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JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

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Da Rua das Trinas à Bica: “Lisboa sem Santo António é como ir à praia e não haver mar” /premium

Ana Rosa tem saudades de ser miúda na Madragoa. Vanessa vai descer a avenida com os filhos. Américo recorda histórias loucas do 12 de junho. Memórias de lisboetas que este ano não podem marchar.

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“Os santos populares já foram, agora já não são. Aqui, na Madragoa, as ruas eram todas enfeitadas, fazia-se um palanque para os músicos, com a altura de um primeiro andar, e tinham de passar por dentro das casas para subirem. Depois havia uma senhora que vendia bolinhas doces e apregoava pelo São João e pelo Santo António. Coisas que já não existem, a velha geração já morreu”.

Ana Rosa, do alto dos seus 86 anos, lembra uma vida inteira na Rua das Trinas. Das noites a dormir em cima das serrapilheiras, ou dos dias a pedir pão para fazer o almoço. O número exato da casa onde mora nem é preciso dizê-lo: na Madragoa toda a gente a conhece. A velha geração morreu e este ano isso sente-se mais do que nunca: as ruas dos bairros mais famosos de Lisboa estão praticamente vazias. Não há enfeites nos candeeiros, barracas de cerveja, colunas a disparar música ou sardinhas de algodão na cabeça. Não há festa porque a festa ficou em casa. Suspensa. Há, por isso, silêncio. E resistentes bairristas que têm as histórias na ponta da língua e, com gargalhadas sonoras, nos vão avivando a memória.

Aventura de crianças, escola de adultos

É o caso de Ana Rosa que vive num bairro que se prepara o ano inteiro para os santos populares e que, em tempos, já foi pintado “com gente do mar”. De fragateiros de gaita na boca à procura de raparigas para dançar, a mulheres, como ela, que iam até à Doca do Pinho (agora Doca de Alcântara) buscar caruma para o lume. O pai só voltava a casa de oito em oito dias, por trabalhar no Barreiro, já a mãe era varina (vendedora ambulante de peixe) no Bairro Alto — só não se metia na rua da Atalaia, porque havia lá uma senhora que fazia queixa das vendedoras. Quebrou a regra uma vez e acabou presa aos 12 anos. “Fui para a esquadra das Mercês, a minha mãe bem me disse para não ir. Acabei por sair, despejei a canastra com carapaus no rio e voltei para casa”, conta. Largou o peixe e virou modista, mas depois da mãe morrer voltou para o ofício inicial. Ficou-se pela terceira classe, mas sabe ler e escrever “sem erros”.

“Às vezes era uma cegada entre bairros… uma vez no pavilhão do Belenenses, a Madragoa foi de pé descalço, como sempre fez, e a Bica pôs pionaises no chão, ficou tudo com sangue nos pés"

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Do que Ana Rosa tem mais saudades é do sentimento de união entre a vizinhança. Do trabalho que dava enfeitar as ruas. E, em especial, da liberdade que teve quando era mais nova, entre os anos 40 e 50. “A gente andava na rua até às tantas da manhã, depois íamos diretas ao Xafariz da Esperança, lavávamos os pés e a cara e seguíamos para o Cacau da Ribeira, onde tomávamos o café e o pequeno almoço”. Pelo meio, entretinha-se a arranjar cestos para as flores que iriam dar cor às festividades, ou a participar na “marcha dos miúdos”, onde, vestindo “as vestes das mães e das avós”, marchavam até ao Jardim da Estrela.

O arraial era, portanto, o ponto de chegada de uma aventura de crianças, jovens e até adultos que, por vezes, podia acabar em “zaragatas”. “Às vezes a gente estava a comer e havia uma zaragata, vinha tudo a correr para a rua. Agora não há nada disso, a mocidade é diferente. Mas também havia pancada: uma vez, um rapaz da marinha foi morto na Rua Garcia de Horta”, afirma. Não se criam memórias sem uns quantos percalços, até dos que são fatais.

Confrontos entre bairros sempre houve, especialmente na altura das marchas populares, a cereja no topo do bolo deste mês. A rivalidade acentua-se também nesta altura. “Às vezes era uma cegada entre bairros… uma vez no pavilhão do Belenenses, a Madragoa foi de pé descalço, como sempre fez, e a Bica pôs pionaises no chão, ficou tudo com sangue nos pés. Ainda hoje existe essa rivalidade”, diz. O azedume entre grupos parece ter diminuído, mas continua com uma certeza: “A claque da Madragoa é a maior e não há ninguém que dance como eles”.

Perdeu o marido há 17 anos, fotógrafo de profissão, com estúdio nos Prazeres, que chegou a fazer posters da Guerra Colonial. E que fique esclarecido: o amor não chegou “por falta de pretendentes”, mas sim porque Ana Rosa só começou a namorar aos 20 anos. Durante as semanas de isolamento, esteve “presa” quase dois meses em casa, aproveitando sempre a janela para ir metendo conversa com quem passasse. Foi tendo a ajuda da Junta de Freguesia para as compras, medicamentos ou idas ao hospital. A vontade de conversar é que nunca lhe faltou. Fez uma vida inteira sem nunca se calar, não ia fazê-lo agora.

“Pela primeira vez, não há. Este é um ano zero. É doloroso passar por isto, Lisboa não é a mesma, sente-se um silêncio ensurdecedor. É como ir à praia e não haver mar”, diz-nos Américo Silva.

Já não precisa de entrar às escondidas em casa, “com os pés sujos”, porque mora sozinha. “Não me custa estar sozinha porque falo muito. No outro dia estive a cantar o fado, porque há aqui um rapaz que toca viola. Também costumo estar sentada à porta e falo com quem passa, até com estrangeiros. Já me disseram que falo todas as línguas”, comenta. Os estrangeiros que pernoitam por ali, no andar debaixo, não lhe causam confusão. Costuma até oferecer-lhes arroz doce. No entanto, teve de parar com as aulas de hidroginástica e interromper a sua participação num grupo coral, porque o professor morreu de repente.

Confessa-se triste por não haver santos populares — e pela própria festa se ter descaracterizado na sua zona —, e ainda mais triste por muitos dos filhos e filhas terem saído do bairro onde nasceu — ela e os irmãos, todos nascidos em casa. Este ano será diferente. Não haverá nem correrias, manjericos, música, nem marchas ou arraiais — pelo menos, no seu bairro, “onde conhece toda a gente”. E pior: parece que se está a perder-se a tradição da conversa de janela em janela, de porta em porta. “Contaram-me que em Alfama não se vê ninguém sentado às portas. Não há”, finalizou.

Os namoros do bairro, o desgosto deste verão

Não há ninguém sentado nas portas, nem há a azáfama da descida da avenida. Este seria o dia em que dezenas de lisboetas desceriam a Avenida da Liberdade à procura de ganhar o prémio de melhor marcha. Caso não se deslocasse até lá, poderia ligar a televisão e o sentimento mais transversal dos marchantes, além das roupas coloridas e da destreza de movimento, seria o sorriso na cara. Porque depois de variados ensaios, era no dia 12 de junho que os marchantes se mostravam ao país. Américo Silva, presidente do clube Marítimo Lisboa e ensaiador da marcha da Bica há 30 anos, seria uma dessas pessoas. Seria. “Pela primeira vez, não há. Este é um ano zero. É doloroso passar por isto, Lisboa não é a mesma, sente-se um silêncio ensurdecedor. É como ir à praia e não haver mar”, afirmou ao Observador. Américo Silva sabe também que, além da tristeza, sem os santos populares há muitas coletividades que ficarão aflitas para se aguentarem no resto do ano “Não se vai viver, vai-se sobreviver”, diz ao Observador.

Nascido e criado naquele bairro, com mulher e filhos ao seu lado — e com netos que até já são mascotes da marcha —, Américo assumiu a liderança da marcha em 1989, depois dos pais, também eles fazerem parte, como manda a tradição. Foi fazendo um pouco de tudo: agora é motorista na junta de freguesia da Misericórdia, mas já trabalhou em portarias, no comércio, mas nunca na área do espectáculo. Recorda a “loucura” das marchas, o mês de junho “louco”, para concordar, indiretamente, com o que Ana Rosa pensa: os bairros estão desenquadrados, a marcha é composta maioritariamente por pessoas de fora da Bica, porque muitos dos que nasceram por ali já não lá moram. “Nos anos 70, aprendíamos tudo a andar na rua, andávamos até o arraial acabar”, comenta. Tudo, até namoradas, mas tinham de ser do bairro. “Quando a namorada não era do bairro… tínhamos a mania de que as mulheres de lá eram todas para nós”, confessa.

epaselect epa07644641 People perform during the March of Lisbon's 'Marchas Populares' part of the Saint Anthony celebration at Liberdade Avenue in Lisbon, Portugal, 12 June 2019. Every year at Saint Anthony evening about 20 Lisbon neighborhoods march in colorful costumes and sing popular song in honor of the marriage saint. This evening is the most important festivity in Lisbon.  EPA/TIAGO PETINGA

“Nos anos 90 fomos com a marcha às festas de Lamego e ficámos a dormir todos [os marchantes] num convento de freiras. Foi complicado, passou-se te tudo, muita coisa nem posso contar"

TIAGO PETINGA/EPA

Mas a importância das marchas não se esgota na competição para chegar ao primeiro lugar. É também uma espécie de centro de formação e reabilitação social, mas em jeito familiar. “Sabemos que, pelo menos durante os ensaios, ninguém está a consumir droga ou na prostituição. São cinquenta pessoas durante dois meses que não se perdem, estão bem. É um centro de formação. Um grande orgulho”. Nesse sentido, Américo Silva afirma até conhecer vários exemplos de quem “mudou de vida” graças à marcha. “Conheço uma pessoa que esteve presa, aproveitou a marcha para se reabilitar. Hoje é pai de família e nunca mais saiu da marcha”, comenta, com amargura na voz.

Mas a oscilação entre tristeza e alegria é equivalente às rodas que a marcha dá. “Nos anos 90 fomos com a marcha às festas de Lamego e ficámos a dormir todos [os marchantes] num convento de freiras. Foi complicado, passou-se te tudo, muita coisa nem posso contar. Desde rezar-se o terço às 5 da manhã, a estarmos com outras raparigas no quarto, ficarmos lá a ver o fogo de artifício, sem se conseguir distinguir quem era freira e não era”, conta a recordar as gargalhadas de outros tempos. Menos picante, e mais perto da capital, Américo Silva também se lembra da vez em que acabou quase nu na camioneta para regressar a Lisboa. “Fomos atuar a Mafra, não havia uma pessoa na rua. Descemos para a praia e era uma multidão, viemos de lá nus porque quiseram ficar com as nossas fardas. Viemos de cuecas na camioneta”, recorda.

Mesmo estando desagradado com a pandemia, o presidente do Marítimo Lisboa acredita que no próximo ano já poderá haver santos populares. Sabe que o que viveu outrora não se repete, nem mesmo as tais rivalidades contadas por Ana Rosa. Américo Silva também se lembra da pancadaria que houve no estádio da Tapadinha, também nos anos 90, e do confronto mais próximo da Avenida. “Tínhamos cá o Careca da Bica, que já morreu, que era o ex-libris do bairro, melhor do que o elevador. Ficou conhecido porque uma vez no Marquês de Pombal levou com um arco, abriu-lhe a cabeça. Dantes era a ferro e fogo, com guerras entre marchas. Hoje já não é assim”.

Descer a avenida a olhar para cima

Para quem é crente, olhar para o céu costuma ser sinónimo de esperança de que o outro, familiar ou amigo próximo, esteja, de alguma forma, a olhar para nós. Vanessa Rocha, coreógrafa da marcha de Alfama, de que faz parte há 30 anos, perdeu o pai, que era o organizador, faz agora 14 anos. “Quando estávamos prontos para sair para a avenida, o meu pai tinha acabado de morrer. Morreu na noite de Santo António. Ainda desfilei, a minha irmã é que não. Porque, sendo marchante de primeiro arco, era difícil substituírem-me. Consegui abstrair-me, era o que ele queria. Mas foi a pior noite da minha vida”, afirma. Alfama acabou por ganhar nessa noite, e sagrar-se tetracampeã. Os festejos ficaram para outra altura. Mas o trabalho estava feito.

“Não se vê um balcão de madeira, uma esplanada de arraial. Há gente que até tem vergonha de dizer que não tem dinheiro para comer", diz Mário Rocha, presidente do centro cultural Magalhães Lima, em Alfama.

Quem é do bairro espera um ano inteiro pelo mês de junho, como se fosse Natal. “Desde miúda que acompanho os ensaios. Esperava o ano inteiro por aquilo. Havia sempre um grupo de crianças atrás das marchas. Em 88, o meu pai deu-me autorização para distribuir as revistas das coletividades”, comenta, dando a entender que aquele foi um momento de libertação — ou até de início de passagem de testemunho.

Durante 18 anos foi marchante, ensinada pelo “mestre” Carlos Mendonça, porque tudo o que dizia “era lei”. Vanessa Rocha, sem formação na área artística, tomou as rédeas em 2010 e tornou-se também ela mestre e figura respeitada no bairro. “A minha formação é o coração do bairro, faço o que sinto, e tem-me saído bem. De 2010 a 2019 ganhei seis vezes”. Essas vitórias costumam ser sinónimo de celebração, daquelas em que se está “uma semana inteira sem ir à cama”, como aconteceu em 1990, quando Alfama ganhou pela primeira vez, ao fim de 50 anos. Dissemos uma semana? Não. “Foi o resto do mês de junho sempre em festa”, contou.

Em 2020, a música é outra. A música e a própria Alfama: onde antes havia um morador, agora há um ou outro turista a dormir em alojamento local. A paisagem mudou, mas este mês seria o de reencontro com as raízes. Só que não. Foram proibidos enfeites e luzes no bairro, a mando da polícia. Vê-se pouca ou nenhuma gente na rua. “Está tudo escuro”, descreve. É estranho não se ter aquilo a que se está habituado. Um evento que lhe deu amigos, namoricos e lhe desenhou a adolescência. Que também lhe deu algumas dores de cabeça, como ir parar ao hospital por causa de um problema no joelho, e no dia a seguir já estar pronta para ensaiar. Agora, resta-lhe esperar, continuar o trabalho numa loja social da junta de freguesia de Santa Maria Maior, onde já “se sente o pedido de ajuda das pessoas” por causa das consequências da Covid-19. Quando o relógio tocar nas 19 horas vai rumar à avenida, com o marido e os filhos. “Vou descer a avenida, apesar de não haver ninguém. Depois vou até ao bairro passear”. Há hábitos que não mudam.

“Nos anos 70, aprendíamos tudo a andar na rua, andávamos até o arraial acabar”

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

“Não se vê um balcão de madeira, uma esplanada de arraial. Há gente que até tem vergonha de dizer que não tem dinheiro para comer”, diz Mário Rocha, tio de Vanessa Rocha e presidente do centro cultural Magalhães Lima, responsável pela marcha e pelo arraial do bairro.

Para quem desde miúdo “andou sempre atrás da marcha”, ao ponto de ir pendurado na camioneta da CML, entrar por baixo das saias das marchantes no antigo pavilhão Carlos Lopes, mesmo em dia de escola, este mês sabe a muito pouco. “Era um bocadinho vadio. Íamos para a ribeira, comíamos fruta, era assim a vida. Mas tirei a quarta classe. Fui montador de pneus, depois fui para a estiva, vim-me embora, recebi a indemnização e comprei um andar em Alfama. É o mesmo andar até hoje”, afirma. De miúdo até adulto, passou muitas horas a enfeitar a rua com fitas de jornal e a realizar “retiros”, ou seja, um pequeno arraial, com bandeirinhas e palmeiras, servindo ao balcão. Agora é presidente, mas ainda toma conta das operações, mesmo com 64 anos. Conhecido por “Mário Tó” — sem ainda hoje saber porquê — confessa que só deixa o cargo quando houver outra equipa “como deve ser”. Energia não lhe falta. Só faltam os santos populares.

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