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Especialistas confirmam o aumento de casos em Portugal, mas esperam uma situação mais controlada graças à vacinação e ao reforço nos mais idosos
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Especialistas confirmam o aumento de casos em Portugal, mas esperam uma situação mais controlada graças à vacinação e ao reforço nos mais idosos

Corbis via Getty Images

Especialistas confirmam o aumento de casos em Portugal, mas esperam uma situação mais controlada graças à vacinação e ao reforço nos mais idosos

Corbis via Getty Images

Crise política coincide com agravamento da Covid-19. Mil casos na próxima semana, pressão hospitalar atenuada pela 3ª dose

Aumento de casos em quem tomou Janssen ameaça complicar revacinação nos próximos meses. Mais infeções e pressão hospitalar em paralelo com uma crise política não preocupa. Nada será como há um ano.

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A crise política deve coincidir com uma fase de agravamento, ainda que lento e progressivo, da crise sanitária desencadeada pela pandemia de Covid-19. Portugal deve chegar aos 1.000 casos já na próxima semana — atirando a incidência a 14 dias por 100 mil habitantes para lá do marco dos 120 casos — e aos 2.000 casos na terceira semana de novembro, se a taxa de crescimento se mantiver com a tendência atual. O país fica cada vez mais fora do quadrante verde da matriz de risco.

É "mau" se o R(t) nacional, métrica que diz quantas pessoas alguém infetado pode contagiar, ultrapassar o valor de 1,1, classifica Carlos Antunes, engenheiro geofísico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que trabalha na monitorização da epidemia. E é "grave" se permanecer acima de 1 muito tempo — o que já está a acontecer há cerca de duas semanas.

Por enquanto, continua longe do horizonte a possibilidade de se atingir a linha vermelha estabelecida na última atualização ao quadro orientador do Governo — os 480 casos. Tirando a temperatura ao futuro epidemiológico do país até ao fim do ano, os especialistas consultados pelo Observador preveem uma evolução positiva: mesmo que o número de casos chegue aos quatro dígitos, seria preciso uma incidência de 550 casos a 14 dias por 100 mil habitantes (ou seja, mais de 4.000 casos diários) para a situação se tornar preocupante.

Só nesse caso se atingiriam as 255 camas ocupadas por doentes com Covid-19 nas unidades de cuidados intensivos e os 20 óbitos por Covid-19 por milhão de habitantes (o equivalente a um número diário de 200 vítimas mortais) — duas das linhas vermelhas estabelecidas pelo Governo, após ouvir os peritos, para considerar extrema a pressão da epidemia sobre o Serviço Nacional de Saúde.

Apesar do otimismo dos peritos, nomeadamente com o reforço vacinal aos mais idosos e vulneráveis, não há certezas sobre a durabilidade desse controlo ao longo dos próximos meses de crise política: é “mau” se o R(t) nacional, métrica que diz quantas pessoas alguém infetado pode contagiar, ultrapassar o valor de 1,1, classifica Carlos Antunes, engenheiro geofísico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que trabalha na monitorização da epidemia. E é “grave” se permanecer acima de 1 muito tempo — o que já está a acontecer há cerca de duas semanas.

O que vai conservando a tranquilidade dos peritos é que, “como estamos com números baixos, é preciso muito até o aumento ganhar força”, explica o especialista. A isso junta-se o facto de serem precisos números muito superiores para desencadear o caos de há um ano, uma vez que as vacinas têm capacidade de evitar o surgimento de tantos quadros clínicos severos. E, por último, o “efeito de almofada” que se espera da distribuição de doses de reforço pela população mais fragilizada, que evitará ainda mais a chegada de casos graves aos hospitais.

Mas para se descobrir a sustentabilidade da situação epidemiológica já não basta olhar para a matriz de risco, que terá de ser despromovida a um simples referencial, defende Carlos Antunes, que participou na atualização dela em julho. Vai ser necessária uma análise mais fina, regressando à leitura dos dados a nível local — as regiões Centro e Alentejo devem ser as mais vulneráveis por terem uma maior porção de população idosa e uma maior concentração de lares de idosos, aumentando a probabilidade de detetar surtos —; e identificando também as tendências em cada faixa etária e por cada sexo. Então, o que diz essa análise sobre o que podem esperar os portugueses da Covid-19 ao longo da crise política?

Especialistas esperam mais pressão sobre hospitais

A incidência tem estado a subir por arrasto do índice de transmissibilidade. Todas as contas, incluindo as das autoridades de saúde (neste caso, a Direção-Geral da Saúde e Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge) confirmam que essa linha vermelha do Governo já foi atingida quando, há quase duas semanas, ele suplantou 1. Quase dois anos de pandemia já ensinaram a todos o que isso significa: um inevitável aumento dos casos se nenhuma nova medida for aplicada para colocar água na fervura.

Embora a incidência nacional esteja longe dos 120 casos em 14 dias por 100 mil habitantes — o relatório de situação desta quarta-feira aponta para os ​​94,8 casos —,uma análise mais fina à média de casos nos últimos sete dias revela o salto que a situação epidemiológica está a sofrer: o país passou de uma média semanal de 667 casos diários na quarta-feira passada, 20 de outubro, para quase 770 apenas sete dias mais tarde. É por isso que, para Manuel Carmo Gomes, epidemiologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, “temos um aumento que a certa altura vai começar a ser claro e a ter impacto nos hospitais”.

Neste momento, Portugal regista um aumento nos internamentos de indivíduos com Covid-19 há três dias consecutivos. E apesar dos 316 hospitalizados continuarem a ser metade dos internamentos que se verificaram em agosto, depois do decréscimo que marcou o fim do verão e início do outono, a tendência será de um aumento nos próximos dois meses — porque mais casos vão traduzir-se em mais pressão sobre hospitais — e depois uma estabilização dos casos em internamento, tanto em enfermaria como em unidades de cuidados intensivos.

Mas os jovens entre os 10 e os 29 anos continuam a ser o motor da epidemia de Covid-19 em Portugal, sobretudo os estudantes universitários, com 18 a 25 anos. Nessa faixa etária, a incidência é 87% superior entre os indivíduos do sexo masculino do que nos indivíduos do sexo feminino. E o fenómeno repete-se, ainda que em menor escala, entre as pessoas com 30 a 39 anos de idade.

Aliás, Carlos Antunes diz que isso já está a acontecer: “Temos assistido a um aumento muito rápido no número de pessoas com 80 anos ou mais nas enfermarias”, confirma, baseando-se nos dados a que tem acesso direto pelas autoridades de saúde. Neste momento, a faixa etária acima dos 70 anos representa 70% dos internados em enfermaria e 60% dos doentes nos cuidados intensivos. Os restantes têm quase todos entre 50 e 69 anos.

Da mesma forma, os óbitos continuam a verificar-se quase exclusivamente nos idosos a partir dos 70 anos — os outros tendem a ter uma evolução benigna dos seus quadros clínicos — e a esmagadora maioria está vacinada contra a Covid-19. Não é de estranhar, sublinha Manuel Carmo Gomes: com a vasta cobertura vacinal em Portugal, torna-se mais provável que os infetados (e as vítimas mortais da Covid-19) tenham sido vacinadas; nenhuma das vacinas tem uma eficácia de 100%; e sabe-se que elas são menos eficazes em pessoas com o sistema imunológico menos robusto, como é o caso dos idosos.

Doses de reforço e casos entre jovens amortizam pressão nos hospitais

Mas os jovens entre os 10 e os 29 anos continuam a ser o motor da epidemia de Covid-19 em Portugal, sobretudo os estudantes universitários, com 18 a 25 anos. A tendência é clara nas folhas de cálculo de Carlos Antunes: no início de outubro, o regresso das praxes, a reabertura dos bares e discotecas e a reorganização de festas académicas culminou num aumento na incidência nesta porção da população. Mas com uma surpresa adicional que pode tornar ainda mais intrincada a imunização dos portugueses contra a Covid-19: nessa mesma faixa etária, a incidência é 87% superior entre os indivíduos do sexo masculino do que nos indivíduos do sexo feminino. E o fenómeno repete-se, ainda que em menor escala, entre as pessoas com 30 a 39 anos de idade.

A vacinação extra de quem recebeu a vacina da Janssen seria mais uma camada de complexidade na crise sanitária — e mais um fator a gerir em plena crise política —, mas também pode ser uma esperança. Manuel Carmo Gomes acredita que a distribuição de doses de reforço pode suavizar os efeitos do expectável aumento geral dos casos de Covid-19.

O engenheiro só encontra uma explicação para os homens estarem a ser mais infetados do que as mulheres, apesar de terem o mesmo nível de contactos, e de tudo isso acontecer em duas faixas etárias com hábitos sociais distintos: o facto de ter sido nestas duas faixas etárias que mais vacinadas da Janssen, que são também menos eficazes do que as restantes, foram administradas a homens — recorde-se que a porção de mulheres inoculadas com esta vacina foi muito pequena depois de ela ter sido desaconselhada na sequência da identificação de efeitos secundários adversos raros, mas mais comuns no sexo feminino.

Segundo Carlos Antunes, se esta distinção persistir, as autoridades de saúde devem ponderar a colocação em marcha nos próximos meses de um plano que já tem sido mencionado desde o início da campanha de vacinação: o reforço com uma segunda dose de quem apanhou a vacina da Johnson&Johnson em paralelo com a administração da terceira dose aos mais idosos. A boa notícia é que o facto de os mais jovens representarem a maioria dos novos casos permite que, apesar da subida da incidência, não haja entupimento no Serviço Nacional de Saúde.

A vacinação extra de quem recebeu a vacina da Janssen seria mais uma camada de complexidade na crise sanitária — e mais um fator a gerir em plena crise política —, mas também pode ser uma esperança. Manuel Carmo Gomes acredita que a distribuição de doses de reforço pode suavizar os efeitos do expectável aumento geral dos casos de Covid-19 e da perda da imunidade induzida pela vacina.

O epidemiologista alerta que, dez meses depois do início da campanha de vacinação em Portugal, os números podem começar a refletir mais vincadamente uma diminuição da proteção. Essa redução parece começar quatro a cinco meses depois da conclusão do esquema vacinal, mas a velocidade a que ocorre é maior nos mais idosos e nas pessoas com o sistema imunitário enfraquecido. “À medida que o tempo passa desde a toma da última dose, aumenta o bocadinho a probabilidade de as pessoas serem infetadas”, resume o especialista. A proteção das vacinas contra doença grave é maior e mais duradoura do que contra a doença leve ou a infeção assintomática, mesmo nos mais idosos, mas “já está a haver um decaimento e isso pode explicar a morte de alguns destes idosos”.

No entanto, o especialista acredita que Portugal tem (e terá nos próximos meses) uma situação “controlada e controlável”. Mesmo com o aumento de casos a que se está a assistir e o ritmo que se tem verificado, a consequência nos internamentos e óbitos será proporcionalmente menor que há um ano, por isso o país não deve ter no início de 2022 as mesmas dificuldades que sentiu em janeiro deste ano. “Os efeitos não terão paralelo com o ano passado”, indica.

O impacto na pressão hospitalar ainda não é profundo, mas estes fatores podiam simbolizar uma ameaça. Só podem não chegar a ser se a revacinação da população mais vulnerável ocorrer a bom ritmo e funcionar como atenuante. Mas é isso que está a acontecer? “O ritmo está a ser sensivelmente o mesmo que tínhamos durante a administração do esquema vacinal normal, não há atrasos”, descreve Manuel Carmo Gomes: “Mas se esse ritmo basta? Não lhe sei responder ainda”.

Situação está “controlada e controlável”, mas a matriz de risco já não basta

Óscar Felgueiras, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, concorda. Mas o especialista recorda que os próximos meses trazem uma complicação adicional o controlo da epidemia: a diminuição da temperatura ao longo do outono e inverno deve favorecer a transmissibilidade do SARS-CoV-2, assim como acontece com todos os vírus que provocam picos de doenças respiratórias nesta época do ano. A isto junta-se o maior fluxo de turistas a entrar e sair do país — e Portugal tem importantes ligações aéreas com países com situações mais descontroladas por terem menor cobertura vacinal — e o facto de a vacina não ser suficientemente eficaz a evitar a transmissibilidade do vírus.

No entanto, o especialista acredita que Portugal tem (e terá nos próximos meses) uma situação “controlada e controlável”. Mesmo com o aumento de casos a que se está a assistir e o ritmo que se tem verificado, a consequência nos internamentos e óbitos será proporcionalmente menor que há um ano, por isso o país não deve ter no início de 2022 as mesmas dificuldades que sentiu em janeiro deste ano. “Os efeitos não terão paralelo com o ano passado”, indica.

Por enquanto, não está prevista a implementação de mais medidas além das que permaneceram após o desconfinamento de 1 de outubro. Mas os especialistas juntam-se à ministra no apelo por que as medidas recomendadas de proteção individual não sejam descuradas.

Em Inglaterra, mesmo com vacinas, o aumento de casos nos últimos dias está a acender um debate sobre a criação de um “Plano B”, um pacote de medidas a serem instituídas se o serviço nacional de saúde britânico ficar sob uma “pressão insustentável”. Algumas das medidas extraordinárias que o secretário de Estado da Saúde, Sajid Javid, sugeriu em setembro para Inglaterra foram o regresso alargado da obrigatoriedade no uso de máscara, a recomendação pelo teletrabalho, a obrigatoriedade de utilizar um certificado de vacinação, teste negativo ou recuperação para aceder a espaços como restaurantes; e a comunicação veloz à população da acentuação do risco. São, na verdade, medidas que ainda estão de pé na Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte.

Mas não foram estabelecidos limites concretos para que o Plano B seja instaurado: dependerá antes daquilo que for revelado pelo número de internamentos, pela capacidade hospitalar em suportar as exigências das hospitalizações e a velocidade com que essa e outras métricas (como o número de casos) se alterarem. Por enquanto, o plano A vai bastando em Inglaterra: administrar doses de reforço a 30 milhões de pessoas, dar uma vacina de dose única aos jovens com 12 a 15 anos, convencer a população não vacinada a ser inoculada, manter os níveis de testagem, encorajar à toma da vacina contra a gripe e insistir nas medidas básicas de proteção  (como a lavagem regular das mãos e a ventilação dos espaços).

Em Portugal, perante o aumento do número de novos casos, o Governo já anunciou que vai manter o estado de alerta pelo menos até ao fim de novembro: “O contexto é francamente favorável”, assegurou a ministra Marta Temido, mas “a uma maior circulação do vírus tende a corresponder o número de casos”. Por enquanto, não está prevista a implementação de mais medidas além das que permaneceram após o desconfinamento de 1 de outubro. Mas os especialistas juntam-se à ministra no apelo por que as medidas recomendadas de proteção individual não sejam descuradas.

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