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Prestadores privados de apoio domiciliário pediram aos seus colaboradores que ficassem de "quarentena voluntária" nas casas dos idosos em situação de dependência física ou psíquica

PAULO NOVAIS/LUSA

Prestadores privados de apoio domiciliário pediram aos seus colaboradores que ficassem de "quarentena voluntária" nas casas dos idosos em situação de dependência física ou psíquica

PAULO NOVAIS/LUSA

Cuidadores partilham casa com idosos 24 horas para os proteger do surto

Há famílias a pagar mais de 2 mil euros mensais a empresas de apoio domiciliário para terem sempre alguém a cuidar dos idosos nas suas casas. Para quem não pode pagar, a CML lançou uma rede solidária.

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Há mais de uma semana que Maria Guiomar fechou a porta do seu T1 na linha de Sintra e se mudou para o centro de Lisboa, para a casa da idosa a quem prestava assistência domiciliária de segunda a sexta-feira, desde que a doença de Alzheimer a atirou para uma situação de dependência completa. Uma mudança temporária mas sem data certa de saída, sujeita à evolução da Covid-19. E visto que a pandemia pelo novo coronavírus se pode prolongar até Maio, não foi tomada de ânimo leve. “Já vivo sozinha há muitos anos. Tenho os meus hábitos e rotinas. Por isso, quando a família da idosa me pediu para ficar aqui a residir, e assim evitar os transportes públicos, fiquei sem reação. Mas se não aceitasse e fosse para casa, ia estar lá fechada. Aqui, sou útil”, justifica ao Observador.

À noite, no quarto que já foi das visitas e, agora, é seu, as horas custam a passar. A televisão é um consolo nos dias em que não fala por whatsapp com o filho, já criado e com vida própria. Durante o dia, o tempo foge-lhe. Cuidar de uma idosa com demência durante 24 horas por dia, sete dias por semana, além de ser uma “enorme responsabilidade” é também “desgastante”, assume Guiomar. Mais difícil é pedir-lhe para falar sobre o valor acordado com a família pela assistência domiciliária. A cuidadora evita dar um número certo mas não esconde que é um trabalho “bem pago” e que lhe vai permitir dar uma entrada para um carro novo. Até lá, o truque é viver dia a dia.

“Não posso entrar em pânico e começar a pensar que só vou sair daqui a um ou dois meses. Se aceitei esta responsabilidade foi porque decidi colocar a minha vida em espera e dar atenção a quem mais precisa”.

A história de Maria Guiomar está longe de ser uma exceção. Pelo contrário. Nas últimas semanas, e antecipando o crescimento exponencial de infetados por Covid-19, os prestadores privados de apoio domiciliário pediram aos colaboradores que ficassem de “quarentena voluntária” nas casas dos idosos em situação de dependência física ou psíquica. Desta forma, deixariam de utilizar os transportes públicos e de se expor a riscos desnecessários. Para Teresa Sobral, responsável pela empresa Pluriapoio, que presta apoio domiciliar a mais de 70 idosos na região da Grande Lisboa, esta é a única solução que permite “minimizar os riscos de contágio”.

Um regime de "clausura" a que os cuidadores também estão sujeitos. As idas ao supermercado ou à farmácia, por exemplo, não estão autorizadas. "Os bens essenciais, como produtos de higiene, alimentos ou medicamentos, são colocados à porta de casa. 

Apesar de a Covid-19 não afetar só os mais velhos, as estatísticas confirmam que a taxa de mortalidade é mais alta para as pessoas acima dos 80 anos com o sistema imunitário debilitado e morbilidades como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos ou respiratórios. O isolamento é a melhor forma de se protegerem. Isso mesmo frisou o primeiro-ministro, esta semana, após a reunião do Conselho de Ministros que delineou as regras que vão pôr na prática o Estado de Emergência decretado pelo Presidente da República. Aos idosos com mais de 70 anos é imposto um “dever especial de proteção” e só devem sair das suas residências em “circunstâncias muito excecionais” e quando “estritamente necessárias”.

Um regime de “clausura” a que os cuidadores também estão sujeitos. As idas ao supermercado ou à farmácia, por exemplo, não estão autorizadas. “Os bens essenciais, como produtos de higiene, alimentos ou medicamentos, são colocados à porta de casa. A cuidadora só tem de os recolher”, esclarece Teresa Sobral.

A medida avançada pela empresa não só teve a aprovação das famílias (em especial as que estavam a limitar as visitas para proteger os idosos) como foi bem recebida pelos colaboradores — à exceção das mães com filhos em idade escolar. Mas como a maioria tem entre os 55 e 60 anos, e não tem familiares a residir em Portugal, recursos humanos não faltam. E o tema do dinheiro volta a estar em cima da mesa. Num clima de grande instabilidade económica, com empresas a fechar portas e trabalhadores em lay off, o negócio do apoio domiciliário a idosos não pára de crescer, segundo o que o Observador conseguiu apurar. Com mensalidades que ultrapassam os dois mil euros, esta assistência personalizada é cara. Quando o idoso não tem condições financeiras para o pagar são as famílias que têm de assumir esses custos — e tantas vezes com “sacrifícios pessoais”.  O problema, como reconhece Teresa Sobral, é a falta de opções.

Neste caso, ou colocavam o idoso num lar privado, com uma mensalidade semelhante, mas com maior risco de contágio, ou conseguem tê-lo protegido na sua própria residência”.

E é por isso que nas últimas 72 horas o telefone da Pluriapoio não parou de tocar com pedidos de assistência. O mesmo se passa na Habicuidados, segundo confirma Manuel Fernandes, que está há 20 anos nesta área de negócio. Tanto assim é que a maioria destas empresas já só aceita o apoio domiciliário 24 horas/7 dias por semana. O que, segundo ainda Manuel Fernandes, é uma decisão que não está isenta de riscos. “Estamos a pedir aos mais velhos um grande esforço para a sua própria proteção. O isolamento não é fácil para as pessoas aguentarem. Nem para os cuidadores. E isto vai prolongar-se no tempo”.

“Ninguém é deixado sozinho”. CML promove rede para ajudar idosos isolados

Se alguns idosos contam com o apoio ao domicílio personalizado, a outros só resta a solidariedade. O que nesta fase não pode faltar. “Garantimos que ninguém é deixado sozinho”, afirmou Manuel Grilo, vereador do BE na Câmara Municipal de Lisboa (CML), no arranque da Rede Solidária de Lisboa (redesolidaria.pt), na passada sexta-feira. Esta rede consiste na identificação e organização de pessoas disponíveis para realizar tarefas solidárias para a população mais vulnerável — como pessoas idosas, com deficiência ou em isolamento domiciliário.

As tarefas solidárias vão desde a realização de compras, à entrega de refeições ou medicamentos, sem esquecer o passeio de animais domésticos. O município fornecerá toda a informação necessária para que as entregas sejam feitas em segurança e com o menor risco possível de contágio, garantindo distribuição de material de proteção a quem integre a rede. Um projeto à imagem do que já propõe o SOS Vizinho (que criou uma rede de distribuição composta por voluntários de todo o país) e outras iniciativas da sociedade civil.

Na Rede Solidária de Lisboa caberá à CML fazer a triagem das inscrições no portal e encaminhá-las para as juntas de freguesia, que por estarem mais perto da população vão ficar responsáveis pela atribuição de tarefas. Uma ajuda que Carla Madeira, presidente da junta de freguesia da Misericórdia, recebe de braços abertos. Com uma população envelhecida, residente no Bairro Alto, Santa Catarina ou Bica, já estão tomadas medidas para que a alimentação e o apoio ao domicílio nunca falte. Através do projeto Radar (cujo objetivo é identificar a população com mais de 65 anos de idade) as pessoas que estão em situação de isolamento ou mais vulneráveis estão sinalizadas, não só na zona da Misericórdia mas em toda a Lisboa, e por isso “ninguém vai ficar para trás”, garante Carla Madeira.

CML quer evitar as deslocações desnecessárias dos mais idosos. Com o lançamento da Rede Solidária há voluntários a levar alimentos ou medicamentos aos mais vulneráveis

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Além das refeições que são distribuídas pela junta, mais de cem todos os dias, muitos restaurantes já se voluntariaram para ajudar na confeção. Uma rede solidária que não é só para os mais carenciados. “É para quem precise e não tenha família. Ou não consiga já cozinhar”. Como uma idosa de 98 anos, que há vários anos contava com a ementa do restaurante perto de sua casa. Com o encerramento do espaço, foi sinalizada pelos funcionários da junta, e vai continuar a ter as refeições preparadas. Desta forma, mantém-se em casa, porque consegue viver com autonomia suficiente para não necessitar de ser colocada numa instituição. E esse é o objetivo de todas estas medidas implementadas na cidade: “Dar condições aos idosos para os manter em isolamento”, confirma Carla Madeira.

Além disso, as juntas e a própria CML mantêm contactos com os mais velhos através do serviço de teleassistência.  “Esse serviço vai-nos permitindo perceber o estado anímico destas pessoas”, garante Manuel Grilo, vereador da CML com o pelouro da Educação e dos Direitos Sociais. Também o primeiro-ministro apelou aos vizinhos, às juntas de freguesia e a outras entidades para que apoiem os idosos que precisam de ajuda.

Nas residências da Santa Casa onde vivem 497 utentes, não foram registados casos de Covid-19 e estão a ser adotadas "todas as medidas preventivas recomendadas pelas autoridades de saúde, de modo a salvaguardar os utentes e colaboradores"

Santa Casa diz-se “preparada para dar uma resposta eficaz”

Uma dessas entidades é a Santa Casa da Misericórdia. Ao Observador, a instituição confirma por escrito que “encerrou todos os seus centros de dia e suspendeu as visitas aos lares de idosos e às suas unidades de cuidados continuados”, seguindo as recomendações da Direção-Geral de Saúde. E até ao momento, nas residências permanentes e assistidas onde vivem 497 utentes, não foram registados casos de Covid-19 e estão a ser adotadas “todas as medidas preventivas recomendadas pelas autoridades de saúde, de modo a salvaguardar os utentes e colaboradores, assim como reduzir os riscos de contágio”, frisa a instituição. No entanto, e caso seja detetada uma situação de Covid-19, a Santa Casa diz-se “preparada para dar uma resposta eficaz”.

Já Rui Fontes, presidente da Associação Amigos da Grande Idade, antecipa uma “desgraça” caso seja detetado um caso de infeção por Covid-19 num lar. Em declarações à Rádio Observador, que pode ouvir aqui, avançou com esta estimativa: “Pelo menos 40% dos idosos morre se o vírus entrar num lar”.

O cenário é assustador mas não anda longe do que tem sido noticiado a partir de Madrid. Apesar de as autoridades locais terem encerrado 213 lares de idosos e centros de dia no início de Março, num esforço para mitigar o contágio do novo coronavírus entre a população mais vulnerável, isso não impediu a morte de 19 idosos, na terça-feira, no lar Monte Hermoso. E na quinta-feira, um novo surto de infeção no lar de idosos Santíssima Virgen e San Celedonio fez 11 mortos e 34 infetados. Entre as vítimas, cinco eram casos confirmados e os restantes aguardavam confirmação. Segundo dados do El País, até agora já morreram 70 idosos em lares na capital espanhola.

Em Belas, no concelho de Sintra, soube-se este sábado que dez utentes da Casa de Saúde da Idanha estão infetados com o novo coronavírus. De acordo com o presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, naquele concelho estavam registados “20 casos, dos quais dez estão neste lar” mas a situação já estava a ser monitorizada pela Câmara e pelas entidades de saúde. O autarca explicou ainda que o lar foi imediatamente desinfetado e foram feitas análises a todos os utentes e trabalhadores depois de serem detetados dois casos de infeção.

Em Vila Nova de Famalicão, também este sábado, foi sinalizado um lar privado com 33 utentes que está sem funcionários a trabalhar, depois de oito terem testado positivo para a Covid-19. De acordo com a proprietária da Residência Pratinha, Teresa Pedrosa, os 18 funcionários daquele equipamento estão “com teste positivo ou em quarentena”, estando os 33 utentes a ser acompanhados por ela, “que está grávida”, e uma enfermeira. Perante este cenário, só lhe restou pedir ajuda: “Queremos que reintegrem os utentes ou nos arranjem pessoas para nos ajudar”. Os familiares dos utentes começaram, então, a receber chamadas da delegada de saúde de Vila Nova de Famalicão para que acolhessem os idosos porque não havia “outra solução”.

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