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ANA MARTINGO/OBSERVADOR

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

Dar o exemplo e proteger as instituições. Os países que decidiram vacinar primeiro os líderes políticos /premium

Mais do que privilégio, objetivo é mostrar que a injeção é segura e proteger os líderes nacionais. EUA, Israel e Arábia Saudita deram o exemplo. Outros países optaram por vacinar políticos primeiro.

Nos Estados Unidos é uma questão de “continuidade da governação”, explicou a congressista democrata Alexandra Ocasio-Cortez, num vídeo em direto no Instagram, a 19 de dezembro, enquanto se encaminhava para a sala do Capitólio onde os membros do Congresso podiam a partir desse dia receber a vacina para a Covid-19.

Assim que as primeiras doses ficaram disponíveis no país, os mais altos representantes políticos foram chamados a receber a injeção — “basicamente, é uma medida de segurança nacional”, disse AOC, como é conhecida, na mesma publicação em que também se disponibilizou para responder às dúvidas de alguns dos seus 8,2 milhões de seguidores e que acabou com a transmissão em direto do momento em que recebeu, no braço direito, a primeira dose da vacina da Pfizer e da BioNTech.

Por muito que tenha como objetivo proteger as instituições e os seus representantes — como acontece aliás com uma série de protocolos a implementar em caso de terrorismo ou de qualquer outro tipo de catástrofe —, esta também será uma forma de dar o exemplo e de incentivar à vacinação grande parte da população ainda cética relativamente aos potenciais efeitos secundários de vacinas produzidas contra-relógio. É a própria congressista, de 31 anos, quem o assume: “Nunca vos pediria que fizessem alguma coisa que eu própria não estivesse disposta a fazer”.

Como Alexandria Ocasio-Cortez, também a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, e o senador Mitch McConnell, líder do Partido Republicano no Senado, já tinham arregaçado as mangas e sido dos primeiros a serem vacinados nos Estados Unidos contra a Covid-19. Mike Pence, o vice-presidente cessante, e Joe Biden, o presidente eleito, só não o fizeram porque nos dias em que receberam as respetivas doses optaram por vestir camisas de manga curta, para facilitar.

"Estou a fazer isto para demonstrar que as pessoas devem estar preparadas para o momento em que a vacina esteja disponível para tomar"
Joe Biden, presidente eleito dos Estados Unidos

Pence foi o primeiro, logo às 8h00 de sexta-feira, 18 de dezembro, juntamente com a mulher e o vice-almirante Jerome Adams, o Cirurgião Geral do país, num evento filmado e transmitido para todo o mundo através dos canais da Casa Branca. “Reunimo-nos hoje aqui no final de uma semana histórica para dizer ao povo americano que a esperança está a caminho”, congratulou-se o ainda vice-presidente, de 61 anos, logo depois de garantir que a injeção tinha sido indolor: “Não senti nada”.

“A Karen e eu estamos mais do que felizes por podermos dar este passo antes de esta semana chegar ao fim e por podermos tomar esta vacina eficaz e segura que garantimos e produzimos para o povo americano”, continuou de seguida.

Joe Biden, que foi vacinado dois dias depois, também em frente às câmaras mas a partir do Delaware, onde tem residência, já recebeu entretanto a segunda dose da vacina da Pfizer, justamente esta segunda-feira, 11 de janeiro. “Estou a fazer isto para demonstrar que as pessoas devem estar preparadas para o momento em que a vacina esteja disponível para tomar”, explicou o presidente eleito dos Estados Unidos, 78 anos e parte do grupo de risco. Para além da sua mulher, Jill, também Kamala Harris, sua vice-presidente, e o marido, Doug Emhoff, receberam a vacina.

Em todo o mundo, foram vários os países que decidiram inocular primeiro contra a Covid-19 os líderes políticos mais destacados — Portugal, como se percebeu logo aquando da apresentação do plano nacional de vacinação contra a doença, e como esta segunda-feira à noite foi recordado, com a notícia de que o Presidente da República tinha recebido um teste positivo para o novo coronavírus, não foi um deles.

De teste em teste até ao positivo que ditou o fim da campanha para Marcelo

Ainda assim, e apesar de entretanto Marcelo Rebelo de Sousa ter tido um resultado contraditório em duas outras análises, isso poderá mudar, disse esta terça-feira ao Observador Francisco Ramos, o coordenador da task force criada para gerir o processo de vacinação, revelando que a inclusão dos líderes políticos no grupo prioritário “ainda está a ser equacionada”.

“Desde quando é que não fazer nada é uma função essencial?”

Apesar de questionado sobre que argumentos pesaram na decisão inicial de deixar os mais altos representantes do Estado de fora do processo de vacinação, Francisco Ramos, ex-secretário de Estado e da Saúde, não quis responder. Nos Estados Unidos, uma das principais críticas dos que são contra a vacinação prioritária dos políticos tem por base o privilégio de classe. E, curiosamente, neste caso, até tem surgido por parte de outros políticos eleitos.

Afinal, a vacinação prioritária de líderes políticos “ainda está a ser equacionada”

“O Congresso tem de deixar de se tratar a si próprio como uma classe política especial”, disse em comunicado Brian Mast, republicano e membro da Câmara dos Representantes, garantindo que ia esperar até haver uma maior quantidade de vacinas disponíveis para tomar a sua dose.

Chris Sununu, 46 anos, também do Partido Republicano e governador do New Hampshire, recorreu ao Twitter para criticar a prioridade do Congresso em relação aos grupos de risco e atirou uma farpa afiada aos “colegas” do Capitólio: “Desde quando é que não fazer nada é uma função essencial?”.

Já Donald Trump, que em outubro esteve infetado e chegou a estar hospitalizado com Covid-19, tem-se mantido silencioso sobre o assunto, depois de em dezembro ter dado ordem para reverter o plano que determinava os membros superiores da sua administração estariam entre os primeiros a receber a vacina — a partir desse momento, “a menos que especificamente necessário”, deixou de haver prioridade para a equipa do ainda presidente.

"O presidente quer enviar uma mensagem paralela, como sabem, os nossos residentes em lares de idosos e os nossos trabalhadores da linha da frente são de importância primordial, e ele quer dar o exemplo por esse motivo"
Kayleigh McEnany, secretária de imprensa de Donald Trump

Também não há qualquer data no horizonte para que o próprio Trump, de 74 anos, tome a vacina. “O presidente quer enviar uma mensagem paralela, como sabem, os nossos residentes em lares de idosos e os nossos trabalhadores da linha da frente são de importância primordial, e ele quer dar o exemplo por esse motivo”, explicou no final de dezembro Kayleigh McEnany, a porta-voz da Casa Branca aos jornalistas.

No Reino Unido a linha de argumentação é semelhante. Apesar de ter deixado a porta aberta para uma injeção televisionada, para tentar convencer os 20% de britânicos ainda céticos em relação à segurança ou eficácia da vacina, a porta-voz de Boris Johnson, que em abril chegou a estar internado nos cuidados intensivos, com Covid-19, garantiu logo no início de dezembro que o primeiro-ministro não ia passar à frente na fila.

A rainha de Inglaterra, de 94 anos, foi vacinada contra a Covid-19, tal como o marido, o príncipe Filipe

Getty Images

“Ele não vai querer ficar com uma injeção que deveria ser para alguém que está extremamente vulnerável, clinicamente vulnerável, e que devia recebê-la antes dele”, explicou Allegra Stratton.

Entretanto, cerca de um mês depois, este sábado, dia 9 de janeiro, a Casa Real Britânica abriu uma exceção no protocolo, que faz da saúde da rainha um assunto reservado, e anunciou que tanto Isabel II, de 94 anos, como o seu marido, o príncipe Filipe, de 99, tinham recebido, no Castelo de Windsor, onde têm estado confinados, a vacina para a Covid-19, juntando-se assim ao rol de líderes mundiais já vacinados.

Os líderes que dão o exemplo e os líderes que testaram as vacinas

Precisamente no sábado passado, quando a rainha de Inglaterra recebia a primeira dose da vacina, Benjamin Netanyahu, de 71 anos, dava por terminado o seu processo de inoculação contra a Covid-19, com a sua segunda injeção. O primeiro-ministro israelita foi o primeiro no seu país — e um dos primeiros em todo o mundo — a receber a vacina da Pfizer, a 9.500 quilómetros de distância mas apenas um dia depois de Mike Pence.

“Acredito nesta vacina”, disse enquanto era filmado a enrolar um pouco mais a manga curta da sua camisola preta. “Uma pequena injeção para um homem, um grande passo para a saúde de todos nós”, foi o que escolheu dizer minutos depois, quando recebeu a sua dose e deu a partida para uma das mais ambiciosas campanhas de vacinação anti-Covid-19 em curso no mundo.

A 10 de janeiro, segundo dados do Ministério da Saúde, 19,5% da população israelita já tinha sido vacinada, incluindo 72% da população com mais de 60 anos. O objetivo é que a meio de março mais de metade do país, de 9 milhões, já tenha sido inoculado.

No dia 27 de dezembro, data em que arrancou oficialmente a vacinação na União Europeia, de forma bem menos célere, o primeiro-ministro da República Checa foi o primeiro a receber a injeção no país. “A vacina que chegou ontem da União Europeia, é uma esperança, uma esperança de que iremos regressar a uma vida normal”, disse Andrej Babis, de 66 anos, aos jornalistas que cristalizaram o momento, que Emilie Repikova, 95 anos, veterana da Segunda Guerra Mundial e a segunda na fila para a vacina, ajudou a carregar de simbolismo.

Em Belgrado, dias antes, a 24 de dezembro, tinha sido a primeira-ministra da Sérvia a dar a partida para a campanha de vacinação, a terceira na Europa, depois de Reino Unido e Suíça. “Tenho a honra de poder fazer isto pelo meu país e de ser a primeira, abrindo caminho para os outros cidadãos”, disse Ana Brnabić, de 45 anos, após receber a primeira dose da vacina da Pfizer.

O presidente Aleksandar Vučić, cinco anos mais velho, explicou ainda, também vai receber a vacina, mas apenas quando chegarem ao país as remessas da chinesa Sinopharm ou da russa Sputnik V. “Concordámos que vamos receber injeções de produtores diferentes”, disse a primeira-ministra, empenhada em garantir a segurança do processo.

“Eu não posso falar como cidadão uma coisa e outra como presidente. Mas como sempre eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu. E ponto final"
Jair Bolsonaro, presidente do Brasil

No Brasil, apesar da inflexibilidade de Jair Bolsonaro — “Eu não posso falar como cidadão uma coisa e outra como presidente. Mas como sempre eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu. E ponto final” — João Doria, governador de São Paulo, resolveu agir à margem do governo federal e avançou sozinho para a compra de vacinas. Já convidou todos os ex-presidentes do País desde o fim da ditadura militar para tomarem a vacina e incentivarem a população.  José Sarney, de 90 anos, Collor de Mello, de 71, Fernando Henrique Cardoso, de 89, Lula da Silva, de 75, e Michel Temer, de 80, já aceitaram. Dilma Rousseff, de 73, não.

Se alguns líderes mundiais, como os presidentes da Rússia e da Argentina, já vieram a público garantir que vão vacinar-se assim que possível mas continuam sem arregaçar as mangas, apesar de as campanhas já terem começado nos respetivos países — por casualidade, ou não, tanto Vladimir Putin, de 68 anos, como Alberto Fernández de 61, deverão ser vacinados com a russa Sputnik V —, outros surpreenderam pelo contrário.

Mohammed bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos e emir do Dubai, tal como uma série de outros representantes políticos dos EAU, deu o exemplo antes de as vacinas serem sequer aprovadas pelos reguladores. A 3 de novembro, estavam os ensaios clínicos da vacina da chinesa Sinopharm na terceira fase, explicou à data a Al Jazeera, que deu a notícia, Al Maktoum postou uma fotografia de si próprio no Twitter, a receber uma injeção.

“Enquanto recebia hoje a vacina Covid-19. Desejamos a todos segurança e uma ótima saúde, e estamos orgulhosos das nossas equipas que trabalharam incansavelmente para tornar a vacina disponível nos EAU. O futuro será sempre melhor nos EAU”, escreveram os responsáveis pelas redes sociais do xeique, a acompanhar a imagem.

Entretanto, na Indonésia, que esta segunda-feira se tornou o primeiro país do mundo (além da própria China) a aprovar a vacina da farmacêutica Sinovac, a campanha de vacinação, única no mundo porque vai priorizar as camadas mais jovens da população em vez de idosos e grupos de risco, deve arrancar nos próximos dias. O presidente Joko Widodo, que tem 59 anos e por isso está entre grupos, vai ser o primeiro a receber a injeção, em direto na TV.

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