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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

De Oliveira de Frades a Mação, fizemos 405 kms no país das cinzas. E contamos-lhe as histórias

A D. Rosinda, o empresário Nuno, a srª. Joaquina e o neto, o sr. Manuel que abraçou o Presidente e o dono do Lampreia. Histórias de sobreviventes dos fogos, em 405km de terra sempre queimada.

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Depois dos incêndios do verão de 2017, são poucas as viagens que se fazem na região Centro do país sem que se passe por vastas zonas que em tempos foram verdes — e que, agora, são apenas pretas. Nos distritos de Viseu e Coimbra, apesar de já ter passado uma semana dos incêndios de 15 de outubro e mesmo com as chuvas fortes, ainda há zonas onde a terra fumega. Em Mação, as marcas dos incêndios de julho e setembro ainda são visíveis numa grande extensão do território. E em Pedrógão Grande, por onde passou o incêndio mais mortífero de Portugal, a paisagem já se começa a transformar. Aos pés de eucaliptos calcinados que ainda não foram cortados, já despontam pequenos ramos. Bastam dez anos para crescer dali uma árvore igual às que arderam.

Mas não é só de paisagem que este caminho é feito. Ao longo de 405 quilómetros, parámos em 12 localidades afetadas pelos fogos que marcaram de forma inesquecível o verão de 2017, fazendo 109 mortos. Ali, falámos com aqueles que sobreviveram para contar a história dos piores incêndios da História de Portugal.

Entre Águas, Oliveira de Frades

Rosinda Tavares

Rosinda Tavares, 60 anos, caminha com pressa por uma estrada que em volta apenas tem uma cor: preto. Árvores, arbustos, pedras e terra, tudo agora é cor de carvão fumegante. Com uma enxada no ombro, da qual se serve sempre que tem de subir uma pedra ou um tronco caído no caminho, avança de costas direitas e decidida. “Estou a fazer esta estrada toda a pé, para ver se as pessoas amigas estão bem”, diz, no dia seguinte ao incêndio. Rosinda é de Sobreira, outra aldeia do concelho, que fica quatro quilómetros para trás. “Até agora estão todos vivos, mas ainda me falta falar com muita gente. Hoje deve-se chorar muito aqui por estes montes.”

Embora sorria, as palavras de Rosinda são marcadas por um pessimismo inquebrantável. “Isto daqui vai ser sempre assim, vai arder tudo”, diz, apontando em volta com a enxada. “Daqui para a frente, o que ainda não ardeu já não demora muito a arder, é tudo uma questão de tempo.”

Rosinda justifica o seu pessimismo explicando aquilo que havia e, hoje, fruto da desertificação, há cada vez menos no interior do país. “Antigamente, cada família era uma indústria, cada família era uma empresa. Fazia-se de tudo com a agricultura. Vendíamos vinha, vendíamos feijão, vendíamos milho, vendíamos tudo e para todo o lado.” Agora, a vida é completamente diferente. “O campo já não dá vida a ninguém, os mais novos vão-se embora e só cá ficam os mais velhos e menos capazes”, lamenta.

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A consequência disto, continua a explicar, é a falta de limpeza das matas. “Nós dantes limpávamos a mata, porque havia muito gado e ele tinha de comer alguma coisa”, refere. “E o que eles não comessem nós juntávamos para fazer uma cama mais mimosa para as vaquinhas e para as ovelhas.”

Na aldeia da Sobreira, não teve conhecimento de ninguém que tivesse perdido a casa — mas muitos foram os que perderam zonas de cultivo, árvores e trabalho que já estava feito. Rosinda, por exemplo, perdeu um espigueiro “carregadinho de milho”. Ainda assim, é com alguma alegria que conta ter conseguido, juntamente com grande parte da população, salvar o aviário de uma vizinha. “Passámos lá muito tempo de volta daquilo, a mandar água, a bater com ramos, e lá as coisas resultaram para o melhor, graças a Deus.”

Rosinda diz que, por estes lados, apagar um fogo não é nada de novo para ninguém. “Nós no campo já nascemos praticamente bombeiros”, diz. “Só que dantes o povo apagava um fogo em menos de nada. Agora é impossível.”

Zona industrial de Oliveira de Frades

Nuno Rocha

O que mais custou a Nuno Rocha não foi ver o armazém a arder de alto a baixo. O pior foi ter de virar costas a tudo aquilo, sabendo que já não havia nada a fazer. Já perto da meia-noite de domingo, o fogo tomou conta do interior da Recofrades, a empresa de recolha de resíduos — sobretudo cartão e plástico, que depois de enfardados são vendidos a empresas de reciclagem — que fundou com o pai. Hoje, sobram apenas cinzas e um pavilhão que colapsou em quase toda a sua extensão.

Nuno tentou. Quando o incêndio já estava na zona mas ainda não tinha afetado o seu armazém, começou a espalhar material ao longo da entrada da fábrica para, assim que uma parte pegasse fogo, pudesse responder rapidamente às chamas. Depois, ligou uma mangueira a uma boca de incêndio que tem na sua propriedade e só então é que percebeu: não havia água.

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“Não vi bombeiros, não tinha água na boca de incêndio porque deixou de haver água da rede, não havia maneira de apagar aquilo”, recorda o empresário de 39 anos. A única opção que tinha à mão eram os extintores da empresa, mas o pouco que eles fizeram não serviu de nada para a imensidão daquele incêndio. As chamas — causadas por folhas e casca de eucalipto que, projetados no ar, ali chegaram — tornaram-se incontroláveis. Por isso, meia hora depois do primeiro rastilho, foi-se embora e virou costas a 17 anos de trabalho desfeitos pelas chamas. Esta é apenas uma entre várias histórias de pequenas, médias e grandes empresas que arderam de alto a baixo na zona industrial de Oliveira de Frades — onde, do dia para a noite, parece ter caído uma bomba.

Agora, diz que quer voltar — e embora o diga com pouco ânimo, sublinha também que não tem outra opção. “Só sei que vamos ter de começar de novo, porque isto é a nossa vida”, diz. Por agora, já tem apalavrado o aluguer de um armazém na empresa mesmo ao lado, para onde se vai mudar provisoriamente. E, assim, garante que vai reerguer tudo. “A minha vida é isto, construí isto tudo com o meu pai, sozinho e sem ajudas do Estado, e agora foi tudo abaixo”, resume. “Construí uma vez e agora construo outra.”

Vila Nova da Ventosa, Vouzela

Maria Joaquina Dias e João Silva

Quando vê chegar a Polícia Judiciária e os peritos de medicina legal à casa onde morreram três dos seus vizinhos, Maria Joaquina Dias começa a fugir. “Ai, eu não consigo estar aqui, eu não posso ver isto, não consigo!”, diz, já a desviar-se para um beco onde certamente não terá vista para a passagem dos cadáveres de Arminda, Fernando e Laurinda, todos de apelido Lourenço. Quando está a fugir, procura também estar longe das câmaras de televisão, que no dia a seguir ao incêndio vieram em peso a esta aldeia por causa daqueles três mortos e também de uma quarta vítima: Maria Rosa de Jesus, de 93 anos, sua cunhada.

A caminho do beco onde espera estar mais resguardada, um rapaz de 12 anos, mete-lhe o braço por cima dos ombros. “Deixa-me estar, deixa-me estar”, diz-lhe. É João Silva, o neto mais novo e uma das poucas crianças da aldeia.

João está impressionado com o que se passou na noite anterior. “Eu vou-lhe contar, isto é uma coisa como nunca antes foi vista”, diz, com a fala de adulto e misturar-se com a de criança. É já neste segundo tom que conta como uma casa ali perto ficou destruída ao ponto de sobrarem apenas as paredes exteriores e um carro calcinado. “Aquilo tinha lá uma bilha de gás, explodiu tudo cá de uma maneira que o carro foi não sei quantos metros”, conta, com algum entusiasmo. Mas rapidamente volta ao registo inicial. “Eu não sei como é que isto não ardeu tudo, tudinho.”

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Maria Joaquina ainda não acredita na sorte que teve. Só deu pelo incêndio à meia-noite, quando se levantou da cama para ir à casa-de-banho. Quando passou por uma janela, viu que havia “chuva de chamas” a cair na aldeia. “Era um tornado, era uma chuva de chamas que por aí vinha acima ter connosco”, recorda. Mal teve esta visão, gritou para o marido: “Nós vamos morrer aqui!”. Pouco depois, apareceu a filha, mãe de João, que os foi buscar a casa. “Saiam já daqui, venham já para a minha casa , que vocês aqui morrem”, gritou aos pais. Maria Joaquina ainda está para perceber como, em passo de corrida e agachada, se esquivou a uma chama que lhe passou à altura da cabeça.

O resto da noite foi passada a ver “os mais novos” a combater o fogo pela janela. Estiveram sozinhos até às 4h30. “O povo telefonou aos bombeiros mas não ficou à espera deles, o povo mexeu-se logo, se não isto tinha ardido tudo” diz. “Aqui na nossa aldeia é um por todos e todos por um.”

Só na segunda-feira de manhã, quando as chamas já tinham consumido grande parte da aldeia, soube que também levaram quatro vidas. Agora, recorda a família Lourenço e de como “eram tão bons vizinhos, eram todos tão bons”. E a sua cunhada, Maria Rosa de Jesus, que aos 93 anos era vista todos os dias a fazer uma pequena caminhada, com o auxílio da sua bengala. “Caminhar faz bem, caminhar faz bem”, dizia pelo caminho, àqueles que se metessem com ela.

Alambique, Tondela

Manuel Francisco

A cara de Manuel Francisco, contorcida de choro e dor, será uma das imagens mais emblemáticas do que resta dos incêndios de 15 de outubro. Isto porque, agarrado ao homem de 85 anos, estava o braço do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que procurava consolar aquele natural da aldeia de Alambique, no concelho de Tondela.

Manuel Francisco está sentado ao volante de um microcarro quando vê o Presidente da República atravessar-se no seu caminho — parte de um trajeto que incluiu quatro concelhos atingidos pelos incêndios e onde distribui vários abraços — e sentar-se no banco do pendura. É nessa altura que Manuel Francisco começa a chorar.

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“Não tenho palavras, senhor professor!”, dizia o reformado ao Presidente da República, engasgando-se à medida que falava. Foi assim que contou como o fogo lhe levou animais e também várias máquinas agrícolas. “Foi tudo à vida!”, continou. “82 anos… é uma vida!”, disse, com Marcelo Rebelo de Sousa a confirmar: “Pois é, é uma vida!”. Manuel Francisco completou: “E é uma vida a trabalhar para nada!”.

IP3, Santa Comba Dão

Vítor Vitorino

Vítor Vitorino fala do incêndio com um sorriso nos lábios porque tudo acabou bem — e havia muito para correr mal. A vida de Vítor está praticamente toda concentrada na saída do IP3 para Santa Comba Dão. É ali que está o restaurante da sua família, A Lampreia, com duas cafetarias em cada lado da estrada e um restaurante na direção Norte — onde, depois de um dia cansativo de visita a quatro concelhos do distrito de Viseu que arderam, Marcelo Rebelo de Sousa foi jantar. Além disso, no mesmo terreno, está a sua casa. Tal como a do irmão, Pedro, que é cozinheiro n’A Lampreia. E também a do avô, que fundou o negócio.

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“Ficámos completamente rodeados pelo fogo aqui no posto”, recorda Vítor. “Não vimos bombeiros nenhuns, mas viessem mil bombeiros e isto não tinha acabado”, conta. Quando as chamas já estavam cada vez mais próximas, receberam ordem de evacuação. Na bomba de gasolina, cumpriram. No restaurante, não. “Então eu ia deixar isto tudo arder assim, ia virar costas ao negócio? Tenho de defender o que é meu”, diz Vítor.

O combate às chamas foi feito por Vítor, por Pedro, por outros familiares e também pelos funcionários. Começaram às 16h30 de domingo e só terminaram às 23h00 de segunda-feira. “Isto foi horrível, nem se explica”, diz Pedro. Na altura mais crítica, as chamas passavam do concelho de Penacova e chegavam a Santa Comba Dão, do outro lado do rio Mondego. Para fazer frente a tudo isto, Vítor e Pedro estavam bem apetrechados com um autotanque de 5 mil litros — um investimento que fizeram para fazerem frente a fogos no vasto terreno de matas que possuem.

“Não parámos nem um bocado, não deu para mais nada”, recorda Pedro. “Tinha de ser, não tínhamos outra escolha.”

Bobadela, Oliveira do Hospital

Ricardo Fidalgo

Quando fechou a porta da discoteca Espíritos, na madrugada de domingo, Ricardo Fidalgo não teria como adivinhar o que ali se viria a passar na noite seguinte. No sábado, repetiu-se aquilo que já era um hábito daquela discoteca, uma das maiores da região e que atraía muitas pessoas, fim-de-semana após fim-de-semana. A música esteve a cargo do DJ Kimono, ao mesmo tempo que, com a casa completa, se serviam bebidas em três bares: logo à porta, porque o tempo ainda assim o permitia; no bar principal, no andar de baixo; e lá em cima, junto às zonas VIP. Depois, no dia 15 de outubro, o incêndio chegou ali e deixou pouco mais do que as paredes.

O Espíritos era o grande projeto de Ricardo. Aos 22 anos, juntamente com um sócio, alugou aquele espaço e fez dele uma discoteca que diz ser “uma referência na região”. O nome Espíritos assenta que na perfeição naquele edifício centenário que, por estar à beira da estrada e ser sombrio, as pessoas se habituaram a dizer que estava assombrado. Ao longo dos anos — sendo que a determinada altura deixou ter o sócio e passou a ser o único dono — investiu entre 300 e 400 mil euros no recheio da discoteca. As noites mais “míticas”, como lhe chama Andreia Silva, namorada, eram as da Noite das Bruxas, quando se fazia uma festa da espuma e também a passagem de ano. Além disso, Ricardo também abria as portas para que ali se fizessem festas com crianças da escola ou de pessoas com deficiência, por altura do Carnaval.

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Quando soube que o incêndio estava por perto, Ricardo e Andreia preocuparam-se em salvar tudo o que estava fora da porta principal, junto ao bar exterior. “Estávamos em casa, perto de Oliveira do Hospital, quando nos disseram que tínhamos fogo aqui à porta. Nós viemos logo para aqui e com a ajuda de algumas pessoas aqui da zona conseguimos apagar tudo”, conta. Depois, quando o fogo começou a cercar cada vez mais aquele concelho, receberam ordem de saída. Ricardo e Andreia cumpriram — mas por pouco tempo.

Demoraram cerca de vinte minutos a voltar à discoteca. Foram a casa, viram que ela não estava em perigo e então quiseram voltar ao Espíritos. As estradas já estavam cortadas, então atravessaram de carro uma vinha que ia até lá. Quando viram a discoteca, repararam que o telhado já estava a arder. Ricardo nunca pensou que o fogo pudesse chegar à discoteca — e por isso mesmo preocupou-se apenas com o exterior. Nessa altura, já não havia nada a fazer. Voltaram para trás e conseguiram salvar a casa — embora, à volta, todas as árvores de fruto tenham ardido.

No dia seguinte, voltaram ao Espíritos — ou ao que restava dele. À entrada, as estantes do bar de exterior derreteram, deixando cair mais de uma centena de copos que ali continuam, apenas chamuscados. Lá dentro, todo o chão está coberto com as telhas, que ali se partiram, depois de o telhado ruir. Da decoração da discoteca, ampla e alta, pouco sobra. Dantes, atrás do DJ, podia ver-se uma enorme parede branca, estilizada com cubos que saltavam da parede. Agora, é apenas uma tela negra, de fuligem.

Ricardo está desanimado, mas quer voltar. “Queremos reabrir o mais depressa possível, mas sozinhos vai ser impossível”, garante. “Vamos precisar de uma ajuda qualquer, seja ela do Governo ou municipal, porque só do seguro é impossível que me venham a dar o suficiente para reerguer isto.”

São Martinho da Cortiça, Arganil

Rúben Gama

Não foi fácil para Rúben Gama ver que, da noite para o dia, apenas duas das 230 ovelhas da Vumba, a quinta de produção biológica onde trabalha, tinham sobrevivido ao incêndio. Sufocadas pelo fumo, e também queimadas, as ovelhas de raça Bordaleira Serra da Estrela, estavam deitadas no chão. “Para mim, elas não eram animais, para mim era como se fossem colegas de trabalho”, explica. “Nós tínhamos uma relação em que uma mão lavava a outra. Eu dava-lhes um sítio confortável, onde podiam comer, onde podiam estar bem e com saúde. Em troca, elas davam-nos o leite que depois é usado para os nossos produtos, o que acaba por ser o meu sustento e o meu salário.”

Do incêndio, a perda de 228 ovelhas é a maior tragédia a ter afetado esta quinta de produção biológica, que também aposta no agro-turismo. A assinalar, também, há a perda de 98 a 99% das árvores da propriedade, que tem uma área total de 120 hectares e ocupavam cerca de metade do terreno. De resto, há a sublinhar “pequenos milagres”.

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É assim que Rúben Gama classifica, por exemplo, o facto de não terem ardido duas alfaias agrícolas ainda por estrear. Ou um barracão, onde está uma ordenhadora automática na qual a empresa investiu “algum dinheiro” há pouco tempo, que escapou ao fogo — mesmo que o barracão ali ao lado tivesse caído por completo. O barrote que sustenta o telhado até começou a arder — mas apenas numa ponta e tão pouco que, depois do incêndio, bastou cortar a parte ardida. E, ao lado da tragédia das ovelhas, há o milagre das cabras. Não morreu nenhuma — e na quarta-feira, três dias depois do incêndio, houve pelo menos seis cabritinhas que nasceram.

Agora, a empresa tenta reerguer-se. Logo na segunda-feira, com a ajuda da autarquia e também de voluntários, foi aberta uma vala para enterrar as ovelhas. No dia seguinte, foram tapadas, com terra e cal. Agora, o compromisso é de “não desistir e ir para a frente”. Nesta fase inicial, tem chegado ajuda a esta empresa — sobretudo na forma de feno, para alimentar os animais que sobreviveram. “Nós queremos continuar, e vamos continuar, mas queremos fazer isto à nossa maneira, tem de ser com ovelhas de raça Serra da Estrela, porque o nosso compromisso é com a qualidade não é com o número”, sublinha Rúben Gama, antes de se despedir. Há uma outra cabra a parir e trabalho para fazer.

Lobatinhos, Pampilhosa da Serra

Lucinda Mateus e Manuel Garcia

Pouco antes de ir para a cama, Lucinda Mateus falou ao telefone com o filho, António. “Tenha cuidado que há incêndios na zona”, disse-lhe. “Ah, não te preocupes, filho. Isso está lá muito longe, se chegar aqui é só amanhã”, respondeu. “A gente vai-se deitar.” E assim foi: às 22h00, já estava com o marido, Manuel Garcia, de 85 anos, na cama. Pouco tempo depois, começou a ouvir barulho lá fora, como nunca ouvira antes. Afinal, já tinha o fogo à porta de casa.

Assim que deu por o fogo estar por perto, pôs em ação o seu plano. Ele já estava traçado desde 2005, ano em que um incêndio — que à altura parecia inultrapassável em gravidade e extensão — atingiu as imediações daquela aldeia da Pampilhosa da Serra. Desde essa altura, no verão, não vai para a cama sem antes verificar que tem o poço cheio e uma mangueira ligada. E assim estava tudo na noite de 15 de outubro de 2017.

O marido não chegou a sair de casa. Manuel, que anda de muletas e coxeia, não tem força para fazer frente a um fogo. Lucinda, com 78 anos, tem — e por isso pegou na mangueira, mandando água para as chamas que começavam a cercar a sua casa. Onde a mangueira não chegava, usava baldes. Foi quando subiu para a parte de cima que reparou que também a vizinha combatia as chamas — e, também ela, tinha o marido em casa, sem capacidades para lutar contra o fogo.

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Enquanto combatia as chamas, Lucinda ainda arranjava tempo para atender aos filhos, que lhe ligavam para saber se estava bem. Também lhe ligou um vizinho de Lobatos, a aldeia cimeira a Lobatinhos. Este disse-lhe que a Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra ia levar até ali um autocarro para as casas serem evacuadas. “Nós não vamos, só se nos obrigarem, nós vamos estar aqui a lutar até ao fim”, disse. Mas o autocarro nem chegou a aparecer — as estradas ficaram bloqueadas pelas chamas.

Também os bombeiros não chegaram a Lobatinhos. Apenas dois GNR ajudaram aquelas duas mulheres a fazer frente às chamas. Um deles, abriu um aceiro com uma enxada, impedindo a progressão do fogo. Enquanto isso, Lucinda e a vizinha correram a rua e os seus terrenos de alto a baixo. “Não nos demos à preguiça, não demos, não senhora”, recorda, com orgulho.

No final de contas, a casa ficou intacta. O cultivo, nem por isso. Entre as poucas coisas que sobraram, estão as hortaliças. E mesmo essas estão um pouco queimadas. “É assim, este Natal comemos hortaliças queimadas pelo fogo, não faz mal nenhum”, brinca António, que no fim-de-semana seguinte ao incêndio foi visitar os pais. “São gente rija, fazem frente ao que for preciso”, diz, também ele, com orgulho.

Álvaro, Oleiros

Maria de Jesus e Armando Fernandes

Armando Fernandes, 78 anos, e Maria de Jesus Fernandes, 74 anos, nem eram para estar na sua casa, em Álvaro, quando o fogo por lá destruiu tudo o que pôde. Estavam os dois no Cacém, em casa da filha, onde Maria de Jesus tem sido seguida depois de uma operação aos pés. A cirurgia foi em abril e, desde então, só tinham regressado uma vez a Álvaro. Preocupada com a casa, e um pouco melhor de saúde, Maria de Jesus disse ao marido: “Temos de ir à terra, temos de ir ver como é que aquilo está”. “Para quê?”, perguntou-lhe o marido, com pouca vontade de sair de fazer a viagem. “Porque sim. Vamos, vamos lá!”, respondeu-lhe a mulher.

Esta conversa aconteceu na quinta-feira à noite e, na sexta-feira de manhã, já estavam a sair para Álvaro, a aldeia que se estende em cima do viso de uma serra sobranceira ao rio Zêzere. Já fazia algum tempo que não entravam naquela sala-de-estar onde, da janela, voltaram a ver uma encosta verde do lado de lá do rio.

No domingo, o verde da encosta foi tomado pelo vermelho. O cenário não se comparava em nada com aquele que viram no verão de 2003, quando um fogo destruidor atravessou Oleiros, chegando até ao centro da vila. “Isso foi uma brincadeira comparado com o que a gente viveu agora”, garante.

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O combate às chamas coube tanto a Maria de Jesus — que anda devagar e com muletas — como a Armando — que tem problemas na coluna. Usaram mangueiras e baldes, atirando água para o terreno anexo à casa, que segue encosta abaixo. Não houve bombeiros, nem outro tipo de ajuda — apenas para os retirarem de casa. “Passou a carrinha do centro de dia e eles disseram que nos podiam levar dali para fora”, recorda Armando. “Mas eu disse logo: ‘Eu posso morrer aqui, mas sair daqui não saio’.”

Só pararam de lutar contra as chamas na segunda-feira. Armando conta que tinha “os olhos meio queimados”. Tanto que, quando tentou descansar um pouco na segunda-feira à tarde, não conseguia. “Parecia que tinha areia nos olhos”, recorda. Além disso, ainda tinha a arder os troncos das oliveiras nas traseiras. Mas, quando tentava apagar as poucas chamas que ainda sobravam, não conseguia abrir os olhos com a claridade.

“Eu nem sei como é que a gente se aguentou aqui”, suspira Armando. “Foi com a ajuda de Deus nosso senhor”, garante Maria de Jesus.

A habitação do casal está intacta — ao contrário das casas que tem de cada um dos seus lados, que arderam as duas. “Ela bem me dizia para a gente vir para cá à terra”, refere Armando. “Tinha razão, tinha razão.”

Barraca da Boavista, Pedrógão Grande

André Pais

Não há um dia que passe sem que André Pais não se lembre de 17 de junho de 2017. Estava a trabalhar. Em setembro do ano anterior tinha montado uma empresa de limpeza de matos e de corte de madeira. Foi o negócio que o levou a Pombal nesse dia. Já regressado a casa, viu que havia “um fumo imenso” no ar e um fogo “para os lados de Pedrógão Grande”. Nessa altura, decidiu juntamente com o pai, levar o trator que compraram para a empresa para uma zona segura. Pelo caminho, com “chamas por todo o lado”, ligou para o 112. “Desenrasque-se, isto está tudo a arder e os bombeiros não conseguem chegar aí”, disseram-lhe, quando pai e filho tinham chamas de 20 metros ao lado.

Deixaram o trator e voltaram para casa. Passaram na N-236-1, a estrada nacional que ficou conhecida (para desagrado dos locais) pelo resto do país como “a estrada da morte”. Foi lá que viram três senhoras no chão, deitadas no alcatrão, que quase atropelaram. Mais tarde perceberam que as duas acabaram por morrer. Seguiram para casa. “Fiquei logo a pensar o pior”, disse. A mãe tinha ficado com a irmã, mais nova e deficiente, em casa. Chegou a pensar que tinham morrido — mas foi encontrá-las com vida, abrigadas na cave.

Não morreu ninguém na família e, além de pequenos estragos no sótão, a casa ficou intacta. Mas o fogo tirou o sustento à família: apesar de terem conseguido salvar o trator, todas as motosserras e o camião TIR usado para transporte de madeiras arderam. “Isto era a única coisa a trazer dinheiro cá para casa”, contou André ao Observador, em junho, uma semana depois da tragédia. “Quando olhei para esta destruição pensei que estava tudo feito. A minha família estava feita.”

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Passaram-se meses em que viveu de ajudas, sem que os dois homens da família conseguissem arranjar trabalho por conta própria ou a serviço de alguém. “As coisas estiveram muito complicadas”, contou ao Observador, já em outubro. Estiveram, sublinhe-se.

Em setembro, tudo mudou — e, pela primeira em vez em pouco tempo para esta família, para melhor. O “Você na TV”, o programa da manhã da TVI, chamou a estúdio pessoas relacionadas com três grandes tragédias nacionais: as cheias de Lisboa em 1967, a queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001 e os incêndios de Pedrógão Grande em 2017. Para falar sobre a tragédia mais recente, foi convidada Anabela Pais, a mãe de André. E contou o seu problema.

Antes, durante e depois do fogo. Como a vida de seis pessoas mudou numa noite

Pouco tempo depois, souberam que Manuel Teixeira, um emigrante português radicado em Dortmund, na Alemanha, os queria ajudar. Deu-lhes um camião TIR usado, que custou 18 mil euros. A galera do camião também foi comprada com a ajuda da paróquia de Pedrógão Grande, que deu 5 mil euros. E um casal de Pombal deu-lhes motosserras. No dia 15 de setembro, estavam prontos para voltar a trabalhar.

E era a trabalhar que estavam, também, a 15 de outubro, um mês mais tarde, quando começou o incêndio que devastou grande parte do país. Iam vender madeira a Nelas, no distrito de Viseu, no sábado, mas decidiram cancelar a viagem. “Já estava a haver fogos para lá e eu disse logo que nem pensar”, recorda André. “Foi pena, porque a madeira lá vende-se a 37 euros a tonelada e depois tivemos de vendê-la a 26 euros a tonelada aqui ao pé, em Figueiró dos Vinhos”, diz. “Mas, pronto, o que interessa é que estamos encaminhados. Já estávamos a precisar.”

Faval, Sertã

Clara Matias

O plano inicial era ir dar um passeio a Castelo Branco, à tarde. Mas, depois, Clara Matias, que vive na vila da Sertã, ouviu a sirene dos bombeiros. Eram 12h00 e os planos ficaram suspensos. Depois, foi ao site Fogos.pt e viu que os fogos se aproximavam perigosamente da casa dos pais. Ligou-lhes a dizer: “Já não vamos a Castelo Branco coisa nenhuma e eu vou já para aí”. Partiu para o Faval, a última ponta da Sertã antes do concelho de Oleiros. Foi lá que encontrou a mãe, Celeste Dias Rosa, 74 anos, e João Dias Rosa, 80 anos. Estavam prontos para meter em prática o plano de combate ao fogo que já tinham preparado.

Ligaram os aspersores, para molhar o quintal; puseram as mangueiras a jeito (uma delas foi comprada depois dos incêndios de Pedrógão Grande) e molharam a casa e os terrenos em volta. Além disso, puseram a funcionar um motor para tirar água da ribeira e, prevendo uma eventual falha de eletricidade, — que acabou por acontecer — encheram tinas. A casa, um antiga moagem que quando foi transformada levou madeira nos interiores, ficou fechada.

Só depois disto tudo é que o fogo chegou.

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Os incêndios não são novidade para esta família. Clara lembra-se de ali passar férias quando era criança e de como, em menos de nada, os fogos eram apagados pela população. “Assim que se via fumo iam logo uns rapazes de motorizada e apagavam aquilo em menos de nada”, recorda. Depois, houve o grande trauma do incêndio de Oleiros, de 2003, que chegou ali perto. Mas, agora, foi completamente diferente. As chamas estiveram em torno da casa, praticamente à porta. Celeste, João e Clara passaram a tarde a correr pela rua, acima e abaixo, para tentar salvar a sua casa e também as restantes daquela rua, que pertencem em grande parte à família. Os bombeiros passaram por lá, mas não seguiram caminho para o Mosteiro de Oleiros, ali perto. A ajudar, estiveram dois GNR.

Enquanto isso, Mafalda, neta de Celeste e João e filha de Clara, ligava-lhes a partir de Lisboa para saber se estavam bem. “A última vez que consegui falar com a minha mãe foi por volta das 19h00 ou das 20h00. A partir daí as únicas informações que tinha era através de bombeiros amigos e de alguns primos”, conta.

À meia-noite, Mafalda pôs-se a caminho do Faval, juntamente com um primo que também vive em Lisboa. À medida que se aproximou da Sertã, conseguiu apanhar as ondas da Rádio Condestável, onde era feito um acompanhamento noticioso dos incêndios. Depois, ouviu que o Vale do Souto, mesmo ao pé do Faval, tinha sido evacuado. “Em 2003, que foi o grande incêndio antes deste, o Vale do Souto não chegou a ser evacuado. Então quando ouvi aquilo pensei logo que isto era muito maior e passou-me pela cabeça: ‘Pronto, já foi tudo’”, conta.

Assim que chegaram à Sertã perguntaram aos bombeiros qual era a melhor maneira de chegar à terra dos avós. Nos dias normais, existem duas entradas para o Faval: uma pelo Carvalhal, outra por Oleiros. Ambas estavam a arder e cortadas. Por isso, só chegou ao Faval por uma terceira estrada, de terra batida, que lhes foi aconselhada pelos bombeiros. Quando chegou à terra dos avós já passava das 03h00. Viu que estavam todos bem — mas que havia muito para fazer.

Só pararam na segunda-feira à tarde. “Fizemos o que pudemos”, resume João. “Felizmente foi suficiente.”

Mação

José Dias

José Dias, 56 anos, está a apanhar aquilo o fogo não chegou a destruir. Passando um ancinho de plástico pelos ramos de uma oliveira, tira as azeitonas que foram poupadas aos incêndios que assolaram Mação este verão — primeiro em julho, com mais impacto; mais tarde em setembro, com fogos de menor intensidade. Em anos normais, naquele terreno que pertence a um engenheiro civil de Lisboa, retira-se dali uma tonelada de azeitonas. Agora, a pesagem de todas as azeitonas que caem nas redes que estão debaixo das oliveiras não deverá ultrapassar os 300 quilos

“O fogo chegou por aqui e levou quase tudo à frente”, recorda José, lembrando os incêndios que chegaram a cercar Mação, no final de julho deste ano. “A gente já se tinha apercebido do fogo quando ele estava lá longe, mas ele veio depressa.”

Na altura mais crítica daquele incêndio, as chamas chegarama estar a 50 metros da sua casa. No final, e sem que os bombeiros o conseguissem ajudar, conseguiu salvar a casa. Como? “Com mangueiras, com ramos de árvores, aquilo ia com tudo”, recorda. Ainda assim, não conseguiu salvar o pedaço de mata que lhe pertence. “Era para aí uns 20 pinheiros que eu tinha”, diz. José refere-os agora com o desprezo de quem sabe que não vai tirar nada dali — tanto que, quase três meses depois, ainda não foi ver o que resta daquelas árvores. “Eu não quero aquilo para nada, era só para lenha”, diz. “Agora vou lá vazer o quê?”

O tema dos incêndios é, agora, algo que não parece merecer grande preocupação da parte de José. “Eh, pá, pronto, tivemos de apagar aquilo, teve de ser”, recorda. É como se não tivesse outro remédio: o fogo há de vir e José há de fazer-lhe frente como lhe for possível. “Eu sabia que, de uma maneira ou de outra a gente dava a volta àquilo”, diz, sobre o fogo. “As pessoas têm de se sujeitar àquilo que lhes aparece à porta, não é assim?”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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