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Muitos países europeus estão, por esta altura, a regressar lentamente à normalidade possível. Mas a vida depois do isolamento não será a mesma

NurPhoto via Getty Images

Muitos países europeus estão, por esta altura, a regressar lentamente à normalidade possível. Mas a vida depois do isolamento não será a mesma

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Depois do isolamento, quem será capaz de brincar com os nossos medos dos outros? /premium

Num texto escrito no início do confinamento, a escritora franco-marroquina Leïla Slimani reflete sobre a necessidade de reaprender a habitar e coloca questões sobre a vida depois do isolamento.

Pela janela, vejo o meu grande cedro azul, que estende os seus ramos no amanhecer frio. Vejo o cipreste que ficou amarelo. Nunca pára de morrer, ele que teve de suportar ondas de calor e chuvas torrenciais. Vítima silenciosa das alterações climáticas. Lá fora, os pássaros cantam, indiferentes à nossa vida. Os narcisos floresceram e, na parede à minha frente, apareceram botões de camélias. Esta vista é a do meu escritório, na casa que comprei na Normandia há alguns anos. Na altura, estava à procura de um lugar para escrever, uma casa sossegada onde me pudesse dedicar aos meus romances. Queria um lugar para os meus filhos, para a minha família, um lugar para mim, que tivesse a nostalgia da minha infância. Penso nas palavras de Marguerite Duras em A Vida Material: “A casa é para colocar crianças e homens, para os manter num lugar feito para eles, para conter os seus erros, para os distrair do seu humor de aventura”.

Esta vista é a que associo ao trabalho, à criação. Este cedro azul, olhei-o mil vezes enquanto escrevia o Canção Doce. Passei horas a contemplar, ao longe, estas colinas normandas enquanto imaginava a Meknès dos anos 50, em Le Pays des Autres. Frequentemente, fechei-me aqui durante alguns dias, sozinha. Fazia as compras — o suficiente para aguentar uma semana — e nunca saía. Ficava de pijama, não arranjava o cabelo, falava sozinha. Dormia a qualquer hora, comia a meio da noite. Queria alcançar uma espécie de abandono, um estado de quase loucura que é propício à escrita romântica.

As ruas de Paris têm estado praticamente desertas devido ao isolamento durante a pandemia da Covid-19. No regresso gradual à normalidade, a realidade não será igual a antes

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Hoje, estou fechada, mas não estou sozinha e não há a questão de escrever um romance. Nos últimos dois dias, tenho estado aqui confinada com o meu marido e os meus dois filhos. Na estrada abaixo, já não vemos carros a passar. Já não vemos famílias a caminhar e até o rebanho de ovelhas, que pastavam habitualmente na colina, desapareceu. Cada um de nós escreveu, numa folha branca, um certificado com o nosso nome, morada e o motivo para a nossa saída para o exterior. Parece que estamos a viver num conto e que somos vítimas de qualquer espécie de feitiço. Uma bruxa má — ou um mago benevolente, quem sabe? — fez parar o mundo. A Natureza vingou-se. A loucura para que todos fomos arrastados finalmente parou. Neste mundo assente no consumo, na produção, no movimento, na hiper-sociabilidade, estamos em prisão domiciliária. Convocados a exercer a humildade e a paciência.

Penso que esta vista, tão bela, tão pacífica, sobre o campo e sobre as flores, vai ser a minha única visão do mundo durante, pelo menos, um mês. Eu, que passei os últimos três anos a viajar, que acordei por vezes num quarto de hotel sem sequer saber em que país estava e que língua se falava, tenho de reaprender a habitar. Toda a minha vida quis ir rápido. Sonhei com uma vida agitada, intensa, queria fazer tudo, ver tudo. Passo os meus dias a preencher listas de coisas a fazer, de textos a escrever, de livros a ler, de filmes a ver. Compro bilhetes de avião para viagens daqui a seis meses, já sonho com a viagem que vou fazer quando for velha e os meus filhos tiverem saído de casa. A verdade é que estou sempre com sono. Que não me deito sem revolver as minhas ansiedades, a achar que não fiz o suficiente, que me estou a arrastar, que estou a perder tempo.

Já estou a olhar para o cedro azul há uma hora. Não faço nada além disso. Gostava de aprender a entregar-me à vida, gostava de encontrar um mim “um verão invencível”, como escreveu Camus. Na verdade, não tenho medo. Não tenho medo porque tudo me parece irreal. É um jogo ou um sonho, é uma provação a que estamos sujeitos e que em breve vai acabar. Ter-se-á um argumentista de Hollywood apoderado das nossas vidas? Não tenho medo, porque sei que vai acabar, que poderemos sair e tocar-nos novamente. Pergunto-me o que seria mais terrível: que a vida fosse retomada como antes ou que nada voltasse a ser o mesmo. Pergunto-me incessantemente quem vai beneficiar desta crise, quem será capaz de brincar com os nossos medos dos outros. Quem será o primeiro a ousar dizer: estamos bem entre nós, não? Veem como as fronteiras se fecham? Não vos tínhamos dito que, por se misturarem, as coisas iam acabar mal?

"A loucura para que todos fomos arrastados finalmente parou. Neste mundo assente no consumo, na produção, no movimento, na hiper-sociabilidade, estamos em prisão domiciliária. Convocados a exercer a humildade e a paciência"

Por vezes, digo a mim própria que nada devia ser feito além de, simplesmente, viver. Estender a roupa, dar aulas aos meus filhos, ler-lhes, pela centésima vez, a história do ursinho e do balão vermelho, preparar bons pratos, sentar-me na relva e olhar as árvores. Devíamos escutar o silêncio, pensar naqueles que não têm de que viver e aguentar esta situação. Não devíamos escrever, porque a realidade é demasiado grande, demasiado enorme, demasiado presente. Devora-nos por dentro, e diante dela sentimo-nos um pouco ridículos com as nossas palavras estúpidas e insignificantes. E, todavia, estou a escrever-vos, porque não sei fazer mais nada, porque é a única coisa que me ajuda respirar, a sobreviver, que me dá a coragem de amar e me impede de enlouquecer.

Leïla Slimani (1981) é uma escritora e jornalista franco-marroquina. Algumas das suas obras — como “No Jardim do Ogre” e “Canção Doce”, que lhe valeu o prestigiado Prémio Goncourt, em 2016 — estão traduzidas para português.

Este artigo faz parte da coleção “Janelas para o Mundo”, organizada pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Vários escritores e filósofos de todo o mundo escrevem sobre o que veem das suas janelas durante o período de isolamento motivado pela pandemia da Covid-19. Como sinal de proximidade cultural em tempos de distância política e social, artigos desta coleção são publicados também noutros jornais internacionais, como o Corriere della Sera (Itália), o Politiken (Dinamarca), o Observador (Portugal) e o Die Presse (Áustria).

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