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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como se dá um concerto na era Covid: estivemos com Os Quatro e Meia em Coimbra /premium

A banda portuguesa tem novo disco, "O Tempo Vai Esperar". Estivemos com eles nos bastidores de um concerto em Coimbra e contamos-lhe tudo: do soundcheck, do jantar, do ambiente nos camarins.

Não era o nervosismo que destoava dos soundchecks habituais. Por mais que aquela fosse uma atuação importante para os portugueses Quatro e Meia, o concerto de apresentação em primeira mão de um novo álbum — ainda para mais num importante auditório de uma cidade que os juntou quando começaram e que funciona como espécie de quartel-general a músicos de moradas diferentes —, faltavam ainda mais de quatro horas para o espectáculo e o ambiente era calmo, sem tensão. Os ingredientes novos eram outros: as máscaras e desinfetantes omnipresentes e uma duração nada usual para um habitual ensaio de som.

Estávamos a meio da tarde do dia 22 de setembro, uma terça-feira, nas vésperas de edição de O Tempo Vai Esperar, o segundo disco da banda pop — que na verdade já não são só, como no início do projeto, quatro rapazes de estatura normal e um “meia-leca”, mas antes “Cinco e Meia”.

De auriculares nos ouvidos, cada um numa plataforma própria, os Quatro e Meia iam começando no Convento São Francisco, em Coimbra, um teste de som que não foi só um teste de som. Da direita para a esquerda estavam Pedro Figueiredo (bateria e outras percussões), o “meia” Rui Marques (contrabaixo e baixo), Tiago Nogueira (voz e guitarra), Ricardo Liz Almeida (voz e guitarra) e João Cristóvão (violino e cordas). Só faltava Mário Ferreira, o último a chegar, que se juntou mais tarde ao soundcheck em andamento — e os Red Bull em que pegaria antes do concerto denunciariam o pouco descanso…

O soundcheck dos Quatro e Meia no Convento São Francisco, em Coimbra, não foi apenas um teste de som — serviu quase de ensaio, com a banda a testar várias ideias

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A duração longa do ensaio explica-se rapidamente. Por um lado, este seria um concerto com muitos temas novos, o que obrigava a mudanças na conceção do espectáculo (pensado, como percebemos, ao pormenor). Por outro, o tempo que os seis Quatro e Meia têm para ensaios é pouco, porque apesar de já terem enchido Coliseus e de terem chegado ao topo da tabela de vendas de discos em Portugal, todos conciliam profissões a tempo inteiro com a música: há médicos (três), um engenheiro civil, um web designer e um professor de violino.

Não é de estranhar portanto que quando pegam nas trouxas e se fazem à estrada no fim-de-semana, para ir dar concertos a algum lado, os seis elemento da banda aproveitem os testes de som para um pouco mais do que provas técnicas. Mas neste caso tudo isso aconteceu ainda mais: “Este foi o soundcheck mais longo que tivemos em muito tempo”, haveria de dizer-nos mais tarde Rui Marques. “Porquê? Estávamos aqui a testar algumas coisas para o conceito que tínhamos pensado para o concerto. Estávamos a tentar encenar algumas coisas, a perceber se poderiam resultar. Ensaiar no próprio sítio onde vamos fazer o concerto é outra história…”

A duração do teste de som também se deve à difícil gestão de tempo da banda para ensaios: os seis conciliam trabalhos (são médicos, engenheiros, web designers, professores de música) com a banda

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É claro que o soundcheck também teve a componente tradicional de teste técnico. A alguns metros, de máscaras colocadas na cara — só a banda estava sem máscara, para cantar e tocar —, técnicos de som e luz iam ouvindo e respondendo às indicações da banda. E os próprios músicos iam verificando a afinação e o som que emanava dos instrumentos e que lhes chegava aos ouvidos, enquanto o “meia” Rui ia filmando e registando o andamento do ensaio, com um telemóvel e o chamado “pau de selfie” para a gravação.

Há coisas que não mudam mesmo em tempo de pandemia para os Quatro e Meia. Como o baterista, Pedro Figueiredo, pedir afinações no soundcheck, exemplificando a pequena alteração que quer ver no som: “Reparem, quando faço isto…”. Ou o guitarrista e vocalista Tiago Nogueira ensaiar uns passos de dança, já com som de violino e bateria a ouvir-se no Convento São Francisco. Ou os papéis com o alinhamento escrito que cada um tinha no chão, enquanto se testavam as canções. Nada disto resulta dos tempos Covid.

Pelo palco, em torno da banda, iam circulando ocasionalmente alguns dos elementos da vasta comitiva de técnicos. Sempre de máscaras colocadas, mas vestindo t-shirts em que nas costas se lia a inscrição “Quatro e Meia team”. Os detalhes técnicos apuravam-se, “vou baixar um bocadinho o teu baixo”, “consegues cortar este efeito aqui?”, o contrabaixista e baixista Rui Marques balbuciava umas palavras para verificar o microfone (“teste, ok”).

Os detalhes técnicos afinavam-se aqui: ouvia-se "vou baixar um bocadinho o teu baixo", "consegues cortar este efeito aqui?" ou "a guitarra do Ricardo está muito alta"

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O baterista, Pedro, pedia: “Malta, vejam só mais os tempos”. E eis que chegava Mário Ferreira, de mochila às costas, a colocar os auriculares nos ouvidos e a testar acordeão e teclados para recuperar o tempo perdido. Não foi preciso muito para o vermos como protagonista, de pé e a cantar “p’rá frente é que é Lisboa” (da canção com o mesmo nome, incluída no disco anterior).

Momentaneamente com a guitarra à tiracolo, silenciada, Tiago Nogueira ia acompanhando o acordeão de Mário com palmas. A banda parecia já entrosada e embalada, com todos a tocarem e a mostrarem que esta pop é feita de uma massa pujante de vários sons que dialogam entre si. Tiago, porém, ainda estava reticente com o som da guitarra: “O som ainda não está bem para mim”, queixava-se. E mais tarde seriam de Mário Ferreira as queixas: “Para mim a guitarra do Ricardo está muito alta”.

O soundcheck estava a ser tão aproveitado para troca de ideias que, mais ao centro, Ricardo Liz Almeida ia exemplificando ao outro vocalista e guitarrista, Tiago Nogueira, “uma coisa nova, vê lá se gostas”. E das colunas, ouvíamos logo a seguir um anúncio que parecia uma piada momentânea, apenas feita no decurso do soundcheck, mas que perceberíamos mais tarde estar a ser preparada para o concerto: o aviso habitual de silenciamento dos telemóveis e de proibição de captação de sons era desta vez substituído por uma mensagem em que se davam instruções aos espectadores que sabiam “o nome do arquiteto responsável pela Torre do Tombo” ou que calçavam “sapatilhas amarelas com atacadores roxos”.

A descontração era ainda a nota dominante — e seria sempre ao longo do resto da tarde, ao jantar e nos breves minutos que antecederiam a entrada em palco. Não significa que os vários momentos dos concertos não sejam preparados ao detalhe, “coreografados” quase cena a cena, significa só que apesar do sucesso e da popularidade, estes seis rapazes não se levam demasiado a sério.

Não há, claro, boa disposição sem exceções e pequenas desavenças momentâneas que não chegam a discussão são inevitáveis. Aconteceu por exemplo quando Mário Ferreira deu uma sugestão “que podem achar completamente louca”, que era “fazer o som” — testar o som — desde início. Não teve sucesso, como se percebeu pela resposta: “Nós ‘tamos a ver a entrada disto, ó Mário. O que é que isso tem a ver? Temos de ver os timings“. E há sempre uma altura em que é preciso, como numa equipa desportiva, reunir tropas e apelar ao foco, ao profissionalismo: “Malta, vamos lá fazer isto concentrados, em bloco”.

Os vários momentos do concerto são planeados pela banda quase cena a cena, com descontração mas com cuidados profissionais

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“Hey Jude”, um autocarro alugado e cantoria à mesa

O concerto era às 21h30 e, com a longa duração de um soundcheck que começara por volta das 16h, já se contavam os minutos para o jantar que antecederia o espectáculo, num restaurante na baixa de Coimbra.

No interior do camarim da banda, o local onde poderiam estar à vontade sem uso de máscara, os seis elementos d’Os Quatro e Meia aproveitavam os breves minutos que tinham disponíveis para gravar e enviar um vídeo a uma fã.

"Olá Maria": no camarim, depois do soundcheck e antes do jantar, os Quatro e Meia aproveitaram para gravar uma mensagem para uma fã

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Já se ouviam palavras de ordem como “vamos comer” e “vamos jantar pessoal”, mas o vídeo ainda se gravou. Juntinhos, testavam o primeiro take: “Olá, Maria. Nós somos os [a seguir em coro] Quatro e Meia”, mas os risos interrompiam a tentativa. Lá para o terceiro take a coisa fez-se:

“A tua amiga Marta disse-nos que costumas ter-nos como banda sonora e que estás com muita pena de não teres podido estar presente no lançamento do novo disco, mas estamos aqui para te dizer que não estamos esquecidos disso e esperamos poder ver-te em breve num concerto. Tchau aí, beijinhos”.

Não sem graçolas a propósito da formulação da despedida: “Tchau aí, fica bem, abraços para o pessoal… se me dissessem tchau aí, não sei não”.

A deslocação para o jantar fez-se de modo pouco convencional até para eles, habituados a estar na estrada, mas a opção não teve nada a ver com a pandemia que muda a dinâmica das digressões e concertos. À saída do Convento São Francisco, um autocarro alugado esperava a banda e a sua vasta comitiva para os transportar a todos para uma cervejaria na Rua Ferreira Borges.

A viagem foi curta, durou menos de dez minutos, mas não havia grande tempo a perder com caminhadas — e Tânia Lindo, road manager que tem um papel decisivo na coordenação de toda a agenda e passos do grupo quando em viagem, esforçava-se por garantir que os horários eram cumpridos (“bora lá, vamos!”). Não havia sequer tempo para grandes paragens e ao passarem por um saxofonista que tocava a canção dos Beatles “Hey Jude” na Rua Ferreira Borges fez-se uma espécie de dueto em andamento, com banda a cantar sem travar o passo.

A viagem da sala de espectáculos para o restaurante onde decorreu o jantar foi feita num autocarro alugado, com as máscaras faciais omnipresentes

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Ao chegar à cervejaria, uma surpresa: no interior do restaurante ouviam-se através das colunas canções dos Quatro e Meia. “Epá, os gajos estão a passar o CD”, dizia um dos muitos que, à mesa, envergavam uma t-shirt com a inscrição “Quatro e Meia Team”. “Esta nem é a malta toda que anda connosco na estrada. Há uns que vão trocando entre eles”, contava Rui Marques, pouco impressionado com a ocupação de todo um piso superior da cervejaria.

Já sentados para matarem a fome — todos pediram carne —, ouviam-se queixas tal como no soundcheck, mas desta feita por motivos diferentes. “É mal jogado o Ricardo ficar ao pé de mim. É o único gajo que abre tanto as asas como eu”, lamentava Mário, meio a sério meio a brincar.

À mesa estava também João Só, músico e produtor com muitos discos no currículo e que produziu o novo disco da banda. Tinha partido de Lisboa para este concerto especial, no qual acabou por participar também, cantando um tema com o grupo em palco.

Após discussões alheias sobre a qualidade capilar de cada um dos Quatro e Meia — “aquele está sempre impecável, o outro até traz laca” —, após o ataque aos bitoques e a derivados à mesa, veio o momento das cantorias.

Na Rua Ferreira Borges, à chegada ao restaurante, um saxofonista tocava na rua o tema "Hey Jude", dos The Beatles. Sem travar o passo (o tempo apertava), a banda acompanhou a música cantando

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De pé, com uma t-shirt da banda vestida e com um copo na mão direita, João Só alinhava no momento musical com os músicos a que chama “amigos”. O tampo da mesa servia para percussão, o estalar de dedos funcionava como marcação do compasso, bem alto cantava-se “Sabes Bem”, canção nova que não é single mas poderia ser, tal o potencial do refrão a tornar mais um êxito pop, bombom açucarado para derreter corações.

E cantava-se “O Tempo Vai Esperar”, canção que dá título ao disco e que esse sim é single (certeiro). Se a receita musical da banda é hoje mais completa, menos acústica, à base de uma quantidade maior de instrumentos que criam um som mais pujante, o truque para o sucesso continua a ser o mesmo: as melodias pop bem cantadas, as harmonias vocais entre os diferentes membros da banda e os refrões simples que não saem do ouvido.

O ambiente era este: mais de 20 pessoas no piso superior de um restaurante e seis marmanjos de uma banda que parecem tudo menos vedetas da pop, a cantar — uns de pé, outros sentados — com gosto, à procura de harmonias vocais e de se divertirem por um bocado antes de um concerto.

O que não escapa às piadas é o engano, o momento em que a voz falha e a memória se esquece dos versos. “É vergonhoso, um gajo que produziu o disco e não sabe uma música!”, dizia um falsamente indignado Mário, com riso estampado no rosto, na direção de João Só.

João Só, produtor do novo disco (no canto superior esquerdo, com uma t-shirt alusiva à banda), juntou-se para o jantar e para o concerto

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Já os ponteiros do relógio se aproximavam das 21h quando a comitiva voltava toda a entrar no autocarro alugado, que os levaria de volta à sala de concertos. “Isto parece a excursão da escola”, brincava Tiago Nogueira, antes de haver quem se encarregasse da tarefa de dizer piadolas humorístico-religiosas:

“Vamos iniciar a viagem ao santuário de Fátima. É a primeira vez que vão ouvir São Mateus em direto a partir de um autocarro… queria agradecer ao pároco Daniel o convite que me fez para estar aqui. Senhor pároco, estava reparando que esta é provavelmente a viagem de autocarro mais curta que já fiz”. E ainda se indignava com aqueles que hoje, em 2020, “estão na quaresma e querem comer bifanas”. Isto “já não há cristãos como antigamente”.

Eram 21h03 quando os Quatro e Meia — se quiséssemos ser precisos os Cinco e Meia — voltavam ao camarim. Do frigorífico tiravam-se algumas cervejas e de nervosismo a meia hora do concerto nem sinal, só descontração: “Tive eu de descobrir onde é que estava a cerveja. Eu sabia que valia a pena vir…”, brincava um dos rapazes (não vamos denunciar).

A boa disposição foi o clima dominante durante todo o dia — à esquerda, Pedro Figueiredo (baterista) ensaiava um momento humorístico na viagem de regresso ao Convento São Francisco, depois do jantar

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Já num banco lateral no interior do camarim, Rui abria o saco com o seu fato — todos despiriam a roupa descontraída de fim-de-semana para se vestir a preceito — e tirava a gravata. E avisava os restantes: “Malta, a Tânia [Lindo] disse que era para nos vestirmos já”. A própria road manager apareceria segundos depois para alertar: “Meninos, atenção às horas”.

Por essa altura, apareceu um primeiro problema prontamente resolvido: “Alguém sabe fazer nós de gravata?”, perguntava Ricardo Liz Almeida, vocalista e guitarrista. Por sorte João Só, que assistiria ao concerto na plateia (lotada), dominava a arte de fazer um nó de gravata. Mais complicado era a ausência de um colete, de que Ricardo se esquecera — e de que se aperceberia ter-se esquecido apenas às 21h20, a dez minutos do concerto. “Fui à lavandaria mas não tenho aqui o colete, devo ter-me esquecido em casa”, lamentava. Nada que não se resolvesse com uma ligeira troca de figurino.

Haverá poucos momentos melhores para ficar a conhecer um músico do que nos instantes antes de entrar em palco. Percebe-se aí rapidamente quem é nervoso e quem é descontraído, quem lida mal — com mais ou menos experiência — com os holofotes e quem está como peixe na água a tocar para muita gente.

Não deve haver muitos grupos da pop tão descontraídos como os Quatro e Meia. Diziam-se piadas — “está meia banda na casa de banho, if you know what I mean”. Constatavam-se factos: “Tocar bateria com sapatos novos é uma merda, são duas coisas que não se fazem: tocar bateria com sapatos novos e ir a pé a Fátima com sapatos novos”. Gozava-se com o cansaço de quem é capaz de ter tido uma noite agitada na véspera: “Dois Red Bull, Mário? Bebe antes uma cerveja, pá, até te faz melhor”. E cantava-se “Taras e Manias” de Marco Paulo, “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho e “Chamar a Música” de Sara Tavares.

"Quem sabe fazer um nó de gravata?", perguntava Ricardo. João Só foi auxiliar o vocalista e cantor dos Quatro e Meia, que trocavam de roupa para o concerto

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No instante final, decisivo, antes da banda entrar em palco, foi Ricardo Liz Almeida a assumir a liderança. Juntou todos no camarim e começou a rever alguns detalhes que era importante lembrar, para o concerto que se seguiria. Ou, como ele próprio disse, “malta, vamos lá ver aqui uma coisa rápida em termos de alinhamento”.

Ultimava-se tudo: primeiro vinha a falsa mensagem que parecia ser da DGS, mas afinal falava de arquitetos da Torre do Tombo, de sapatilhas e de atacadores roxos; depois simulavam-se os bastidores do final do concerto, com uma conversa entre os elementos da banda sobre a atuação ter corrido bem (“então para o que ensaiámos…”) e sobre alguns detalhes do espetáculo, que terminava com um brinde, antes do concerto efetivamente começar.

Confuso? É só uma banda que se debate com falta de tempo — e com a escolha de todos, assumida, de se dedicarem à música apenas nos tempos livres — a apropriar-se das reflexões sobre o que é o tempo incluídas no novo disco para confundir espectadores. Afinal estamos no início ou no fim do espectáculo? Que ilusão é esta?

Antes da pequena encenação, Ricardo dava as últimas orientações: “Não se esqueçam: a seguir à ‘Manta do Teu Coração’ temos conversa, depois é que vem a ‘Canção do Metro’. Falo ali um bocadinho, faço os agradecimentos. Na ‘Coisas Tão Bonitas’, fazemos volta e meia de refrão para puxar pelo público. E no final, na primeira saída, saímos pela direita, pelo lado onde entrámos. Quando voltarmos, voltamos para o encore, com a ‘Pontos nos Is’. Depois a mesma coisa, exatamente igual: vamos à frente, fazemos a vénia, agradecemos, saímos…”.

Minutos do concerto ainda houve tempo para algumas cervejas, para desanuviar o ambiente

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O concerto foi o que se esperava: sala lotada, gente a cantar e nitidamente com dificuldade em manter-se preso à cadeira, casais derretidos com esta pop ternurenta e portuguesa, gritos e entusiasmo logo na receção à banda, depois de uma leitura (não cantada) da letra da canção “O Tempo Vai Esperar”.

Quem ali estava a assistir à primeira apresentação ao vivo do novo disco dos Quarta e Meia tinha comprado antecipadamente o álbum sem o conhecer. Ricardo Liz Almeida fazia questão de destacar isso mesmo nos cumprimentos iniciais: “Boa noite. Que gosto enorme voltar a fazer um concerto aqui. Vocês, os 470 que aqui estão, compraram o CD à maluca, feitos doidos. Vocês é que sabem…”, afirmava, antes de falar deste “tempo muito estranho” em que ainda assim “mantemos os olhares e a música” como forma de contacto.

Mais à frente, as palavras regressam como agradecimento aos técnicos, que estiveram muitos meses sem poder trabalhar por paralisação do setor dos espectáculos ao vivo. Mas o pico de entusiasmo cresceu com “Canção do Metro”, mais um tema novo que tem um refrão que se aloja nos ouvidos e no cérebro quase instantaneamente — e que deu à banda a primeira grande ovação da noite.

Pediu-se um aplauso para João Só e encenou-se alguma surpresa — “estás aí na plateia? Tinhas comprado bilhete…” —, cantou-se a nova “Coisas Tão Bonitas” (escrita e gravada já depois confinamento, quando o disco parecia terminado e pronto a editar) que até permitiu voltinhas de dança ao baterista e agradeceu-se “à câmara” de Coimbra, ao “Convento de São Francisco” e à agência e editora (Sony Music), que “em 2015, quando nos conheceram, fizeram uma grande aposta” na banda. “Ainda hoje não sei porquê… até aí éramos conhecidos aqui em Coimbra, mas a mão deles levou-nos para um patamar completamente diferente”, assumia e rematava Ricardo Liz Almeida a partir do palco, entre canções.

Se em alguns momentos a banda parece uma boy band à antiga, todos aprumados e com cantorias açucaradas — quando cantam “Sabes Bem” ao vivo, é difícil não vermos ali quase um grupo coral pop, com ginga na pose e tudo — as piadas são terra a terra: “o Ricardo normalmente canta a voz principal porque é o mais bonito”, brincava-se.

Quando se convidou João Só para subir a palco, lembrou-se que “ele é produtor do disco, tem a obrigação moral de saber as músicas todas”. Mas o produtor não se ficou e devolveu as piadas, dizendo que “só neste país é que três médicos são músicos” antes de pedir “uma grande salva de palmas para estes grandes músicos e amigos em cima do palco, que o disco deles seja um grande sucesso”.

Já em palco e com público presente, a banda atuou para um Convento São Francisco lotado

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Quando João Cristóvão largava o violino e pegava na guitarra acústica, dizia-se que “nesta música é autorizado a tocar um instrumento de jeito”. Quando para cantar “Bom Rapaz” faltou Carlão, um dos dois convidados vocais do disco a par de Tatanka (dos Black Mamba), a piada consistia em Rui Marques, “Ruizinho”, o “meia-leca” de Carregal do Sal, fazer de substituto. E quando se falava em “lançamento” de um disco, ensaiava-se um novo desporto que consistia em lançar um CD, atirado de um ponto ao outro do palco e recebido com sucesso pelo “guarda-redes” Mário Ferreira. Não sem antes terem pedido educadamente autorização à editora.

Os Quatro e Meia, que depois simularam o final para um primeiro encore e ainda repetiram a dose, parecem muito isto: uma banda de seis tipos que todos os fãs veem como “porreiros”, bem dispostos, descontraídos, bons rapazes, “gente normal” como cunhava recentemente um jornal diário português. Fora dos palcos, nos momentos mais descontraídos ou de maior stress, a verdade parece bater certo com a pose. Deem-lhes só uma cervejaria, tampos de mesa para servir de compasso e companhia de amigos e vão ver se não acaba tudo a cantar.

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