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Domingos Lopes no gabinete de Álvaro Cunhal, quando o líder comunista foi ministro nos governos provisórios

Domingos Lopes no gabinete de Álvaro Cunhal, quando o líder comunista foi ministro nos governos provisórios

Cunhal, Ceausescu e um pecado em Nova Iorque: as memórias de Domingos Lopes, dissidente do PCP /premium

O choque ideológico em família, a luta clandestina e os bastidores do Comité Central estão nestas “Memórias Escolhidas”. O Observador publica dois capítulos.

Foi membro do Comité Central do Partido Comunista Português e foi secretário de Álvaro Cunhal nos governos provisórios pós-25 de Abril. Mas, ao fim de 40 anos, afastou-se por não concordar com o rumo escolhido pelo PCP. “Memórias Escolhidas” é o livro agora publicado pela Guerra & Paz em que Domingos Lopes recorda episódios marcantes da sua militância comunista.

O período pré-revolucionário e as mudanças em Portugal depois de 1974, a infância, a relação também política e nem sempre pacífica com o pai, os cargos no PCP e a carta que em 2009 endereçou à direção do partido para anunciar “Camaradas, chegou a hora de dizer, neste momento, adeus”. Domingos Lopes atravessa décadas entre relatos pessoais e históricos.

O Observador publica dois excertos de “Memórias Escolhidas”: um primeiro que é um retrato das relações internacionais do PCP, mais particularmente do líder histórico, Álvaro Cunhal, entre viagens pelos países do bloco soviético; e um segundo que regressa a uma viagem que o autor fez a Nova Iorque, na década de 1980, e que gerou controvérsia na direção do PCP.

“Memórias Escolhidas”, de Domingos Lopes (Guerra e Paz)

Os países socialistas e Cunhal

Uma contradição que perdura até aos dias de hoje (consulte‑se a «Resolução Política» do XX Congresso) é a de considerar que, pelo facto de países como Cuba, China, Vietname, Laos e Coreia do Norte afirmarem que são países socialistas, isso é suficiente para o PCP os tratar como tal, apesar de o Congresso Extraordinário de Loures apresentar uma clara alternativa ao socialismo real, enumerando um conjunto de requisitos essenciais a uma democracia avançando no caminho do socialismo.

Cunhal era altamente considerado entre os partidos comunistas e outros movimentos revolucionários, sobretudo nos anos 70, com a sua participação no Governo e devido à grande influência do PCP entre os trabalhadores e os intelectuais.

Nos Congressos do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), era-lhe dada a palavra à frente de muitos líderes de partidos comunistas no poder. Havia quem o considerasse um teórico do marxismo-leninismo.

Ficou célebre a sua tirada num dos últimos congressos do PCUS, ao considerar a URSS o «Sol da terra», mostrando o seu voluntarismo e a sua «fé» no país que, adiante, implodiria sem que as dezenas de milhões de inscritos no PCUS e no Komsomol tenham erguido uma mão para defender o regime.

No período anterior à implosão (em Outubro de 1986), acompanhei Cunhal numa visita à Áustria, Hungria, Roménia e Bulgária, a convite dos respectivos partidos comunistas, sendo que na Hungria o partido no poder, e dirigido por János Kádár, se designava Partido Socialista Operário Húngaro.

Recordo a manifesta simpatia de Kádár por Cunhal e ainda o esforço do dirigente húngaro para fazer ver ao Álvaro a importância de ter em conta o mercado e a participação dos cidadãos na construção do socialismo. A Hungria, por motivos históricos, saudou de imediato a perestroika, enquanto Cunhal de início pôs o partido em guarda contra o que poderia ser lançar a criança com a água do banho.

Para mim ficou a imagem de um Kádár a pedir a compreensão de Cunhal para coisas novas, que era preciso ter em conta, e Cunhal seguro de si a manifestar a confiança de sempre nos princípios, os quais, apesar de bem recitados, não impediram os seus «seguidores» de assistirem ao desmoronamento daquele edifício.

"Não deixa de ser curioso que o PCP continue a manter na sua História o apoio à invasão da Checoslováquia, quando o próprio PCUS, e mais tarde o PC da Federação Russa, a condenaram, bem como o PC da Checoslováquia; o mesmo se passando com a intervenção militar da URSS no Afeganistão."

Já o encontro com Ceausescu num dos seus palácios foi algo de muito estranho.

Chegámos era já de noite. Atravessámos Bucareste, que estava às escuras. Ficámos hospedados numa moradia. Recordo também os queijos e os iogurtes que nos serviram. Nesse encontro, Ceausescu deu nota de que dispunha de cerca de uma hora e meia.

Enquanto no encontro com Kádár estávamos à mesma mesa, com Ceausescu ele estava a uns metros de Cunhal e cada qual sentado num sofá. E eu ainda mais distante. O dirigente romeno tinha atrás dele o intérprete.

Falou mais de uma hora e um quarto na defesa do socialismo ameaçado pela nova orientação do PCUS. Ceausescu aparecia como defensor do marxismo-leninismo que estava a ser abandonado pelo PCUS. Interessante.

Como iria reagir Cunhal àquele despautério de gastar imenso tempo com a sua intervenção, deixando para Cunhal pouco mais de quinze minutos? Pensei que dissesse algo, mas não.

Dois ou três anos mais tarde, e com a «consagração» de Gorbatchov e da perestroika, Cunhal haveria de saudar os esforços do PCUS para reestruturar e salvar o socialismo, tendo sido aprovado, em Loures, no Congresso Extraordinário, um novo enfoque sobre o que se passara nos países socialistas e dos erros cometidos pelo próprio PCP, ao desprezar as críticas feitas a medidas graves que violavam os mais elementares direitos dos cidadãos.

Talvez que, no seu voluntarismo, pesando os prós e os contras entre as conquistas sociais do novo regime e as violações dos direitos humanos, ele achasse que era preferível para a maioria dos povos aquela limitação.

Este foi o erro que o levou a críticas duras em relação aos partidos comunistas, que, tendo consciência de que aquele nunca poderia ser o caminho nas sociedades ocidentais desenvolvidas, tentaram encontrar vias que conciliassem as liberdades individuais com as transformações sociais. Foi o caso do PC italiano, do PC francês e do PC de Espanha. As divergências com aqueles partidos foram grandes, o que levou a que o PCP encarasse o eurocomunismo como uma espécie de traição aos princípios.

Não deixa de ser curioso que o PCP continue a manter na sua História o apoio à invasão da Checoslováquia, quando o próprio PCUS, e mais tarde o PC da Federação Russa, a condenaram, bem como o PC da Checoslováquia; o mesmo se passando com a intervenção militar da URSS no Afeganistão.

Foram tempos muito difíceis, que conduziram alguns partidos comunistas à perda de influência ou até ao desaparecimento, fosse por sectarismo, fosse por incapacidade de resistir, por inacção ou incapacidade estratégica, e até a claudicar num ou noutro caso. Como se pode hoje ver a céu descoberto o resultado foi praticamente o mesmo.

“As crianças que nos receberam à chegada à capital da Coreia do Norte”

Era preciso manter a identidade, mas renová-la, limpá-la dos erros e crimes cometidos, garantir que a nova sociedade não trouxesse menos liberdade do que a velha, pelo contrário.

Os cidadãos não querem menos liberdade, querem mais direitos e liberdades do que aqueles que o capitalismo lhes confere.

A batalha pelas liberdades não pode ser a bandeira das direitas e da social-democracia, tanto mais que as direitas em Portugal acomodaram-se ao regime que espezinhou durante quase cinco decénios a liberdade.

Alguém de bom tino poderá aceitar que a Coreia do Norte, um país tiranizado por uma monarquia de feição medieval, onde os filhos e netos prolongam a opressão e a exploração do povo daquele país, tem algo que ver com o socialismo?

Alguém com seriedade pode considerar socialista um país cuja morte do Presidente é referida pela cúpula dirigente como tendo sido seguida por uma trovoada em sinal de luto da natureza?

Em muitas conversas com Cunhal, ficava claro que o seu ideal não era o da dinastia Kim, mas manteve até ao fim a sua obstinação em não condenar as violações grosseiras dos mais elementares direitos democráticos. Desarmou o partido para este combate. Sem democracia não há socialismo.

Nova Iorque, o pecado

O militante que se entrega a uma causa e que o faz por imperativo de consciência tem dentro de si uma predisposição para poder perder parte do juízo crítico em relação à direcção da organização da causa a que aderiu.

Não quero dizer que os militantes, neste caso, do PCP, deixam de formular juízos críticos em relação à vida do seu partido. Pretendo pôr em relevo que a devoção e o grau de sacrifício (em muitos casos) faz com que durante muito tempo se «desculpem» comportamentos que noutras circunstâncias não se aceitariam e se combateriam.

Um militante tende a levar em conta, num quadro tão largo de membros do partido, que a direcção acabe por compreender as razões dos seus juízos críticos. E deixa correr as coisas, até porque encontra, muitas vezes, no solo partidário outros que assumem preocupações como as suas.

Sendo humana e legítima a aspiração a ser quadro dirigente do partido, posso afirmar que centenas, senão milhares de militantes, nos anos imediatamente antes de Abril de 1974, e outros logo a seguir, o que tinham em mente era servir o partido e, consequentemente, o que consideravam ser o objectivo supremo do revolucionário.

"Os camaradas do Secretariado queriam saber como é que eu tinha ido a Nova Iorque. Confesso que fiquei danado que o Secretariado tivesse escolhido aquele camarada para a investigação."

Aderir ao partido nos anos da clandestinidade ou no fogo dos anos 74 a 80 fazia com que cada um interiorizasse que o partido encarnava esse interesse. Por vir de um tempo em que o PCP esteve sozinho contra a ditadura. E porque foi o que mais deu à Revolução.

Só o tempo pôde mostrar‑me que um partido nunca encarna nem o conjunto dos trabalhadores e muito menos os interesses globais de uma nação ou de um país, salvo circunstâncias absolutamente extraordinárias.

Este intróito está relacionado com o que vou contar acerca de uma viagem à grande montra do capitalismo – Nova Iorque, Nova Iorque.

Visto à distância, poderá parecer que aceitar militar num partido que nos mantinha sob a permanente dúvida daquilo que seria um comportamento incorrecto ou desadequado seria próprio de gente sem chama, nem carácter. Não me parece que fosse assim. A entrega era tão generosa que era difícil pensar que nada havia a fazer para que o que estava errado não pudesse ser alterado. Acreditava que as circunstâncias e a capacidade de certos camaradas lograriam criar condições para impor as mudanças tão desejadas e necessárias.

Homens e mulheres irmanados em ideais tão humanos, igualitários e revolucionários haveriam seguramente de conseguir ultrapassar as dificuldades de abordagens inicialmente diferenciadas de um conjunto de situações.

Vale a pena ter presente que, a partir de meados dos anos 80, a própria URSS começa a dar sinais de que era preciso mudar a agulha para salvar o socialismo.

Namorava, na altura, com a F., que tinha um cargo no Banco de Portugal que lhe impunha viajar pelo mundo. Deu-me conta da viagem a Nova Iorque e, sem que eu fosse capaz sequer de vislumbrar semelhante possibilidade, perguntou-me se queria ir. Tem piada; parece-me agora que estou a ver a minha cara de pasmo:

– A Nova Iorque?

– Sim, vou fazer um trabalho à Reserva Federal e pagam‑me a viagem em primeira; se formos em económica, o preço do bilhete dá para a viagem para os dois.

Nem hesitei, viagem e dormida pagas, toca a andar até à grande cidade.

Nessa altura, tinha de se pedir visto, no qual se questionava o viajante para declarar se tinha simpatia pelo comunismo, item este metido no meio de outros sobre certas doenças. Escrevi no pedido de visto que era dirigente do PCP. Poucos dias depois, ligaram da embaixada a comunicar que podia ir levantar o visto. E fui.

Informei o Albano Nunes de que ia a Nova Iorque e, antes que ele me perguntasse como e porquê, expliquei as circunstâncias que me proporcionavam a ida à grande metrópole.

A cara do Albano ficou demasiado séria para merecer polémica. Com a sua postura percebi de imediato que me estava a recriminar.

“A cumprimentar Nelson Mandela no Congresso do ANC, após a sua libertação”

– Não escondi nada, tanto mais que dei à embaixada o número de telefone da sede central, onde estamos. Foi aliás a camarada Lurdes que me passou o telefone da embaixada. Mais claro que isto é impossível.

Fez cara de caso e disse‑me:

– Mas tu estás a comunicar ao partido, não estás a pedir uma opinião, e viajar a Nova Iorque é coisa para levar a sério…

– Pensa o que quiseres. Decidi e vou a Nova Iorque!

– E se for outra a opinião do partido?

– Vou na mesma.

E lá fui. E ainda bem que fui. Nova Iorque é uma cidade totalmente inesperada. Logo que se desembarca, a primeira sensação é a de Terceiro Mundo. As filas no aeroporto, as pessoas, os guardas, o tapete rolante das malas, os táxis. Porém, à medida que se entra na big apple, a cidade é a que já víramos no cinema e na televisão, encantadora.

A cidade fantástica que, sendo nos EUA, também poderia ser na Europa, Little Italy ou Greenwich Village, aliás mais parisiense nas suas esplanadas do que a própria Paris. Ou africana, no Harlem, ou latino-americana, no Bronx. Ou chinesa, em Chinatown. Uma cidade feita de muitas cidades e de muita gente diferente.

Tudo correu às mil maravilhas. Recordo-me do frio de Novembro e dos incontáveis restaurantes a servirem os mais apetecíveis pequenos-almoços e da arte de atendimento dos lojistas.

A cidade metrópole tinha a sedução do moderno e, ao mesmo tempo, os diferentes mundos que a moldaram na sua alma cosmopolita. Num punhado de quarteirões, podia ir da Quinta Avenida a Little Italy ou a Chinatown ou a Greenwich Village…

De volta à pátria e ao meu trabalho no PCP, fui chamado a uma conversazinha com o saudoso camarada Blanqui Teixeira, por sinal um homem que muito estimava e com o qual tinha feito uma viagem à Índia, para participar no Congresso do PC da Índia.

Os camaradas do Secretariado queriam saber como é que eu tinha ido a Nova Iorque. Confesso que fiquei danado que o Secretariado tivesse escolhido aquele camarada para a investigação.

A rir, disse-lhe que tinha ido de avião. Ele acusou o toque. E manteve o propósito, um pouco na defensiva.

– Vens, portanto, em nome do Secretariado?

– Sim – disse-me ele, pouco à vontade.

– E o camarada Álvaro estava na reunião?

– Estava.

– Meu caro Blanqui, diz ao Secretariado que não lhe respondo. A ti, que estimo muito, vou dizer-te a título de amizade o que aconteceu. E sublinho que, se fosse outro o membro do Secretariado, não responderia. Depois de dar conta da coisa mais banal do mundo, farás o que quiseres da conversa, pois ela é tão normal que nem sequer te peço sigilo.

E o Blanqui ficou a saber que fui, como fui, e que tornava a ir se voltasse a ter a mesma oportunidade.

Passado uma ou duas semanas, o Blanqui voltou a pedir a conversazinha. Ele, em nome do Secretariado, lamentava que eu não compreendesse a preocupação, e que tudo estava esclarecido.

Eu, pela minha parte, lamentava, disse-lhe, a descabida desconfiança do Secretariado na minha pessoa, tanto mais que, se quisesse ir a Nova Iorque despercebidamente, tê-lo-ia feito. Bastava não dizer na embaixada as minhas responsabilidades no PCP e não dar o número de telefone do partido para me contactarem.

"É difícil explicar aos de fora que, antes do 25 de Abril, os militantes tinham mais iniciativa do que depois, pela simples razão de que não tinham quem os controlasse no dia-a-dia. Havia reuniões clandestinas, marcadas com grande irregularidade, e quando as coisas aconteciam, não havia sedes para ir bater à porta, nem quem das sedes viesse dizer como fazer."

O Blanqui era mesmo um homem bom e ficou a olhar para mim e eu a olhar para ele. Ele, seguro de que devia proceder assim, e eu seguro de que fiz o que devia fazer.

Ele acreditava naquele controlo. Que havia um organismo superior que tinha o poder ideológico de dizer aos militantes, sobretudo aos mais responsáveis, o que podiam fazer em termos de viagens para os lados dos EUA…

Recordo-me sempre deste episódio com uma certa mágoa. Por um lado, parece que não foi comigo, mas, por outro, o aperto no coração é a prova de que foi.

Já então dentro de mim começavam a instalar-se dúvidas se um controlo deste tipo não era a expressão de uma desconfiança sobre os militantes que tivessem as suas convicções mais firmes quanto ao que podiam ou não podiam fazer na sua vida.

É difícil explicar aos de fora que, antes do 25 de Abril, os militantes tinham mais iniciativa do que depois, pela simples razão de que não tinham quem os controlasse no dia-a-dia. Havia reuniões clandestinas, marcadas com grande irregularidade, e quando as coisas aconteciam, não havia sedes para ir bater à porta, nem quem das sedes viesse dizer como fazer.

Uma vez lembro-me de estar na minha aldeia, Amorim, e acontecer a GNR começar a arrancar as videiras de uvas americanas. As pessoas queixavam-se porque apreciavam bastante aquele vinho, pelo facto de as uvas darem muito vinho – e sem vinho não se vivia.

«Que fazer?», perguntámos uns aos outros, os que nos reconhecíamos como comunistas, embora sem sabermos quem fazia parte do PCP. Eu, o Manel Lopes, o Casanova da farmácia e da República da Ay-Ó-Linda fizemos um comunicado a condenar a atitude da GNR, e distribuímo-lo durante a noite, assinando «Agricultores da Póvoa de Varzim».

Era esta iniciativa que tínhamos por vivermos «fora da mãe» e nas circunstâncias extremas de repressão que davam aos militantes que tinham dentro de si iniciativa a possibilidade de agirem por sua conta e risco.

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