O Politifact, parceiro de fact checking do Observador, olhou, no total, para 23 declarações feitas no debate entre os candidatos a vice-presidente dos Estados Unidos, que mereceram ser alvo de verificação. Nessa contagem, Mike Pence — o número dois de Donald Trump — leva vantagem: 13 afirmações avaliadas, contra as 10 de Kamala Harris.

Mas não é só uma questão de números. É que, das 13 declarações de Pence verificadas pelos jornalistas do Politifact, oito foram classificadas como sendo “enganadoras”, duas estavam erradas, outras duas precisavam de contexto e uma era quase integralmente falsa. Do outro lado, Harris fez quatro afirmações que precisavam de mais contexto e uma que estava integralmente errada. Além disso, duas frases da número dois de Joe Biden estavam quase totalmente corretas, uma era uma espécie de meia verdade e e outras duas estavam totalmente corretas.

Olhando para outros meios de comunicação norte-americanos que estiveram a seguir o debate e a avaliar as declarações de uma e do outro candidatos, a CNN verificou, também, um total de 23 frases (seis de Harris e 17 de Pence). E, pondo de lado as afirmações consideradas verdadeiras, ou corretas, chegou a um balanço total de quatro ideias: declarações que estavam erradas (uma), eram enganadoras (uma) ou precisavam de mais contexto (duas) de Kamala Harris. Quanto a Mike Pence, a estação encontrou cinco frases falsas, quatro enganadoras, três a precisar de mais contexto e uma que juntava ideias enganadoras e falsas.

Última contagem — The New York Times: nove avaliações a Harris, 24 a Pence. Um “enganador” e um “errado” para a número dois de Biden; oito “enganadores”, seis “falsos” e três “exagerados” para o braço-direito de Trump.

No que diz respeito ao conteúdo do debate — marcado por um efetivo confronto ideias e menos pelos gritos e insultos que o da semana passada, entre Trump e Biden —, Mike Pence e Kamala Harris falaram dos temas que estão a marcar a atualidade norte-americana: pandemia, situação económica, Justiça, alterações climáticas, entre outros. Vamos, então, aos fact checks.

[Pode rever aqui, na íntegra, o debate desta quarta-feira]

Trump considera a pandemia um embuste

A frase:

O Presidente disse que [o novo coronavírus] era um embuste”
Kamala Harris

Falso, na escala do Politifact; enganador, para a CNN e para o The New York Times.

O contexto é este: no final de fevereiro, num comício na Carolina do Norte, Donald Trump reagia aos ataques dos democratas, pela forma como tem liderado o país no combate ao novo coronavírus, dizendo que eles — os democratas — estavam a “politizar” a questão. Afirmava que estava a fazer “um dos melhores trabalhos” para erradicar a pandemia e, depois, fazia uma ligação com a Rússia e a forma como esse tema se tornou arma de arremesso contra Trump.

É então que o presidente norte-americano faz a afirmação: “Tentaram o embuste do impeachment.” E é nesse contexto que surge a expressão “embuste”. Na verdade, Trump nunca se referiu diretamente à pandemia provocada pela Covid-19 como um “embuste”, embora essa ideia tenha sido repetida por diversas nos últimos meses.

Portanto, e na avaliação do Observador, a declaração de Harris está “errada”

ERRADA

Administração Trump sem plano para combater a pandemia?

A frase:

Hoje, eles ainda não têm um plano” para lidar com a pandemia
Kamala Harris

Ainda no tema da pandemia, a número dois de Joe Biden às presidenciais dos Estados Unidos afirmou que a administração Trump continua sem apresentar uma estratégia clara para erradicar a propagação do novo coronavírus no país — uma ideia que o próprio Biden já tinha lançado para a mesa no frente-a-frente com Trump.

Há aqui um plano duplo de avaliação: uma análise daquilo que tem sido a ação da Casa Branca nos últimos meses e daquilo que se pretende fazer quando tiver sido desenvolvida uma vacina para a Covid-19. E é pela confrontação desses dois planos que o Politifact considera que a afirmação carece de contexto

Ora, por um lado, recorda este site de verificação de factos, a atual administração não concretizou nenhuma estratégia de testagem em massa, que permitiria perceber o verdadeiro impacto da pandemia no país; por outro lado, Trump planeia avançar com a vacinação generalizada da população, assim que a vacina esteja pronta, e tem sublinhado o argumento de que a aposta passa por reforçar o apoio à economia para uma recuperação mais rápida.

Na avaliação do Observador, esta frase de Harris é “esticada”

ESTICADA

Obama deixou como legado uma economia anémica?

A frase:

A administração Trump “herdou a mais lenta recuperação económica”
Mike Pence

No debate entre Trump e Biden, foi o democrata quem usou o argumento inverso para tentar ganhar vantagem. Biden disse que, como número dois de Obama, deixou uma economia em grande crescimento — “booming” foi a expressão usada. Se essa ideia não era verdade há uma semana, também não é rigoroso, agora, dizer — como fez Pence — que Trump herdou “a mais lenta recuperação económica”.

Fact Check. Pandemia, recessão e violência policial. Seis momentos em que o debate Trump-Biden fugiu à verdade

O Politifac chama-lhe um cenário de copo meio cheio ou meio vazio. E é mais um caso de plano duplo de análise: a recuperação da crise nos EUA, desde 2009 e até à chegada da pandemia, foi a mais fraca recuperação de uma recessão na história do país (ao contrário das presidências de Clinton e Bush, o crescimento nunca foi superior a 3%); o outro lado da análise é que a performance da economia sob o mandato de Obama (e que se prolonga para a presidência de Trump) estabeleceu o recorde de 121 meses consecutivos de recuperação.

Resultado: a frase de Pence é “enganadora”

ENGANADOR

Anúncio de novo nome para Supremo Tribunal foi feito em evento ao ar livre?

A frase:

Foi um evento ao ar livre, como todos os nossos cientistas, de forma rotineira, nos aconselham
Mike Pence

É “falso” alegar, como fez Mike Pence, que a reunião de dia 26 de setembro, na Casa Branca, tenho decorrido ao ar livre — pelo menos, exclusivamente. Nesse dia, Donald Trump anunciou Amy Coney como o mais recente elemento a integrar o Supremo Tribunal dos EUA — depois de a morte da juíza Ruth Bader Ginsburg ter deixado um lugar por ocupar.

O encontro estará, aparentemente, na origem de uma série de contágios pelo novo coronavírus ao mais alto nível da administração norte-americana. E, se é verdade que o anúncio de Coney foi feito ao ar livre, em concreto no Rose Garden, não é menos verdade que, logo nesse momento, foram registadas várias interações entre os presentes sem que fosse mantida a distância de segurança aconselhada; tal como não era visível o uso de máscara. Além disso, depois desse anúncio, houve também encontros privados em instalações interiores em que, tal como tinha acontecido pouco antes, os presentes não respeitavam a distância entre si nem usava máscara.

Não é possível saber quem, em concreto, foi contagiado nesse evento. Mas uma coisa é certa: não é verdade que se tenha tratado de um evento exclusivamente “ao ar livre” como argumentou Mike Pence.

ERRADO

Trump herdou reserva estratégia sem recursos

A frase:

A administração Obama “deixou a reserva nacional estratégica vazia”
Mike Pence

O tema tem ressurgido regularmente na campanha para as presidenciais dos EUA. No debate desta quarta-feira, Mike Pence acusou o antecessor de Trump de ter esvaziado a reserva nacional estratégica, onde deveriam estar armazenadas, entre outros bens, reservas de medicamentos que poderiam ser usados em situação de escassez da produção — por exemplo, durante uma pandemia.

“Enganador”, na escala da CNN; “maioritariamente falso” para o Politifact; “exagerado” para o The New York Times.

Vamos a factos: havia, efetivamente, uma escassez de reservas no que toca a máscaras, um bem fundamental para conter a propagação do vírus — ainda que Trump tenha revelado uma posição errática sobre a mais-valia da utilização destes equipamentos de proteção; mas não havia escassez de determinados medicamentos e ventiladores.

Mais uma vez, Pence é “enganador” na formulação que usa.

ENGANADOR