empresa menos conhecida, que esteja no seu portefólio, e que se pode tornar um nome bem conhecido um dia.
Talvez alguns leitores não conheçam a iRobot, que faz os aspiradores autónomos, os corta-relva. É uma empresa sediada nos EUA que, quando lançámos o fundo tinha, além dos produtos para consumo, algumas atividades ligadas à área militar. Sob pressão de alguns investidores, incluindo nós próprios, eles decidiram vender essa parte do negócio. Estão a crescer muito rapidamente, são fortes nos mercados emergentes, os produtos são muito bons, carregam sozinhos a bateria e retomam o trabalho onde o deixaram, após a recarga. É uma ótima empresa, que deverá valorizar-se ou, mesmo, ser adquirida.

“O homem com máquina e o homem sem máquina”

Um dos temas que vários especialistas sublinham é a personalização, em oposição à produção em massa, como o caso da loja da Adidas em Berlim. Que importância tem essa tendência?
É uma tendência que beneficia todas as empresas de robótica, porque todas as empresas, independentemente do seu setor, precisam de se adaptar a esta evolução da procura. As pessoas já não querem um produto igual ao do vizinho. As pessoas querem algo diferente, algo personalizado. Para as empresas tradicionais, isto é um grande desafio, porque o seu modelo de negócio baseia-se na produção em massa de bens semelhantes. É um modelo de negócio que se baseia no facto de se produzir em massa. Mas, hoje, o que os clientes querem mudou e as empresas tradicionais têm de apostar na personalização. É isso que empresas como a Nike e a Adidas estão a fazer.

Que implicações é que isso tem para a economia global?
O que acontecerá, em muitos casos, é que em vez de terem as fábricas de produção na China, no Vietname ou no Bangladesh, essas atividades são trazidas de volta para os seus países, para os mercados onde estão os clientes. Criam-se fábricas totalmente automatizadas — temos o caso da Speedfactory, da Adidas, na Alemanha. Trabalham lá 10 pessoas, só a monitorizar os robôs. O cliente vai ao site, encomenda os ténis e eles podem ser personalizados ao seu gosto, com a cor que queremos, o atacador que queremos, uma palmilha personalizada, o nosso nome escrito na lateral, e o ténis é entregue em casa em alguns dias. Este é o novo paradigma. As empresas que não se aperceberem que têm de se adaptar a este modelo, alguém vai fazê-lo por elas e ameaçar a sua sobrevivência. Isto terá implicações para os países que apostam na mão-de-obra de baixo custo, como a Índia e outros países.

Karen Karmandharian mostra duas imagens, uma de 1900 e outra de 1913. Na primeira, há dezenas de carruagens e um automóvel. Na segunda, a Fifth Avenue está cheia de carros. Foi o Modelo T, da Ford.

Identifica-se com as visões mais catastrofistas sobre como as máquinas podem colocar boa parte da população sem emprego?
Existem visões distópicas, de que será o fim do mundo, que todos os empregos vão desaparecer, alguns dizem que até 90% dos trabalhos vão desaparecer. Acredito que estas visões são muito exageradas. É certo que as coisas estão a mudar muito rapidamente e há uma diferença importante com as outras “revoluções industriais” do passado: ao passo que antes havia apenas um setor a ser impactado (pela revolução) de cada vez e as mudanças eram relativamente lentas, agora todos os setores estão a ser afetados ao mesmo tempo e pode haver menos tempo para as pessoas se adaptarem, as novas gerações se concentrarem noutras aptidões.

Mas vai haver uma redução drástica do número de empregos?
Drástica? Julgo que não. Os robôs não roubam, alteram a natureza dos trabalhos. Todas as tarefas repetitivas vão ser retiradas de mãos humanas. E não estou a falar só de trabalhos manuais ou operários, os chamados colarinhos azuis. Isso acontecerá também nos setores de colarinho branco, como os advogados e as pessoas ligadas aos serviços financeiros, até os médicos. Mas este fenómeno vai libertar as pessoas para outras facetas do trabalho.

Certo, mas em termos de número de postos de trabalho, haverá um impacto?
Sim, se perguntarmos se as novas tecnologias vão criar mais empregos do que vão destruir, acredito que não. Em termos líquidos, haverá menos necessidade de trabalho humano. Porque os novos empregos que estão a ser criados, e que serão criados, são por empresas que são mais eficientes logo à partida — logo no nascimento, são empresas que usam menos força laboral e mais máquinas e tecnologias. De qualquer forma, a questão é: será que precisamos de trabalhar 40 horas por semana? Será que isso será a regra no futuro?

Não será?
Talvez não. Mas a geração dos meus avós trabalhava 70 ou 80 horas por semana nos campos. Foi-se trabalhando cada vez menos e os padrões de vida melhoraram, portanto esta é uma tendência que já se verifica há muito tempo. Não acredito que haverá uma destruição súbita e massiva de postos de trabalho, mas concordo que, sim, em termos líquidos a tendência é para haver cada vez menos empregos como os conhecemos hoje.

Os robôs não roubam os trabalhos, alteram a natureza dos trabalhos. Todas as tarefas repetitivas vão ser retiradas de mãos humanas. E não estou a falar só de trabalhos manuais ou operários, os chamados colarinhos azuis. Isso acontecerá também nos setores de colarinho branco, como os advogados e as pessoas ligadas aos serviços financeiros, até os médicos. Mas este fenómeno vai libertar as pessoas para outras facetas do trabalho.
Karen Karmandharian, gestor da Pictet

Como é que devemos preparar-nos para isso, como trabalhadores e como aforradores?
A evolução é imparável. Podemos tentar abrandá-la, com regulação, com impostos, mas é impossível anular o progresso. Se um país não quiser abraçar as mudanças, outros países irão fazê-lo. A melhor forma de se precaver destas mudanças, capazes de afetar as nossas profissões, as nossas carreiras e os nossos padrões de vida, é apostar em formação e numa educação que nos prepare para mudanças rápidas. Além disso, do ponto de vista do investimento, é importante pensar em formas de beneficiar desta tendência, para acompanhá-la e não ficar para trás.

Viu Donald Trump reunido com os camionistas no outro dia? Pelo que se diz, esta classe votou largamente em Trump, possivelmente porque não quer camiões autónomos a roubarem-lhes os empregos…
Há partes da população que querem abrandar o progresso: taxistas, camionistas, etc. E essas pessoas acabam por encorajar políticos que, em troca, vão responder com regulações, impostos, etc. Acho que isto pode atrasar o progresso mas não será capaz de o deter. Haverá sempre luditas a quererem destruir as máquinas que lhes iam retirar o emprego. Mas há uma alternativa, que é trabalhar com as máquinas e usá-las para aumentar a nossa produtividade e a nossa competitividade. Esta não é uma questão de homem contra a máquina, é uma questão de um homem com uma máquina e um homem sem uma máquina.

A economia de partilha e o investimento

A economia de partilha, como é que essa tendência é tida em conta na vossa estratégia?
Refletimos muito sobre isso, sobre que impactos a economia de partilha pode ter para a indústria automóvel. É possível que, se deixarmos de ter os nossos próprios carros (que estão estacionados mais de 90% do tempo) e passarmos a partilhar carros (eventualmente autónomos), as empresas que fabricam carros vão vender menos carros. Mas há que lembrar que se um carro está constantemente a andar, a ser partilhado, não vai durar 7 ou 8 anos, vai ter de ser trocado em 2 ou 3 anos.

Porque é que parece tão fácil causar disrupção num setor, atualmente?
No passado, quando se tinha uma boa ideia para um produto, uma ideia com potencial, o que se fazia era montar o negócio, criar as fábricas, tentar melhorar o produto e torná-lo mais barato, contratar milhares de pessoas e esperar anos ou décadas. Hoje, com as novas tecnologias, não é assim: consegue-se criar uma empresa e aceder, de imediato, a um mercado de milhões de pessoas, sem ter de investir numa estrutura pesada. Pense na Uber, na AirBnB, não têm táxis nem prédios — e têm pouquíssimas pessoas a trabalhar. A disrupção chega muito rapidamente, por isso é preciso manter os olhos abertos. Em janeiro, no Consumer Electronics Show, em Las Vegas, havia uma empresa chinesa que estava a apresentar um drone para transportar passageiros, humanos. Era apenas um protótipo e as pessoas ficaram impressionadas mas disseram oh isso é algo para daqui a 10 ou 20 anos. Passado cerca de ano e meio, esse vai ser começar a ser testado no Dubai, capaz de transportar pessoas com um peso total até 200kg, em viagens com duração de meia hora — é um taxi-drone que vai estar disponível na segunda metade do ano. As coisas estão a acontecer muito rapidamente.

Há pouco mostrava a imagem das dezenas de Modelos T, da Ford, de como mudaram a paisagem em 13 anos. Estamos ainda no início?
A estratégia que estamos a aplicar no fundo pressupõe que esta é uma história de longo prazo e acreditamos que teremos um desempenho melhor do que o resto do mercado, no longo prazo. Acreditamos que os drivers da robótica e o crescimento que se espera nesta área é muito elevado e isso irá traduzir-se em retornos mais elevados. Estamos ainda no início do que será a inteligência artificial.

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