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Catarina Barros de Sousa fazia voluntariado junto das crianças das comunidades mais pobres de São Tomé e Príncipe

DR

Catarina Barros de Sousa fazia voluntariado junto das crianças das comunidades mais pobres de São Tomé e Príncipe

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Como o homicídio de uma portuguesa chocou São Tomé e Príncipe /premium

Catarina Barros de Sousa foi brutalmente assassinada por um funcionário do hotel em que trabalhava. Os são-tomenses ficaram tão revoltados que quiseram fazer justiça com as próprias mãos.

A morte brutal da portuguesa Catarina Barros de Sousa, assassinada a golpes de catana no gabinete do hotel em que trabalhava, chocou São Tomé e Príncipe. Quem a conhecia não compreende os motivos do crime. Quem vive no país, com pouco mais de 200 mil habitantes, também não. Na mira das autoridades está a tese de uma possível vingança por motivos profissionais — e o funcionário da unidade hoteleira que encontrou o corpo é o principal suspeito, estando já em prisão preventiva. Mas os são-tomenses têm mais perguntas do que respostas sobre o que aconteceu àquela portuguesa, que já se tinha tornado numa das figuras mais queridas do norte da ilha de São Tomé.

Catarina Barros de Sousa, 51 anos, mudou-se de Portugal para São Tomé e Príncipe há doze anos, depois de ter viajado para o país a pretexto de uma missão de voluntariado. Na altura, optou por ficar no país a viver e a trabalhar — tanto que, ao fim de mais de uma década, já tinha adquirido nacionalidade são-tomense. Durante os últimos anos, teve vários empregos. Trabalhou na Africa’s Connection, uma pequena empresa de aviação que opera voos diários entre as duas ilhas do arquipélago, e passou pela fábrica de chocolate Cláudio Corallo, onde foi guia turística. Em 2018, começou a trabalhar como gerente no hotel Mucumbli, um empreendimento turístico ecológico no norte do país.

Portuguesa terá sido assassinada em São Tomé

Foi no seu gabinete do Mucumbli que Catarina foi encontrada morta ao fim da tarde da última segunda-feira. O estado do corpo denunciava a brutalidade das agressões, feitas com recurso a uma catana. O facto de nada ter desaparecido do escritório, incluindo o computador e o telemóvel, indiciava que não se tinha tratado de um assalto: o objetivo tinha sido assassinar a portuguesa. “Ficou tudo, só a mataram”, diz ao Observador o dono de um restaurante da cidade são-tomense de Neves, preferindo não se identificar para evitar constrangimentos na comunidade local. “Aqui em São Tomé é muito raro termos destas coisas. Somos da paz. Aquilo, acho que foi qualquer intriga.”

"Aqui em São Tomé é muito raro termos destas coisas. Somos da paz. Aquilo, acho que foi qualquer intriga"
Responsável de restaurante na cidade de Neves

A “intriga” que está neste momento a ser investigada pela Polícia Judiciária são-tomense está relacionada com um funcionário do hotel Mucumbli a quem Catarina moveu recentemente um processo disciplinar por faltar ao trabalho — e que, segundo a PJ, já confessou o crime. De acordo com o Diário de Notícias, este funcionário da segurança do hotel teria ameaçado a portuguesa depois de ter sido alvo do processo e de ter visto o seu salário reduzido devido às faltas. Fonte da polícia são-tomense adiantaria depois à Agência Lusa que um funcionário do hotel, que se encontrava “em parte incerta” desde o dia do crime, foi detido na quinta-feira para ser levado à presença de um juiz no dia seguinte.

Justiça com as próprias mãos

Ao fim de mais de uma década a viver em São Tomé e Príncipe, Catarina Barros de Sousa era já uma figura muito querida entre as comunidades do norte do país. Por isso, a morte da portuguesa causou uma grande revolta entre a população. Uma notícia do jornal Téla Nón, por exemplo, não poupa nos elogios. “Cultivou sobretudo amizade no seio da sociedade são-tomense”, escreve o jornal sobre Catarina, descrevendo-a como “amiga de quase todos são-tomenses”. Sobre o crime, a publicação diz que a morte de Catarina Barros de Sousa “chocou a cidade de Neves (capital da região norte de São Tomé), e entristeceu o país em geral”.

A morte de Catarina Barros de Sousa “chocou a cidade de Neves (capital da região norte de São Tomé), e entristeceu o país em geral"
Jornal Téla Nón

Ao Observador, o responsável de um restaurante localizado na cidade de Neves lembra a colaboração estreita que mantinha com Catarina, que frequentemente reservava mesas naquele restaurante para os clientes do hotel. “Ela trazia os clientes, reservava, e eu ia lá receber o valor. Ainda há uns meses tive um grupo de clientes que vieram aqui comer enviados por ela”, lembra. “Uma vez trouxe-me clientes de lá para aqui, e até me pediu para levar o cliente de volta. Mas, como não podia sair e ela não tinha ninguém para os vir buscar, voltou pessoalmente e veio buscá-los. Foi há uns dois meses.

Catarina já era conhecida da região — e deste são-tomense em particular — antes de trabalhar naquele hotel do norte do país. “Ela já era nossa cliente há muitos anos. Já há mais de dez anos que ela cá esteve a comer com os amigos”, conta, lembrando que a conheceu quando terminou os estudos, ainda na capital do país, a cidade de São Tomé. “Quando tive o meu primeiro trabalho, numa empresa, depois da minha formação, conheci aquela senhora. Não sabia ainda que era a Catarina”, recorda. Foi aí que se deu conta de uma das características que todos lembram sobre a portuguesa: a mota.

"Isto caiu de repente, foi um choque. Surpreendeu tudo e todos. Estamos num sítio muito reservado e tranquilo mas nunca tivemos problemas"
Tiziano Pisoni, dono do hotel Mucumbli

“Sabia que andava numa mota muito pequena e depois começou a andar numa mota maior, uma 125. Cruzávamo-nos muito na zona central da cidade. Mesmo em São Tomé, a cidade é pequena, por isso toda a gente se via muitas vezes”, lembra o comerciante. A imprensa são-tomense também recorda como “o seu percurso de dedicação ao trabalho” era “muitas vezes assegurado por uma motorizada que conduzia sobretudo na cidade de São Tomé”. E uma portuguesa residente em São Tomé, que conhecia Catarina, lembrou ao DN como a portuguesa andava “sempre na motinha dela para todo o lado”.

O trabalho de voluntariado junto dos mais pobres do país valeu a Catarina uma grande admiração por parte das comunidades são-tomenses. Um funcionário do hotel Mucumbli descreveu-a ao Correio da Manhã como “uma pessoa tão doce que nunca fez mal a ninguém”. “Uma parte de São Tomé está de luto. Aprendemos muito com ela, nunca haverá outra pessoa igual”, disse o mesmo funcionário.

Governo acompanha transladação de corpo de luso-são-tomense assassinada

O Observador tentou, sem sucesso, contactar o dono do hotel Mucumbli, o italiano Tiziano Pisoni, radicado em São Tomé e Príncipe há trinta anos. Ao DN, na última terça-feira, Pisoni tinha manifestado a surpresa e o choque provocados pela morte da portuguesa. “Isto caiu de repente, foi um choque. Surpreendeu tudo e todos. Estamos num sítio muito reservado e tranquilo mas nunca tivemos problemas”, afirmou o italiano. “Quase toda a gente a conhecia”, acrescentou o dono do hotel ao Diário de Notícias, lembrando como a portuguesa se dava “bem com toda a gente, estava sempre disponível” e continuava a fazer “voluntariado junto de crianças”.

"As pessoas aqui da zona norte ficaram mesmo muito revoltadas e queriam fazer justiça com as próprias mãos"
Responsável de restaurante na cidade de Neves

A morte de Catarina provocou uma profunda revolta na cidade de Neves. “Foi uma catástrofe. A população ficou tão revoltada que queria saber quem tinha feito aquilo. As pessoas aqui da zona norte ficaram mesmo muito revoltadas e queriam fazer justiça com as próprias mãos”, disse ao Observador o responsável do restaurante. Um vídeo entretanto disseminado através das redes sociais mostra o momento em que o suspeito foi detido pela polícia. Nas imagens é possível ver uma multidão a rodear os carros da polícia e a gritar “assassino!” contra o suspeito.

Homicida confessou crime

A detenção do funcionário do hotel Mucumbli surge no âmbito de uma investigação da Polícia Judiciária de São Tomé cujos resultados deverão ser em breve apresentados ao Ministério Público. Em declarações citadas pelo Correio da Manhã, a diretora da PJ, Maribel Rocha, confirmava que o suspeito “está sob custódia policial”, mas recusava avançar mais pormenores. “Neste momento ainda estamos a investigar”, acrescentou a responsável, confirmando que Catarina sofreu “vários golpes de catana” e que o local do crime “estava todo viciado” quando foi encontrado pelas autoridades — ou seja, outras pessoas tinham entrado e mexido no gabinete de Catarina antes da chegada da polícia.

Homicida confesso de portuguesa em São Tomé fica em prisão preventiva

Já nesta sexta-feira, depois de o suspeito ter sido presente a um juiz, a PJ reunia mais certezas. “Ontem [quinta-feira], nós já tínhamos a confissão do suspeito, mas desacompanhada de outros elementos necessários às provas. Hoje fizemos as diligências para apresentá-lo ao Ministério Público com provas suficientes”, afirmou a diretora da PJ, citada pela Agência Lusa, acrescentando que o caso “está esclarecido”. Se for condenado pelo crime de homicídio qualificado, o funcionário do hotel pode ser condenado à pena máxima, que em São Tomé e Príncipe é de 25 anos de prisão.

Enquanto a investigação decorre, multiplicam-se as homenagens a Catarina. Na quinta-feira, dezenas de portugueses e são-tomenses juntaram na Sé de São Tomé para uma missa de homenagem à portuguesa. Dali, o caixão de Catarina seguiu em cortejo fúnebre para o aeroporto internacional de São Tomé, onde foi colocado num avião com destino a Lisboa. O funeral celebrou-se nesta sexta-feira na capital portuguesa. Há também ações de homenagem agendadas para este fim de semana junto à embaixada de São Tomé e Príncipe em Lisboa.

"Ontem [quinta-feira], nós já tínhamos a confissão do suspeito, mas desacompanhada de outros elementos necessários às provas. Hoje fizemos as diligências para apresentá-lo ao Ministério Público com provas suficientes"
Maribel Rocha, diretora da PJ de São Tomé e Príncipe

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garantiu que o Governo português tem acompanhado o caso. “Estamos a acompanhar todos os procedimentos. Trata-se de uma cidadã luso-são-tomense e aplicam-se as regras próprias nessa situação”, afirmou Santos Silva à Agência Lusa. Em declarações citadas pelo Expresso, fonte oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros sublinhou que o caso estava “a ser acompanhado pela Embaixada de Portugal em São Tomé e Príncipe”. Também o Governo são-tomense condenou o crime, sublinhando, num comunicado citado pela imprensa do país, que o assassinato de Catarina foi “macabro e totalmente condenável pelo presente Governo e por toda a comunidade são-tomense”.

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