Dalí, Reis e vários Papas. Os 200 anos da Leitão & Irmão /premium

24 Março 2019409

Jorge Leitão é quem está agora à frente da Casa Leitão & Irmão. Em dois séculos, os ourives tiveram como clientes Reis, Presidentes e Papas. E Nossa Senhora também. Entrevista de Maria João Avillez.

Dizer que é a luz dos seus olhos não é demais. Jorge Leitão, 60 anos, ama, cuida e lidera a Casa Leitão & Irmão, na sua família há mais de duzentos anos, como de um filho: com o mesmo esmero, a mesma devoção, a mesma responsabilidade. Tem razão em fazê-lo. A Casa é um caso. Ao longo de dois séculos, conseguiram ser tão exigentes na criatividade quanto na qualidade, idealizando e criando milhares de peças artísticas — ourivesaria, joalharia, decoração – assinando eles próprios, ou colaborando com artistas tão vários quanto Columbano ou Dalí…

Serviram reis e plebeus, rainhas e princesas, a alta aristocracia europeia e a alta burguesia nacional, ricos e menos ricos, monárquicos e republicanos, altos dignitários do Estado Novo e todos os chefes de Estado da democracia (sim, Marcelo também). Ah, “e Nossa Senhora de Fátima também é nossa cliente”, explica Jorge Leitão com tanta convicção — e igual subtileza — que ao ouvi-lo se acharia natural passar um destes dias pelo Chiado, onde eles moram, e ver Nossa Senhora a entrar pela loja. De algum algum modo, esta família tem vindo a servir — e a reflectir — a História de Portugal desde que pela primeira vez abriu as portas, há muito tempo, no Porto. Não diz o meu interlocutor que “o espírito da casa é Portugal”?

A esta história — interessantíssima e raríssima – da Casa Leitão & Irmão junta-se a própria história de Jorge Leitão & família: é difícil dizer qual é melhor, mas, sorte nossa, são ambas portuguesas. Daqui.

Quando se fala em Casa Leitão & Irmão fala-se de prestígio, claro, mas ele dura há mais de dois séculos. Não é só uma joalharia, só uma ourivesaria… Qual a essência, o espírito da Casa Leitão?
O espírito é Portugal.

Porquê? Por terem acompanhado parte da História?
De alguma forma, sim: estamos cá há duzentos anos, o país há bastante mais, mas fomos sempre “cronistas” de Portugal, por termos transformado em prata e ouro momentos importantes da nossa História. E a prata e o ouro são indeléveis, têm o mistério da eternidade.

Que momentos dessa “crónica” gostaria de destacar?
Muitos… mas talvez o principal tenha sido a expansão da Europa no Mundo que foi comandada por Portugal, a que nós chamamos Descobrimentos.

Há muitas peças alusivas a essa saga?
Muitíssimas. Havia há 150 anos, há 100 anos e quando eu próprio fui para a Casa Leitão foi nesse tema que peguei. Quis manter-me fiel a esse princípio da Casa de tratar de Portugal naquilo que fazemos. Não um país atrasado ou limitado, mas um Portugal universal, como esse de há cerca de 500 anos.

Lembro-me de na Expo, em 1998, haver também diversas peças vossas e também relacionadas com a História.
Fizemos os presentes oficiais que o Estado português deu a todos os ilustres visitantes da Expo 98. Desde o Al Gore à Amália Rodrigues, passando pelo príncipe Rainier do Mónaco, trabalhámos para as mais diversas personalidades. As peças? Foram os grandes habitantes dos oceanos porque os nossos primeiros oceanógrafos europeus foram o rei D. Carlos e o seu primo, príncipe Alberto do Mónaco.

E reeditaram trabalhos ou criaram outros?
Foi obra nova. Criámo-la para a ocasião, o que é aliás uma marca nossa: nunca fazer o já feito. Temos 200 anos de atividade porque estamos sempre a fazer coisas novas e um bocadinho à frente do nosso tempo. A Expo 98 foi aliás uma aventura: fomos à procura do grande oceanógrafo português vivo, professor Luís Saldanha, respeitado mundialmente, e dissemos-lhe: “Ajude-nos a fazer uma coleção de animais marinhos”. Ele assim fez, seguindo nós todas as suas indicações: fizeram-se tubarões e baleias, fez-se um tubarão especial, descoberto pelo rei D Carlos e denominado por ele. Luís Saldanha estava no fim da vida quando o procurámos, infelizmente só viu uma parte da coleção, morreu antes de ela estar pronta.

Onde estão hoje essas peças?
Espalhadas por muitos museus de todo o mundo. Os dignitários que visitaram a Expo levaram todos as peças com eles.

Os vossos clientes são maioritariamente estrangeiros?
Há bastantes estrangeiros — temos clientes em todo o mundo — mas ainda são principalmente portugueses. E temos gosto em ambos.

Dois séculos de idade implicam obrigações: a vossa memória está devidamente guardada e protegida? Têm arquivos tratados? Onde estão?
Graças a Deus, sim! Graças a Deus é uma expressão, porque é graças à Fundação Calouste Gulbenkian e ao Dr. Azeredo Perdigão.

Estão na Gulbenkian? Outra boa história, é como ir tirando cerejas de um cestinho…
Quando a Casa Leitão fechou por um tempo, o meu pai, amigo do Dr. Azeredo Perdigão, sugeriu-lhe que o património artístico da Casa fosse recolhido na Fundação. Entretanto, outras coisas aconteceram e acabei por ficar eu com tudo isso quando reabrimos. Mas, anos depois, a Fundação Gulbenkian arrumou e catalogou muita coisa. Existe hoje na Fundação Gulbenkian uma sala Leitão & Irmão…

Visitável?
Sim, com marcação e autorização prévia nossa, muitos dos documentos têm nomes. Se eles forem vistos por curiosidade ou interesse histórico, não é grave; se o intuito for outro não deve ser permitido.

O arquivo tem sido procurado?
Muito. Ainda há muito pouco tempo uma universitária chamada Santini – sim, como os gelados! – veio do Brasil expressamente para procurar parte da história brasileira nos arquivos da Casa Leitão. Era o que eu lhe dizia no inicio: à sua medida, a Casa Leitão vai contando a história de Portugal.

Então vamos lá, a esta historia, desde o princípio: era uma vez…?
Era uma vez um senhor chamado José Pinto da Trindade que era o homem mais rico do Porto, e que em finais do séc. XVIII estava muito ligado ao comércio com o Brasil — e, consequentemente, ao comércio do ouro e, logo, aos ourives. Mas a filha, que era bonita e passava os dias à janela a namorar os homens que passavam, apoquentava-o tanto que a pôs num convento. Até que um dia os amigos lhe vieram falar num rapaz ourives, muito arrumado e certinho, mesmo a calhar para a tal filha namoradeira, a Delfinha… E assim foi. O rapaz ourives era o sr. Leitão. Casaram os dois, no início do século XIX, a rapariga rica e o joalheiro modesto e certinho…

"Somos joalheiros da Coroa, nomeados pelo Rei D. Luís, como sinal de reconhecimento por o Papa Leão XIII ter dito a missa do Jubileu com o presente que nós, Leitão & Irmão, havíamos feito."

A Casa Leitão nasce então no Porto, outra surpresa.
Sim, sim, onde o sr. José Trindade teve um papel muito relevante durante o cerco do Porto: foi ele o financiador das tropas do Rei D. Pedro, como homem mais rico do Porto que era. Como se sabe, D. Pedro ganhou, foi para o Brasil e por isso nós somos ourives da Casa Imperial Brasileira sem nunca ter ido ao Brasil. É um título de reconhecimento. Mais tarde, a Casa Leitão veio a fazer coisas no Brasil mas o título foi recebido muito antes.

A sua Casa é conhecida também por ter recebido encomendas de diversas casas reais, da alta aristocracia portuguesa e europeia, de artistas, políticos, de três Papas…
…mais do que três, se me permite. Sim, fizemos muitíssimas coisas para os reis de Portugal, para D. Luís e para D. Pedro II no Brasil. A Rainha Maria Pia foi talvez a nossa melhor cliente, era uma grande apreciadora de jóias. Mas é preciso sublinhar o papel da Rainha D.ª Amélia — a última francesa coroada rainha – que foi grande amiga da Casa Leitão, inclusivamente desenhando jóias. Possuímos desenhos seus, escritos, sugestões, pequenas notas. Fizemos uma peça muito importante – lá vêm os Santos Padres – para o Jubileu do Papa Leão XIII, encomendada pelo Rei D. Luís. Era um cálice, foi feito e entregue no Vaticano. Leão XIII gostou tanto que disse a missa do Jubileu com esse cálice, o que teve algum impacto político na Europa e, claro, no nosso país. O Rei ficou naturalmente muito contente e nomeou-nos joalheiros da coroa. Em resumo: somos joalheiros da Coroa, nomeados pelo Rei D. Luís, como sinal de reconhecimento por o Papa ter dito a missa do Jubileu com o presente que nós, Leitão & Irmão, havíamos feito.

Cálice feito para o Jubileu do Papa Leão XIII, encomendado pelo Rei D. Luís.

Onde está hoje o cálice?
Está exposto no Museu do Vaticano – na sala do Tesouro –, que é, simultaneamente, a Sacristia da Basílica de S. Pedro. Lá se encontra também, por exemplo, a cadeira de Carlos Magno, dois dentes de elefante oferecidos pelo Rei D. Manuel, dizendo “Oferecidos pelo Rei D. Manuel de Portugal”. E lá está o cálice, com a nossa assinatura.

Falámos do cerco do Porto, depois do Brasil, do Vaticano… Temos de ser mais disciplinados: quando se mudaram do Porto para Lisboa?
Lisboa foi em 1877, no mesmo ano em que fomos nomeados joalheiros da Coroa. Não podíamos deixar de estar onde estava a corte. Instalámo-nos no Largo do Chiado, onde permanecemos hoje.

Que se seguiu? Houve, por exemplo, algum apogeu, alguma maré mais alta que outras?
Posso dizer que sim: desde 1880, digamos, até à implantação da República a Casa Leitão viveu uma época ímpar: múltiplas encomendas, de vários lados, umas com projeção mundial, outras revelando uma imensa aceitação nacional… Foi o tempo da implantação de um nome ímpar e de uma marca que hoje continua.

Como se apercebiam do eco internacional? Os estrangeiros procuravam-nos? Foram as encomendas, a imprensa internacional, o boca a boca?
Era uma altura em que se começava a viajar com alguma facilidade e o sr. Leitão à época, meu antepassado — já fomos oito ou nove, não é? — mandou os filhos estudar, primeiro para Paris, depois para Inglaterra. Ou seja, sempre se saiu de Portugal sem deixarmos de ser portugueses. Daí eu lhe ter dito há pouco: nunca nos sentimos limitados exclusivamente a Portugal, mas gostamos de ser portugueses. O meu pai estudou em Londres, o meu avô, em Paris. Ia-se absorvendo tudo. Aliás, a Arte Nova entrou em Portugal pela Casa Leitão e pela joalharia. E não pela arquitectura, ao contrário de todos os outros países.

Lá vem outra cereja: a Casa Leitão teve um papel relevante na entrada da Arte Nova entre nós? Através do que desenhavam ou concebiam?
Através das nossas jóias, exatamente. Como o meu avô estudava em Paris, onde era companheiro do Lalique, do Daum etc., conheciam-se bem, falavam, o que foi criando naturalmente toda uma abertura a novas fórmulas, novos artistas, novas maneiras de olhar, depois por nós concretizadas. A procura de novas mentalidades que nos levassem ao “novo”sempre foi uma marca nossa. Às vezes coisas totalmente revolucionárias à época, como a Arte Nova.

Há alguma coisa escrita, na imprensa portuguesa, sobre o que foi a reação de Lisboa a tudo isso?
Há uma tese de um académico sobre a introdução da Arte Nova em Portugal pela Casa Leitão. Mas é um trabalho académico. Na imprensa, ignoro se há.

Continuando na “ abertura” e no espírito de inovação…
… olhe, por exemplo, entre 1895 e 1900 fez-se possivelmente a maior obra de sempre em ourivesaria de Portugal e, passe a imodéstia, fomos nós a fazê-la: uma baixela chamada “A baixela Barahona”, feita para uma família de Évora, que nos fez a encomenda mas dando-nos a possibilidade de fazermos o que quiséssemos: sem limite de criatividade, de número de peças, de preço. Procurámos então o Columbano Bordalo Pinheiro, grande artista da época e irmão do Rafael, a quem pedimos que nos desenhasse uma baixela, o que já é, por si, revelador de uma atitude nova, talvez quase revolucionária, porque os ourives têm muito a mania que sabem tudo. Ir buscar um grande pintor português para ser ele a desenhar uma baixela de prata…

O resultado esteve à altura da ousadia?
Resultou numa obra fantástica. Os candelabros têm 25 quilos cada um, o centro de mesa tem 65 quilos e quase um metro, as peças não tinham fim…

"Em Paris, conheci a agente de Dalí para determinadas obras, entre elas a ourivesaria. Um dia, encarregou a Casa Leitão de fazer diferentes peças desenhadas por ele: faqueiros em ouro, rubis, safiras, cristal de rocha e esmalte e uma colher-relógio em ouro. O modelo da colher foi visto e aprovado por Dalí."

Falou do Columbano mas ocorreu-me que têm colaborado ao longo de décadas com diversos artistas, nacionais e internacionais. Que obras ou assinaturas são mais relevantes?
A baixela em prata desenhada por Columbano Bordalo Pinheiro tem desde logo a relevância de, em 1890, termos iniciado a prática, agora em voga, de trazer artistas de outras áreas para a ourivesaria. Mas, para lhe responder, direi que Salvador Dalí é provavelmente o nome de maior relevo.

Dalí “colaborador” do Leitão & Irmão?
Conheci a sua obra em Paris em 1979, tinha eu 20 anos. Havia uma grande retrospetiva no Centro Pompidou onde entrei por mero acaso. Logo à entrada , numa vitrine à direita, um coração de ouro: eletrificado, bombeava rubis pela aorta. Era orgânico, tinha vida. Fazia impressão. Mais à frente, numa pequena sala de cinema, passavam filmes da autoria de Dalí. Num deles, realizado com Picasso, um olho numa cara de mulher era cortado com uma lâmina de barbear. Depois, seguia-se por um corredor escuro e subitamente, ao dobrar uma esquina, caía-nos Cristo em cima: um grande quadro, muito bem iluminado, e Cristo, enorme, suspenso no ar, solto da cruz que se mantinha atrás, parecia de facto que nos ia cair em cima. Nunca mais me esqueci. Muitos anos depois, na década de oitenta, também em Paris, conheci Mafalda Davis, amiga e agente de Dalí para determinadas obras, entre elas ourivesaria. Um dia, encarregou a Casa Leitão de fazer diferentes peças desenhadas por ele: faqueiros em ouro, rubis, safiras, cristal de rocha e esmalte e uma colher-relógio em ouro. O modelo da colher foi visto e aprovado por Dalí.

Visto e aprovado onde? Em Lisboa?
Em Paris. Lembro-me, aliás, dos jantares na Av. Foch, num apartamento inteiramente decorado com peças de Dalí, mesa e cadeiras da sala de jantar incluídas. É que, quando eu ia lá entregar as encomendas, a Miss Davis tinha a simpatia de me convidar para jantar….

Ah, bom… E em Portugal, trabalharam com quem?
Com artistas como Graça Costa Cabral – infelizmente já falecida – com quem fizemos um maravilhoso presépio em prata, ouro, diamante em bruto e ardósia, obra oficial do Jubileu do milénio; José Aurélio, que entre outras obras desenhou a coleção de jóias para a XVII Exposição de Arte Ciência e Cultura; ou João Cutileiro, com quem a pedra ganha erotismo.

Mas também colaboraram com a área do conhecimento, por exemplo.
Sim, houve diversas colaborações que nos permitiram abordar diferentes assuntos sem fazer “disparates” em áreas que nos eram estranhas. Quem? Para além do Luís Saldanha, que ja evoquei, o comandante António Estácio dos Reis, personagem de renome mundial que trouxe para as luzes da ribalta o astrolábio náutico português, ou que descobriu, em finais do séc. XX em Florença, a única peça conhecida como o Nónio de Pedro Nunes. Ambas serviram para obras em prata feitas na Casa.

Já não chega falar de cerejas…
… é que a colaboração da Casa com o conhecimento é-me particularmente grata… Mas, já agora, só mais estes exemplos: o do professor Galopim de Carvalho, que na altura do filme Jurassic Park nos apoiou na edição de uma coleção de dinossáurios em prata manufacturada, com o necessário rigor anatómico. Veríssimo Serrão com quem editámos uma coleção de pelourinhos portugueses, símbolo do poder local. Carvalho Rodrigues, com quem desenhámos uma jóia que encerra a divina proporção mas ainda não editada.

Jorge Leitão na oficina da Leitão & Irmão no Bairro Alto, Lisboa

Parece-me que nisto tudo está a faltar um célebre elefante…
Há Portugal por todo o mundo, retratado em histórias e manifestações artísticas formidáveis que muito nos inspiram. Podia agora falar de um rinoceronte, mas, se me pede um elefante, ei-lo: em 1514, D. Manuel tinha enviado uma faustosa embaixada ao Papa, onde seguia um elefante albino para o Papa Leão X. Tornou-se um favorito da corte papal, sendo desenhado por diferentes artistas, entre eles o grande Rafael. É com base no desenho de Rafael que nós viemos a criar a escultura em prata do elefante “Hano”, o nome pelo qual o elefante ficou conhecido em Roma.

As encomendas são a parte de leão nas vendas, são de algum modo o pulmão financeiro da casa?
São seguramente importantes. Até pela parte pessoal. Faz-se uma peça para uma determinada pessoa ou situação. É motivante e exigente. O pulmão financeiro da Casa é mais forte na democratização da ourivesaria. Com o apoio na divulgação de obras exclusivas por parte de instituições com grande presença territorial, nomeadamente a banca, companhias de seguros ou os correios conseguimos propor a nossa manufatura a um publico muito alargado.

Olhando para trás, qual é, quanto a si, a razão do permanente respeito com que a Leitão & Irmão tem sido sempre distinguida, na monarquia, na república, em ditadura ou em democracia: nunca houve, em mais de 200 anos, quem não lhes tenha feito encomendas…
Porque no trabalho somos e mantivemo-nos sempre unicamente profissionais.

A propósito de regimes políticos, a chegada da república, com os seus estremeções e permanentes desordens, refletiu-se na Casa Leitão?
Claro que os momentos difíceis do país se reflectem naturalmente na nossa actividade, mas nós éramos — de certa forma ainda somos — o joalheiro do Estado. Continuamos a fornecer — embora obviamente que não em exclusividade – alguns dos presentes que a Presidência da República ou o Governo entendem encomendar-nos.

Marcelo Rebelo de Sousa já lhe encomendou algum?
Por uma questão de recato, prefiro responder-lhe que desde o 25 de Abril de 1974 a Presidência da República, com alguma regularidade, compra coisas à Casa Leitão.

Ou seja: encomendou. Mas voltemos atrás: saltámos o Estado Novo.
Nessa altura voltou alguma acalmia à Casa Leitão e, sim, fez-se muita coisa para o Estado Novo. Na Exposição do Mundo Português, a principal presença em termos plásticos era da Casa Leitão. Tínhamos salvas lindas, e ainda para os dias de hoje: é um objecto geralmente feioso, é difícil fazer uma salva bonita, mas aquelas eram bonitas e aludiam por exemplo às grandes produções do país e das províncias ultramarinas, com oliveiras, laranjas, uvas, cestos de vime, mas também café ou algodão.

Há uma ideia de quantas pessoas trabalhavam no Leitão no tempo da monarquia, por exemplo, e quantas pessoas trabalham agora?
Talvez um número semelhante ao de hoje. À época a ourivesaria era uma indústria de mão-de-obra intensiva, hoje é uma indústria de capital intensivo. A mudança foi enorme. A manufatura implica pessoas e o encargo com as pessoas não era muito elevado, enquanto hoje é alto e a matéria-prima bastante mais cara. Obras muito elaboradas e bonitas mas para uma pessoa só são hoje mais difíceis de fazer, por exemplo… Digamos que se tornou acessível a muitos mais. Democratizou-se, acompanhando o tempo, como não poderia deixar de ser e ainda bem.

"Nos dias 13 de Maio e Outubro é a nossa coroa que vê na Procissão do Adeus, no santuário. Nos outros dias está no museu em Fátima, havendo uma segunda coroa também feita pela Casa Leitão que está diariamente na Capelinha das Aparições."

Há pouco falámos do Estado Novo e eu lembrei-me de uma coroa encomendada à Casa Leitão para a imagem de Nossa Senhora de Fátima a propósito da não entrada de Portugal na Segunda Guerra, mas não sei se estou a ser precisa… Nossa Senhora passou a ser vossa cliente?
Ainda é. E já reparou que vivemos numa república que tem uma rainha que não foi destituída?

D. João IV, 1640, é isso? Mas vamos à coroa…
Diz-se que um dos segredos de Fátima — não os conheço — menciona que os filhos de Portugal não morreriam na Segunda Grande Guerra. Ora, em 1942 uma série de senhoras em Portugal decidiram fazer uma colecta nacional para uma coroa para a imagem de Fátima. E como nunca houve dinheiro envolvido — a colecta era só de jóias — receberam-se milhares e milhares de peças, do mais valioso ao mais singelo, e o santuário de Fátima entregou-as à Casa Leitão. Tudo se desfez, fundiu-se o ouro, a prata, aproveitaram-se todas as jóias, valiosas, modestas, populares e desenhou-se uma coroa.

Mas como se a estivessem a fazer para uma Rainha de carne e osso?
Desenhada para heraldicamente ser uma coroa de Rainha: tem oito hastes, que se chamam coronéis, encimados por uma orbe, a qual tem a encimá-la uma cruz. Significa reina na Terra por ordem divina… A orbe, é a Terra e a cruz está em cima. Foi terminada em 1943 e três anos depois, a 13 de maio de 1946, Pio XII enviou o cardeal Masella a Fátima para coroar a imagem de Nossa Senhora, com a nossa coroa.

Coroa para a imagem de Nossa Senhora de Fátima, concluída em 1943. Está no Museu do Santuário e só sai à rua em dias especiais, como a Procissão do Adeus, a 13 de Maio.

Onde esta ela hoje? Anda com a imagem pelo mundo ou está guardada a sete chaves?
Nos dias 13 de Maio e Outubro é a coroa que vê na Procissão do Adeus, no santuário. Nos outros dias está no museu em Fátima, havendo uma segunda coroa também feita pela Casa Leitão que está diariamente na Capelinha das Aparições. Mas essa primeira coroa tem ainda uma história suplementar assaz extraordinária: João Paulo II, que de início não era um grande devoto de Fátima, sofreu um atentado num dia 13 de Maio, salvo erro de 1981. Ainda no hospital, pediu para ver todo o dossier Fátima, devido à coincidência do dia em que ocorreu o atentado. O que se sabe é que se tornou um devoto mariano.

E ofereceu a bala que o atingiu.
E escolheu fazê-lo num dia em que a imagem, com a coroa que para ela havíamos feito, fora em peregrinação ao Vaticano. O então Reitor de Fátima, Luciano Guerra, ao regressar a Portugal com a imagem e a bala, vinha aflito: que iria ele fazer com aquilo? E depois, um dia, olhando melhor para a coroa, viu que no sítio onde se unem as oito hastes da Rainha havia um pequeno orifício do calibre da bala: lá a pôs e ela lá está, até hoje.

E ainda falta este Papa, Francisco.
O Papa Francisco, quando a 13 de Outubro de 2013, na Praça de S. Pedro, consagrou o mundo a Nossa Senhora de Fátima, também o fez diante da imagem original, que a seu pedido foi levada de propósito de Fátima para Roma. Eu próprio estava lá nesse Outubro e, se me permite algum bom humor, a imagem de Nossa Senhora de Fátima quando vai visitar um senhor importante leva a coroa da Casa Leitão.

Disse-me que acompanhou essa visita ao Papa Francisco mas tenho a ideia de que também se avistou com o Papa Emérito, Bento XVI, horas depois. Não me parece muito comum um vulgar cidadão avistar-se pessoalmente com dois Papas num mesmo dia: tiramos mais uma cereja do cestinho?
Tenho — porque não dizer a verdade? — um bom amigo no Vaticano que facilitou esse encontro e no dia seguinte fui ter com o Papa Bento XVI, dar-lhe uma medalha de ouro com a coroa de Nossa Senhora. Dos Papas diferentes que conheci, o encontro com Bento XVI foi de longe o que mais me marcou.

Jorge Leitão na oficina da Leitão & Irmão no Bairro Alto, Lisboa

Porquê?
Pela assombrosa dimensão intelectual, a fragilidade física — quase parecia um passarinho — e uma tocante simplicidade. Visitei-o no Mosteiro de Santa Bárbara, no Vaticano, longe do fausto, via-se que era um homem de uma extrema simplicidade.

Falando da Alemanha, a sua mãe era alemã…
Era prussiana, se lhe dissesse que era alemã zangava-se… Era da família do Kaiser, de onde eu mantenho uma série de tralha variada que a minha mãe trouxe de Berlim. Saiu de lá numa camionete da Cruz Vermelha, atulhada em móveis, uma semana antes da entrada em Berlim do exército russo.

O que significa que ela passou a guerra em Berlim?
Viveu toda a Segunda Grande Guerra em Berlim, foi uma uma experiência única, numa cidade constantemente bombardeada. Ela contava que os ingleses bombardeavam de dia e os americanos, cujos aviões eram melhores e podiam voar de noite, o faziam tarde. E que nunca se ia para os abrigos, só iam as pessoas que não estavam habituadas a viver em Berlim porque nos abrigos normalmente morria-se.

É interessante porque cresceu com uma memória impressiva da guerra “vivida”, ao contrário do comum dos jovens portugueses com quem se dava…
Da parte da minha mãe, sim, a morte era uma constante num cenário dantesco. Ela contava que se caísse uma bomba à sua porta ninguém tentaria salvá-la, não havia meios, nem ninguém ligava. A morte era uma constante e, por isso, uma banalidade. Sempre que lhe perguntava pela minha família a resposta invariável era “Morreu na guerra”. Deixei de perguntar. A disciplina foi-me transmitida pela minha mãe, que tinha uma noção de dever inabalável. E talvez uma certa noção de nobreza: que nunca deixássemos de ser quem somos, independentemente da situação a cada momento.

O seu pai era um homem muito original, singularíssimo, não deixava ninguém indiferente.
Vivíamos no Monte Estoril e o centro era a praia, onde convivíamos com uma variedade de exilados da nobreza europeia. O meu pai tomava banho no Tamariz todos os dias todo o ano, sem excepção. Nos anos 40 do passado século, época em que viajar tinha uma aura de aventura, passou uma temporada no Tibete vivendo com os monges. Atravessou por duas vezes o Amazonas, contactando com tribos que nunca tinham visto um europeu. Em nossa casa passou a haver uma série de animais exóticos , desde enormes jibóias a onças que ali aportavam ainda muito jovens, trazidas por ele, daquelas viagens. Era um homem muito culto. Ensinou-me a ver com os meus olhos e não com a visão dos outros. Transmitiu-me tolerância para com as diferentes verdades. A tenacidade é do meu pai. Nunca o vi desistir.

Jorge Leitão com 6 anos

Há pouco referiu que em 1974 “estiveram fechados”. Que se passou ? Uma falência, uma nacionalização?
Não, nunca faliu. A Casa Leitão chegou ao 25 de Abril fragilizada pela morte prematura do irmão do meu pai, que era quem de facto estava à frente de tudo. No 25 de Abril já havia pelo menos um administrador que não era da família, alguns problemas — e decidiu-se liquidar a Casa. E ela fechou e até sobrou dinheiro.

E o que se fez às coisas que lá estavam?
É justamente aí que aparecem o dr. Azeredo Perdigão e o meu pai. Enquanto algumas coisas foram entregues aos sócios, o dr. Azeredo Perdigão propôs-se recolher na Gulbenkian o ouro, a prata os diamantes etc., o que porém não aconteceu logo porque nessa altura peguei eu na Casa Leitão.

Porquê? Foi a responsabilidade do nome, a memória, o passado?
Eu estava nas Caraíbas a andar à vela, acabara de atravessar o Atlântico, do sul de Espanha até Antigua, comandando um barco com mais seis pessoas, e um dia, subitamente, ligou-me o meu pai: “Jorge, a Casa vai fechar, é melhor voltar”. Como se fosse uma coisa normal, largar o barco e o oceano de um minuto para o outro e voltar para liderar a Casa! Mas alguma coisas me fez voltar… e voltei.

Porque não ficou o seu pai a tomar conta das coisas?
Não era uma pessoa vocacionada para aquilo, não se entendia… Sabe, eu vivi a minha infância vendo o meu pai preocupado com a Casa Leitão, mas vendo igualmente, e desde criança, que o caminho que levava a sua liderança não conduzia a sítio nenhum. Apesar de miúdo – eu deveria ter uns dez anos – aquilo fazia-me a maior das impressões, era uma constante preocupação para mim. Decidi voltar e fazer o que ele não fez. Foi só isso.

Foi difícil?
Tremendamente. E o mais difícil foi a minha falta de preparação, agora minimizada pela experiência. Esse começo foi um puro ato de amor enquanto hoje é já um ato profissional, o que não é bem a mesma coisa… Mas fui e sou muito ajudado por quem se encanta com o apaixonante projeto de Leitão & Irmão, nomeadamente , nos últimos quinze anos, uma pessoa da família. Corre bem, mas nunca estou satisfeito. Somos quase 50 pessoas a trabalhar muito. Queremos uma Casa moderna e inovadora. Há uma artista reconhecida em França a trabalhar connosco, a Nathalie Castro, há uma grande atenção ao futuro. E há a preocupação com a continuidade dos artífices que lá trabalham, da própria manufactura, da divulgação daquilo que se faz de modo a ser cada vez mais sedutor, atraindo cada vez mais clientes.

E atraem?
Tenho a noção que sim. Há reconhecimento nacional e internacional, prémios… Houve um que me deu particular gosto, o Prix de L’Art de la Table, dado em Paris por uma baixela desenhada por um parente meu e grande artista, Pedro Leitão, já falecido. Fizemo-la no virar do século, foi editada em 2000 mas o prémio foi atribuído em 2008 ou 2009.

Daqui a trinta, quarenta anos, como será a Casa Leitão? Ou melhor, como quer que ela seja?
Não me cabe esse querer. Caber-me-á torná-la entusiasmante para que outros a queiram, imprimindo aí o seu caráter. Será outro tempo. Não o sei vislumbrar e por isso não o condiciono com o meu querer. Iremos com alguma facilidade a outros locais no espaço. A individualidade dos países vai-se diluindo. A mobilidade das pessoas não tem paralelo. A identidade vai ser um valor raro. Outro tempo, sim.

[Vídeo. A entrevista integral de Maria João Avillez a Jorge Leitão:]

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