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“Os santos populares já foram, agora já não são. Aqui, na Madragoa, as ruas eram todas enfeitadas, fazia-se um palanque para os músicos, com a altura de um primeiro andar, e tinham de passar por dentro das casas para subirem. Depois havia uma senhora que vendia bolinhas doces e apregoava pelo São João e pelo Santo António. Coisas que já não existem, a velha geração já morreu”.

Ana Rosa, do alto dos seus 86 anos, lembra uma vida inteira na Rua das Trinas. Das noites a dormir em cima das serrapilheiras, ou dos dias a pedir pão para fazer o almoço. O número exato da casa onde mora nem é preciso dizê-lo: na Madragoa toda a gente a conhece. A velha geração morreu e este ano isso sente-se mais do que nunca: as ruas dos bairros mais famosos de Lisboa estão praticamente vazias. Não há enfeites nos candeeiros, barracas de cerveja, colunas a disparar música ou sardinhas de algodão na cabeça. Não há festa porque a festa ficou em casa. Suspensa. Há, por isso, silêncio. E resistentes bairristas que têm as histórias na ponta da língua e, com gargalhadas sonoras, nos vão avivando a memória.

Aventura de crianças, escola de adultos

É o caso de Ana Rosa que vive num bairro que se prepara o ano inteiro para os santos populares e que, em tempos, já foi pintado “com gente do mar”. De fragateiros de gaita na boca à procura de raparigas para dançar, a mulheres, como ela, que iam até à Doca do Pinho (agora Doca de Alcântara) buscar caruma para o lume. O pai só voltava a casa de oito em oito dias, por trabalhar no Barreiro, já a mãe era varina (vendedora ambulante de peixe) no Bairro Alto — só não se metia na rua da Atalaia, porque havia lá uma senhora que fazia queixa das vendedoras. Quebrou a regra uma vez e acabou presa aos 12 anos. “Fui para a esquadra das Mercês, a minha mãe bem me disse para não ir. Acabei por sair, despejei a canastra com carapaus no rio e voltei para casa”, conta. Largou o peixe e virou modista, mas depois da mãe morrer voltou para o ofício inicial. Ficou-se pela terceira classe, mas sabe ler e escrever “sem erros”.

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