Debate Fora da Caixa conclui que Estado e cultura precisam de comunicar melhor com empresas /premium

Encontro promovido pela Caixa Geral de Depósitos, em Guimarães, discutiu internacionalização, artes e mercado do trabalho.

    Índice

“Hoje a dinâmica de acontecimentos na economia global pede que haja ligações estreitas de comunicação entre quem governa, ou legisla, e quem gera a riqueza da economia nacional”, afirmou José Fernandes, “chairman” do grupo Frezite. “Sentimos esse desfasamento, sentimos falta de proximidade, sobretudo na comunicação.” Foi esta uma as ideias-fortes que se ouviram esta semana num debate promovido pela Caixa Geral de Depósitos e durante o qual o presidente do banco público, Paulo Macedo, falou do contexto económico atual para as empresas portuguesas.

Tratou-se da quinta edição do novo ciclo de Encontros Fora da Caixa: Economia & Cultura, desta vez no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. O jornalista José Manuel Fernandes, “publisher” do Observador, conduziu os trabalhos e moderou o principal painel, “Mercado de Exportação: Desafios e Oportunidades”, com Vítor Abreu, CEO da Endutex; Luís Guimarães, CEO do grupo Polopique; José Fernandes, “chairman” do grupo Frezite; e Francisco Cary, administrador executivo Caixa Geral de Depósitos.

“Hoje a dinâmica de acontecimentos na economia global pede que haja ligações estreitas de comunicação entre quem governa, ou legisla, e quem gera a riqueza da economia nacional”
José Fernandes, “chairman” do grupo Frezite

Questionados sobre se estar longe de Lisboa é uma vantagem ou uma desvantagem para quem aposta na exportação, os convidados fizeram notar que a distância mais preocupante não é em relação à capital portuguesa, mas a Bruxelas e a Estrasburgo, onde estão sedeadas as principais instituições da União Europeia. Lisboa “é muitas vezes um veio de transmissão lá de fora”segundo Vítor Abreu. Luís Guimarães, cujo grupo empresarial atua na indústria do têxtil de vestuário, discordou em parte, e numa observação dirigida aos seus congéneres sublinhou que “a distância a Lisboa faz mossa”, principalmente porque “os empresários que estão unidos para tomar alguma decisão a nível nacional são aqueles à volta de Lisboa”. “O presidente da Confederação Empresarial de Portugal vem pouco ao Norte, que é onde está o motor da economia, e mesmo à televisão os empresários do Norte raramente são chamados”, acrescentou. “A distância, para mim, está mais na falta de comunicação e de conhecimento” da realidade, por parte das várias instituições, sublinhou Luís Guimarães.

Os Encontros Fora da Caixa são uma organização da Caixa Geral de Depósitos e iniciaram-se em março de 2017, tendo percorrido, numa primeira fase, todas as capitais de distrito. De acordo com fonte oficial, a iniciativa não é um “fórum onde se evidenciam problemas, mas onde se procuram soluções através da evidência de uma visão estratégica própria para cada região”. Dentro deste espírito, os convidados da edição vimaranense acabaram por diagnosticar vários problemas, mas também verbalizaram soluções concretas.

Mérito, inovação, conhecimento

Aproveitando o mote dado pelo título do encontro, Vítor Abreu disse estar ali para “falar fora da caixa” e foi contundente: “Ser empresário hoje em Portugal não é fácil, e não me refiro ao dia-a-dia, mas à imagem e ao ambiente à volta das empresas, que precisa de mudar.” Num tom irónico, que provocou sorrisos entre as centenas de pessoas que assistiam ao debate, declarou: “Os empresários são vistos como barrigas de aluguer. Criam as empresas e depois vem o Estado nas suas várias vertentes e diz ‘o bebé é meu’. Depois, vêm os sindicatos e dizem ‘o bebé é meu’. E o empresário pergunta-se: ‘O bebé não é meu?’ Na verdade, fica apenas com a pensão de alimentos.”

No dizer de Luís Guimarães, as empresas “não querem ajudas do Estado, querem que o Estado as deixe trabalhar”. “Começa logo pela legislação do trabalho. As pessoas ganham mal, porque os impostos são muito altos, nomeadamente no setor de mão de obra intensiva. Não imagino conseguir sobreviver com 600 euros, mas infelizmente esses 600 euros custam à empresa o dobro, ou próximo disso. As empresas portuguesas podem e devem pagar mais, mas o custo com o trabalho teria de ser reduzido.”

Novamente, o CEO da Endutex, empresa que produz têxteis técnicos, reclamou “igualdade de oportunidades”, a proporcionar pelo Estado às empresas portuguesas, para que consigam competir com outros países. “Não me podem pedir para competir no mundo global se as minhas regras locais me colocam à partida numa corrida desequilibrada.”

Numa intervenção que mereceu aplausos da plateia, o “chairman” do grupo Frezite, que produz ferramentas de corte, garantiu que “só temos um caminho, a customização, diferenciando-nos assim da grande série, que fica lá para a Ásia, para os países em que fator determinante é o custo da mão de obra”. Insistiu, referindo-se em concreto às exportações: “Temos de apostar no valor acrescentado, no conhecimento e na gestão de conhecimento. E precisamos de resposta rápida: chegar antes do concorrente. Temos cada vez mais que captar a informação nos centros mais importantes da economia global, que têm aspirações de desenvolvimento mais ousadas. Temos de viajar mais, temos de estar em fóruns especializados, temos de tomar decisões fundamentadas no ‘benchmarking’ dos mais desenvolvidos e trazer para dentro das empresas princípios modernos de gestão: mérito, inovação, conhecimento.”

José Fernandes elogiou os cursos e a formação ministrada por universidades e escolas de negócios, “com foco na economia, na internacionalização e na exportação”, porque “se as empresas receberem pessoas qualificadas, elas entram em concurso e tem de se pagar melhor”. Por fim, sugeriu que Portugal “deveria estar atento” ao que considerou ser a “astúcia” de países como a Alemanha, que “está na ilha grega de Lesbos para ver que qualificações têm os migrantes”. “Eles saem de lá endereçados para o mundo empresarial ou para centros de orientação da Alemanha. Não é só a parte empresarial, o governo também deveria estar atento”, rematou.

Dinheiro das empresas na cultura

Além deste debate, o Encontro Fora da Caixa no Centro Cultural Vila Flor serviu de palco para a gravação ao vivo do programa “E O Resto é História”, da Rádio Observador. Em tom informal, o jornalista João Miguel Tavares conduziu um diálogo com o historiador Rui Ramos. Estando na cidade-berço, falaram sobre os mitos históricos ligados à fundação da nacionalidade e recordaram o início do percurso da banca portuguesa.

Numa alocução inicial, o administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos José João Guilherme, dirigindo-se aos empresários da região, tinha dito o banco público é “parceiro de negócios” e “apoia as empresas em todas as dimensões”.

Mais tarde, já depois da atuação muito aplaudida do guitarrista Manuel de Oliveira, a gestora cultural Ana Ventura Miranda, do Arte Institute, protagonizou um painel acerca da iniciativa Revolution Hope Imagination (RHI). “Somos um projeto português da sociedade civil que acredita que as artes têm de funcionar de outra maneira, não só com subsídios, mas também com as empresas e já aprendemos que as empresas estão muito mais preparadas para o diálogo do que propriamente os artistas”, afirmou, tendo disponibilizado alguns números sobre o Arte Institute. Começou há oito anos, tem um orçamento anual de cerca de 120 mil euros, faz 125 eventos culturais por ano em 35 países e em 85 cidades.

“Somos um projeto português da sociedade civil que acredita que as artes têm de funcionar de outra maneira, não só com subsídios, mas também com as empresas e já aprendemos que as empresas estão muito mais preparadas para o diálogo do que propriamente os artistas”
Ana Ventura Miranda, gestora cultural do Arte Institute

Ao lado de Ana Ventura Miranda esteva Sara Pereira da Silva, diretora executiva da companhia nova-iorquina de dança Big Dance Theater, segundo a qual “se parte do princípio, nos EUA, de que a cultura precisa de financiamento e de que este não pode ser só público, enquanto em Portugal a necessidade está lá e talvez os artistas tenham algum preconceito em pedir dinheiro” ao sector privado. Outra convidada do painel, Leticia Santinon, da brasileira Rede Secs, observou que “a cultura é menos inteligível em termos de retorno do que outras áreas, mas dá retorno”. Os artistas, os curadores e os programadores “precisam de pensar noutras maneiras de financiamento”, além do Estado, disse Leticia Santinon, até porque “quando chega um governo, como agora no Brasil, que pensa que não tem de investir tanto na cultua, os criadores ficam desesperados”.

“A Caixa quer fazer mais negócios”

Os Encontros Fora da Caixa nasceram para “colmatar a necessidade de a Caixa desenvolver uma política de proximidade, ao mais alto nível, nas capitais de distrito, para ouvir empresários, clientes e colaboradores, e para refletir sobre a realidade empresarial de cada uma das regiões do país”, de acordo com informações prestadas por fonte oficial do banco. Daí que o presidente da comissão executiva tenha marcado presença, para uma intervenção final.

Paulo Macedo falou durante meia hora, apoiado por uma projeção em PowerPoint, e começou por explicar que “vivemos um período de taxas de juro historicamente baixas”, logo “a taxa de juro de um crédito para uma boa PME em Portugal é igual à taxa de juro de um crédito para uma PME na Alemanha”. “As empresas sabem que os custos financeiros baixaram e isso até contribuiu para o acréscimo de rentabilidade das próprias empresas”, além de que, nos últimos anos, “muitas souberam e conseguiram voltar-se para fora, souberam competir dentro e fora de Portugal”.

De acordo com Paulo Macedo, tendo em conta as projeções disponíveis, “vamos ter taxas de juro mais baixas no curto, no médio e no longo prazo, e a grande notícia para quem quer recorrer ao financiamento é que isso se vai manter durante muito tempo”. Já para os bancos, “não são boas notícias, porque os bancos vivem dos serviços que prestam, da sua margem e das suas comissões”, acrescentou. No entanto, e em conclusão, “a baixa da taxa de juro significa para empresas e particulares que vários projetos passam a ser apelativos e exequíveis”.

O mesmo responsável avisou que para Portugal, cada vez mais uma economia aberta, “não é indiferente” o que venha a acontecer em função do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. “Não há um enorme impacto direto em Portugal, mas sabemos que quem exporta terá maiores complicações e isso poderá, de acordo com algumas projeções, reduzir em 0,6% o crescimento do Produto Interno Bruto.”

O presidente da Caixa destacou o “sentimento económico positivo em termos relativos e absolutos” que se vive hoje, ainda que o investimento público e privado não esteja em níveis altos. “O Banco Central Europeu baixa as taxas para haver maior volume de crédito, mais produção, mais emprego e investimento. Notamos que esta baixa não está a atingir plenamente esse seu objetivo e veremos como isso desenrolará nos próximos anos”, disse. Deixou depois alguns dados: em Guimarães a Caixa tem cerca de 300 milhões de euros em crédito, cerca de 625 milhões em depósitos e que trabalha com 140 empresas de topo.

“A mensagem é: a Caixa quer fazer mais negócios. A Caixa tem capital, tem liquidez e tem uma rede intocável de gabinetes de empresas em todo o país”, garantiu Paulo Macedo.

“vivemos um período de taxas de juro historicamente baixas”
Paulo Macedo, presidente do banco Caixa Geral de Depósitos

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.