Se há uns anos dissessem ao músico português Samuel Martins Coelho que em 2021 estaria a lançar o seu segundo disco a solo tendo o violino como instrumento principal, talvez ouvissem uma gargalhada como resposta. E se o tentassem convencer que isso era mesmo verdade, que a 9 de abril de 2021 lançaria através da editora Lovers & Lollypops (como fará) um disco chamado Cura, sucessor de Partita para Violino Solo (2019), é provável que ele desconfiasse dos dons premonitórios do adivinho.

Durante anos, Samuel foi mantendo com o violino uma relação complexa: ia-o tocando em grupos de que fazia parte — formações “com mais pessoas”, onde estava “mais seguro” — mas não se imaginava sequer a tocá-lo assim, sozinho, mais “exposto” e sem a rede de um coletivo ou uma orquestra a sustentá-lo.

A relação com o instrumento, de que se serviu agora para um disco em que aprofunda a fuga aos cânones clássicos, foi uma relação que durante anos se alimentou de reverência, prazer e temor. Era uma das muitas inseguranças de um músico que até há pouco nunca se permitira expor a um risco tão grande quanto o que agora corre: errar, falhar a nota e lidar com a exposição solitária da imperfeição.

Bem vistas as coisas, o problema que Samuel Martins Coelho tinha com a ideia de tocar violino a solo era um problema que tinha consigo: “Achava que não era digno de o tocar”, conta ao Observador por telefone, numa conversa a propósito deste novo álbum. “Toco muitos instrumentos, construo muitos instrumentos, crio som a partir de objetos. Mas o único instrumento que tinha medo de tocar era o violino”, acrescenta.

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