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Da luta contra o terrorismo às startups: "Se queremos a nossa privacidade, vamos ter de lutar por ela" /premium

Foi agente especial na luta contra o terrorismo, nos EUA, onde desenvolveu sistemas avançados de inteligência militar, até que decidiu apostar em startups. David Roberts conta porquê ao Observador.

    Índice

David Roberts sempre viveu dentro do mundo da tecnologia, fruto do gosto pela área, que herdou do pai. Mais tarde, não foi difícil escolher o ramo em que iria formar-se: estudou Ciência Computacional no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), deu os primeiros passos na Inteligência Artificial em Harvard e, aos 23 anos, tornou-se agente especial na luta contra o terrorismo, onde desenvolveu sistemas avançados de inteligência militar.

“Não sei se na altura pensava que a tecnologia podia resolver os problemas do mundo. Pensava que a tecnologia podia tornar o mundo mais seguro, mas ainda não entendia quais eram os maiores problemas do mundo“, explicou em entrevista ao Observador, na semana em que marcou presença no evento “Exponential generation – Shaping the future”, promovido pela SingularityU Portugal na Nova SBE, em Lisboa.

Depois de quatro anos a lidar com assuntos de segurança nacional nos Estados Unidos, David Roberts começou a apostar no mundo das startups e da tecnologia disruptiva — foi responsável pela criação de dezenas de projetos que receberam mais de 100 milhões de dólares de investimento. Trinta anos depois, chegou à Singularity University, uma comunidade que tem como objetivo capacitar pessoas e organizações para usar as tecnologias emergentes na resolução dos grandes desafios da sociedade. Primeiro, entrou como aluno, depois, foi vice-presidente e, mais tarde, diretor.

Ao Observador, aquele que é considerado um dos maiores especialistas em tecnologia disruptiva, inovação e liderança exponencial, falou sobre as vantagens destes conceitos — e de como as grandes empresas “são terríveis” neste aspeto — e explicou que, apesar de hoje ser “mais fácil proteger as coisas do que invadi-las”, há um alerta que tem de deixar: “A privacidade dos nossos dados está a corroer-se lentamente, porque não só estamos a permitir que isso aconteça, como também é a tecnologia que proporciona essa erosão”. A chave, acrescenta, passa por “eleger pessoas que liderem governos que tenham como prioridade manter a proteção e a privacidade”. “Se queremos a nossa privacidade, vamos ter de lutar por ela”, diz.

David Roberts é defensor de um sistema educativo diferente do que existe atualmente. Aliás, diz que “o sistema educativo não sofreu disrupção” e que, hoje, não se ensinam as coisas certas aos estudantes para o sucesso no futuro. “Definimos testes padrão para se entrar na faculdade e as escolas avaliam em testes padrão que basicamente medem a matemática e a habilidade verbal”, explicou. É por isso que, nas suas palavras, o medo de falhar “é um dos exemplos mais claros de como as pessoas não estão a ser treinadas para serem bem sucedidas”. A sua aventura na inovação tecnológica começou aos 10 aos, quando transformou um aspirador num hovercraft para transportar a irmã à paragem de autocarro.

[Davis Roberts a falar sobre liderança no SU Global Summit 2019]

“A tecnologia é apenas uma ferramenta. Se faz bem ou mal, isso está dependente das pessoas que a vão usar”

Foi estudante, vice-presidente e diretor da Singularity. O que é que distingue a Singularity de outras universidades e porque é que a escolheu?
A Singularity University não é bem uma universidade e não se trata, literalmente, de singularidade. É um novo tipo de instituição criado por algumas empresas de Silicon Valley, incluindo os fundadores da Google e a NASA. Estes fundadores queriam um sítio onde as pessoas pudessem aprender como é que podem ajudar e treinar futuros líderes mundiais a resolver alguns dos maiores problemas do mundo, que afetam mais de mil milhões de pessoas, tais como a pobreza, falta de água potável, fome, dificuldades no acesso a rede elétrica, a cuidados de saúde e a segurança. Acreditamos que estes problemas podem ser resolvidos com tecnologia, mais especificamente com tecnologia exponencial.

E o que é que define como tecnologia exponencial?
A tecnologia exponencial é uma tecnologia que duplica a sua performance de preço todos os anos. Por exemplo, sabíamos que os computadores duplicavam a sua performance de preço, ou seja, o seu desempenho por um determinado preço, mas depois percebemos que a Robótica, a Inteligência Artificial e até mesmo a Biologia tinham isso. Tudo isto era tecnologia que duplicava a sua performance de preço todos os anos. E a razão para isto ser tão significativo é que, quando se duplica alguma coisa, mesmo que seja sete vezes, é significativo: se tiveres 100 e aumentares dez vezes já estás nos mil; se tiveres mil e aumentares 20 vezes chegas ao milhão.

Vimos a performance de preço da computação a duplicar durante 30 anos. O super computador que usava no final dos anos 90 é mais lento do que o meu iPhone Watch. E agora sabemos que há outras coisas que fazem o mesmo.

Na Singularity integrei o Programa de Pós-Graduação [GPS, na sigla em inglês], que era um programa de dez semanas com os melhores estudantes do mundo inteiro, cerca de 80 alunos. O objetivo era treiná-los durante o verão para entenderem os maiores problemas da sociedade e perceberem como utilizar todas as tecnologias exponenciais para, no fim, criarem organizações ou startups que consigam resolver estes problemas.

Quando é que começou a sua relação com a tecnologia?
Acho que começou quando era criança. Nessa altura já tinha acesso a tecnologia, porque o meu pai tinha muito interesse na área. Ele era anestesista, uma parte da medicina que na altura tinha também muita tecnologia, uma vez que é tudo muito centrado na biologia, tecnologia e numa mistura das duas com os seres humanos. Ele tinha um fascínio pela tecnologia e passou isso para mim.

Depois fui para o MIT e estudei Engenharia Informática e Computacional. Foi aí que o meu interesse pela tecnologia aumentou ainda mais. Mais tarde, formei-me em Inteligência Artificial na Harvard Business School. Nessa altura as pessoas nem sequer acreditavam era um bom negócio. Aliás, lembro-me que na faculdade as pessoas perguntavam-me: “Porque é que vais seguir isso? Não vais fazer dinheiro nenhum nessa área”.

Era uma área quase desconhecida naquela altura?
O IMT estava na frente, mas demasiado à frente naquela altura.

"A tecnologia é apenas uma ferramenta. Se faz bem ou mal, isso está totalmente dependente do que as pessoas decidem fazer com ela. Uma faca pode ser usada para cortares a tua comida e espalhar a manteiga no pão todos os dias, mas também pode ser usada como arma. É assim que a tecnologia também funciona"

Aos 23 anos torna-se agente especial na luta contra o terrorismo e ajudou a desenvolver sistemas de inteligência militar avançados. Como é que chegou aqui?Estive na Força Aérea durante quatro anos e a Força Aérea pagou os meus estudos na faculdade. Fazia parte do Corpo de Treino de Oficiais de Reserva. Formei-me de forma a conseguir escolher o que queria fazer. Como vejo muitos filmes do James Bond, um deles tinha o trabalho de um agente especial. Quando descobri esse trabalho, nem queria acreditar que aquele era mesmo um trabalho que alguém pagaria para fazer e, por isso, escolhi fazer isso. Fui agente especial no Gabinete de Investigações Especiais, do departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Investigávamos assuntos relacionados com a segurança nacional, fazíamos missões contra-terrorismo, investigávamos crimes, trabalhávamos em tudo o que se tornava um assunto de segurança nacional e tinha de ser investigado. Fui atraído por esta área porque gosto muito de proteger as pessoas e gosto da ideia de chegar à verdade das coisas. Ser agente especial permitiu-me fazer as duas coisas.

Tinha medo, já nessa altura, de que a tecnologia pudesse estar nas mãos erradas?
Estava envolvido em tecnologias de proteção, porque é algo que também faz parte da Força Aérea. A Força Aérea era uma parte altamente tecnológica do departamento de Defesa, porque estão envolvidos com o espaço, com o mundo ciber, com a tecnologia de combate, etc..

Não sei se na altura pensava que a tecnologia podia resolver os problemas do mundo. Pensava que a tecnologia podia tornar o mundo mais seguro, mas nessa altura ainda não entendia quais eram os maiores problemas da sociedade. Estava a tentar fazer alguma diferença e, na época, esta parecia ser a única forma que sabia para o conseguir fazer. Quando descobri a Singularity University, 30 anos depois, percebi que existiam maiores problemas no mundo. A segurança é um grande problema mundial, mas há outros problemas que existem e às vezes a segurança pode até ser a causa deles.

"Acredito que os grandes problemas no mundo não são causados pela tecnologia, mas pela má liderança. Se tivermos melhores líderes, podemos resolver grande parte dos problemas mundiais, mesmo sem intervenção tecnológica"

Como é que pode ser a causa?
Se virmos os países em que as pessoas passam fome, às vezes são as pessoas com mais poder que acumulam e guardam o dinheiro todo e não deixam o dinheiro chegar às pessoas que realmente precisam. Então, aí, a segurança é um problema.

Estava muito interessado em resolver os grandes problemas no mundo porque acredito que uma pessoa consegue fazê-lo. E sei isso hoje: sei que uma pessoa, individualmente, pode fazer a diferença. E gosto de pensar que ajudo a fazer a diferença e a forma como faço isso é a educar os líderes sobre estes problemas e sobre como podem resolvê-los.

A visão que tem do uso da tecnologia mudou muito entre o tempo em que esteve no departamento de Defesa dos EUA e agora?
A tecnologia é apenas uma ferramenta. Se faz bem ou mal, isso está totalmente dependente do que as pessoas decidem fazer com ela. Uma faca pode ser usada para cortar a comida e espalhar a manteiga no pão todos os dias, mas também pode ser usada como arma. É assim que a tecnologia também funciona.

Não acho que haja tecnologia boa e má. Acho, sobretudo, que a tecnologia pode ser utilizada para um benefício extraordinário. E a razão para achar isso é a existência de tecnologia exponencial, que continua a mudar. A energia solar, por exemplo, é uma tecnologia exponencial porque não está sempre a evoluir em termos tecnológicos, mas continua a melhorar no preço. Em 1977, custava quase 80 dólares para conseguirmos produzir um watt de energia solar. Hoje, custa menos de 30 cêntimos. É 200 vezes mais barato.

Nos últimos 30 anos, tenho visto a energia solar tornar-se quase 200 vezes mais barata. Se olharmos para o carvão, o gás natural e o petróleo, nenhum dos três mudou muito em 40 anos. Mas a energia solar é mais barata e vai continuar a ter um preço cada vez mais baixo. O mundo não tem de fazer o esforço para passar a adotar a energia solar porque isso vai acontecer de forma natural. Independentemente do que acontecer, a energia solar vai ser a fonte de energia mais barata no mundo.

A questão é se estamos a caminhar em direção a isso à velocidade que precisamos de o fazer. Podemos ajudar a acelerar este processo, mas é uma mudança inevitável. E devemos ajudar a acelerar o processo, não através da tecnologia mas educando os líderes. Acredito que os grandes problemas no mundo não são causados pela tecnologia, mas pela má liderança. Se tivermos melhores líderes, podemos resolver grande parte dos problemas mundiais, mesmo sem intervenção tecnológica.

"Se olharmos para o que os torna grandes líderes é o facto de terem mudado as coisas, o sistema, para que mais pessoas pudessem ser ajudadas. E na maior parte dos casos fizeram-no de forma pacífica, quando, de facto, podia não ter sido assim tão pacífico"

Qual é a maior característica de um bom líder?
Acho que a grande característica de um bom líder é saber como pode ajudar muita gente. Os melhores líderes que já vi na minha carreira foram líderes que eram incrivelmente bons a ajudar até mesmo as pessoas que trabalhavam para eles. Tenho os meus líderes preferidos: Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa e Nelson Mandela, mas acho que todos concordamos que eles eram grandes líderes. Se olharmos para o que os torna grandes líderes é o facto de terem mudado as coisas, o sistema, para que mais pessoas pudessem ser ajudadas. E na maior parte  dos casos fizeram-no de forma pacífica, quando, de facto, podia não ter sido assim tão pacífico. Eles evitaram a violência e mudaram as coisas para que mais pessoas pudessem viver uma vida feliz.

“A privacidade está a corroer-se lentamente porque estamos a permiti-lo e porque a tecnologia proporciona essa erosão”

A disrupção é uma das suas áreas de especialidade. Como é que se pode usar esse termo?
Temos usado o termo “inovação disruptiva” há cerca de 30 anos, mas acredito em algo diferente. Inovação e disrupção são duas coisas completamente diferentes. A inovação consiste em fazer as mesmas coisas, mas de uma forma cada mais melhorada. As grandes empresas são normalmente muito boas nisso: a fazer as mesmas coisas de forma melhor.

Depois, podem criar-se simplesmente coisas novas e a isto chamamos precisamente isso: criar coisas totalmente novas. Já a disrupção é quando fazemos coisas novas que tornam tudo o resto obsoleto. E as grandes empresas não aprenderam a fazer isto. Aliás, são terríveis a fazê-lo, porque no momento em que alguma parte de uma grande empresa está a fazer algo que vai eliminar outra parte da empresa, a empresa destrói essa ideia ou assegura que não vai funcionar. As únicas pessoas que podem fazer coisas novas que anulam tudo o resto são as startups. E por isso é que, tradicionalmente, vemos apenas as startups a fazer disrupção, mas acredito que as grandes empresas também podem ser disruptivas. Apenas têm de aprender a fazê-lo.

Com tantas coisas novas a serem criadas e novas ideias a surgirem, como é que se pode filtrar o que é disruptivo daquilo que não é? É medir simplesmente pela substituição?
Existe uma forma de o fazer, mas estaria quase a dar uma longa aula para explicar como é que se pode fazer isso. São cerca de quatro passos, por isso é uma resposta um pouco complexa, mas há mesmo uma forma de sabermos se algo vai ou não ser disruptivo ou não.

A disrupção significa substituir o que já existe. Por exemplo, os carros foram disruptivos em relação ao transporte a cavalo. Não acabamos por ficar com os dois, acabamos por ficar apenas com os carros e quase todo o transporte a cavalo desapareceu. Mas nem sempre isto acontece.

"Os governos podem querer vigiar todos os seus cidadãos. Temos de eleger pessoas que liderem governos que tenham como uma das prioridades manter a nossa proteção e a nossa privacidade ao mesmo tempo. E essa é provavelmente a única forma que conheço além da tecnologia, que podem surgir para proteger a privacidade dos nossos dados"

Quais foram as tecnologias mais disruptivas que surgiram na década passada?
É importante percebermos que existem vários tipos de disrupção. Sei que, hoje, muitas pessoas pensam que há apenas uma: a inovação disruptiva, que é uma ótima teoria criada pelo Clayton Christensen, um professor de Harvard. O Clayton morreu esta semana, ele foi o criador do termo “inovação disruptiva” e criou a primeira teoria sobre isto. Este termo refere-se ao facto de as novas tecnologias serem normalmente piores das que existem, mas vão melhorando ao longo do tempo e, eventualmente, tornam-se suficientemente boas para terem outras características que a tornam melhor. Esta teoria explica porque é que os carros japoneses baratos, quando entraram no mercado mundial, tornaram-se melhores e melhores e, eventualmente, as empresas desses carros ficaram as mais conhecidas. E isto explica também o porquê da Mini Mills, que entrou no negócio dos selos, ter acabado por se sair tão bem como a maior a grande indústria dos selos.

Para mim, existem sete tipos de disrupção e a inovação disruptiva é apenas um deles. Podemos ter uma disrupção de novos mercados, que não compete com nada e apenas cria algo totalmente novo que não existia antes. Podemos ter uma interrupção de ponta [em inglês, high-end disruption] onde algo surge como mais caro, mas é melhor do que qualquer coisa que já existia e, com o tempo, vai ficando mais barato. O iPhone era assim. O Starbucks era assim: começaram com uma melhor qualidade e, lentamente, conseguiram vender café mais barato. A Tesla também é assim: a primeira vez que a Tesla surgiu era a melhor, mas era tão cara que nem toda a gente conseguia comprar os seus carros e, por isso, a empresa não conseguia ser disruptiva. Mas depois a Tesla descobriu como fazer um carro mais barato.

Depois há a disrupção de plataforma, que é como a Uber. Há também a disrupção digital, que consiste, por exemplo, na forma como o iPhone veio mudar a tecnologia do fax. Há até um tipo que se chama disrupção de diversidade, onde se acaba com vários tipos de novos produtos. O GPS foi um uma disrupção de diversidade. Ou o computador portátil: permitiu criar uma variedade de novas coisas.

"O que preferimos? A vigilância e a segurança ou o contrário? Há aqui um equilíbrio necessário e precisamos de começar a descobrir como é que se chega a ele. Se vivermos sob uma vigilância total, podem acontecer muitos abusos e acho que não queremos um mundo assim"

Há alguma área em que seja mais difícil existir qualquer tecnologia disruptiva em qualquer um destes tipos que mencionou?
Pode haver alguma, mas, na verdade, se há 50 anos nos dissessem que a hotelaria e o táxi seriam indústrias que iriam ter disrupção, acho que pensaríamos que não haveria hipótese de isso acontecer. No entanto, os hotéis e os táxis tornaram-se disruptivos. A hotelaria, por exemplo, viu surgir os Airbnb.

As indústrias mais improváveis também estão ter disrupção e acredito que nos próximos 30 anos não haverá indústrias que não vão ter disrupção. Acredito que todas vão ter.

Um dos temas mais debatidos nos últimos anos, especialmente depois dos mais recentes escândalos de uso indevido da informação dos utilizadores, como foi o caso do Facebook com a Cambridge Analytica, como é que podemos assegurar que os nossos dados estão seguros?
A boa notícia é que vivemos num mundo onde é muito mais fácil proteger as coisas do que invadi-las. É mais fácil no nosso universo encriptar algo do que desencriptar e é por isso que o trabalho de encriptação é matemático e não tem nada a ver com a tecnologia. É matemática. Esta matemática permite encriptar as coisas para as proteger e as pessoas que as querem desencriptar têm uma dificuldade maior. Acredito mesmo que será possível proteger os dados simplesmente com a matemática do universo.

Agora, a privacidade é algo muito diferente. A privacidade está a corroer-se lentamente porque não só estamos a permitir que isso aconteça, mas também porque a tecnologia proporciona essa erosão. Um carro autónomo, por exemplo, vai recolher uma enorme quantidade de informação quando está a funcionar. E esses dados, se não forem bem protegidos, tornam-se acessíveis, o que significa que vai existir uma enorme quantidade de novas informações. O mesmo acontece com as várias câmaras de vigilância em Londres. Por causa delas, há uma grande quantidade de vigilância que acontece. Mas também é por causa dessa vigilância que Londres é uma cidade relativamente segura. É mais raro cometer um crime em Londres e escapar a seguir porque há muitas câmaras de vigilância.

O que preferimos? A vigilância e a segurança ou o contrário? Há aqui um equilíbrio necessário e precisamos de começar a descobrir como é que se chega a ele. Se vivermos sob uma vigilância total, podem acontecer muitos abusos e acho que não queremos um mundo assim.

[David Roberts em entrevista num documentário realizado pela SingularityU em Portugal]

Mas como é que se pode chegar a esse equilíbrio?
O equilíbrio deve vir da população, porque até os governos vão provavelmente tirar partido de um eventual desequilíbrio. Os governos podem querer vigiar todos os seus cidadãos. Temos de eleger pessoas que liderem os governos que tenham como uma das prioridades manter a nossa proteção e a nossa privacidade ao mesmo tempo. E essa é provavelmente a única forma que conheço além de tecnologias que podem surgir para proteger a privacidade dos nossos dados.

Quanto a esta última ideia, o WhatsApp, por exemplo, encripta as comunicações entre cada pessoa para que a maior parte das empresas não possa chegar a esses dados. Acho que as empresas vão ter um grande papel nestes casos. A Apple também tem feito um bom trabalho em encriptar e proteger os dados no telefone para que nem o governo os consiga ver. Acredito que isso é algo muito seguro para fazer, porque no minuto em que permites qualquer tipo de entrada para algum local, então qualquer pessoa vai poder chegar a essa entrada e aceder aos dados.

Tem havido uma mudança de mentalidade, uma diferença na forma como se trata deste tema da privacidade dos dados?
A privacidade importa e acredito que, se queremos a nossa privacidade ,vamos ter de lutar por ela e continuar a lutar. Porque se não lutarmos por isso, vai naturalmente desaparecer.

"Ensinamos hoje a mesma coisa que os colonialistas britânicos queriam que as colónias aprendessem: a ler os documentos e fazer a matemática. E a nossa educação, hoje, ainda é baseada nessas necessidades e ensinamos predominantemente da matemática e leitura. (...) Não acredito que esse seja o caminho para o sucesso e acho que as coisas que levam verdadeiramente ao sucesso não estão a ser ensinadas"

“Muitas pessoas não inovam, não são disruptivas porque têm medo do fracasso”

Um dos tópicos que aborda nesta conferência na Nova SBE é a forma como os mais jovens podem pensar exponencialmente e como podem usar a tecnologia para criar um futuro melhor. Quais são as prioridades para isto acontecer?
Não vou falar muito sobre tecnologia, vou falar de um problema maior e mais desafiante: não acredito que ensinamos as coisas certas aos estudantes. Tive uma ótima educação e estou muito agradecido por isso — tive a oportunidade de estudar no MIT e em Harvard, que são provavelmente algumas das melhores universidades no mundo –, mas quando olho para trás na minha educação acho que 98% dela não foi utilizada.

Ensinamos hoje a mesma coisa que os colonialistas britânicos queriam que as colónias aprendessem: a ler os documentos e fazer a matemática. E a nossa educação, hoje, ainda é baseada nessas necessidades e ensinamos predominantemente da matemática e leitura. Depois, pensamos que só isso é que vai ajudar as pessoas a serem bem sucedidas na vida. Não acredito que esse seja o caminho para o sucesso e acho que as coisas que levam verdadeiramente ao sucesso não estão a ser ensinadas.

O nosso sistema de educação não sofreu disrupção e não vai ter nenhuma mudança nos próximos tempos porque tornámos esta tarefa muito difícil. Definimos testes padrão para se entrar na faculdade e as escolas avaliam em testes padrão que basicamente medem a matemática e a habilidade verbal. Mesmo que tenhas uma forma melhor de ajudar as pessoas a serem bem sucedidas na vida, se ensinares matemática e os teus alunos tiverem piores notas nos testes padrão, eles seriam classificados como maus e não conseguem tantos fundos ou créditos. Estamos presos num sistema arcaico e temos de pensar como é que podemos sair dele.

"Onde é que podemos aprender a não ter medo do fracasso? Acredito que muitas pessoas não inovem, não façam experiências e não sejam disruptivas porque têm medo do fracasso. Às vezes têm até medo do sucesso. E como é que se ultrapassa esse medo? A ir para a faculdade? Não acho que seja por aí"

Já lidou com muitos projetos e novas ideias. Muitas pessoas, hoje, querem começar um negócio ou colocar em prática uma ideia, mas têm medo do falhanço. Isto deveria acontecer? Como é que podemos prevenir este medo do fracasso de impedir o desenvolvimento de projetos e tecnologia disruptivos?
Adoro que tenha mencionado esta questão, porque é um dos exemplos mais claros de como não estamos a treinar as pessoas para serem bem sucedidas. Onde é que podemos aprender a não ter medo? Acredito que muitas pessoas não inovem, não façam experiências e não sejam disruptivas porque têm medo do fracasso. Às vezes têm até medo do sucesso. E como é que se ultrapassa esse medo? A ir para a faculdade? Não acho que seja por aí.

Quando estive em Harvard, descobri que 10% dos CEO nos Estados Unidos eram antigos marinheiros, o que achei muito interessante porque os marinheiros de certeza que não são 10% de toda a população. Talvez houvesse algo que lhes foi ensinado que os permitiu serem bem sucedidos nos negócios. Eles são relativamente corajosos. Não seria interessante criar algo onde ensinamos os traços necessários de caráter para o sucesso? A coragem moral, por exemplo, ou a compaixão, ou a curiosidade insaciável.

Se pudéssemos ensinar e treinar estas coisas, teríamos uma maior probabilidade para o sucesso. Porque o sucesso na vida, para mim, consiste em quatro coisas: ser saudável, criar saúde ou não necessitar de muita saúde, ter boas relações e sentir-me feliz e completo. O programa que falei anteriormente é sobre isso, sobre como treinamos as pessoas nestes quatro aspetos.

Qual é a sua maior preocupação no mundo da tecnologia?
Fico preocupado com as notícias falsas e as mentiras. Preocupa-me a verdade e que, no futuro, seja mais difícil as pessoas conseguirem saber a verdade. Não só porque as pessoas enganam outras pessoas, mas porque estamos distraídos.

O livro “1984” [escrito por George Orwell] fala sobre a forma como o governo nos oprimia e vigiava, mas o “O Admirável Mundo Novo” [escrito por Aldous Huxley] é um livro que explica como é que andamos tão distraídos. E acho que o “O Admirável Mundo Novo” é, provavelmente, mais sobre o que está a acontecer connosco atualmente. Estamo-nos a deixar distrair com muitas coisas que não são importantes. Não me preocupo com a tecnologia. A tecnologia é apenas uma ferramenta.

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