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Cristiano Ronaldo. O melhor do mundo à procura de amor /premium

Ronaldo quer mais que qualquer clube. Nunca foi o coração dos merengues que lhe interessou. Ele procura o coração de todos os adeptos de futebol. João Bonifácio descreve esta paixão obsessiva.

Vamos por um instante imaginar que alguém resolveu criar um gerador aleatório de indignação de sofá, de modo a ser usado por aquele tipo de pessoa que vai para as redes sociais mostrar aos outros a pessoa que na realidade não é mas gostaria imenso que os outros a imaginassem assim (ou seja: toda a gente).

Tal gerador teria, por força, de incluir a hipótese “Está a acontecer [evento importante/desastre humanitário] e no entanto as televisões preferiram falar de [assunto de cultura popular em que não há tragédias]”. Tal gerador teria, portanto, de prever o que aconteceu no fim de tarde, início de noite de ontem.

Era meia noite de domingo, dia 16 de julho de 2018, quando o telejornal da SIC Notícias abriu com a seguinte notícia: Ronaldo já está em Turim, foi aplaudido pelos comensais no seu primeiro jantar, no qual se apresentou acompanhado por Jorge Mendes, Bruno Alves e pelo diretor desportivo da Juventus. Quando as várias peças sobre Ronaldo acabaram alguém na redação da SIC se lembrou de um evento menor: “Epá, hoje houve a final do Campeonato do Mundo do Desporto Que Cristiano Ronaldo Pratica” e a estação lá nos informou do resultado desse jogo.

Acontecera o mesmo à tarde, mal a final acabara: as televisões voaram para Turim, onde os seus correspondentes nos informaram que sim senhor, Ronaldo de facto aterrara em Turim enquanto decorria o embate entre França e Croácia. Imagens confirmavam-no: Ronaldo, de bronzeado imaculado e impossível de alcançar pelo comum dos mortais, saía de um avião, acompanhado de sua mãe, do filho, da companheira.

Ronaldo não é mais um aspirante a protagonista de momentos importantes da história do futebol – é uma lenda, a figura da Dinastia que conduziu o Real a quatro Champions em cinco épocas, um colosso aritmético cujos números atingem dimensões absurdas, uma marca reconhecida no mundo inteiro, um símbolo.

“Porquê?”, pergunta o leitor de jornais interessado em assuntos sérios, pergunta o espetador que espera que a televisão o informe de Assuntos Graves e Impopulares. Qual o interesse de informar que Ronaldo aterrou, jantou, disse adeus à plebe, estava bronzeado, tinha um brinco na orelha que brilhava muito, rapou aquela pera incipiente que usou na Copa, qual o interesse de tudo isto quando há [inserir problema grave da nação ou tragédia recente num local remoto]?

Ronaldo, o garoto que comia três sopas

Bom, o mundo é o que é e as pessoas são complexas e em geral isto é tudo uma grande chatice, pelo menos quando não se tem um bom seguro de saúde, mas caso tenham estado desatentos (nos últimos mais de dez anos) TUDO o que Cristiano Ronaldo faz é notícia e a menos que:

a) a tragédia seja mesmo muito trágica;

b) o problema grave da nação seja mesmo muito grave;

c) chova em Lisboa – a menos que aconteça uma das hipóteses anteriores os telejornais vão sempre abrir com qualquer feito de Ronaldo ou mudança de tomo na vida de Ronaldo.

E esta é uma. Talvez não da mesma dimensão da mudança para o Real Madrid, em 2009, mas o estatuto é agora diferente: na altura estava a começar a disputa com Messi pelo título de Melhor do Mundo; nove anos depois, seja qual for a resposta a esta eterna contenda, Ronaldo não é mais um aspirante a protagonista de momentos importantes da história do futebol – é uma lenda, a figura da Dinastia que conduziu o Real a quatro Champions em cinco épocas, um colosso aritmético cujos números atingem dimensões absurdas, uma marca reconhecida no mundo inteiro, um símbolo – de masculinidade, narcisismo, determinação, ascensão social, vontade de vencer.

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A história é que Messi não tem história e Ronaldo fez a sua história. Messi, dizem, tem um dom divino, Ronaldo, dizem, sofreu no ginásio, fez horas extra a treinar o remate e por mera força de vontade atingiu um grau de eficácia e capacidade de decidir partidas tão grande ou maior que a pulga argentina. Pelo que quando Ronaldo fala ou mexe o sobrolho ou coça uma nádega as pessoas param e ouvem, observam e comentam. Porque Ronaldo não é mais uma pessoa – é “O” símbolo de superação por excelência. O exemplo que é dado a cada ser humano que almeja algo que parece estar para lá das suas capacidades, quando um indivíduo não acredita em si próprio. E – mais importante que tudo – o argumento que usamos com os nossos filhos quando eles não apreciam o jantar: “Achas que o Ronaldo não comia a sopa toda, garoto ingrato? O Ronaldo comia três sopas. De nabiças”.

Pode até parecer estranho que alguém que quer ser conhecido como o melhor de sempre, que faz números espantosos no Real Madrid, que pode conquistar uma quarta Champions consecutiva, que tem uma equipa que joga para ele e lhe permite amealhar mais Bolas de Ouro e ganhar a disputa pessoal com Messi – pode parecer estranho que alguém assim abdique do maior clube do mundo.

A resposta a este enigma está em Quaresma – mais propriamente naquele jogo do Porto na Turquia, há uns anos, em que Quaresma, que então envergava de azul-e-branco, foi aplaudido de pé pelos turcos. Quaresma nunca esqueceu esse gesto, esse amor pela sua arte – e uso aqui arte no sentido de “artista”, de indivíduo que sozinho encanta de tal modo a plateia que esta esquece o resultado, o facto de estar a perder – ainda por cima graças ao talento do raio do artista – e agradece, agradece o simples facto de ter sido transportado para uma dimensão de beleza maior, agradece o simples facto de, ao ver o artista, ter sido elevado.

Foi isto que Ronaldo fez quando se ergueu acima dos centrais da Juve para aquela bicicleta mágica, histórica, que nunca será esquecida enquanto houver futebol. Nesse momento, com esse gesto de uma elegância imensa, de uma crença absurda na capacidade de fazer golos, um gesto de uma capacidade atlética tão extraordinária que fica complicado encontrar paralelo noutros desportos – nesse momento Ronaldo retirou a condição de adepto aos adeptos da Juve e tornou-os homens perante um assombro. E eles, gratos, devolveram como podiam, aplaudindo.

É claro o que Ronaldo procura, o que sempre procurou: amor. Adoração, até. Faz sentido dizer que Ronaldo terá sentido nessa noite em Turim o que nunca sentiu em Madrid – a relação com Florentino sempre foi distante, Ronaldo sempre sentiu que Messi era mais apoiado no Barcelona do que ele era no Real.

Das centenas de golos que Ronaldo marcou, das arrancadas todas, dos cruzamentos, das fintas, das assistências, talvez tenha sido esse o momento em que ele mais honrou a camisola 7 – essa camisola mítica que se entrega àqueles que contêm magia. Cantona, o Cantona do Manchester United, Luís Figo, esse cometa que deu pelo nome de George Best, o louco Garrincha (talvez o mais belo dos futebolistas), Jairzinho: o peso desta camisola é imenso e Ronaldo, com aquele lance, tornou-a quase imponderável.

Marques Mendes dizia este domingo que já depois de a Juve oferecer 30 milhões por ano a Ronaldo o Real se chegara à frente com 32. É impossível dizer se isto é verdade, se foi conversa fiada soprada ao ouvido do comentador, por forma a fazer parecer que Ronaldo não se deixa levar pelo dinheiro.

Amor, I love you

Pouco importa, já que é claro o que Ronaldo procura, o que sempre procurou: amor. Adoração, até. Faz sentido dizer que Ronaldo terá sentido nessa noite em Turim o que nunca sentiu em Madrid – a relação com Florentino sempre foi distante, Ronaldo sempre sentiu que Messi era mais apoiado no Barcelona do que ele era no Real. As renovações de contrato, as juras de amor com ar aborrecido por parte de Florentino, tudo isto sempre soou a realpolitik, não a paixão, não a devoção. E Ronaldo quer ser amado. Como é possível não o ser, depois de tantos golos, 450 em 438 jogos, salvo erro?

Como num casamento com fim há muito anunciado, Ronaldo acabou por perceber que o Real não ama ninguém exceto essa entidade mítica, venenosa, narcísica, colossal e meio doentia a que chamamos Real Madrid. Raul foi cuspido, Casillas saiu pela porta pequena, Hugo Sanchés tornou-se nota de rodapé, Zidane foi embora, já ninguém se lembra de Gento, miúdos haverá que ao verem, no Mundial, o treinador da seleção espanhola não saibam que um dia vestiu de branco – todos, à exceção de Di Stéfano, foram esquecidos.

Ronaldo sabe tudo isto; lembra-se que Raul saiu, de sorriso forçado no rosto, para lhe dar lugar; Ramos, um central, tem mais chances de durar, de permanecer no coração dos merengues. É um caceteiro iluminado num clube que quer ser reconhecido pelo seu amor à arte, ao señorio – quando chegar a sua hora baixará a cabeça, desaparecerá no túnel, com um lugar na gestão do clube à sua espera, e cada cinco anos a ocasional entrevista a rever a carreira na televisão do clube.

Mas Ronaldo quer mais que isto. Não é o coração dos merengues que lhe interessa – é o coração de todos os adeptos de futebol.

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A Juve de Chielini, a Juve que manteve Buffon até aos 40 anos, pede-lhe liderança e golos nos momentos certos; em troca oferece-lhe uma crença absurda nos seus super-poderes (que estarão, inevitavelmente em queda), gestão cuidadosa do físico e do tempo em campo e, caso ele conduza o clube à Champions, amor eterno.

Ninguém vai pedir a Ronaldo que continue a marcar acima de um golo por jogo – está com 33 anos e a Juve não é isso. Ninguém exigirá as fintas dos primeiros anos do United, as arrancadas pela esquerda da meia década inicial do Real. A Juve quer o matador de área, aquele homem que surge no momento certo para encostar, que alça a culatra e dispara de qualquer lado – acima de tudo, quer aquela obsessão que ilumina as meias-finais e tantas vezes fez pender o prato das finais para o lado do Real.

Há vinte e dois anos que a Juve não conquista a Champions – e repetir o feito não será fácil: por mais admiráveis que os sete campeonatos italianos consecutivos sejam, a diferença da Juve para o real, O Barça, o Bayern e até o City é hoje imensa. Em termos táticos nem sequer é óbvio como Ronaldo vai encaixar num ataque que já conta com Higuain e Dybala – estará um 3-4-3 a ser cozinhado?

Não interessa. Se Ronaldo, mesmo que manco e substituído, a gritar junto à linha lateral, ajudar a que essa taça seja finalmente levantada, conquistará por fim os seus sonhos de menino: uma grandeza incomparável na mitologia do futebol – e amor eterno.

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