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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

Da recolha noturna à patrulha. Quem cuida, fiscaliza e repara as 6 mil trotinetes de Lisboa /premium

Invadiram a cidade de Lisboa em 2018 e hoje fazem 13 mil viagens por dia. Quem é que recolhe, carrega, mantém e repara as trotinetes elétricas, por vezes vandalizadas? Estas equipas.

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“Quando as trotinetes saem de manhã do armazém, quando se carrega no botão para ligá-las, há muita magia por detrás de todo o processo.” Rui Carvalho é diretor de operações da Circ (antiga Flash) e é ele quem acompanha o Observador para dar a conhecer o trabalho que a empresa de micromobilidade alemã faz desde o momento em que coloca as trotinetes elétricas na rua até à hora em que é preciso recolhê-las. As diversas equipas, explica, trabalham para garantir a segurança destes aparelhos, mas também para assegurar a organização nas ruas e a boa utilização por parte de quem as conduz, dois tópicos que são cada vez mais debatidos quando se fala na entrada de trotinetes nas cidades.

Tal como a Circ, as restantes oito empresas de trotinetes elétricas que entraram em Portugal — e que em menos de um ano colocaram mais de seis mil veículos destes a fazer 13 mil viagens pelas ruas de Lisboa — têm uma forma de funcionamento muito própria no que toca à logística da recolha, “patrulha” e manutenção das trotinetes: umas contam com funcionários da própria empresa, outras contratam equipas externas e há também quem dê oportunidade a outras pessoas de serem recompensadas por fazerem algumas destas tarefas. Pelo meio, há outros desafios — o vandalismo, roubo de trotinetes e o estacionamento indevido –, que exigem técnicas extra para para serem resolvidos. Entre fevereiro e junho, a Polícia Municipal cobrou 17.145 euros em coimas por trotinetes mal estacionadas e removeu 1.820 veículos do centro da cidade nos últimos cinco meses.

São uma espécie de mãos invisíveis aquelas que colocam as trotinetes a funcionar todos os dias na cidade. E todas dizem ter uma coisa em comum: focam-se cada vez mais na segurança e em tentar atenuar os problemas que o mau uso destes veículos pode provocar nas ruas — tema que tanta discussão pública tem levantado. Por outro lado, também tentam sensibilizar os cidadãos para as vantagens de conduzir um veículo mais amigo do ambiente e que chega onde os transportes públicos, por exemplo, não conseguem chegar.

Das equipas de recolha à manutenção, o Observador foi à procura das equipas que asseguram que haja trotinetes elétricas nas ruas de Lisboa e, ao mesmo tempo, a segurança de todos os aparelhos.

Recolher, recarregar e repor

É a partir de um armazém na zona de Lisboa que a equipa da Circ organiza todo o trabalho na cidade. Depois de recolhidas das ruas ou quando chegam pela primeira vez, as trotinetes elétricas da marca vão para este espaço. É aqui que é feito grande parte do trabalho que permite que reapareçam, na manhã seguinte, devidamente carregadas nos hotspots (locais de estacionamento) definidos em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa. Nas restantes cidades em que a empresa está presente — Faro, Coimbra, Maia, Almada, Cascais, Gondomar, Matosinhos e Figueira da Foz — o processo é semelhante.

Ao final da tarde, começam a chegar ao armazém os funcionários que vão recolher os aparelhos com pouca bateria ou que precisam de ser reparados durante a noite. Aqui, a recolha é feita em carrinhas com o interior “moldado para as trotinetes ficarem colocadas corretamente e não se danificarem durante o transporte”, explica Rui Carvalho. Os colaboradores distribuem-se por várias zonas de Lisboa, definidas num briefing que varia consoante a situação que se vive naquele dia, ou seja, se há muita ou pouca utilização das trotinetes num determinado local e qual a necessidade de serem recolhidas.

Dentro do armazém, há uma parte dedicada apenas ao carregamento das trotinetes (Francisco Romão Pereira/Observador)

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São os condutores contratados pela empresa, num regime de trabalho mais flexível, que vão tratar da recolha e reposição dos veículos ao início da noite. As equipas que saem à rua são organizadas por André David e Bruno Pires, dois gestores de frota que desde janeiro deste ano passaram a fazer parte da Circ. Cabe-lhes a eles a tarefa de gerir as equipas e controlar as trotinetes que entram e saem do armazém. “Fazemos a triagem à chegada, a manutenção, a verificação do carregamento, voltamos a colocar nos carros, ver se está tudo em ordem, ver os homens que saem, tudo”, enumera André ao Observador. Quando é necessário, também saem para recolher os veículos que precisam de ser carregados ou reparados.

Tanto André como David fazem parte dos quadros da Circ e já tinham trabalhado na área da mobilidade, neste caso, das bicicletas. “A mecânica das duas é parecida”, explica André. São eles que, neste dia, vão fazer a recolha das trotinetes na zona de Belém, uma das áreas de Lisboa com maior adesão. Normalmente, explicam, o carregamento destas trotinetes no armazém demora entre cinco a seis horas e apenas são recolhidos os veículos com menos bateria ou com algum problema para resolver.

Bruno Pires e André David são gestores de frota da Circ, antiga Flash (Francisco Romão Pereira/Observador)

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Prontos para partir do armazém, e devidamente identificados com o nome da empresa, André e Bruno levam consigo a app da Circ na qual conseguem perceber, em tempo real, onde estão as trotinetes, quais são as que precisam de ser recolhidas, as que estão caídas , que têm problemas e pouca bateria e a que distância estão desses aparelhos. Sempre que recolhem uma, têm de confirmar a recolha na app. E quando querem encontrá-las, ligam o sinal sonoro de cada uma para conseguirem ouvi-las.

“Quando saímos do armazém já sabemos onde podemos deixar as trotinetes e quantas”, sublinha Rui Carvalho. Há uma equipa que se dedica a verificar todas estas informações em tempo real. Ao longo do percurso, os funcionários foram colocando as trotinetes que encontravam nos devidos hotspots e levantando as que estavam caídas — mesmo que fossem da concorrência –, uma prática que é comum entre as empresas.

Antes sequer de saírem às ruas, garante Rui Carvalho, há uma formação inicial que todos estes trabalhadores recebe: “Explicamos as componentes das trotinetes para perceberem exatamente do que estamos a falar, quais são as configurações, as características da app e os processos operacionais que têm de tomar em consideração, como por exemplo, a forma como deixam as trotinetes estacionadas”.

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Um sistema misto: as empresas que usam funcionários e colaboradores para a recolha

Em frente a um dos pontos de reposição em Belém surgem duas pessoas de outra empresa — também para recolherem trotinetes. Neste caso, não são funcionários. São os juicers, prestadores de serviços que trabalham de forma independente e ajudam a Lime nesta tarefa. Em contrapartida, são pagos de acordo com o número de aparelhos que recolheram. Pelas mãos destas pessoas passam a recolha, carregamento e a reposição das trotinetes logo de manhã. “Os juicers têm um contrato de prestação de serviços e trabalham de uma forma independente, não são vinculados à Lime. São uma comunidade que nos ajuda a interagir com a cidade e também a criar outras oportunidades”, explica Luís Pinto, diretor de expansão da primeira empresa desta área a entrar em Portugal. Estes colaboradores “decidem quando é que trabalham, de que forma querem trabalhar e quantas trotinetes querem recolher”.

Depois de um processo de recrutamento e formação feitos online, os juicers podem recolher as trotinetes da cidade a partir das 21h e repô-las nos locais definidos entre as 5h e as 7h da manhã. Por cada trotinete, podem receber entre 3 a 10 euros, dependendo de fatores como a localização do e o nível de bateria. “O juicer sabe, à partida, quais são as trotinetes necessárias para recolher e a que preço está esta recolha”, acrescenta Luís Pinto. Ao fim de um mês, um cidadão que tenha recolhido vários aparelhos diariamente pode chegar aos mil euros de pagamento, referiu José Santos, um juicer, em declarações à SIC. E é por isso que muita gente procura esta tarefa.

Luís Pinto não avança com números concretos sobre os juicers da empresa, mas refere que são “centenas” e assegura que há “uma equipa de suporte durante 24 horas que dá resposta a estes colaboradores”. Questionado sobre a segurança das trotinetes e destes trabalhadores, o responsável da Lime garante que a empresa “dá formação para que o juicer consiga cumprir a sua função e prestar o seu serviço corretamente”.

Mas nem só de juicers vive a recolha da Lime. Além destes colaboradores, a empresa norte-americana que está presente em Lisboa e Coimbra conta também com funcionários subcontratados, que integram a equipa interna de operações, constituída por 75 pessoas. À semelhança da Circ, esta equipa também recolhe as trotinetes durante a noite e transporta-as para o seu armazém, entregando-as à cidade novamente de manhã. “Em termos estratégicos, as nossas equipas operacionais acabam por ter funções um pouco diferentes das dos juicers, mas todos em conjunto conseguimos manter a operação que temos na cidade”, explica Luís Pinto.

Este sistema misto de recolha e carregamento das trotinetes também é utilizado pela Bungo, que está atualmente a substituir o modelo das suas trotinetes. Pelas ruas, e com pessoas da empresa, passam duas carrinhas para levar as trotinetes elétricas. “Cada uma transporta cerca de 40/50 trotinetes”, conta João Pedro Cândido, fundador e diretor executivo da empresa. É nos “dias de maior necessidade”, quando há uma maior utilização das trotinetes e um maior número para recolher, que a empresa procura outras pessoas para ajudar no trabalho de recolha e carregamento. Mas o responsável avisa: “Não é qualquer pessoa que tenha um carro que pode recolher estas trotinetes”. O ideal, acrescenta, são carrinhas que possam transportar vários aparelhos e pessoas que já tenham alguma experiência neste tipo de trabalhos.

Também na Bungo, que está em Lisboa, Paços de Ferreira e Freamunde, o retorno é de três euros por trotinete, dependendo do nível de urgência. “Se houver uma trotinete estacionada numa zona proibida, aí a urgência de recolha aumenta e podemos pagar mais”, sublinha João Pedro Cândido, acrescentando que a colaboração de trabalhadores independentes é pontual e tratam-se de “poucos utilizadores que o fazem”.

Na Bungo, o processo de recolha e carregamento das trotinetes é feito por trabalhadores da empresa, mas há momentos em que contam com colaboradores independentes (Fotografia: Bungo)

As empresas com equipas próprias ou parceiros logísticos

Ao longo dos hotspots da zona de Belém, são várias as cores e nomes das diversas empresas estampados nas trotinetes. Uma delas é a VOI, que chegou a Portugal em dezembro do ano passado e está presente em Faro e Lisboa. Na altura em que dava os primeiros passos em Lisboa, a empresa trouxe consigo uma prática semelhante à dos juicers na recolha e carregamento das trotinetes: os VOI Hunters. No entanto, a empresa sueca decidiu abandonar esta ideia, contratou uma equipa outsourcing e mudou a metodologia: “A recolha que fazíamos no início era total, mas ao longo do tempo fomos vendo que isso tornava a agilidade mais difícil e agora recolhemos, todos os dias ao final da tarde, apenas as trotinetes que precisam de ser carregadas ou de ir para manutenção”, conta Frederico Venâncio, diretor-geral da VOI para o mercado português.

A equipa também faz a recolha em carrinhas, mas é um meio de transporte que vai ser diminuído ao máximo na empresa. O objetivo para o futuro, conta, é que a VOI passe a fazer esta tarefa com as bicicletas VOI Cargo, que foram apresentadas em maio em Estocolmo, na Suécia, e também virão para Portugal. E como é que isto está pensado? Os funcionários poderão fazer o transporte das trotinetes nestas bicicletas e, assim, “contribuir também aqui para um ambiente mais sustentável”.

Se a definição das zonas de recolha das trotinetes vai variando consoante a utilização diária destes aparelhos, há dias em que a empresa sueca recolhe totalmente as trotinetes. Foi o caso dos Santos Populares ou de outros grandes eventos que acontecem nas cidades onde está. “Retiramos porque é aconselhável para a segurança dos utilizadores e das próprias trotinetes”, explica Frederico. Tudo isto, acrescenta, é feito num constante diálogo com a Câmara Municipal de Lisboa.

A Wind, outra das empresas de micromobilidade presentes em Lisboa, trabalha “com um fornecedor externo que está responsável por toda a cidade”, conta Gerard Sellarès Boada, chefe regional de operações da empresa. “Apenas trabalhamos com empresas de distribuição profissionais”, garante. E o processo é também semelhante: “Normalmente começamos às 21h e recolhemos as trotinetes que estão abaixo de uma determinada percentagem de bateria na nossa zona de operação, aquelas que os utilizadores registaram como danificadas e as trotinetes que estão fora dos locais permitidos pela autarquia”.

Já na Tier, a operação também está centrada num parceiro único, mas há uma diferença: os aparelhos são recolhidos diariamente na sua totalidade e recolocados logo de manhã na cidade. Objetivo? “Fazer um processo de manutenção diário em armazém para garantir a qualidade do veículo, a segurança do utilizador e também para aumentar o tempo de vida das trotinetes”, explica-nos Francisco Miranda, responsável pela Tier em Portugal.

"Trabalhamos com um só parceiro logístico porque é mais fácil para nós termos um só ponto de contacto, um só parceiro que possa garantir toda a qualidade do lado operacional. As nossas equipas, claro, trabalham juntamente com esse parceiro no desenrolar da operação ao longo do dia", referiu Francisco Miranda, da TIER.

Na visão da empresa alemã, “esta é a única forma de tornar o negócio sustentável”, ao invés de uma substituição constante dos aparelhos por não estarem bem tratados. “Trabalhamos com um só parceiro logístico porque é mais fácil termos um só ponto de contacto, um só parceiro que possa garantir toda a qualidade do lado operacional. As nossas equipas, claro, trabalham juntamente com esse parceiro no desenrolar da operação ao longo do dia”, acrescentou ainda Francisco Miranda. São cerca de 10 pessoas que, todos os dias, fazem a recolha e a reposição das trotinetes.

Também pelas ruas de Lisboa podemos ver entre 30 a 50 pessoas que levam as trotinetes da Hive. A empresa, que em fevereiro deste ano deixou de ser um projeto piloto da Mytaxi e se tornou numa entidade independente, conta com um parceiro logístico que apenas trabalha com a marca e torna-a “dona de todo o processo”, ou seja, tem nas suas mãos o controlo da a logística, os mecânicos e o próprio processo de recolha das trotinetes elétricas.

Já no caso da Bird, que chegou a Portugal em abril deste ano, a empresa conta com uma equipa subcontratada que está responsável por recolher, transportar e recarregar as trotinetes ao final do dia num armazém que lhes pertence, em Lisboa. Essa mesma equipa é também a responsável pela manutenção destes equipamentos.

As equipas que controlam as trotinetes durante o dia

Má condução, estacionamento abusivo e desordem na rua. Estes são três dos principais problemas das trotinetes elétricas desde, que já levaram as câmaras municipais, como a de Lisboa, a tomar ações. Nas zonas históricas da capital portuguesa — a zona vermelha –, por exemplo, é proibido o estacionamento de trotinetes e bicicletas, uma medida que a autarquia diz ter permitido reduzir substancialmente o problema do estacionamento indevido.

Também as empresas têm vindo a tomar algumas medidas para evitar que situações como estas continuem a acontecer. Em muitas, existem equipas próprias que durante o dia fazem um trabalho de “fiscalização” e controlo dos seus aparelhos nas cidades.

Afonso Severino é gestor de armazém da Bird, mas também começou como Bird Watcher. Na altura, conta ao Observador, a sua função estava mais relacionada com a organização da equipa que é responsável por garantir a segurança e a disposição ordenada das trotinetes da Bird ao longo do dia em Lisboa. Uma vez que a empresa está há pouco tempo no mercado português, o grupo que desempenha estas tarefas está numa fase de consolidação.

“Todo o nosso trabalho é feito com base na localização das trotinetes. É com isso que definimos as ações a fazer em cada dia e quais as tarefas a desempenhar”, começa por explicar Afonso, mostrando também como tudo funciona na app e no computador. É aqui que os Bird Watchers, vindos de uma empresa subcontratada, podem ver que trotinetes estão fora dos limites de ação da empresa (a chamada zona ciclável) e voltar a colocá-las num hotspot dentro da área autorizada. Se houver um veículo estacionado no meio do passeio ou em qualquer outro local que não permita o estacionamento de trotinetes, os Bird Watchers têm a tarefa de recolocá-los nos sítio corretos. Mais: muitas vezes é esta equipa que testa a condução das trotinetes. Se estiverem com algum problema, deixam-nas nos pontos apropriados para depois serem recolhidas ao final do dia.

Através da app, as equipas conseguem também perceber quais são as trotinetes com falta de bateria ou algum problema (Fotografia: Ana Catarina Peixoto/Observador)

Ana Catarina Peixoto/Observador

É a partir da sede da Bird em Amesterdão que a equipa sabe as tarefas que tem de desempenhar a cada dia. E não se trata de uma equipa de técnicos, mas sim de “pessoas especializadas neste tipo de situações”, sublinha Afonso, acrescentando ainda que esta equipa é a mesma que trabalha noutras cidades europeias onde a Bird está presente.

Todos os Bird Watchers passam também por um período de formação, onde aprendem a lidar com as trotinetes e como agir em determinadas situações. Afonso destaca dois objetivos principais: “Em primeiro lugar, queremos garantir a imagem da empresa, uma questão ética de garantirmos sempre que não há trotinetes no meio da estrada, no chão ou no meio do passeio — e isso só nos vai trazer benefícios. Por outro lado, queremos garantir rapidez nas tarefas, ou seja, recuperar as trotinetes no menor tempo possível para que não se torne mais difícil depois encontrá-la”.

Afonso Severino é gestor de armazém da Bird, mas foi como Bird Watcher que começou a sua ligação à empresa (Fotografia: Ana Catarina Peixoto/Observador)

Ana Catarina Peixoto/Observador

Parte deste trabalho de patrulha serve também para evitar situações em que as trotinetes são apreendidas por estacionamento indevido e as empresas são multadasSegundo a Câmara Municipal de Lisboa à agência Lusa, só entre fevereiro e o início de junho, a Polícia Municipal cobrou 17.145 euros em coimas por trotinetes mal estacionadas, tendo removido 1.820 veículos do centro da cidade nos últimos cinco meses. O Código da Estrada define que a coima a cobrar nestes casos a trotinetes e bicicletas é de 15 euros por cada aparelho.

“Quando temos de ir à polícia buscar as trotinetes, também pedimos um feedback sobre o que se passou e porque é que foram retiradas. Se virmos que o mau estacionamento é um problema demasiado frequente em determinado local, então retiramos essa zona de ciclável”, explicou ainda Afonso.

No caso da VOI, Frederico Venâncio admite que a empresa já viu algumas trotinetes serem apreendidas por estarem mal estacionadas, mas assegura que se tratam de “casos pontuais”. “Queremos ter o mínimo de problemas, por isso é que temos estas equipas todas na cidade para organização e para evitar apreensões”. Pelas ruas de Lisboa anda também a Unicorn Crew, uma equipa da empresa sueca que está semanalmente na rua, dependendo do dia e das necessidades.

Todos os membros desta equipa, acrescenta Frederico, têm uma função de sensibilização, organização e também de divulgação, uma vez que estão presentes em campanhas que a empresa faz pela cidade. A acompanhá-los está sempre a equipa de operação, que faz uma análise diária a todos indicadores, como o número de viagens, as zonas com maior fluxo e os locais onde as trotinetes foram estacionadas, permitindo uma atualização em tempo real sobre a situação das trotinetes.

Controlam, organizam, mas também ensinam

“Isto não é sobre largar trotinetes na cidade e deixá-las andar, não é assim que funciona.” As palavras são de Tristan Torres, presidente executivo da Hive, que explicou ao Observador como funciona a equipa de “Bees” que a empresa tem nas ruas de Lisboa. Neste caso, a equipa é constituída por “toda a gente que queira ter um part time” (incluindo estudantes) e, ao mesmo tempo, esteja interessada em ajudar a contribuir para a organização desta nova forma de micromobilidade.

Segundo Joana Pereira, responsável pelas operações da Hive em Portugal, os Bees fazem as tarefas de ordem pública, como o controlo do estacionamento e do uso das trotinetes, mas têm também outra missão: “Muitas vezes, as pessoas vêm ter com eles para fazerem questões sobre como utilizar as trotinetes e a app”. Para que respondam da forma mais correta aos utilizadores, a empresa está a desenvolver uma parceria com a Prevenção Rodoviária Portuguesa para dar formação a esta equipa sobre os regulamentos da estrada e como utilizar as trotinetes da forma mais correta e segura, avança Joana Pereira.

Os "Hive bees" estão devidamente identificados nas ruas e ajudam a controlar o estacionamento indevido e a promover a boa utilização das trotinetes (Fotografia: Hive)

A equipa anda por várias zonas na cidade e a divisão destes locais é sempre feita consoante o fluxo de uso que verificarem nas trotinetes. “Se numa semana virmos que o comportamento dos utilizadores numa determinada zona melhorou, então vamos para outra área e criamos uma rota diferente”, acrescentou a responsável de operações.

Identificadas por “Patrulha Lime” estão também as pessoas da equipa de operações da empresa norte-americana. Esta equipa de fiscalização foi criada em fevereiro deste ano como resposta ao problema do estacionamento abusivo e opera principalmente nas zonas do Marquês de Pombal, Saldanha, Avenidas Novas, Cais do Sodré, Terreiro do Paço, Belém e Parque das Nações, bem como nas ruas onde os passeios são mais estreitos.

Luís Pinto refere que a patrulha é especialmente abordada “por utilizadores e pessoas que querem saber como funciona” todo este mundo das trotinetes. E é por isso que a componente do contacto com o público é especialmente valorizada. “Eles sabem, estão formados para saber responder às perguntas que as pessoas possam ter na utilização e também para sensibilizar como é que deve ser utilizada uma trotinete na cidade de Lisboa e na cidade de Coimbra, quais as regras, que recomendações é que a Lime dá, etc”, acrescenta o diretor-geral da Lime para Portugal.

A patrulha Lime foi criada pela empresa em fevereiro deste ano como resposta ao problema do estacionamento abusivo (Fotografia: Lime)

Lime

Outra das formas de sensibilização para o bom uso destes aparelhos passa por uma espécie de “contrato” entre a empresa e os próprios utilizadores. Em dezembro do ano passado, a Lime anunciou o lançamento da campanha “Respect the Ride” (em português “Respeita a viagem”) como forma de sensibilizar os utilizadores para as regras de segurança e de trânsito da cidade. Em troca, os utilizadores que aderirem recebiam um capacete grátis.

Já no caso da Wind, há também uma equipa que faz o mesmo trabalho que o turno responsável pela recolha das trotinetes, mas que tem especial cuidado com sua a organização em áreas mais densas, como Belém ou Cais do Sodré, especialmente na questão das trotinetes que podem cair com o vento. Há ainda um caso diferente entre as empresas: a Bungo não tem uma equipa dedicada apenas à organização e fiscalização das trotinetes, mas a cada final de viagem os trabalhadores da empresa verificam o estado de cada trotinete. “A tarefa é mais fácil tendo em conta que temos menos trotinetes”, admite João Pedro Cândido.

Do roubo ao vandalismo: como se lida com estes problemas?

Quando passamos em Belém com Bruno Pires e André David, os gestores de frota da Circ não encontraram situações mais complicadas na recolha das trotinetes. Mas nem sempre isto acontece. “Já apanhei uma trotinete pendurada nos placards dos autocarros, uma dentro de um arbusto em Almada, outra em cima de uma palmeira em Lisboa… Só quando colocamos o sinal sonoro é que conseguimos encontrá-las”, conta André. O vandalismo e o roubo são um desafio que as empresas continuam a ter de enfrentar, ainda que considerem que é um fenómeno que está a diminuir em comparação com os primeiros dias. Na maioria dos casos que envolvem trotinetes danificadas, em locais de mais difícil acesso ou até mesmo roubadas, o responsável pelo vandalismo não é necessariamente a última pessoa a utilizar aquela trotinete, porque esta pode ter sido danificada posteriormente, já com o veículo bloqueado, o que torna o trabalho ainda mais difícil.

Rui Carvalho conta que a empresa segue um determinado protocolo para as situações em que a trotinete é dada como desaparecida ou roubada: durante o dia, a equipa faz de tudo para recuperar o aparelho assinalado como “desaparecido”, mesmo que já esteja danificado ou inutilizável. Para isso, seguem o rasto da trotinete em questão o mais rápido possível.

Por isso é que ter uma logística própria, nas suas palavras, facilita a tarefa, uma vez que a capacidade de resposta se torna maior por terem acesso em tempo real ao estado e localização das trotinetes e passos definidos entre todos. E não são raras as situações em que são os próprios cidadãos a ligar para a empresa para informar sobre a localização de determinada trotinete. “Temos a sorte de muita gente nos contactar a dizer que apareceu a trotinete. Por exemplo, na Costa da Caparica, um pescador explicou que apanhou uma trotinete nossa, estava dentro do mar. As pessoas ligam muito para o apoio ao cliente”, acrescenta o diretor de operações.

Mas Rui Carvalho assume também uma postura crítica à forma como o vandalismo e roubo das trotinetes, tal como aconteceu com as bicicletas no início, está a ser encarado. “Acho que a população em geral está a levar isto um pouco de ânimo leve. As pessoas roubam um objeto que custa centenas de euros. Se eu saísse da FNAC a fugir com um telemóvel de centenas de euros, não sei como é que iriam reagir. Se houvesse um surto de pessoas a roubarem telemóveis, não sei como é que iria ser tratado e aqui com as trotinetes parece que se tornou uma coisa normal. Existe aqui um pouco esta normalização”, salientou.

Também João Pedro Cândido, da Bungo, refere que a situação do vandalismo é “muito difícil de controlar” e recorda a percentagem elevada de trotinetes roubadas que a empresa sofreu no início da sua operação na cidade. “É um problema muito grave que não está a ter a atenção devida”, critica.

Afonso Severino admite que a falta de civismo para com estes veículos é um problema que as trotinetes têm vindo a sofrer, apesar de reconhecer que não é o principal desafio que a empresa enfrenta atualmente. O responsável da Bird recorda, no entanto, as situações em que as trotinetes vão parar à água — o que “significa o fim delas” –, salientando também casos em que o QR Code das trotinetes surge pintado ou quando são colocadas outras etiquetas nos aparelhos e a sua bateria removida.

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E o que se faz quando uma trotinete aparece dentro de água ou em sítios de mais difícil acesso? As técnicas utilizadas entre as várias empresas são diversas, mas todas elas têm em mente a segurança dos seus colaboradores. “É perigoso tirar uma trotinete de dentro de água, porque a trotinete tem circuitos elétricos, tem a bateria que está carregada. Nós não podemos fazer esse trabalho, têm de ser pessoas especializadas”, alerta Afonso Severino.

No caso da Tier, Francisco Miranda conta que a equipa responsável por fazer a recolha e reposição das trotinetes está “munida de ganchos para ir buscar as trotinetes ao rio, caso as condições o permitam”, apesar de esta ser uma “situação residual”. As trotinetes são assinaladas como desaparecidas e marcadas como estando no rio ou noutra situação de perigo e mantêm-se “neste ciclo de recolha até que haja oportunidade para as ir recolher”.

Também a Lime conta com equipas especializadas para situações destas. “Temos visto que são situações cada vez mais residuais e que felizmente acontecem cada vez menos, mas temos equipas especializadas e devidamente equipadas para conseguirem dar resposta a esse desafio”, explicou Luís Pinto. Na VOI, de acordo com Frederico Venâncio, chegou a haver um Hunter que “utilizou uma corda e um gancho para tirar as trotinetes dos concorrentes da água”.

Outra situação ainda mais comum é quando as trotinetes ficam em casa dos utilizadores. Aí, a tarefa de ir buscá-las complica-se, tendo em conta que se trata de propriedade privada e nem sempre o GPS calcula exatamente o local onde o aparelho está. “Nessas situações, tentamos sempre cooperar no bom senso”, explica Bruno, da Circ, acrescentando que há uma conversa entre a equipa para decidir o que fazer e, por vezes, a necessidade de comunicar às autoridades, quando as pessoas não colaboram.

“Já encontramos trotinetes dentro de casa das pessoas, com as janelas abertas. Ouvíamos o sinal sonoro delas e víamos as pessoas andarem lá dentro com elas, mas ninguém dizia nada”, recorda Bruno, enquanto segue o rasto de uma trotinete estacionada junto a um dos estabelecimentos de restauração em Belém. Afonso Severino refere ainda que, por norma, a equipa da Bird consegue resolver estas situações, uma vez que “as pessoas normalmente não dão muita luta e reconhecem que não podem fazer isto”.

As equipas que tratam das trotinetes danificadas

Depois de um processo de recolha, as trotinetes elétricas têm outro destino ainda antes de serem carregadas: quando chegam ao armazém, passam por um processo de triagem para as equipas perceberem se estes veículos necessitam de manutenção ou se podem seguir para a próxima fase. É este o processo que, pelo menos, grande parte das empresas segue. “Quando a carrinha chega, é descarregada e as trotinetes são verificadas uma a uma. Se for preciso manutenção ou a colocação de stickers novos, o aparelho vai para uma determinada zona, se precisar de manutenção de hardware vai para outro local e se não tiver qualquer problema vai para a zona de carregamento para no dia a seguir estar pronto a ser utilizado”, explica o diretor de operações da Circ.

Do lado da Bird, os problemas nas trotinetes podem ser detetados de três formas: a trotinete está danificada visualmente e os Bird Watchers marcam-na como tendo problemas e colocam-nas nos hotspots para depois serem recolhidas, a própria trotinete se marca como danificada ou é através da classificação que os utilizadores dão a um aparelho em específico, podendo indicar algum tipo de problema. “Se for repetidamente baixa, ela própria também assume que está danificada, porque temos a visão de que se o cliente não considerou a sua viagem agradável é porque secalhar alguma coisa não está bem na trotinete”, explicou Afonso Severino.

Todas as empresas têm um armazém nas cidades onde fazem esta manutenção. E em todos eles há técnicos e mecânicos especializados nesta área que tratam de recuperar as suas trotinetes. Joana Pereira, da Hive, explica que a equipa de manutenção é constituída por “pessoas que têm experiência em mecânica”. E acrescenta: “Não precisa de ser experiência em trotinetes, mas principalmente em bicicletas. Temos muita gente que trabalhava em mecânica de bicicletas ou mecânica no geral. E também é necessário serem rápidos a aprender sobre trotinetes, claro”, destaca.

Também esta equipa recebe uma formação sobre o sistema da empresa, a sua forma de trabalho e como é que a marca pretende ver as trotinetes. Na Wind, há um funcionário que é o mecânico principal e uma equipa externa que também fornece apoio, dependendo da carga de trabalho diária. “Normalmente fazemos arranjos rápidos à noite, quando as trotinetes estão a carregar e depois focamo-nos nos casos mais sérios durante o dia. O nosso foco é implementar as trotinetes que forem possíveis a qualquer altura”, destaca Gerard Sellarès Boada.

As toneladas que vão para reciclagem quando a trotinete deixa de funcionar

A preocupação ambiental é uma das grandes bases que sustentam o surgimento desta nova forma de micromobilidade nos últimos anos. E se o andar de trotinete é, por si só, uma forma mais amiga do ambiente, as empresas dizem também querer garantir que a sua pegada ecológica diminui não só apenas a partir da própria ação de andar de trotinete, mas em todo o processo que gira à volta dela.

Na VOI, há uma equipa com cerca de 40 pessoas a nível ibérico que leva pelo menos uma vez por semana todas as trotinetes ao armazém “para fazer um check up, ou seja, verificar se há algum tipo de problema nos aparelhos, se precisam de algum tipo de manutenção”, explica Frederico Venâncio. Chamam-se Vehicle Ops e têm uma tarefa semelhante à das restantes empresas.

Mas há um aspeto em particular que esta equipa da VOI faz: quando as trotinetes estão danificadas, os Vehicle Ops conseguem reciclar 90% destes aparelhos. E os resultados são toneladas de cartão, plástico e alumínio, bem como baterias, recicladas. “Defendemos a causa ambiental e queremos exercê-la em todos os aspetos”, referiu Frederico. A empresa está também registada na APA – Associação Portuguesa do Ambiente, de forma a assegurar uma correta recolha e reciclagem dos resíduos.

O Observador contactou a Frog, outra empresa de micromobilidade que opera em Portugal, mas a marca preferiu não revelar informações sobre os métodos utilizados para a recolha, patrulha e manutenção das trotinetes. Fonte da empresa acrescentou, no entanto, que a Frog conta com “uma equipa de outsourcing que faz a parte de manutenção e recuperação de trotinetes e as arruma consoante as diretrizes estipuladas pela Câmara Municipal de Lisboa”.

Depois do carregamento e manutenção, segue-se a reposição das trotinetes nos lugares autorizados. O ciclo é o mesmo, os desafios podem vir a mudar, mas todas estas equipas dizem querer marcar a diferença não só no modelo de trotinete, mas na política de segurança e organização. E Tristan Torres, CEO da Hive, não tem dúvidas: “Todos os concorrentes precisam de se unir. A regulação neste negócio importante, mas também a atitude das empresas, dos operadores. Temos de estar todos empenhados nisto”.

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