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ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images

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Depois das bombas na Síria e do tráfico humano na Líbia, a saga do Open Arms quase matou "o sonho" de Ali /premium

Ali esteve 15 dias a bordo do Open Arms à espera que algum país europeu deixasse o navio voltar a terra. “Senti que aquelas organizações de direitos humanos eram mentirosas”, confessa ao Observador.

Foi a primeira vez que Ali passou o dia de aniversário em alto mar. Os 26 chegaram para o rapaz sírio a bordo do navio de resgate Open Arms, no mar Mediterrâneo, à espera de poder voltar a pisar terra. Passou lá 15 dias, depois de outras 25 horas num barco de borracha “sem água, sem comida, sem nada”.

É do cimo de uma montanha que atende a nossa chamada. Já carregou o telemóvel e conseguiu um cartão europeu. Está agora num campo de refugiados em Lampedusa, Itália, à espera de saber onde poderá reconstruir a vida na Europa. “É o sonho”.

Com um inglês fluente, poucos dias depois de ter podido voltar a terra, Ali Maray prontamente se prepara para mais de duas horas de conversa com o Observador. Recapitula a vida quase como se não fossem dele os últimos meses que passou.

O pequeno barco de borracha de onde Ali se aventurou a sair da Líbia foi o terceiro a ser salvo pelo navio de resgate humanitário Proactiva Open Arms. Quando foi encontrado, a situação era já de enorme alarme. Uma viagem que estava programada para durar apenas cerca de seis horas, da cidade portuária de Zuwara, no norte da Líbia, até à ilha italiana de Lampedusa, já ia nas 25 horas.

O pequeno barco de borracha que transportava cerca de 40 pessoas não viajava a uma velocidade superior a seis quilómetros por hora. Não havia comida nem água a bordo. Nas horas de maior calor, alguns dos ocupantes saltavam para o mar na tentativa de procurarem algum alívio para as altas temperaturas, não esperando que o sal junto com o sol os queimasse ainda mais. A certa altura, ficaram sem gasolina e o motor deixou de funcionar.

“Estávamos desesperados. Não sabíamos o que pensar nem o que fazer. As pessoas começavam a lutar umas com as outras, começavam a beber água do mar. Eu não o fiz porque sabia que morreria mais rapidamente se o fizesse.”

A esperança chegou como nos filmes, com uma luz no céu. “Já estávamos perto de Malta e começámos a ver uma luz a vir em nossa direção”. Era um helicóptero a sobrevoar o barco. A sensação de alívio foi imediata, como se comprova no vídeo que Ali Maray filmou e que cedeu ao Observador.

Alguns dos cerca de 40 ocupantes começaram, com os telemóveis, a fazer sinais de luzes e a gritar. Mas o helicóptero foi embora. “Aí pensamos que estava feito, já ninguém nos ia salvar”. Mas passados cinco a dez minutos, uma outra embarcação começou a aproximar-se. Ali estranhou. Podia ser a guarda costeira da Líbia, “e morrer, para mim, era melhor do que se eles nos resgatassem”. Era o navio humanitário espanhol.

Juntaram-se a outras 120 pessoas que já estavam a bordo. “Senti aí que era 100% certo que ia sobreviver”, conta ao Observador. Mas cedo a quietude de estar em mãos de europeus se tornou desilusão. Por essa altura, já o navio espanhol procurava sem sucesso autorização de um porto para atracar.

“Comecei a perder a esperança porque toda a Europa estava a fechar as portas mesmo em frente ao Open Arms. Ninguém queria que atracássemos em nenhum porto. Senti que todas aquelas organizações de direitos humanos eram mentirosas”, recorda o migrante sírio.

Não é fácil manter 160 pessoas a bordo, mas a equipa do Open Arms “era maravilhosa, fazia tudo para nos fazer sentir confortáveis”. Europeus, podiam viajar em barcos mais pequenos até à ilha italiana e trazer “pizza, cigarros”, assim como alimentação para o dia e medicamentos. Ao pequeno almoço, eram precisas duas horas para distribuir o chá e os biscoitos por todos os ocupantes do navio.

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O pior momento era mesmo na hora de dormir porque, em muitas noites, não era possível evitar a entrada de água, pela força da ondulação, dentro do navio. “As ondas eram fortes, nós estávamos todos molhados e dormíamos com coletes salva-vidas”, relembra Ali. “Às vezes o staff do Open Arms dormia connosco para nos fazer sentir que estávamos a salvo e todos juntos”.

Entre os momentos de maior desespero esteve o da notícia de que Itália não ia deixá-los atracar. “Lembro-me de estarem todos a gritar e a dizer que íamos voltar para a Líbia. Foi um momento mau e nós não estávamos assim tão longe de Lampedusa. Conseguíamos ver terra. Conseguíamos ver pessoas a nadar no mar e a divertirem-se de férias e nós estávamos ali presos num barco. O que nós queríamos era a sensação de pôr os pés na terra. Não podíamos ficar assim, mesmo que nos trouxessem caviar”.

ELIO DESIDERIO/EPA

A guerra na Síria obrigou Ali a fugir, a quatro meses de se tornar engenheiro

Homs é um obituário. A amplitude destrutiva é enorme naquela cidade síria, uma das mais afetadas pela guerra. Era ali que Ali estudava, no segundo ano do ensino secundário, quando a revolução começou. A escola encontrava-se numa fronteira – de um lado um bairro controlado pelo regime de Bashar Al Assad, do outro um bairro sob domínio das forças rebeldes.

Não foi preciso muito tempo para que a vida naquela cidade, conhecida por ser a capital da revolução, estivesse permanentemente ameaçada. “Muitas vezes interpelavam-me para saberem de que lado estava e eu dizia que não estava de nenhum, que só queria completar os estudos. Na verdade sentia que nem percebia o suficiente daquilo para poder escolher um lado”.

A luta entre as duas fações evoluiu de armas leves para mais pesadas. Os raptos multiplicaram-se. Pressentindo o perigo, Ali mudou-se para a cidade onde nasceu, a 37 quilómetros de Homs. Mas nessa altura também as milícias armadas se mudaram para perto. A localização da cidade interessava: era a 3 quilómetros da fronteira com o Líbano.

Começou a estudar Engenharia Civil em Homs, mas decidiu continuar a viver longe dali. Todos os dias passava cerca de seis horas num autocarro, no caminho entre a casa e a universidade. Uma distância de 37 quilómetros transformou-se em mais de 100, porque tanto as forças do regime como os rebeldes tinham ocupado as estradas com checkpoints. Todos os dias era preciso mudar a rota para manter a segurança.

Ali é um dos três sírios à espera de saberem que país os vai acolher. Se pudesse escolher, Ali ia para a Holanda.

Nunca ninguém o magoou, mas conta que às vezes havia militares do governo que paravam os autocarros. “Porque é que não se juntam ao exército? Porque é que vão para a universidade? O vosso país está em guerra e têm de lutar por ele”. Do lado dos rebeldes, o mesmo apelo, com uma mensagem diferente: “Não vão para essa universidade do governo. Ela não é islâmica. Estão-vos a ensinar as coisas erradas”. Chegaram a tentar destruir o documento que provava que Ali, por integrar a universidade, estava dispensado de se juntar ao exército sírio.

Foi quando as forças de Bashar Al Assad tomaram a cidade de Homs que os ataques suicidas por parte dos rebeldes fizeram subir os níveis de insegurança na cidade. Ali foi atingido ligeiramente por dois desses ataques. “Não havia sangue, não havia cabelo. A bomba era inacreditável, reduzia tudo a fumo. As pessoas que estavam perto simplesmente desapareceram”.

Tomou a decisão de abandonar a Síria depois de uma terceira bomba o ter atingido diretamente, levando-o a ser projetado dez metros. Permaneceu inconsciente algum tempo, foi levado para um hospital próximo, onde só permaneceu duas horas, “porque estava tão cheio que eles só mantinham lá as pessoas com situações mais graves”.

Estava a quatro meses de terminar o curso de Engenharia Civil quando, em maio de 2019, mesmo sendo o mais novo de cinco irmãos, decidiu abandonar sozinho o país e rumar ao Sudão para tentar acabar os estudos.

Sudão rima com desilusão. Líbia rima com nada

Para estudar numa universidade sudanesa, um estrangeiro tem de pagar o equivalente a “quatro mil ou cinco mil euros por ano, dependendo da universidade, mesmo as públicas”, explica Ali. O plano que o fez entrar naquele país, que lhe oferecia entrada sem necessidade de visto, estava a começar logo mal.

Arranjou trabalho não qualificado numa empresa de construção civil e depois num restaurante. Dormia num quarto partilhado. Não vivia confortável mas era um começo e tudo começava a encaminhar-se. Até uma nova revolução popular de que não fazia parte e que não compreendia ter entrado na sua vida. Um tumulto sem precedentes, que desde dezembro se vivia no Sudão e que tinha conduzido à deposição, em abril, do Presidente Omar al-Bashir, substituído por um Conselho Militar Transitório.

“Senti como se fossem os primeiros passos que a guerra teve na Síria”. Ali decidiu partir de novo. A Líbia não era uma hipótese que tivesse considerado, porque não estava na sua “lista dos países seguros”, mas conheceu alguém que lhe prometeu um visto para lá. Pagou-lhe cerca de 640 euros (na moeda sudanesa) para passar a fronteira com um primo.

“No dia em que combinámos partir, uma carrinha estilo pick up veio buscar-nos e um homem conduziu pelo deserto durante cinco ou seis horas à noite”. Chegados ao destino, numa cidade antiga perto da fronteira, pessoas de outras nacionalidades encontravam-se à espera de uma nova carrinha, que chegaria ao amanhecer.

À noite, no deserto, faz muito frio. Ali pode não lhe ter imediatamente chamado assim, com as palavras a doerem pelo significado que carregam, mas estava retido numa entrelaçada teia de tráfico humano. Entendeu, naquele momento, que a situação era grave: “Havia dealers com kalashnikov. Percebi que não podia pedir para me levarem de volta.”

Seguiram-se mais carrinhas pick up, mais quilómetros no deserto, no frio e na incerteza da noite. Chegado à Líbia, seguiram-se também mais “comerciantes de pessoas”. “A primeira coisa que vi não vou mais esquecer: uma fila de homens da Somália com um outro homem em frente a eles a agarrar num chicote. Com um telefone de satélite, pedia-lhes que ligassem para a família, para que alguém lhes enviasse dinheiro. Batiam-lhes com o chicote até se ver sangue e partiam-lhes pernas e braços”.

Não tem a certeza porquê – “talvez por ter pele branca” -, mas Ali não foi agredido. Apercebeu-se de que havia homens que trabalhavam de graça para o dealer, na impossibilidade de pagarem o dinheiro que lhes era pedido. Algumas mulheres eram violadas. Ao fim do oitavo dia, foi-lhe permitido ir para Tazirbu, uma cidade próxima mas mais central, e de lá para Ajdabiya, onde conseguiu dormir três horas e tomar banho pela primeira vez numa semana.

Muitos querem voltar, mas eu não. É como se eu fosse um bebé que tivesse acabado de sair da água, do líquido amniótico da mãe. A primeira coisa que sente é choque. Mas quando respira, já ninguém o consegue voltar a levar para a água."

A capital Tripoli estava mais próxima. Com 15 pessoas em cada um dos dois pisos, um camião veio buscá-los a meio da noite. “O calor era insuportável e o condutor só ligava o ar condicionado por dois minutos de três em três horas”. Chegado à capital, outro centro de tráfico. Mas ali “as pessoas não eram só agredidas com chicotes, também as penduravam pelos pés, de cabeça para baixo, para serem obrigados a pagar mais dinheiro”. Passou 50 dias naquele sítio até que, tendo-lhe sido devolvido o telemóvel, procurou no Facebook um sírio que vivesse em Tripoli. Encontrou Mohamed, que o ajudou a sair dali e que lhe deu casa. Até ao dia em que Ali percebeu que não tinha mais opções e decidiu partir novamente – desta vez, rumo à Europa.

O quarto de Ali no campo de refugiados em Lampedusa.

O quarto de Ali no campo de refugiados em Lampedusa

“Comecei a pensar ilegalmente”, admite. Pela primeira vez, sabia conscientemente que ia entrar num país de forma ilegal e aceitou a sina como única opção. Foi para Zuwara, cidade portuária do norte da Líbia conhecida por ser usada para tráfico humano, e pagou o equivalente a 1.300 euros pela passagem. Nem sabia onde era Lampedusa.

Só quando voltou a sentir os pés na terra – um dia antes do resto dos migrantes do Open Arms, por ter um problema de pele que pedia assistência médica urgente – e pôde carregar o telemóvel é que contou aos pais. Hoje, Lampedusa parece-lhe o melhor lugar do mundo e voltar para a Síria é uma ideia insuportável.

“Muitos querem voltar, mas eu não. É como se eu fosse um bebé que tivesse acabado de sair da água, do líquido amniótico da mãe. A primeira coisa que sente é choque. Mas quando respira, já ninguém o consegue voltar a levar para a água.”

Portugal irá receber dez migrantes que fizeram aquela mesma viagem no navio Open Arms. Ali conta que gosta de Cristiano Ronaldo, mas se pudesse escolher iria para a Holanda. De resto, qualquer país que o deixe acabar os estudos lhe parece melhor casa. Pondera continuar Engenharia Civil ou começar um curso novo. Até porque, ao longo do último ano, várias vezes deu por si a questionar o sentido de estudar construção quando as imagens que ainda lhe enchem a cabeça são sobretudo de destruição.

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